domingo, 30 de junho de 2019

O pai da criança (Conto), de Ladislau Patrício


O pai da criança
(Canto carnavalesco)
Este padre Borregana, cônego da Sé, tem uma história.
Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.
Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande queda para aquele mister. Compleição débil, espírito supersticioso e timorato, era ele quem acendia as velas do altar-mor nos dias de missa cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos enterros; quem levava a caldeirinha e o hissope entoando o Bendito com o Senhor; quem dizia ora pro nobis atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas dos ataques hemorroidários do Sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...
— Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a justificá-lo; ninguém se faz...
E não.
Velhos condiscípulos dele no liceu e depois no seminário, ainda hoje diziam que o padre Borregana fora a mais decidida vocação que tinham conhecido para o sacerdócio — para a castidade sobretudo, — o que aos seus olhos de pecadores inconfessáveis o tornara particularmente famoso, votado sem esforço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva... 
Quando, — já depois de ordenado — desceu o estribo do comboio na estação do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante, como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear confuso da multidão que se acotovelava a sair da gare.
— Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...
Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dele um sujeito alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito largo para o receber. Padre Borregana trepidou.
— Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!
O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto, aquele ar de pessoa importante e abastada!...
— Tu! Pois tu!... — murmurou o padre.
E abraçaram-se enternecidamente.
Enquanto iam saindo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido, tinha trepado, formara-se... arranjara um casamento rico e uma boa colocação...
— Sim?!
— É verdade.
Padre Borregana estacou, admirado.
— Mas ouve cá, disse, como demônio conseguiste tudo isso? Tu, demais a mais, — desculpa que te diga — mas nem eras dos mais atilados...
O outro sorriu, superiormente:
— Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguém neste mundo: à custa de muito pontapé!...
E separaram-se. 
Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, cismático, no encalço do moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro:
— Psst!... Borregana!
Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a sua presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria. Repetiu-se, mutatis mutandis, a mesma cena: também este trepara, também este vencera, também tinha uma linda posição...
— É boa! E tudo isso... — balbuciou.
— À custa de muito pontapé!
— !! 
Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava. Desta vez o velho amigo era um ministro — e ministro da Justiça! — que lhe abriu os braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os outros lhe confessou que tinha subido, trepado — á custa de muito pontapé!... 
Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo depois da missa, chamando de parte o sacristão, leal companheiro e confidente, segredou-lhe:
— Cristóvão! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...
O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas, muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou, comovido e modesto:
— Um serviço? Oh! Sr. prior!... Queira vossa reverendíssima ordenar... Cá por mim só se não puder...
— Um grande serviço, Cristóvão, um grande serviço...
Botou uma olhadela à igreja, outra ao São Jerônimo do altar, outra a bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada, revirou-lhe o nédio cesso, exclamando:
— Ferras-me aí um pontapé!...
— Quem, eu?
— Já disse, Cristóvão: um pontapé.
O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade, encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...
— Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gozo — isso não é nada!
— Ó Sr. prior, mas eu... — tartamudeou o Cristóvão, condoído.
E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:
— Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristóvão!
— Ele é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e desprezando escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e gemer:
— Ui!
— Ah, já?... — e atirou-lhe segundo.
Nisto um matraquear de tamancos no lajedo da igreja.
— Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dores, estorcendo-se.
— É para o Sr. prior, esta carta...
— Para mim?!
Era um telegrama.
O prior precipitou-se, rasgou todo trêmulo a obreia do sobrescrito: "Por ordem de São excelência..." (turvou-se-lhe a vista)... "nomeado cônego."
Caiu sobre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope o prior estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o milagre... Porque fora um milagre! Tudo quis ver e visitar o Sr. padre Borregana, feito cônego — a pontapé. Não recebia? Porquê?... Talvez dorido, coitadinho, talvez de ferido no pousadouro com a brutalidade da operação. E invectivava-se o Cristóvão — bruto! verdugo! — que se desculpava, dizendo:
— Pois sim, pois sim, mas se não fosse eu...
Tinha razão.
A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de arnica, de unto de cobra e semicúpios de malvas, para aliviar as dores e a tristeza do prior, cujos nadegueiros — já agora uns nadegueiros de cônego — intumesciam e grelavam...
Dizia-lhe a criada:
— Parece que ficou a modos triste, Sr. cônego?...
— E fiquei, pudera, se não tenho de quê, cachopa! — queixava-se.
— De quê?! Homessa! Depois duma nova assim!...
— Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois pontapés  arranjei a ser cônego, mas se aquele alarve se não demora e me prega logo uma dúzia deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!... Se não hei de estar aborrecido... 
O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a atestar o dedo da Providência na ferradura do Cristóvão. A religião, vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonizáveis...
Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu— um doido! — zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o padre Borregana tinha tido um cônego pelo traseiro, e que o pai da criança era o sacristão!

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Fonte do texto: Project Gutenberg
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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