domingo, 30 de junho de 2019

O crime... (Conto), de Ladislau Patrício


O crime...
C'est ainsi qu'une faute est irreparable.
J. Payot
Helena fitou-o então nos olhos e inquiriu sem motivo:
— Estás zangado?
— Não. Por quê?
Insensivelmente voltaram ainda a falar do crime. Ele manifestou-se contra aquele processo bárbaro, violento, de fazer justiça. Todo o homem que um dia descobre que sua mulher o atraiçoa, tem um só caminho racional a seguir: abandoná-la.
Helena calou-se.
— Depois, tudo se sabe, tudo, filha!... murmurou ele, à laia de vaticínio. — De que serve andar a encobrir, um dia e outro, semanas e meses inteiros... se tudo se vem a saber afinal?
Fitou-a demoradamente nos olhos, como a querer avaliar o efeito das suas palavras. E por que a fitava ele assim? Por que começava a sentir esse desejo forte, essa terrível necessidade de a observar, sondando os mínimos recantos da sua alma, onde pela primeira vez, desde que a conhecia, notava misteriosos e traiçoeiros abismos?...
Chamou-a brandamente, disse-lhe:
— Helena, que me ocultas tu? Tenho a impressão de que se passou aqui alguma coisa, na minha ausência, que desejas que eu ignore... Ah! não negues... leio-to nos olhos!
Ela baixou instintivamente a cabeça.
— Alguma coisa?!... — disse por fim, em voz pouco firme, esforçando-se por manifestar estranheza e não conseguindo senão comprometer-se ainda mais, aumentando aquelas desconfianças.
Ele tremia todo como varas verdes. Lançou mão da coragem que lhe restava, para lhe dizer com serenidade:
— Vamos, tu não me tens na conta dum imbecil, não é verdade? Deves ter presumido portanto que os fatos aqui ocorridos, desde que cheguei, tenham despertado o meu reparo.
— Os fatos?! Quais fatos?! — dissimulou.
— Tudo; o que se está passando...
— Mas tu estás louco!... Eu é que devo estranhar-te. Nunca te vi assim desconfiado, acredita.
— Desconfiado! Mas não vês os teus modos, os teus gestos, as tuas palavras... o teu rosto! Anda cá...
Pegou-lhe numa das mãos e diante do espelho da sala:
— Vê aí o teu rosto!
Ela esquivou-se, revoltada:
— Deixa-me! É demais!
— Não te deixo, gritou exaltado, já sem se poder conter. — Vais-me dizer tudo, tudo. Nada de rodeios, de frases, apenas e cruamente a verdade: o que houve?
— O que houve!? — exclamou aterrada.
— Sim, o que houve!
— Deixa-me! deixa-me!
Não pode mais. Agarrou-lhe nos pulsos, arrastou-a para defronte da luz, intimou-a em voz alta, imperativa, onde havia inflexões de súplica e latejava ao mesmo tempo uma angústia horrível:
— Fala! anda... diz-me tudo!
Os seus olhos faiscavam, tinham relâmpagos de cólera.
— Larga-me! — implorou Helena. — Não olhes para mim dessa maneira... Tenho medo!
— E por que tens tu medo de mim?!
Aquilo já não era uma altercação, uma cena de ciúmes desagradável, uma simples desavença entre casados: era uma luta feroz, encarniçada, em que cada qual porfiava por levar o outro de vencida. Apertou-lhe as mãos com energia, de forma a fazê-la gritar:
— Não, Alberto, não! Tu não estás em ti, deixa-me! Olha que me magoas, deixa-me!
Mal a ouvia já. Os seus protestos, os seus rogos, as suas lágrimas, o desespero em que se debatia, mais o enfureciam: quase lhe davam provas do que se passara!... Mas o que se passara?
E baixinho, ao ouvido, como quem insinua uma calúnia, disse-lhe tudo o que a sua mórbida fantasia arquitetura a esse respeito, desde que a suspeita entrara no seu cérebro e aí gerara a mais tremenda acusação que podia pesar sobre a honra duma mulher.
Ergueu-se alucinada. Tinha no rosto o aspecto apavorado, trágico, de pessoa que se vê agarrada pelas costas numa encruzilhada deserta. Deu um grito, abriu os braços e caiu num sofá a estrebuchar.
Alberto — nessa perfeita lassitude de ânimo que sucede sempre a uma grande catástrofe, — pôs-se a presenciar tudo, naquele momento, com uma tranquilidade estupenda! Sentia-se por assim dizer mergulhado num grande banho morno de indiferença e de tédio...
Helena, debelada a crise inicial, com a cabeça entre as mãos, chorava, arrepelava-se. E o marido sorria àquela dor como se estivesse gozando as delícias dum drama de sensação em que sua mulher fosse uma sublime artista e ele próprio, por desdobramento, um ator de mérito, representando o papel de marido ciumento com a mais pura e meticulosa arte!
No fundo não aplaudia a peça, mas achava que os artistas iam bem...
Deu uns passos ao acaso e, maquinalmente, dirigiu-se para o quarto. Voltou, logo em seguida: tinha envergado à pressa o sobretudo e trazia ainda na mão o chapéu e a bengala. Parecia-lhe ter ouvido gritar: "Bravo! Bravo!"; que uma multidão ruidosa de espectadores se levantava para sair da sala. Ouvia mesmo os comentários da ópera — porque era afinal uma ópera! — pessoas que passavam, suas conhecidas, que ele cumprimentava e lhe diziam:
— "Gostou?
— "Muito!"
Helena atravessou-se-lhe no caminho:
— Onde vais? Perdoa! Agora que te disse tudo por que é que me não perdoas?...
Só então deu acordo de si. Um assomo atávico de ferocidade o dominou. Viu tudo negro! Agarrou Helena pelo pescoço e chegou a apertar.
— Mata-me! mata-me! — gritou ela.
Largou-a e fugiu. Desceu as escadas a correr. Helena tombara desmaiada sobre o soalho. Quando se viu no pátio parou. Abriu a porta devagarinho e uma lufada do ar frio da noite entrou, e fez-lhe bem. Esteve uns instantes a respirar, a arquejar, até que lhe pareceu ouvir passos. Desceu então o último degrau e começou a caminhar ao longo da rua — sob a inclemência do vento e da chuva que caía.

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Fonte do texto: Project Gutenberg
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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