quinta-feira, 27 de junho de 2019

Resposta às censuras de Vilhena Saldanha (Ensaio), por Alexandre Herculano



Resposta às censuras de Vilhena Saldanha
Ajuda, 8 de abril de 1846.
Ilustríssimo senhor redator da Revista Universal. — São bem poucas as publicações periódicas que tenho ocasião de ver: entre estas poucas uma é a que vossa senhoria tão dignamente redige. Recebendo hoje o num. 41, nele encontro um artigo que diz respeito a um livro recentemente publicado por mim, o primeiro volume da História de Portugal. Na breve advertência que precede aquele trabalho deixei estampadas as minhas previsões sobre a resistência que em muitos espíritos haviam de encontrar as opiniões que nele segui. Era naturalíssima essa resistência, e eu seria demasiado imprudente se esperasse que não aparecessem adversários para as combater; mas a tenção que desde logo formei foi a de não replicar, ao menos por agora. Lembrava-me (se é lícito buscar para as coisas pequenas grandes exemplos) a sorte da História crítica de Espanha, de Masdeu, que não passou dos fins do século XI, porque o ilustre historiador consumiu os últimos anos da vida em satisfazer cabalmente aos reparos e críticas que de toda a parte choviam contra aquele grandioso monumento da literatura castelhana. O artigo do seu jornal me fez, todavia, refletir de novo no concebido propósito. Ocorreu-me o receio (e havia motivos para me ocorrer) de que o silêncio se me lançasse à conta de uma orgulhosa e ridícula crença na própria impecabilidade literária, e de que os autores desses escritos se persuadissem de que eu menoscabava os seus louváveis esforços em refutarem aquilo que lhes parecera um erro, e que talvez o é. Longe de mim tal pensamento. Não pretendi nem pretendo escrever a melhor história de Portugal possível; mas tenho a consciência de que o meu trabalho é o mais sincero e despreocupado que neste gênero se fez ainda entre nós; tenho a consciência de haver buscado a verdade com todo o empenho que em mim cabia. Este louvor, quer mo concedam, quer mo neguem, sei que o mereço. Quanto a erros, fácil é que neles caísse. Os que impugnam lealmente as doutrinas, que julgam ser inexatas, na arena onde essas matérias se tratam e perante o supremo juiz, o público, esses merecem respeito e não desprezo. O desprezo pertence aos bufarinheiros literários, aos críticos de soaleiro e encruzilhada, que discreteiam nas tertúlias de ignorantes, porque têm medo de confiar à imprensa aquilo que poderia servir-lhes de corpo de delito e de instrumento de castigo. O desprezo é para aqueles que, tendo vivido sempre duma reputação imerecida, só sabem explicar a obra da inteligência e do amor da verdade por motivos abjetos e torpes. Pertence-lhes o desprezo: não o nego; mas ainda assim não posso dar-lhes o que é seu. Proíbe-mo o coração. Destes desgraçados tenho dó; dó como Dante o tinha das sombras empegadas no Malebolge. Sinto unicamente que a sinceridade me não consinta dizer-lhes com o fero gibelino:
Giá t'ho veduto coi capelli asciuti.
A razão por que hei de abster-me de responder por enquanto aos que me combatem ou combaterem, é porque, fazendo-o, satisfaria o meu amor próprio; não o fazendo, cumpro o meu dever. Anunciei a publicação anual de um volume da História Portuguesa: é uma obrigação que contraí para com muitos centenares de maus cidadãos, como eu, que não se escandalizam da falta de patriotismo que reina no mal-aventurado livro. Se não quiser faltar ao empenho que tomei, cumpre-me não consumir o tempo, que tão rápido foge, em debater as objeções da crítica. Hei de estudar todas as que se estribarem em argumentos e provas serias; hei de aproveitá-las quando me convencer de que sou eu que não tenho razão. Mas pretenderem que abandone a prossecução do trabalho principal para voltar atrás, e discutir de novo vinte vezes aquilo que só escrevi depois de larga discussão comigo mesmo, seria pretenderem o impossível. Se nunca se me oferecer ensejo para dissolver as dúvidas que se me opuserem, ou se as não apreciar bem, ou se, enfim, elas forem concludentes, outros virão depois de mim, que por esses marcos levantados no terreno da história possam evitar os fojos em que eu tiver caído. Quando mais nenhum serviço houvera feito às letras Pátrias, ao menos deve-se-me ter sido a causa de que mãos mais robustas que as minhas levantem esses padrões à ciência, e contribuam assim para a glória literária do nosso país.
Apesar, porém, da necessidade que tenho de guardar silêncio em defesa própria, não posso acabar comigo que cerre aqui o discurso. Há tanta cortesia no artigo do seu colaborador, que seria talvez pouco decente o recusar comparecer no tribunal aonde me cita. Há juízes por quem o réu condenado conserva respeito: há outros que ele detesta ainda depois de absolvido. Naqueles a nobreza do ânimo e a honestidade de proceder explicam o fenômeno; nestes explicam-no a rudeza do entendimento e a brutalidade ou injustiça nas formas. Pertence ao número dos primeiros o nobre censor a quem me refiro; por isso assentar-me-ei por algum tempo no banco dos criminosos para lhe responder.
Duas ponderações graves há no artigo, a que aludo, contra o meu livro: ponderações que a serem exatas importariam a acusação merecida de haver eu defraudado a nação da sua árvore genealógica, e de um dos mais importantes feitos de armas — a conquista da cidade que veio a ser a capital da monarquia. Culpa da vontade ou culpa da inteligência; fosse o que fosse, o livro era condenável. Pus a doutrina, e aceito-a em todo o rigor para mim: mas o que não aceito, sem que o digno autor do artigo do seu jornal as reconsidere, são as provas que apresentou contra mim.
Estabeleci por três modos a não identidade dos lusitanos com os portugueses: não identidade de território; não identidade de ração; não identidade de língua. O autor do artigo sentiu como eu que, na falta complexa destes três principais caracteres dos que distinguem a individualidade das grandes Famílias humanas chamadas nações, a sua unidade na sucessão dos tempos desaparecia. Tratou, portanto, de provar-me que não era essa unidade uma simples preocupação sem fundamento histórico. Procurarei examinar os seus argumentos com a brevidade e clareza possíveis.
Diz ele que, sendo Estrabão o que mais estreitou os limites da Lusitânia, a dilatou entre o Tejo e o Douro, isto, é pela Beira e Estremadura; que, formando estas duas províncias o centro e base principal do moderno Portugal, não podem os portugueses deixar de se ter na conta de descendentes dos lusitanos, pois os acessórios são sempre absorvidos pelo principal; e que a Estremadura espanhola não pode chamar-se Lusitânia por ficar alguma porção desta fora dos limites de Portugal.
Eis aqui o primeiro argumento a favor do nosso lusitanismo. Mas o que quis o nobre crítico dizer chamando à Beira e Estremadura base de Portugal? Será em consequência de serem hoje as duas províncias centrais de Portugal no continente da Europa? Não posso alcançar como esta circunstância delas estarem no meio deva fazer com que todos os portugueses se considerem como representantes de uma tribo ou agregado de tribos que aí estanciaram, em parte, há dois ou três mil anos. Permita-me ele lembrar-lhe que, por esse título, outros com maior rigor geográfico exigiriam que fôssemos entroncar a nossa história com as dos pretos da África; porque dos territórios que pela lei política do país constituem atualmente o reino do Portugal e Algarves, é de certo modo a África o território mais central da monarquia. A verdade é que o estar tal ou tal província atualmente no centro, ao sul, ou ao norte, nada significa nesta questão. O que importaria realmente seria saber se a Lusitânia, antes dos romanos, ocupava a maior porção do território, em que se constituiu depois definitivamente a nação portuguesa no século XIII, e se aí foi o núcleo da monarquia, agregando-se depois a essa província as outras ao sul e ao norte. É o que o ilustre autor do artigo parece pretender chamando à Beira e Estremadura principal parte de Portugal, e às duas províncias ao norte do Douro e às duas ao sul do Tejo acessórios. A geografia e a história conspiram, porém, contra ele neste ponto. Tira à Estremadura o bem medido terço dela que demora ao sudoeste do Tejo, reúna com a Beira os dois que ficam, e diga-me depois se o Minho, Trás-os-Montes, Alentejo, terço da Estremadura, e o Algarve, oferecem uma superfície menor do que a Beira e a Estremadura ao noroeste do Tejo. Repugna não menos a história à denominação de acessório dada às províncias de Trás-os-Montes e Minho. Durante a reação cristã da monarquia asturiana-leonesa contra os sarracenos, a Beira é que foi acessório de Trás-os-Montes e Minho; e existindo já Portugal como reino independente, a Estremadura é que foi acessório das três províncias ao norte dela. Se o fato da acessão serve para alguma coisa na matéria, nós temos de entroncar-nos com os antigos calaios, mais do que com os lusitanos.
Não cabe num artigo de jornal mostrar com a autoridade do maior e mais antigo historiador da conquista romana na Espanha, Políbio, citado (de um dos seus livros perdidos) por Estrabão, que uma tribo de turdetanos ou túrdulos se estabelecera na parte ocidental da Beira, ficando separada dos caláicos pelo Douro; — que, assim, nem sequer pelo lado do oceano os limites de Portugal são os mesmos dos lusitanos anterromanos; — que ainda quando os vetões não fossem uma tribo lusitana, o que é muito duvidoso, nem por isso a Lusitânia deixaria de entrar pela Estremadura espanhola; — e que, por tanto, não concordando por nenhum lado circunscrição territorial daquelas tribos com a do nosso país, não há identidade de Pátria entre a raça antiga e o povo moderno, tanto mais que é certo ser o território dos lusitani, antes das divisões romanas, a menor porção do Portugal constituído definitivamente, com a conquista da província sarracena de Chenquir, no meado do século XIII.
O nobre autor do artigo crítico ao meu livro, parecendo acusar-me a mim de confundir as divisões administrativas da Espanha debaixo do domínio romano com a divisão anterior dos povos indígenas, é quem na realidade confunde as duas espécies para me provar que o Alentejo era território dos lusitanos, fazendo os sucessos do tempo de Viriato anteriores ao domínio romano. Pois este domínio não estava estabelecido desde o tempo de Públio Cornélio Scipião? Não foi a guerra do chefe lusitano um verdadeiro levantamento? E por onde há de provar-me que no tempo dos pretores o território do Alentejo não foi junto à Lusitânia própria só administrativamente, e que era povoado de lusitano? Não se opõe a semelhante opinião o texto formal do mais antigo e particularizador dos geógrafos que descreveram a Espanha, Estrabão, o qual nos diz: "Tago transmisso (lusitani) finitimos infestarunt"?
Eu não disse, como o meu crítico assevera, que toda a Andaluzia e Estremadura espanhola se podiam arrogar o título de lusitanas: o que disse foi que, se o haverem os lusitanos estanciado numa parte do nosso território nos desse o direito de os considerar como antepassados, esse direito pertenceria também à Estremadura, à Galiza, e à Andaluzia. A diferença infinita das duas proposições é óbvia. Não creio a segunda mui difícil de demonstrar, tanto mais sendo certo que a parte lusitana é a que constitui a menor porção do nosso país.
Tratando da prova de não identidade deduzida da transformação das raças, o autor do artigo por paridade de circunstâncias estende as conclusões, que daí tirei para provar a minha doutrina, à Inglaterra e à França. Essa objeção nenhuma força me faz. Creio tanto que por este lado os ingleses e os franceses representem os kimhris e os gaels, como creio que nós representamos os lusitanos. A história incertíssima desses povos só pertence à França e à Inglaterra por identidade de território. É uma consolação para os genealógicos daquelas duas nações que não estou resolvido a invejar-lhes.
Diz o meu adversário, a quem não posso deixar de atribuir o epíteto de pródigo pelos demasiados elogios com que adoça as suas repreensões, que, apesar de todas as conquistas em qualquer país, a raça indígena sempre fica sendo muito mais numerosa. Não sei se assim devemos figurar-nos as associações ou substituições de raças, principalmente tratando-se das migrações asiáticas que povoaram o sul da Europa. Essas tribos célticas, sumérias, indo-germânicas, ou o que quer que fossem, deviam ser mui pouco numerosas pelas razões que ponderei no meu livro. Logo que começou a ocupação da Península pelas nações civilizadas, fenícios, cartagineses, e romanos, os homens capazes de combater (e entre os selvagens são-no quase todos) principiaram a sair da Espanha pelos motivos que também lá se apontaram, ao passo que as colônias dessas nações se estabeleciam largamente neste solo. Quero conceder-lhe que a vinda de gregos, fenícios e cartagineses não transformou senão por um terço o sangue indígena; que também a colonização imensa e sistemática dos romanos não o alterou senão por outro terço; e que a chamada especialmente invasão dos bárbaros só por outro terço o corrompeu. Chega depois a conquista sarracena. Veem à Península bereberés, árabes, negros; quantas castas de gente na África e em grande parte da Ásia seguiam o islamismo; estabelecem-se; repartem as terras; fundam ou povoam cidades: os moçárabes, ou descendentes, dos romano-godos, ficam como sumidos no meio desta aluvião de novos habitadores de ambos os sexos, de todas as condições e idades. A reação começa nas Astúrias; a guerra dilata-se; a assolação e a morte reinam por séculos; os francos veem dalém dos pireneus ajudar frequentes vezes os seus correligionários; a Berbéria é um manancial perene de novos colonos africanos; os chefes sarracenos usam da antiga política romana, e levam milhares e milhares de moçárabes para os empregarem nas suas empresas além do estreito: e a Espanha continua a ser céltica! Na segunda metade do século XII achamos Afonso I e Sancho I povoando com colônias estrangeiras os desertos da Estremadura e do Alentejo; desertos porque a guerra tinha sido viva por estes distritos durante trinta ou quarenta anos; e todavia, apesar de quinze ou vinte séculos de invasões e guerras, talvez ainda mais atrozes, a raça lusitana predominava nos rareados habitantes de Portugal! Talvez. Mas a mim figura-se-me isso como uma ideia absurda. Repugna-me. Será curteza de inteligência.
Quanto à língua não contesta o meu contendor que a origem da nossa seja a romana: o que afirma é que a mudança essencial de língua não prova a mudança essencial de raça. Uma coisa que desejava me explicasse era porque naquelas partes da Espanha, da França, e da Inglaterra, onde pela história sabemos que as conquistas e colonizações sucessivas de estranhos não puderam no todo ou na maior penetrar ou fixar-se, os dialetos que ainda aí se falam hoje discordam absolutamente das línguas gerais destes países e se derivam das primitivas. Trato com os conquistadores mais civilizados tiveram-no sempre os welshes, os bretões, os biscainhos: a diferença esteve só em não se estabelecerem fixamente entre eles os novos senhores do seu país. Uma coisa me há de conceder o nobre crítico, e é que os lusitanos, tão curiosos de não deixarem perder a sua casta no meio de tantas revoluções e da entrada de tantas gentes estranhas por vinte e cinco ou trinta séculos, andaram um pouco descuidados neste negócio da língua.
Pelo que respeita a dialetos, e a gramaticas, e a artes, e a medalhas anteriores ao domínio romano, falta provar que isso tudo é vestígio, não dos fenícios, gregos e cartagineses, que se haviam estabelecido na Península antes dos romanos, mas sim das tribos célticas. Quanto às medalhas de letras desconhecidas, permita-me o atilado censor que, com Peres Baier e Masdeu, antes as tenha por fenícias, púnicas, gregas, e ainda latinas, do que por célticas.
Não chamei selvagens às tribos da Espanha antes da civilização romana: chamo-lho antes de toda a civilização, quer fenícia, quer grega, quer cartaginesa, quer romana. Não está mais na minha mão: cada vez que falo num lusitano, num caláico, num pelendão, num arevaco, dos primitivos e puros, figura-se-me logo um aimoré, um tapuia, um tupinambá, sarapintado e coberto de penas, de quem juro que nenhum dos atuais brasileiros quer ser descendente; e o mais é que lhe acho alguma razão, apesar de que têm decorrido pouco mais de três séculos desde o tempo em que no Brasil só havia dessa gente, e desde que aí se têm estabelecido colônias, não de cinco povos civilizados e de seis ou sete bárbaros, mas só de portugueses e até certo ponto de holandeses.
Nunca pensei que os lusitanos me fizessem tornar a escrever tanto na minha vida! Vamos a assuntos mais sérios.
A segunda para da censura envolve uma questão de crítica histórica. Na opinião do nobre censor a minha não foi das melhores quando narrei a tomada de Lisboa. Vejamos porque:
1º - As duas fontes a que quase só podemos recorrer sobre este fato são as relações dos dois testemunhas oculares, Arnulfo e Dodéquino: ora estas foram escritas por estrangeiros, e como tais ávidos de glória para si e para os seus: logo a sua narrativa é suspeita. Os portugueses contentaram-se com a tradição.
2º - Não é provável que os portugueses nada fizessem senão subirem à torre de madeira para de lá descerem aterrados pelos tiros dos cercados.
3º - O combate de Sacavém não se segue que não existisse por se não mencionar nas ditas narrativas. Entre Santarém e Lisboa havia povoação moura. Que coisa mais natural do que ser Sacavém um ponto fortificado, que servisse de atalaia a Lisboa? O combate nesse lugar é não só provável, mas quase necessário.
4º -  Um autor não pode desprezar de todo as tradições para dar inteira fé aos documentos, quando estes não têm todos os caracteres que o mereçam, senão em parte.
Eis as objeções críticas à narrativa da tomada de Lisboa. Não alterei senão a ordem delas, porque me facilita o resumir-me na resposta.
1º - Não é exato que quase só tenhamos as relações de Arnulfo e Dodéquino para a tomada de Lisboa. Além de muitos outros historiadores coevos estrangeiros, que trataram do sucesso mais ou menos largamente, temos os portugueses: quatro que o mencionam em poucas palavras, e um, o autor do Indiculum de São Vicente, que o refere com maior extensão ainda que Dodéquino. Servi-me de todos para apurar uma ou outra circunstância. Do Indiculum, que é português, tirei tudo o que ali se encontrava. E já se vê que é inexato o que o ilustre censor diz sobre o ficar entre nós só a tradição. Cinco escritores para o mesmo acontecimento, em tempos nos quais se escrevia pouquíssimo, não me parecem provar que os nossos avós se mostrassem inclinados a entregar à tradição oral (a que o censor se refere segundo creio) a memória da tomada de Lisboa. Também não me parece que tenha razão em afirmar que a narrativa de estrangeiros, porque eram estrangeiros (como tais), fica suspeita. Salvo se o censor me demonstrar que eles naquela época eram mais mentirosos que os portugueses. Faz-me isto lembrar involuntariamente de que em Paris um francês é para dois ingleses, em Londres um inglês para dois franceses; em Lisboa um português para trinta castelhanos, e em Madrid um castelhano para trezentos portugueses. São opiniões. Eu estou tão persuadido de que, em regra, um homem é para outro, como o estou de que tanto pode falar verdade ou mentir um português como um mouro, um judeu, ou um chim.
É natural, não o nego, que pertencendo Arnulfo e Dodéquino ao corpo dos cruzados se mostrassem mais atentos a narrar as façanhas dos seus que as dos portugueses; mas que queria o nobre autor da censura que eu fizesse? Que inventasse outras para atribuir a Afonso Henriques e aos seus guerreiros? Decerto não. O que me cumpria era examinar se a narrativa dos dois estrangeiros continha alguma coisa improvável para a rejeitar. Aponte-me, porém, o que há improvável no que aproveitei dessa narrativa. É omissa a respeito dos portugueses? Mas estes podiam fazer maravilhas sem que os estrangeiros deixassem de praticar o que deles contam os dois cruzados. Do que eu não tenho culpa é de que não chegasse até nós a memória de tais maravilhas.
Peço ao douto censor que observe bem a relação do Indiculum. O frade português (ao menos tenho-o por tal enquanto se não provar o contrário) é o que faz os maiores encarecimentos sobre o valor dos cruzados. Dele é o período que transcrevi em nota a página 377. Em toda a carta de Arnulfo nada se lê que iguale esse período. Por que não diz o frade outro tanto dos seus? Quem o souber que o explique.
Mais: Afonso I mandou durante o cerco construir dois cemitérios — o dos francos e o dos ingleses — um ao oriente, outro ao ocidente, para sepultar os mártires de Cristo que morriam pelejando. Por que não mando construir outro ao norte para os portugueses? Parece que morriam menos, e os que morriam se acomodavam com os hóspedes. O fato dos dois cemitérios não é de Arnulfo; é do Indiculum.
2º - O que é verdade é que Afonso I era um homem grande; grande capitão e grande Político quanto um soldado rude o podia ser. Sem esses dotes não se funda uma monarquia, sobretudo no meio das dificuldades que ele superou. O mais natural é que poupasse os seus veteranos para outras ocasiões arriscadas, que não lhe faltariam, nem faltaram, e que na tomada de Lisboa se aproveitasse habilmente do caráter cobiçoso, violento e audaz dos aliados para poupar quanto fosse possível os súditos. Quem anda lido nos cronistas daquela época sabe que os tais mártires de Cristo em pressentindo avultado despojo atrás de qualquer muralha eram capazes de a desfazer com os dentes; e Afonso I lhes cedera o saco da cidade. Vertendo o sangue para conquistar esta, trocavam-no por ouro; perecendo, conquistavam o céu. Naquele tempo associavam-se bem o entusiasmo religioso e a cobiça.
A história de vacilarem os portugueses no eirado da torre de madeira, nem é improvável, nem os desonra. Eles estavam habituados a combates campais e não a assédios regulares de grandes praças. O testemunho de escritor coevo, Ibn-Sahib, nos assegura que o sistema ordinário do rei de Portugal para se apoderar dos castelos muçulmanos era o dos cometimentos noturnos e inesperados, não o dos sítios regulares. Acresce, como consolação, que esta circunstância mostra terem entrado em combate os portugueses no dia do ataque decisivo.
3º - Supondo que o recontro de Sacavém fosse provável, não era isso motivo para mais do que para o narrar, se o tivesse encontrado em algum escritor, não digo coevo, mas ao menos do século XIII ou ainda do princípio do XIV; mas onde aparece pela primeira vez mencionado tal acontecimento? Num documento do século XVI. O enfeixador de patranhas Duarte Galvão não apanhou esta. É pena que o tal documento, em cuja feitura interveio o grande velhaco de D. Cristóvão de Moura, não fosse conhecido de Galvão nem de Acenheiro, aquele famoso historiador que nos conta os espantosos casos dos pés de malvas, de que se fizeram trancas de portas, e do ouriço que comeu o pintainho dentro da casca do ovo. Mas aos olhos de uma pessoa de juízo, como reputo o meu censor, bastariam para desacreditar a tal tradição, que esteve escondida quatro séculos sem que dela houvesse a menor notícia, as circunstâncias absurdas de que vem lardeada, como entrarem no combate de Sacavém mouros de Tomar, isto é, de um território deserto (Bula de Urbano III aos templários, no Arquivo Nacional, gav. 7 mac. 9) doado em 1159 por Afonso I àquela ordem que aí fundou Tomar em 1160 (Inscrição, no Elucidário, t. 2 p. 359), e a outra circunstância de andar, antes da tomada de Lisboa, Afonso Henriques passeando em Cintra, o ponto mais forte e importante que os sarracenos possuíam no distrito de Belata, salvo Santarém e Lisboa, segundo o testemunho do contemporâneo Edrisi, e cuja conquista, conforme a cronologia da crônica dos Godos e dos crônicones conimbricense e lamecense, foi posterior ao menos de alguns dias à de Lisboa.
No que me parece que o meu erudito impugnador se deixou levar demasiado da sua imaginação, é em supor quase necessário o combate de Sacavém, porque era provável que aí houvesse um castelo ou lugar forte. O seu raciocínio é este:
Entre Santarém e Lisboa havia gente moura:
Atqui: É provável que entre Lisboa e os cristãos houvesse um ponto fortificado, que servisse de atalaia a esta cidade, e Sacavém era o ponto mais apto para isso, porque tolhia o passo aos cristãos.
Ergo: Vieram mouros de Tomar socorrer Lisboa; Afonso I, tendo passado por onde não podia passar, mandou gente atrás para os repelir; e o combate foi quase por força em Sacavém.
O monstruoso e desconexo deste raciocínio é óbvio. Quanto ao passar Afonso Henriques por onde não podia passar, dir-se-á que ele fez um quarto de conversação à direita e marchou por Loures sobre Lisboa. Isso, na suposição de estar fortificada a passagem de Sacavém, ou de não haver aí passagem (o que é mais natural), ocorre facilmente; mas é preciso confessar que os engenheiros sarracenos, que empregaram braços e dinheiro em fazer uma obra que não defendia nada, nem servia para nada, mereciam pingados e aspados, segundo a forma expedita da justiça muçulmana, para os seus colegas tomarem tento em não malbaratarem assim os morabitinos do Estado em destemperos de taipa e pedregulho.
4º - Vamos à última observação, que é a primeira na ordem em que as fez o meu respeitável impugnador. Quer ele que eu me ativesse às tradições, não dando inteira fé aos documentos, quando estes não a merecem plenamente. Já fica provado que a sua regra não serve para o caso presente. Mas, ainda em geral, ela me parece falsíssima por falta de distinção. Que não se dê fé inteira a um documento que não a merece em todas as suas partes, é uma destas verdades como — o sol dá luz — que não vale a pena de se escrever; mas o que eu não vejo é que de ser insuficiente ou, até, nula a autoridade de um documento ou monumento coevo ou quase coevo se siga que a tradição fica forte e segura. Se ela for absurda ou infundada, continua a sê-lo, valha ou não valha o documento. Parece-me que o simples senso comum basta para assim se crer.
É preciso, todavia, convirmos sobre a ideia que havemos de associar à palavra tradição. Se entendemos a tradição oral, que só aparece, dizendo-se muito, muito, muito antiga, três ou quatro séculos depois do fato a que se refere, sem que dela se encontre a menor sombra nos monumentos coevos ou quase coevos em que naturalmente se devia mencionar, confesso ao meu douto impugnador que o único sentimento que essa tradição produz em mim é uma grande vontade de rir; porque já, pela experiência, prevejo que há de ser absurda. Um prolóquio certíssimo da nossa terra é que mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo. Tenho-o verificado tão frequentemente que cada vez estou mais Faraó, obdurado de coração, contra as tais tradições. Peço ao meu nobre censor, que me parece pessoa que estuda a história seriamente, que deixe aos poetas o gritar a favor da tradição oral. Eu já fui do ofício, e sei que eles têm razão. Os estudos superficiais pertencem-lhes por direito divino e humano. Se fossem empalidecer sobre os feixes mofentos de pergaminhos velhos que estão por esses arquivos, deixavam de ser poetas, porque matavam a imaginação, e eu declaro sinceramente que antes quisera que nunca houvesse história do que o inconveniente de perder o país um grande poeta. Portugal tem incomparável mais glória em haver possuído Camões que em ter tido Fr. Antônio Brandão e Antônio Caetano do Amaral. No que me parece que eles não são justos é em pretenderem que os historiadores, gente chã e humilde, sejam por força poetas. Nisso é que anda a implicação retórica demais.
Se por tradição o meu nobre adversário entende a escrita, subscrevo inteiramente ao seu voto. A tradição escrita é aquela de que se encontram vestígios nos monumentos ou nos documentos até a época em que viveram os homens que podiam presenciar o fato a que ela se refere, ou aqueles que da boca desses homens podiam ter ouvido a relação do mesmo fato. Esta tradição é segura, se aliás não há circunstâncias que a invalidem ou modifiquem. Semelhante tradição é a que a história pode aprovar; mais: é aquela que a igreja só admite para conjuntamente com a autoridade dos livros sagrados servir de prova histórica ao complexo das suas doutrinas. Esse ilustrado e respeitável sistema do catolicismo, tão injustamente caluniado pelas igrejas dissidentes, estava já expresso, muitos séculos antes de nascer a crítica profana, na regra contida na bela e profunda fórmula de Vicente de Lerins: Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus... creditum est.
Um ou dois anéis, que faltem lá no cabo dessa cadeia da tradição, bastam historicamente para tirar ao fato toda a certeza; porque muitas vezes as fábulas não esperam nenhuns duzentos anos para nascerem e se incrustarem no tronco da história. Não raro estas fábulas são devidas à ignorância e não à má fé. Uma passagem e, até, um nome mal interpretado podem dar-lhes motivo. O erro sobre a origem grega do conde D. Henrique, erro que grassou entre os antigos escritores espanhóis, proveio, como o meu censor sabe, de se interpretarem as palavras de Rodrigo de Toledo "ex partibus bisontinisdas partes de Constantinopla, em lugar de se traduzirem das partes de Besançon; mas o que talvez não lhe ocorra é que já Afonso X de Castela ignorava a verdadeira origem deste seu avoengo, que falecera ainda não havia século e meio quando ele começou a reinar. Efetivamente na Crônica General, escrita por ele ou debaixo dos seus olhos, diz-se que o conde D. Henrique era de tierra de Constantinopla (Cron. gener. fl. 300 v.), Mais: o erro do Nobiliário atribuído ao conde D. Pedro, erro adotado por outros escritores, de que D. Mafalda mulher de Afonso I era espanhola e filha do senhor de Molina, acha-se já num resumo de crônica dos nossos primeiros reis, lançado no princípio de um dos volumes das Inquirições de Afonso III, no Arquivo Nacional. Aí, por assim dizer, encontra-se a verdade em transformação flagrante para mentira. Mauriene, donde era D. Mafalda, pronunciava-se Moriana, palavra corrompida nessa espécie de crônica em Moliana. O autor dela já supunha que os condes de Haro eram os senhores de Moliana: os que se seguiram retificaram Moliana em Molina, e a fábula tomou definitivamente o lugar da história. Outras vezes, porém, conveniências políticas ou de diversa ordem faziam espalhar mentiras em épocas tão próximas àquelas a que se referem, e sobre fatos tão notáveis, que chega a parecer incrível como havia audácia para tanto. Tal é a história da aclamação em Ourique, mencionada num documento original de Palmela, do meado do século XIV. Há para a desmascarar mais alguma coisa do que as ponderações que fiz em a nota XIV do meu livro: é um documento do Arquivo Nacional anterior trinta ou quarenta anos apenas ao rolo de Palmela, e de que este é quase textualmente copiado, em que nenhum vestígio se acha da anedota da aclamação, donde fica mais fácil apurar a data da fábula, e o descobrir as causas por que foi engendrada. Mas isto para seu tempo, que a presente resposta já vai demasiado larga. Possa ela não impedir que o meu cortês adversário continue a examinar criticamente a História de Portugal, e a apontar aos historiadores futuros os escolhos em que a minha pobre barca tiver naufragado!

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ALEXANDRE HERCULANO
Escrito em 1846, e publicado em: Opúsculos, 1909.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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