domingo, 30 de junho de 2019

A Borboleta (Conto), de Francisca Júlia


 A Borboleta



Na talisca de um velho muro coberto de limo e vegetações bravas, estava oculto o casulo de uma lagarta.

Todos os que passavam por ali paravam a contemplar as ruínas do muro, o viço das plantas que cresciam em cima dele, colhiam às vezes alguma flor silvestre, vermelha ou azul, muito fresca de mocidade que, vicejando sobre a velhice das pedras, tinha o aspecto de um sorriso de alegria no rosto enrugado de um velho.


E ninguém descobria o pequeno casulo escuro, escondido numa fenda, ao abrigo das vistas do passeante e das violências do tempo.
Ele ali estava há muitos dias, imóvel, suspenso a uma folha seca, servindo de habitação à crisálida.
Uma manhã, enquanto as primeiras manchas de sol iam dourando a brancura das nuvens e os passarinhos cantavam nas ramas, o casulo rompeu-se. Pela abertura a borboleta enfiou a cabecinha, olhou em torno, com receio da luz, e escondeu-se de novo. Em seguida apareceu, estendeu as delgadas perninhas para fora do casulo, saiu, sacudiu as asas ainda entorpecidas de sono, respirou o ar puro, e voou.
Era uma grande borboleta de asas brancas, ornadas de traços azulados.
A princípio, como não estava habituada aos movimentos do voo, andou se batendo pelas paredes, embriagada de luz.
Voava de flor em flor, pousava de folha em folha, numa impaciência de correr, atravessar os ares e conhecer todas as dificuldades do voo.
Coitadinha! mal podia suster-se nas pernas!
Mas o sol, que já tinha aparecido de todo, e inundado o campo de luz, secou-lhe as asas.
Ela sentiu-se melhor; abriu as asas, tentou o voo e rompeu o ar com uma rapidez de seta: correu o campo inteiro em todos os sentidos, rodeou todos os arbustos, aspirou o perfume de todas as plantas e veio de novo, equilibrando-se no ar, em movimentos vagarosos, um pouco fatigada pelo esforço.
Pousou em cima do velho muro, e a todos que passavam provocava com seus movimentos ligeiros, muito vaidosa da sua beleza, abrindo e fechando as grandes asas como um leque de plumas, ou voava de novo a uma grande altura e ficava suspensa no ar, iluminada de sol.
E à tarde, quando o crepúsculo veio descendo, ela teve medo da noite, e andou tonta, voando na corrente das brisas, em procura da luz.



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Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019) 

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