domingo, 30 de junho de 2019

Sr. Anselmo (Conto), de Ladislau Patrício


Sr. Anselmo
(Perfil grotesco dum provinciano ilustre)
Nasci em 74— eu, Teotônio Mendes, de muito boa família.
Tenho, portanto, atualmente (1906) trinta e dois anos.
A minha vila fica entre serras, na vertente dum vale, e o calor ali aperta sempre muito.
Naquele verão sobretudo (eu não sei se os senhores estão bem lembrados) no verão a que se referem estes acontecimentos, mal se respirava. As fontes secaram; a vegetação, sequiosa, sufocava sob ardentes nuvens de poeira, e as pedras nos caminhos quase estalavam com o sol.
Horrível!
Há quatro meses que não chovia. Moviam-se preces ao Altíssimo, celebravam-se procissões, missas — ad petendam pluviam — mas do céu afogueado e seco... nem pinga!
Cumulus de trovoada, no horizonte longínquo, relampejavam em noites caladas, logo desaparecendo varridos dum bafo morno de canículas.
Dizia-se, farejando as alturas:
— Isto é que vai ser! isto é que vai ser!
Os dias sucediam-se no entanto ronceiros, bocejados, com um firmamento implacável, de bronze, e a aflição da terra calcinada e triste.
O termômetro de Anselmo continuava a marcar muitos graus. Este Anselmo, farmacêutico, grande influente político na localidade, era com efeito uma figura curiosa e típica. Inteligente, astuto, conhecido árbitro em questões de peso, dava as leis e orientava a mentalidade sertaneja da vilota.
Mesmo os mais orgulhosos e independentes, senhores do seu nariz, sofriam a sugestão infalível daquela poderosa vontade.
— Ali, na Turquia... — dizia por exemplo ele.
E tinha a gente a impressão de que a Turquia era ali mesmo, a dois passos, que podíamos lá chegar se quiséssemos, — a pé!
Anselmo todavia nunca viajara. Perdão! foi uma vez a Lisboa por três dias, e viu a Galvani no Coliseu.
— Que tal? perguntaram-lhe, quando voltou.
— Um rouxinol!
Já essa noite no clube, o fidalgo da Vela, homem na verdade muito entendido de música, recomendava:
— -É preciso ir a Lisboa... à Galvani. Diz o Anselmo que é um rouxinol.
Geradas nas bitesgas do seu cérebro e reveladas depois a um círculo de amigos no cantinho da farmácia, as suas ideias extravasavam cá por fora, caudalosas, engrossando, impondo-se, fazendo opinião. Alvitre que trouxesse marca de tão abalizada procedência, dava sempre coisa que se visse, convertia-se logo em realidade: fosse uma árvore, um baile, o itinerário num cortejo, um espetáculo — um urinol.
Casado, sem filhos (e sem esperanças já agora de os fabricar) Anselmo professava pela esposa um amor e um respeito inconcebíveis. Se alguém diante dele referisse fatos menos edificantes ou alarmasse a assistência com a nova dalgum moderno escândalo em supuração, comentava ruborizado e colérico:
— Deboche! Indecência! Quem quer mulher arranja-a, mas casa-se, que é o que todo o homem limpo deve fazer.
Ela, a D. Ermelinda, correspondia a essa louvável demonstração de bons sentimentos da parte do marido, com uma dedicação sem limites, a que a sua enorme fealdade — uma "fealdade específica", como diz Camilo — prestava fiança idônea.
Além do termômetro havia também na farmácia um barômetro. E todos os dias amigo Anselmo informava a vila e arredores com aquele rigor meticuloso, científico, aquela probidade verdadeiramente espartana, que era um dos ornamentos hereditários do seu caráter...
Ninguém saia da terra, ninguém projetava uma viajem, um passeio, que não fosse primeiro consultar o Anselmo:
— Que diz você?
E Anselmo, do alto da sua importância quase divina, resolvia:
— Pode sair, homem; vá descansado que não chove.
Ou então:
— Deixe-se ficar; o barômetro desceu e temos água.
Sei até de pessoas que atribuíam tamanha autoridade a Anselmo em assuntos meteorológicos, que havendo resposta negativa chegavam a observar-lhe:
— Demônio! Faz-me tanta falta agora não poder sair... Se isso fosse coisa que se pudesse arranjar, Sr. Anselmo...
Ele não se perturbava, não achava aquilo demais, respondia:
— Tenha paciência, homem, resigne-se; para outra vez será. Tenha paciência.
Quem é que sentia frio ou se queixava de calor enquanto Anselmo não manifestasse que sim, que estava calor ou que havia frio? — Anselmo batia o dente? Venham os jaquetões, os agasalhos, os capotes... Anselmo transpirava? As janelas logo se abriam e largavam-se os cobertores, as braseiras...
Não era só respeito — era medo!
Nessa altura, por exemplo, o boticário decretara que havia um calor excessivo. Toda a gente entrou a dizer que era demais, que uma tal temperatura se não aturava, uf! que havia um calor excessivo...
Certo dia Anselmo lembrou na farmácia que "talvez andando nu...". Pois surpreendi gente digna, disposta a seguir-lhe o conselho, quase a pôr-se como ele dizia...
Pela uma hora Anselmo examinava o termômetro (chamava-lhe: a coluna) primeiro à sombra, metodicamente, em seguida aos raios diretos do sol, na soleira da porta.
Freguês que após esta operação penetrasse na farmácia era antes de mais nada avisado pelo Anselmo dos graus que atingira a temperatura ambiente:
— Já sabe?... 30 à sombra e 50 ao sol!... É de rachar!
Depois é que aviava a receita limpando o suor da pescoceira ao mesmo pano com que enxugava as garrafas dos remédios.
A notícia circulava rápida. Perguntava-se por hábito:
— Já viu o termômetro? Quantos marcará hoje o termômetro do Anselmo?
E aí por volta das duas já se sabia, já constava cá por fora:
— Então hoje, hein? 30 à sombra e 50 ao sol no termômetro do Anselmo!
Desapertavam-se os coletes...
De fato, desta vez tinham razão. Havia umas horas no dia em que as ruas ficavam desertas, só as moscas e as abelhas faziam o seu giro zumbidor. Dos canos e das valetas onde levedavam detritos, subiam no ar quente exalações pestíferas. Eu esperava o correio com ansiedade, por causa dos jornais, as janelas do quarto entreabertas, o pavimento borrifado com água; ali me conservava naquela meia penumbra, estirado na cama, de papo para o ar... e nu, consoante o Anselmo preconizara.
Saia só à noitinha, que refrescava um pouco, quando a vila se punha a respirar às portas das lojas, ou passeava em grupos pelas estradas, os homens de chapéu na mão e as senhoras de vestidos claros, muito lânguidas, com as blusas desbotadas nos sovacos — da transpiração diurna. 
Foi por essa época que eu recebi a carta do meu amigo Felizardo — Felizardo Antunes Vieira Leite, do Porto — convidando-me a ir passar com ele uma temporada numa quinta do Minho, para onde partia nesse mesmo dia com a mãe, uma senhora respeitável que desejava muito conhecer-me.
No verão iam sempre para lá, dois meses, a regalarem os pulmões viciados do ar urbano e a vigiarem de perto as colheitas naquela quadra mais intensa da vida agrícola.
Adorável amigo!
Acabei de ler a carta e ergui-me dum pulo. Abri as janelas de par em par, para que a luz entrasse amplamente. Depois puxei os gavetões e pus-me a atacar de roupa a minha maleta de viagem. Porque eu ia viajar, senhores! Eu ia enfim ver esse Minho pitoresco de que ouvira sempre falar com tanto entusiasmo.
Fui ao telégrafo e expedi para Dr. Vieira Leite o seguinte aviso: "Chego amanhã".
As delícias do progresso!
Jamais apreciara como nesse jovial momento esta coisa cômoda e vulgar que se chama — o telegrama. E a descer as escadas dos correios eu ainda vinha a parafusar nas belezas da Civilização, — contente, reconhecido... 
De passagem, porque me ficava a caminho, entrei na farmácia. Nunca me dobrara em contumélias aparatosas de adulador ante a figura severa do boticário. Nunca balançara com mão subserviente o turíbulo da Fama com que a vila usava incensá-lo. Digo isto sem a menor sombra de prosápia e sem querer censurar ninguém, — apenas para estabelecer a verdade.
Eu sou um apóstolo da Verdade!
Mas que razões me dera Anselmo que justificassem, até à data, a minha frieza, o meu desdém, quase? A valer, nenhumas! Ficar-me-ia mal, portanto, que eu tivesse desta vez uma atenção e pondo de parte caprichos, orgulhos, lhe perguntasse muito cortesmente se queria alguma coisa "para esse Minho"?
Anselmo estava só, absorvido na laboriosa manipulação duma pomada. Um enxame de moscas pousava na gaze suja que revestia o candeeiro de metal suspenso do teto fuliginoso; e atrás, sobre o pano fundeiro, lia-se no vidro fosco duma porta interior esta palavra em letras gordas debaixo dum emblema galênico:

LABORATÓRIO
Avancei, anunciei-lhe o objeto da minha visita. O boticário ergueu a fronte majestosa, reconheceu-me, e mergulhando de novo no trabalho, rosnou por entre dentes:
— Boa viagem!...
Aquilo vexou-me; não eram formas de corresponder a uma delicadeza. Vai não vai estive para lhe dizer das boas, das fortes, — das minhas...
Mas não pude. Não sei porquê, mas não pude.
Dei umas voltas fora do balcão, meio acobardado, com um terror supersticioso que não me deixava falar, nem me permitia arredar pé.
Coisa esquisita!
Baralhavam-se-me as ideias e, na confusão mental em que me via, uma só coisa me preocupava impertinentemente: se aquele Anselmo, aquele pigmeu! teria realmente alguma influência no destino das chuvas, do vento ou das trovoadas?
Admitida a hipótese, podia muito bem, querendo, vingar-se de mim. Que mais não fosse senão uma telha despenhada do alto dum prédio, no sopro duma rajada acintosa, sobre a minha cabeça ímpia.
Mas... — protestava uma voz do fundo de todo o meu ser angustiado — o Anselmo, que pisava linhaça, que eu via ali na minha humana presença a fazer pomada!? Insensata apreensão, pueril receio, que o falso, infundado prestígio de semelhante figurão, exercendo-se sobre o meu espírito num inexplicável momento de fraqueza, havia logrado produzir!
Ah! mas a desforra ia ser tremenda! Eu ia resgatar, num gesto nervoso e varonil, a liberdade de pensar e de proceder de toda uma pequena aldeia de fanáticos, mostrando na hora augusta da emancipação, à luz da evidência e da sutil análise, o que esse insignificante valia por dentro — como homem e como divindade!
Mas de novo uma dúvida, um vago temor se interpôs ao meu intento, quebrando-me as forças, jugulando-me, — nem que alguma poderosa mão invisível estivesse ali sobre mim suspensa e pronta a estrangular-me à primeira voz.
— Ora esta! murmurava eu mentalmente, ora esta!
E passados instantes, tornando a olhar o boticário, que continuava indiferente e mudo a esmagar com a espátula, sobre um pedaço de mármore polido, uma pasta esbranquiçada e fedorenta, perguntei-lhe com a mais cariciosa das maneiras:
— E que me diz o meu amigo do tempo?...
Ora! foi uma beleza: um milagre! Levantou de novo a cabeça, que me pareceu agora aureolada, e encarou-me. Tinha estampada no rosto a surpresa que a pergunta lhe causara. Vi-o sorrir; e mirando o barômetro (ou o termômetro: não sei...) veio até mim, afável, meigo, aliciador. Percebi que ia ter uma resposta, significando talvez o beijo tácito da reconciliação. Eu ia confraternizar com Anselmo, abraçá-lo, entrar-lhe na intimidade... Que bom! Que pechincha!
Nessa altura porém, um sujeito baixo, agitado, nervoso, investe porta adentro com os braços no ar, exclamando:
— Ó Anselmo! ó Anselmo! você já viu? você já sabe?
Fitamo-lo surpresos.
Era o Menezes, jornalista, que assim vinha estragar a doce situação.
— Que é, homem, que é?!... Conte lá, desabafe! disse o boticário sem encobrir o seu mau humor.
E o outro, com muitos gestos, esbaforido:
— O ministério! caiu o ministério!
E sentou-se por já não poder.
Anselmo largou a espátula:
— Que me diz?!
— Olhe, veja!... — murmurou sufocado.
E estendeu-lhe um papel, um telegrama, aonde vinha tudo explicadinho: "ministério em terra, chamado João Franco, parabéns." Não era preciso mais!
Anselmo ficou sem ar. E o Menezes, outra vez muito excitado, ia e vinha da porta ao balcão, do balcão à porta, a rir-se, transtornado da cabeça, doido com a história.
— Até que finalmente, dizia, ora até que finalmente: o João Franco! Ó Anselmo, ó menino, mas você já pensou bem no caso? O João Franco!
E esfregava as mãos de contente.
— Agora é que se vai ver o que é governar às direitas; agora sim, é que se vai ver o que é governar!
O boticário quase não queria acreditá-lo. "Ficara banzado!" E o Menezes, vociferando:
— Corja! Os outros por pouco que não põem o país a saque! Tudo a comer, tudo! E eu, e você, e os mais, — os que trabalhamos — a pagarmos para aqueles piratas!
Anselmo sorria benévolo às considerações acerbas do jornalista que prosseguia irado, numa linguagem perversa:
— Súcia de gatunos! Pulhas! Pulhas!
E já frenético, em altos gritos:
— É bem feito, é bem feito: rua! É bem feito!
Começou a juntar-se povo, garotada, a quem o Anselmo, vindo à porta, enxotava, explicando:
— Que é? que é que vocês querem? Foi o ministério que caiu... Vão-se embora!
Um dos garotos porém, mais curioso e atrevido, foi a espreitar para dentro, pelos vidros da outra porta, — a ver se via o ministério no chão...
A Anselmo continuava no entanto a afigurar-se-lhe aquilo um sonho. Assim tão de repente, sem se falar em nada, sem ameaças de crise... Não seria balela?
O jornalista então pôs-se a raciocinar: Qual! era lógico; o Hintze fartara-se lá de fazer asneiras, e antes dele toda a gente sabia que quem governava não era o Zé Lucyano: era a mulher.
Tomou fôlego, prosseguiu:
— Quando aí veio o imperador da Alemanha, e a rainha Alexandra, e o outro... (fez um gesto com o polegar na direção da raia) o de Espanha, nem sequer tínhamos um presidente do conselho em termos de se apresentar! Uma vergonha!
Cuspinhou, bateu com a bengala, consultou o relógio. Era tarde.
— Olha o Teotônio! Você aí! — disse, dando por mim. — Desculpe, não tinha reparado... Então que diz a isto?
— Eu?...
— Sim, que diz você a isto?
Encolhi os ombros, sem responder, verdadeiramente embaraçado. E ele:
— Nem de encomenda, meu caro, nem de encomenda! O João Franco nestas alturas foi a sorte grande para o país!
Estendeu-me dois dedos a despedir-se; e quando se retirava:
— É verdade, ó Anselmo, você agora volta outra vez lá para cima, para a câmara. Creio que agora...
— Qual câmara nem qual carapuça, opôs o farmacêutico, modesto — o que eu quero é que me deixem. Têm aí muita gente...
Menezes não via, não achava:
— Muita gente! Aonde?...
Foi então que eu, Teotônio, julguei oportuno intervir:
— Se me dão licença, direi que sou também do parecer do amigo Menezes...
— Diga, diga! aprovou este.
— É impossível na verdade encontrar por todo o concelho quem, como o Sr. Anselmo, seja capaz de desempenhar com tanta capacidade e proficiência o papel de presidente do município.
— Apoiado!
— Haja em vista, — justifiquei, voltando-me para ele, — o que vossa excelência fez da outra vez por ocasião da greve das leiteiras!
— Ora, ora... — desdenhou Anselmo.
— É a verdade, é a verdade! aplaudiu o Menezes. — Está na memória de todos. De todos! — repetiu, aprumando-se, nos bicos dos pés.
— Andava-se aterrado, continuei, como na véspera dos grandes acontecimentos. Dizia-se que ficaríamos sem leite na vila por uns poucos de dias!
— Um alimento de primeira necessidade... — avolumou o jornalista.
— Vai então o Sr. Anselmo, num abrir e fechar de olhos, resolveu. Lembro-me como se fosse hoje da memorável sessão a que assisti e em que vossa excelência sossegou a população, declarando que uma greve dessa natureza seria para temer se em vez de ser feita pelas vendedeiras de leite, fosse feita pelas próprias vacas...
— Sim senhor... — confirmou o Menezes. — Lembro-me perfeitamente; eu também lá estava. Por sinal que estreei um fato nesse dia...
— Enfim, rematei, e quantas coisas mais!? A quem se deve por exemplo o melhoramento entre nós do carro do lixo?
Menezes coadjuvou-me, indicou o boticário:
— A ele!
— A quem se deve a construção do coreto na Praça Nova?
— A ele!
— A quem se deve a compra dum irrigador para o hospital civil?
— A ele! a ele só!
— Ó senhores, pelo amor de Deus! confundem-me! — bradou o boticário realmente confundido, levando as mãos ao crânio — Eu sou um humilde trabalhador, com desejos de acertar, de bem servir a minha terra e os amigos. Nada mais!
— Esse pouco...
— Mas quanto a política, francamente, confesso — estou farto; estou farto dela até aos olhos!
— Isso diz ele agora, isso diz ele agora, murmurou o Menezes, piscando-me o olho. — Olha quem, o régulo!
Depois, despediu-se; chegou mesmo a descer o passeio; mas voltando atrás afogueado:
— Ouça lá, Anselmo, e hoje? o termômetro?
Anselmo foi verificar. Inclinando para o solo o dedo indicador, hirto, num gesto onipotente, informou:
— Desce!
— Ah! Ótimo... Assim era duma pessoa morrer!
E muito meneado, o jornalista lá se foi de vez a semear notícias.
Dispus-me então a comentar o caso a sós com o Anselmo. Do seu facundo e preclaro espírito viria até mim, triste mortal, o bom conselho, a opinião autorizada e justa...
Ministério em terra, o João Franco inesperadamente no poder... Era com efeito um extravagante acontecimento.
Eu nunca fora, porém, um político interessado. A dizer a verdade, não sabia mesmo se aquele fato, na aparência sensacional, representava uma vantagem ou um inconveniente para o país. Não me encontrara jamais inclinado para estes ou para aqueles. A ser um franquista, um progressista ou um regenerador, preferia não ser coisa nenhuma — que é para o que eu me sinto realmente com vocação...
Naquele momento todavia achei o João Franco simpático. Decerto vinha animado de bons propósitos, decerto; e era um homem rico, o que — seja dito de passagem — significava uma grande segurança para a inviolabilidade do Tesouro... Menezes tinha razão.
Todas estas considerações eu aduzi a Anselmo, que me fitava e sorria satisfeito.
— Mas por que cairia o Hintze? indaguei.
Anselmo torneou o balcão, veio dizer-me ao ouvido:
— O rei, entende? que tem um medo dos republicanos que se fina (isto aqui para nós) e quer lá no poder um homem de envergadura, um homem que os tenha no seu lugar, ora entende o senhor? Para isso, ninguém mais nas condições de que o João Franco. O João Franco é um valente! Se lhe constar, verbi gratia, estando aqui, que lá fora a uma esquina há um homem com um cacete à espera dele — acredite — é quando lá passa mais depressa. Olha quem!... Nem o Bismarck!
Eu ia acompanhando com interjeições o caloroso panegírico do ministro. E quando Anselmo terminou:
— Efetivamente, o João Franco...
Anselmo benzeu-se:
— Ah! meu amigo: é um colosso!
Fez-se silêncio. O boticário acondicionava numa caixinha a pomada preparada. Assoou-se. Escreveu um rótulo e colou-o na tampa, a assobiar o hino da carta.
— Diga-me uma coisa, inquiri; o Menezes não era progressista?
— Era; mas passou-se para os nossos há de haver um mês. É um convicto.
— Parece.
— E brioso; um cavalheiro.
— Parece.
— Ali o Souto dos telégrafos mijou-lhe um dia fora do testo...
— O Souto? Ah! sim... Mas esse é um trampolineiro!
— É. O Sr. fala-lhe?
— Às vezes, por cortesia...
— Pois uma ocasião teve o descaramento de afirmar, no clube, diante de quem o quis ouvir, que um artigo que o Menezes publicara não era do Menezes e que era... sabe o senhor de quem? imagine! — do Navarro, do Emídio Navarro!
— Patife!
— ... que tinha vindo nas Novidades já não sei há quantos anos, e que o Menezes o fora copiar, alterando apenas ligeiramente a forma.
— Patife! patife!
— O Menezes, mal aquilo lhe chega aos ouvidos — ele que é um esturrado! — agarra num vergalho e onde encontra o Souto prega-lhe uma destas coças...
— Bem feito.
— De manhã já o Menezes aqui me tinha dito a mim, furioso: "Juro-lhe, Anselmo, que onde encontro aquele tratante, quebro-lhe um corno". — Se bem o disse melhor o fez: vai e quebrou-lho.
— Anda-me.
— No domingo imediato, quando tudo supunha a questão arrumada, zás: sai o jornal? Eu cheguei a saber aquilo tudo de cor, homem!
Concentrou-se, os olhos fechados, a mão na testa, a ver se se lembrava.
E com pesar:
— Já não vai; paciência!
— É pena.
— Mas digo-lhe o final, descanse, que esse é daqui... — e beliscava o lóbulo da orelha. Então, o braço estendido, em atitude declamatória, o polegar e o índice aplicados num gesto precioso, recitou, com uma pontinha de malícia nos olhos: "Diz D. Basílio que da calúnia alguma coisa fica. Não tememos, porém, etc., etc., etc..." Repare agora: "Os aleives resvalam na consciência dos justos como zagalotes no aço." (Anselmo sublinhava: como zagalotes no aço...). "Todo o mundo sabe que só usamos o que nos pertence..." (Piscadela de olho do Anselmo) "Não costumamos botar figura com coisas alheias: o dinheiro dos amigos ou as joias das amantes: Meneses dos Santos".
— Isso é medonho! comentei.
Enquanto Anselmo repetia, vibrante de entusiasmo:
— "O dinheiro dos amigos ou as joias das amantes"! Refere-se à mulher do notário... Genial! genial!
Rimos depois muito, com aplausos efusivos ao jornalista e censuras ao procedimento do Souto, que fora indecente.
A conversa decaiu. Anselmo bocejava. Eu peguei num jornal, percorri-o com a vista, distraído.
— Então sempre vai amanhã? perguntou-me.
— Sempre vou amanhã.
— Pois o tempo está firme. A coluna desceu, mas descanse que não há de haver novidade. Isto conserva-se.
Bateu-me no ombro palmadinhas amigáveis:
— Pode ir descansado...
— O Sr. Anselmo não quer para lá nada? — perguntei.
— Não; quero que tenha muita saúde.
Fitou-me carinhosamente:
— E veja se engorda, coma-lhe! Parece que anda magro, homem... Dê cá um abraço.
Estreitá-mo-nos peito com peito. Éramos dois amigos velhos... Comovi-me; e visto que se faziam horas de jantar, segui rua abaixo.
— Até à volta!
— Até à volta!...
O sol abrasava. Quando dobrei a esquina, olhei. O boticário tinha vindo à porta, dizia-me adeus de lá, — com a mão...
***
Anselmo estava em Nagosa, fazendo a vindima, quando se declarou em Lisboa o movimento revolucionário de outubro.
Tinha vindo nesse momento de baixo, do lagar, aonde meia dúzia de homens hercúleos, de calça arregaçada e pernas ao léu, roxas como canelas de perdiz, pisavam a uva, dançando ao som de ferrinhos e de adufe uma dança bárbara, grotesca, entre uivos e assobios.
O filho mais velho do caseiro fora a Moimenta pelos jornais e por tabaco, e a encomendar a carne do dia imediato, que era dia de matança na vila.
Não devia tardar.
D. Ermelinda arranjara a ceia: uma ceia de caldo verde e sardinhas assadas, raras naquela região e muito frescas, — nem que Nagosa fosse um braço de mar e as houvessem ali pescado nesse instante... No fim, para assentar, chá, — um chazinho de cidade, louro e aromático, dando a nota apurada da civilização após aquele menu de cavadores. 
Viera a criada erguer a mesa, dobrando a toalha cautelosamente para não espalhar as migalhas pelo chão, quando chegou o portador de Moimenta com a notícia de que estalara a revolução em Lisboa. A notícia era vaga e incerta, sem pormenores, porque não havia jornais nem o telegrafo funcionava; um caixeiro de amostras chegado de Lamego essa madrugada, em diligência, espalhara a novidade e dissera que Lisboa, a essa hora, era um mar de sangue!
Desde o assassinato do rei que Anselmo sentia um forte desanimo por tudo isto... D. Carlos, tipo de sibarita sem escrúpulos, inteligente, mentiroso e gabarola, fora a última trave que ruíra do desmantelado edifício monárquico. A sua morte, cuja forma, ele, Anselmo — homem de processos sóbrios — veementemente reprovara, deixara o país em alvoroço, debatendo-se nas garras duma agonia cruciante, mal amparado por gente tímida, com um rei no trono "que não era rei nem era rainha", figurita débil e epicena de maricas.
— Havemos de ir longe! profetizava com melancolia. 
A nova da revolução na capital, trazida assim, de súbito, àquela hora da noite, por um lábrego analfabeto, a um lugar sertanejo e ignorado, não o surpreendeu portanto, mas encheu-o de ansiedade e sobressalto. — Qual seria o resultado de tudo aquilo? Venceria o governo? Venceriam os insurrectos? E depois: a intervenção estrangeira?...
Um calafrio de susto percorreu-lhe a espinha dorsal ao pensar nisso, nos horrores duma carnificina e dum saque. Viu-se desapossado dos seus bens, violentamente, à coronhada; viu-se escorraçado, preso, fuzilado a uma esquina! Ele estava disposto todavia a declarar, sob sua palavra de honra, que embora tivesse militado no partido franquista, não tinha a mínima sombra de responsabilidade no indigno decreto de 31 de Janeiro...
— Com que então Lisboa é um mar de sangue? perguntou de novo ao seu rústico informador, como para certificar-se de que não delirava. E confirmada a notícia, comentou: — Pois bem... Nós cá não temos nada com isso; lá é com eles. Acima de tudo o que eu sou é patriota. República ou Monarquia tanto se me dá; o que é preciso é haver quem nos governe. Boa noite! 
Havia lua cheia.
Anselmo antes de se ir deitar saiu para o terraço da casa a respirar um pouco, à vontade. Arrotou. As sardinhas vieram-lhe à boca. Murmurou arreliado: — "A mania de comer a esta hora há de acabar."
O arzinho do campo, porém, reanimou-o, fez-lhe bem, descongestionou-lhe o rosto afogueado.
Sentou-se num banco, à fresca, de colete desabotoado e a fumar.
De dentro, através duma janela aberta, a voz de D. Ermelinda vibrou esganiçada:
— Anselminho, olha a bronquite!
Não respondeu. A noite estava um encanto! Um luar muito claro punha em relevo as silhuetas da paisagem larga, beiroa, de vegetação sombria e de penedia hirsuta. Os cães ladravam na quinta. Milhões de estrelas cintilavam no céu opalino, levemente ofuscadas pela alvura do luar...
Murmurou, regalado:
— E é que já daqui não saio, enquanto a coisa se não decidir... 
A 5 de Outubro estava a República definitivamente proclamada em Portugal, sabendo-se da nova em Nagosa quando o vinho de Anselmo começava a ferver nas dornas.
De tarde Anselmo foi à lagariça para calcular com a vista a importância da colheita. Bem boa! Sabia-se que em Moimenta os republicanos tinham já içado na casa da Câmara o pavilhão revolucionário; ia um delírio na população. E o brasileiro de Cabaços deitara meia dúzia de foguetes que se viram perfeitamente de Nagosa subir e estalar no ar, deixando uns novelos de fumo branco, por momentos, no azul do céu e no ouro vivo do sol outonal.
Anselmo debruçou-se sobre o lagar, farejou o mosto, teve um sorriso feliz de proprietário favorecido, e chamando o caseiro:
— Ó Jose, o vinhito este ano parece-me bom, hein?
— Parece que sim, meu padrinho...
Era afilhado.
— A uvazita fundiu... dizias que não.
— Houve mais que eu sei lá!
— Pois sim, mas...
Não concluiu, não explicou o que queria dizer na sua.
Tirou do bolso a tabaqueira, um livrete de mortalhas; ofereceu uma na ponta dos dedos ao afilhado; deitou-lhe na palma da mão calosa duas pitadas de tabaco francês; limpou depois ele próprio as mãos sujas do rebordo da dorna a que se agarrara, a umas palhas que ali topou a jeito, e pôs-se a fazer um cigarro, trauteando a Portuguesa
O primeiro desgosto sério que ele sofreu depois da República, foi com a lei da Separação.
A mudança de regime, como Anselmo a entendia, resumir-se-ia a abolir a realeza, causa imediata e suficiente de quantos cataclismos e desgraças assoberbavam este pobre país. O resto era pó, ou melhor, era ódio, vingança, perseguição, fanatismo. Impressionara-o bem, ao começo, o fato de serem os próprios miseráveis, os pobretanas, os maltrapilhos, quem guardara, nos dias da Revolução, os bancos e as casas da gente endinheirada. Mas a questão da bandeira, logo a seguir, a picuinha de substituírem as antigas cores constitucionais pelo vermelho e pelo verde (há quem diga que Anselmo sublinhava a palavra verde com intenção maliciosa; talvez) começou a indispô-lo, a irritá-lo. De mais a mais havia gente insuspeita a condenar as novas tintas! E os olhos sinceramente se lhe arrasaram de lágrimas quando viu tremular no edifício da câmara municipal da sua vila (da sua vila!) o hediondo trapo republicano. 
Aos primeiros dias de harmonia e de entusiasmo começaram a suceder-se no país, pouco a pouco, outros, menos tranquilizadores e festivos. Tinham-se efetuado prisões, demissões; surgiam ali e aqui desacordos, antipatias, notas desafinadas no geral concerto; havia descontentes; principiava a falar-se vagamente de conspiradores. O capitão Paiva Couceiro saíra para Espanha, agressivo, no intuito de organizar um exército restaurador da monarquia. Os padres, dizia-se, tinham o povinho ignorante das aldeias na mão, e era só dizer-lhe: — "Vamos!" tudo marcharia à uma sobre as cidades e daí sobre Lisboa, engrossando, rolando, com a força duma vaga e o barulho dum trovão!
O Governo Provisório, sorrindo desdenhosamente, tomava no entanto as suas medidas de defesa, ordenava prevenções rigorosas nos quartéis. As redações dos jornais monárquicos eram assaltadas por magotes de homens armados e coléricos que partiam o mobiliário, empastelavam o tipo, espatifavam as maquinas de impressão, pondo tudo em fanicos, pelas janelas, no meio da rua.
E foi numa altura destas, num estado assim de insubordinação e de efervescência, que o governo se lembra de perseguir os bispos!
Anselmo indignava-se:
— O país é católico, dizia, o país é católico e não pode permitir semelhante arbitrariedade! É um atentado contra a religião de cada um.
Alguém lhe ponderou que não, que o governo não pensava em perseguir ninguém; que não era esse o espírito da lei; que o Estado o que não devia era apadrinhar esta ou aquela religião. Eu mesmo, Teotônio Mendes, republicano hereditário, apoiei com certa autoridade e firmeza estas sensatíssimas explicações.
— Cale-se! vociferava ele, exaltado, dirigindo-se-me; cale-se, que não diz se não asneiras. A República tem de ser tolerante se quiser viver! Os jacobinos, os carbonários como o senhor, não conseguirão por mais que se esforcem abafar os protestos da opinião pública; e a opinião pública está abertamente com a Igreja. Com a Igreja, fique-o sabendo!
Todos nos calávamos. Anselmo limpava a fronte donde o suor porejava.
— Podem-me prender, se quiserem, que eu direi sempre a verdade. A verdade é só uma!
E cheio de provas, revoltado:.
— Admite-se lá que se tire assim o pão a tanta gente, que se lance na miséria tanto português, tanto padre com mulher e filhos... perdão (emendava): com família numerosa.
Em volta houve um silêncio aprovativo. 
Tudo mudara, na verdade...
Um dia, Anselmo andava passeando na farmácia, as mãos atrás das costas, a meditar no futuro do país. O barômetro marcava tempo seco — e lá fora chovia! A coluna indicava uma temperatura alta, e Anselmo tinha a certeza de que era falso. Aquilo queria dizer que andava tudo às avessas, que ninguém se entendia neste país, que a indisciplina reinava — até no tempo!
Não havia doentes: há 15 dias que o movimento farmacológico era insignificante. Assim, a própria ociosidade colaborava nos acontecimentos, gerando nos cérebros ideias insubmissas...
— Vossa excelência é que é o Sr. Anselmo Nogueira? — perguntou a meia voz um desconhecido que entrou, descobrindo-se.
— Eu mesmo em carne e osso. Ponha o seu chapéu. Que deseja?
Mas logo, reconsiderando, medindo-o, fez pé atrás como quem desconfia do sujeito e se prepara para se por a salvo, no caso de perigo.
— Não se assuste, disse-lhe o recém-chegado, observando aquele gesto, — eu não sou quem pensa... pelo contrário.
— Ah!
— Sou dos fiéis. Trago-lhe aqui uma carta da Galisa...
E levou a mão ao bolso. Anselmo segurou-lhe no braço, pálido:
— Ó diabo, espere... espere lá, tome cautela.
E foi à porta espreitar. Não havia ninguém. Chovia.
— Tem a bondade de entrar ali para dentro, indicou.
E encostando a porta de vidro fosco do laboratório:
— Estou às suas ordens, pode falar... Estamos sós.
Todo ele tremia.
O outro entregou-lhe a carta em que lhe pediam dinheiro para uma próxima incursão e lhe perguntavam se poderia auxiliar, a coberto da sua seriedade insuspeita, um pequeno contrabando de armas: pistolas e munições. Assinava a carta, em nome de Paiva Couceiro, "um amigo da Religião e da Pátria."
Anselmo gaguejou:
— Sim... sim... dinheiro, talvez, mais adiante... Agora as pistolas, desde já lhe digo, meu caro senhor, que as pistolas não... Escusam de contar comigo para semelhantes aventuras. A minha casa é muito frequentada, tudo mexe e remexe... não há esconderijos...
— Nesse caso...
— Nesse caso, o melhor é ir bater a outra porta. Do meu lado podem contar apenas com o apoio moral.
O desconhecido ia retirar-se desanimado. Anselmo deu-lhe uma esperança:
— Ah! olhe: e estricnina e sal de azedas, à descrição...
O enviado sorriu, agradeceu, despediu-se.
— Diga-me cá, inquiriu ainda Anselmo interessado, com a mão dele apertada, — o nosso Paiva Couceiro como ficou?
— Bem.
— E o rei, tem-no visto?
Não o tinha visto. Estava em Londres.
— Coitado! aquele também... Quando calhar, dê-lhe lá muitos recados meus, sim?
O indivíduo misterioso prometeu, saiu da botica.
— Ouça, ouça! A Ermelinda, minha mulher, também se recomenda. E à D. Amélia. Diga-lhe que cá os esperamos a todos, muito brevemente.
Fez-lhe uma mesura aparatosa:
— Meu caro senhor... 
Uma vista de olhos, rápida, furtiva, pelas janelas dos prédios fronteiros, a ver se alguém teria dado pela visita, e tornou ao laboratório, ruminando o caso, arreliado por se ter esquecido na perturbação que o invadira, de perguntar o nome do tipo. "E a gente às vezes a supor que ninguém nos conhece, que não consta, que se não sabe lá por fora! Ai Anselmo, ai Anselmo!..."
Tirou do bolso a carta comprometedora, levemente amarrotada; acendeu um fósforo e ali mesmo, antes de outra coisa, queimou-a, com prudência, reduzindo-a a cinzas.
O documento!
Nisto, uma mulherzinha entrou na farmácia, a correr, sem xale, a pedir linhaça para o Sr. administrador que estava a morrer com uma cólica.
Anselmo estremeceu. Para o Sr. administrador? Fingiu que ia servir a mulher, e de repente:
— Oh co'a breca! esta agora! não tenho linhaça.
— Não tem linhaça?!
— Não tenho. Acabou-se-me.
— E agora?
— Agora... deve chegar amanhã.
— Amanha! Amanha pode o homem estar no outro mundo!
Anselmo sentiu que as pernas se lhe vergavam àquela ideia homicida; ia trair-se, não podia mais.
— No outro mundo?!
— Sim, no outro mundo; se o Sr. o visse!
Anselmo, porém, num abrir e fechar de olhos, raciocinou: "mas se este é dos tais que a monarquia não poupa quando voltar; se ele está fatalmente condenado pela revindicta... Deixá-lo ir já!"
— Pois tenha paciência, santinha; onde não há el-rei o perde...
— El-rei! exclamou a mulher, furiosa, voltando costas, de repelão, — o que o Sr. precisava bem sei eu; não haver linhaça numa terra onde não há mais boticas!
Anselmo ainda ouviu a mulher a distância, queixar-se para alguém, fazendo escândalo:
— É ali o boticário que não tem linhaça; anda só a pensar na monarquia, o talassa, e esquece-se das obrigações...
O epíteto de talassa custou-lhe os olhos da cara; mas enfim, tudo eram sacrifícios pela Causa. Mais tarde havia de saber-se e os juros viriam — se viriam! — com larga usura e gratidão...
— Talassa! Talassa!... — gritava a mulher.
— Pois sim... 
A incursão falhou. Pela raia, em Vinhais, bandos de malfeitores assalariados tinham tentado um simulacro de luta contra a existência do novo regime. Fugiram. A notícia do fracasso voou por todo o país com rapidez. Anselmo soube-a de manhã, na cama, pela criada, e já se não quis levantar. Adoecera. Queixou-se de arrepios, gemeu, disse à mulher que mandasse vir o médico.
— E para a farmácia, quem vai?
— Vai a senhora, rosnou, de mau humor.
E abafou-se na roupa.
O médico veio e receitou: era intestino. Como republicano, falou do caso. Anselmo, mordido de curiosidade, desejou conhecer toda a ação nos mínimos detalhes: quantos eram, quem vinha, quem comandava e por último, convencido da derrota, da inanidade daquele esforço ridículo, perguntou:
— E dos nossos, quem foi?
— Dos nossos?! interrogou o médico, sem perceber.
— Sim, dos republicanos: quem é que o governo mandou a correr aquela tropa fandanga a pontapé?
O médico, que era um homem distraído, respondeu com indiferença:
— Não sei; creio que ninguém; nem se pensou em tal, ilustre correligionário... 
À tarde, Anselmo pode sair. Não tinha febre. O intestino desatou a funcionar melhor e nem foi preciso medicar-se.
— Mas que ideia aquela, dizia ele, no clube, a uma roda de amigos embasbacados, — que ideia aquela da restauração! São doidos!... A República tem, não há dúvida, alguns defeitos, sou eu o primeiro a reconhecê-lo; mas tirem-se-lhe! O que todos devemos fazer é trabalhar para que as novas instituições sejam aquilo para que as criamos. — Não é isso, Teotônio? rematou, voltando-se para mim, que o escutava transido.
E com descaramento:
— Você tem-me ouvido muita vez dizer isto mesmo; você sabe que eu já no tempo da monarquia era tanto ou mais liberal do que você, que se tem por histórico.
Eu, moita.
— Você não fala? não diz nada?
Afastei-me prudentemente. Notei que ia rebentar de indignação contra aquele farsante; mas ao mesmo tempo sentia — como sentíamos todos aliás, diante dele — que nem que fizesse ou dissesse o dobro do que dizia e fazia, algum de nós teria a coragem de o desmentir! 
Assim se consumou pois a adesão solene do Sr. Anselmo a República. Tudo o que veio a seguir, greves, intentonas, zaragatas, a incursão de julho... tudo, numa palavra, encontrou-o já pela frente, tão decidido e jacobino, ou mais ainda do que aqueles que se gabavam de o ser. Logo que se organizaram os partidos, Anselmo filiou-se nos democráticos. E o ódio ao padre, o horror ao padre, a fobia do padre obcecava-o de dia e de noite.
Uma vez, um dos ministros foi a Vizeu: pespegou-se lá, com o Teotônio e o administrador (aquele administrador que ele quis matar) e o Menezes jornalista, que também já era democrático. Assistiu ao jantar, fez um brinde condenando o Clero, "esse Clero infame a que pertencera, não se sabe porque caprichos da sorte, o célebre, o liberalíssimo bispo daquela terra!". Falou depois de Viriato, e terminou com um viva à República que atroou o vasto recinto do teatro onde o banquete se realizava.
O ministro, sensibilizado, ergueu-se para agradecer. Discursou pausadamente durante 20 minutos, empunhou a taça por fim, e pediu a todos que o acompanhassem e bebessem à saúde de Anselmo Nogueira, "figura prestimosa da República, homem de bem às direitas, livre pensador e companheiro fiel dos tempos da propaganda. — Hip! hip! hip! Hurrah!".
As taças tilintaram. Anselmo, carregado, chorou. E Teotônio, batendo com a mão no ombro do administrador de Moimenta, segredou-lhe:
— Lá intrujou o ministro, o patife! Companheiro fiel dos tempos da propaganda, ouviste? Que desaforo!
O administrador comentou:
— E livre pensador, filho! Parece que o estou ainda a ver de lanterna e de opa na procissão do Senhor dos Paços! O que é o mundo!...
Eu pus-me a considerar, palitando os dentes.
— Então e nós? indaguei por fim, despeitado.
— Nós? nós? Essa agora! Nós não sairemos nunca da cepa torta, meu velho... Este Anselmo, este farmacêutico, que ali vês recostado numa cadeira, é o modelo do político português. Maioral no tempo da monarquia, maioral se vai tornando dentro da República. Era de esperar! Pois se os monárquicos é que prepararam isto com os seus erros, se eles é que deitaram a monarquia a terra, não achas justo que quem plantou a vinha pense também agora em comer os cachos?...
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Fonte do texto: Project Gutenberg
Pesquisa, transcrição e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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