quarta-feira, 26 de junho de 2019

Um parecer sobre a comédia “A Casa de Gonçalo” (Ensaio), por Alexandre Herculano



Um parecer sobre a comédia “A Casa de Gonçalo”
A comissão encarregada de dar o seu parecer sobre a comédia intitulada — A Casa de Gonçalo — que concorreu aos prêmios destinados para os dramas originais portugueses, que mais se avantajarem entre os outros no concurso aberto por este Conservatório para o corrente ano de 1840, vem apresentar a sua opinião a este Júri, desempenhando assim o encargo que lhe coube em sorte.
A comédia sobre que versa este parecer é precedida por um prólogo, ou, como seu autor lhe chama, por um endereço aos censores.
A Comissão hesitou se devia ou não fazer algumas observações sobre a matéria nele contida: grave e importante é esta; ridícula e talvez chula a forma porque o autor a tratou; mas a Comissão entendeu por fim que tocando-se nesse prólogo a grande questão das condições da arte, que hoje agita o mundo literário, era da sua obrigação, entrar no exame das ideias contidas nele. Pospondo, por tanto, os gracejos do autor, e considerando somente as suas opiniões e proposições, até porque ele parece apresentá-las, como norma por onde os censores houvessem de guiar-se, antes de julgar o drama dirá algumas palavras sobre o mencionado prólogo.
Começa o autor esse prólogo pela sua biografia literária referindo como tem composto um bom número de comédias cômicas, e outras lamentosas ou patéticas, de que, segundo ele diz, são muito apaixonados os alemães. Deixando de parte as notícias biográfico-literárias, importantíssimas para uma nova edição da Biblioteca Lusitana, ou do Dicionário dos homens ilustres, mas que no caso presente nada montam para o Conservatório, a Comissão apenas se faz cargo das duas circunstâncias que deixa apontadas: a 1ª de ter o autor composto comédias lamentosas, ou como, com Voltaire, ele lhes chama, larmoiantes: 2ª a de afirmar que deste gênero são muito apaixonados os alemães. Admira com efeito, que o autor tão aferrado aos sãos princípios dos antigos, tão desprezador dos desvarios modernos, gastasse o seu tempo com um gênero dramático bastardo, em que os antigos nem sonharam, porque só conheceram a tragédia e a comédia, vendo-se daqui que houve uma época em que o ilustre autor da Casa de Gonçalo sacrificou ao Moloque revolucionário: não admira menos, que um escritor tão versado em matérias literárias ignore que o drama lamentoso nasceu em França, e que a Alemanha só conta um autor notável neste gênero —Kotzebue — que não teve sucessores, e que hoje está quase completamente esquecido naquele país, onde exclusivamente aparecem poucas comédias, bastantes tragédias, e infindos dramas da escola moderna que está bem longe de ser a de Diderot, ou dos dramaturgos chorões, lamentosos ou patéticos.
Continua o ilustre autor da Casa de Gonçalo dizendo que sabe que a sua comédia não hade agradar porque tem aquele mau gosto de composição que recomenda Aristóteles e Horácio que eram uns rançosos e desse ranço é Menandro, Aristófanes e Terêncio etc.; fala nos freios da arte da escola clássica, unidade de ação, consistência de caracteres; paixões e afetos naturais, verdade de costumes, estabilidade de lugar, unidade de tempo; fala no Sales que tinha a habilidade de fazer velhos os rapazes que iam ouvir-lhe as lições de Poética e retórica; diz que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne, e que os modernos destruíram a unidade de ação, de caráter, de tempo, e de lugar. Do que tudo conclui o autor que a sua comédia não há de agradar, e que por isso a apresentou sem a mandar copiar.
Se a letra em que a comédia está escrita, e a história literária do ilustre autor inserida neste prólogo, não revelassem, aquela a mão trêmula de um velho, esta uma larga vida cheia de recordações do sapientíssimo Sales, que, bem diferente das magas das novelas de cavalaria, as quais transformavam as rugas de velhice em viço de mocidade, convertia a mocidade em velhice: se a Comissão, digo, não inferisse de tudo isso que este prólogo encerrava um pensamento de Sansão, clássico, o qual vendo morta a sua nação quer morrer também levando consigo os filisteus da nova arte, e se este pensamento não fosse generoso, ela se teria abstido de fazer observações algumas acerca das ideias do autor, que em um homem moço e que não tivesse essas razões de amor às coisas com que se criou, seriam apenas dignas de compaixão muda. A Comissão, porém, pertence infelizmente ao presente, e quando vê um campeão do passado, de quem se pode dizer como Virgílio:
Et dulces moriens reminiscitur Argos. Do caro Sales lembra-se morrendo.
não pode deixar de lhe dar o extremo vale, nem é lícito que responda com um silêncio que se poderia tomar pelo silêncio do desprezo a quem vem lançar na estacada a luva do combate, por uma causa talvez bela, mas nestes tempos irreverentes e dissolutos, bem mal-aventurada.
Senhores! A guerra que os homens do passado fazem às opiniões do presente é um fenômeno trivialíssimo, e repetido todas as vezes, que, ou as meditações ou as inspirações do gênio, ou finalmente a acumulação das ideias e das observações de muitos homens, tem produzido uma revolução, seja ela de que natureza for. A razão disto dá-se neste prólogo. Quem encanecendo no estudo de qualquer ramo de ciência nunca pode passar além de compreender o que os outros pensaram, entende que a isto se deve reduzir todo o poderio intelectual do gênero humano. Tais indivíduos são por via de regra os representantes da imobilidade. Bem longe da teoria do progresso indefinido, creem que a civilização é como a praia do mar, os homens como as ondas dele, que ora se aproximam ora se afastam em continuados estos. São tais indivíduos que nunca se persuadiriam de que as chamadas trevas da idade média não eram mais que a crisálida de uma civilização maior e melhor que a grega e romana, de uma civilização cuja aura vital era a grande transformação religiosa chamada o cristianismo. São tais indivíduos para quem fora baldada a demonstração de que no objeto de que neste lugar se trata — o drama — uma nova época e por consequência uma nova forma tinha começado com o berço das nações modernas, e de que entre o nosso teatro e o dos antigos devia haver a mesma diferença que há entre a civilização cristã e a pagã, entre o cristianismo e o politeísmo; enfim que nas respectivas literaturas dramáticas devia haver uma diversidade paralela à que há entre aparte material do teatro antigo e a do teatro moderno.
Era lícito, pois, a estes homens morrerem abraçados com as Poéticas e retóricas sobre que encaneceram; era-lhes lícito desprezarem os frutos das cogitações dos modernos; era-lhes lícito terem comentado as regras, na impossibilidade de fazerem dramas. Tudo isso lhes era lícito menos ignorarem a história da arte antiga, desconhecerem os princípios da moderna, mentirem acerca daquela, e caluniarem esta. Isto é o que tem feito os admiradores dos retóricos de todas as nações, isto é o que se reproduz no prólogo do erudito discípulo do eruditíssimo Sales.
A Comissão não entrará aqui no exame do valor relativo dos princípios da escola antiga, e da escola moderna que também os tem mais profundos e por ventara mais criadores de dificuldades que os da antiga. A comparação desses princípios seria matéria de um livro, de um curso de literatura dramática, e nunca de um parecer que deve servir de base à discussão especial do mérito de um drama. Mas a Comissão se mostraria pouco atenta à dignidade, e à honra literária do Conservatório se deixasse passar como exatas afirmativas contrarias à história do teatro e à crítica, sem que retificasse inexatidões que se lhe vem apresentar como verdades.
O autor diz que sabe que a comédia não há de agradar por se verem nela cumpridos os decretos de Aristóteles e de Horácio. Desejaria a Comissão que ele tivesse declarado cujo era o desagrado em que tinha a certeza de incorrer. Se era o do público, como tendo essa certeza concorre às provas públicas? — Neste procedimento há pelo menos um pleonasmo tão flagrante como há no título de comédia cômica que ele dá a esta. Se é o do Conservatório, parece fazer com isso grave injúria a este.
O Conservatório possui no seu seio homens de convicções diferentes, e até certo ponto opostas, em matérias literárias: uns pertencem, como o autor, às ideias antigas, outros às opiniões modernas. Para os primeiros a execução dessas regras é um mérito; para os segundos se as suas opiniões assentam sobre uma teoria completa da arte — e a Comissão crê que sim— o desempenho dessas regras é indiferente, porque não é nem na falta, nem na existência delas que consiste a arte. O autor devia saber que a escola moderna coloca quase a par de Shakespeare e acima talvez de Calderón e Lopo da Vega, dois escritores da arte dos preceitos — Molière e Corneille: devia saber que ela rejeita desses preceitos aqueles que não têm uma sanção estética; aqueles que, ou o capricho, ou um exame superficial das matérias literárias, admitiu como cânones imprescritíveis; aqueles que são mui próximos parentes dos acrósticos, dos ecos, e dos versos leoninos — mas devia também saber, que a escola moderna nunca desprezou o dramaturgo, cujo gênio, apesar dessas peias escolásticas, se remontasse a altura da verdadeira arte, e que, por tanto os membros do Conservatório cujas opiniões são modernas não rejeitariam o drama só porque se assujeitava às andadeiras retóricas da escola antiga. Se um pensamento único tivesse precedido à composição desta comédia: se o ideal de um ou muitos caracteres cômicos tivessem nela revestido as formas da vida real, embora o drama estivesse arrebicado de cem regras e duzentos preceitos, os sectários da nova escola teriam dito com os da antiga; equites romani plaudant!
O digno autor da Casa de Gonçalo, seguindo as pisadas dos homens da sua escola parece querer tornar solidária a arte dos gregos e romanos com a arte do renascimento; essa arte bela, pura, e nacional dos antigos com a arte caprichosa, polvilhada, cortesã e regreira do século de Luís XVI. Hoje não é lícito ignorar as diferenças que há daquela a esta: ignorar que além de outras coisas duas regras essenciais para os modernos faltam entre os antigos as unidades de lugar e de tempo, e que vice-versa entre os antigos havia no teatro os coros que os clássicos modernos deixaram, bem como a música tanto dos coros como da cena, a qual fazia que o drama fosse então o que é hoje a ópera italiana, ou a vulgar, onde esta existe.
Senhores: o drama moderno nasceu dos mistérios ou representações religiosas da idade média: o caráter essencial dos mistérios era o vestir o ideal cristão — e o nome o está dizendo — com as formas da vida real, e a vida real era então como hoje, como sempre, uma indistinta mistura de lágrimas e riso, de paixões vis e nobres, de infâmias e de grandezas. Nos mosteiros onde o drama começou, se reuniam os extremos opostos da sociedade: o monge era a um tempo sacerdote e jogral: a ignorância vegetava aí ao lado da ciência, a crápula ao lado da modéstia e da virtude, o folguedo e o bom humor ao lado da penitência, os grandes crimes ao lado da pura inocência. Então o monge a quem a natureza fizera poeta, tendo quase por únicos estudos a história simbólica dos hebreus, as sublimes invenções da sua poesia, e esse evangelho tão ideal desde a primeira até a última página, não conhecendo o drama antigo, fazia, sem o saber, uma transformação na arte dramática e começava essa escola moderna, salva apenas na Espanha e na Inglaterra no século XVII e restaurada hoje em toda a Europa com mais brilho, e aperfeiçoada pela filosofia. O caráter desta escola é na essência um contraste completo com a antiga: esta tomava o mundo real, positivo e até trivial e vestia-o de formas ideais: os caracteres, as paixões, as situações procurava-as na vida quotidiana: nas expressões, na frase é que estava a poesia, e é por isso que o poeta antigo carecia dos coros para aí principalmente derramar as harmonias da sua alma; é por isso, que Sófocles, ou Eurípides não compreenderiam o drama em prosa; é por isso que o teatro dos antigos não separava a música da letra, porque a tragédia não era senão uma larga elegia sobre as amarguras da existência ordinária; a comédia não era senão uma sátira, um escárnio contra os vícios e as ridicularias da vida comum. Pelo contrário o teatro da idade média buscava no ideal paixões, caracteres, situações. Onde achamos nós essas mártires tão suaves, tão aéreas, tão amorosas de um objeto sumido nas profundezas do céu? Onde achamos esses demônios chocarreiros e perversos, cujos motejos e risadas infernais nos fazem ao mesmo tempo rir e tremer? Onde esses corações, ao mesmo tempo tão robustos e tão delicados, dos cavaleiros do romance e do drama da idade média? — Nos mistérios e nos autos; e os mistérios e os autos são ascendentes do drama atual: as Ângelas, os Mefistófeles, e os Hernânis não refusam a sua árvore genealógica.
Esta Família, nobre, porque, como as Famílias humanas, vai entroncar-se na idade média, teve um tempo em que caiu na abjeção: foi quando os paços a rejeitaram; quando apareceu outra, que se chamava mais ilustre; outra que se dizia de mais antiga ascendência, aparentando-se com gregos e romanos: mas a crítica mostrou que isto era falso, a filosofia que, ainda sendo verdade, não era tal razão bastante para a preferência. Esta é em resumo a história das vicissitudes da arte.
Há ainda duas proposições no prólogo da Casa de Gonçalo as quais a Comissão entendeu que não devia deixar passar sem fazer sobre elas alguns reparos. Consiste a primeira em dizer que os modernos destruíram o princípio do desenvolvimento lógico dos caracteres, ou como o autor e a sua escola lhe chamam— a unidade de caráter. De todas as acusações que se podiam fazer à escola moderna esta é a mais infundada. Condição absoluta da arte atual é essa unidade dos caracteres, e neste ponto a Comissão não recearia de estabelecer paralelos entre os melhores dramas clássicos e os dramas de segunda ordem, escritos debaixo da influência dos novos princípios, certa de que a vantagem ficaria sempre ou quase sempre aos últimos. Consiste a segunda proposição em afirmar o autor que todas as regras acabaram com Hugo e Delavigne: nisto há uma falsidade e um erro de história literária. Falsidade porque não é preciso ter lido senão os prólogos de Victor Hugo ao Cromwel, e ao Rui-Blas para se ver que ainda o dramaturgo mais exageradamente liberal da escola moderna estabelece regras, que a Comissão não avalia aqui, mas que incontestavelmente o são, boas ou más. Acresce que, sem falar numa grande multidão de escritos sobre a arte dramática publicados há vinte anos, basta ler as revistas literárias francesas, alemãs, e inglesas, para ver que a crítica tem já assentado muitos princípios incontestáveis para julgar as produções do teatro, e que se em outros há diversidade de opiniões, não é isso de admirar numa escola que conta apenas vinte anos como teoria, e que é obrigada a provar a justiça da sua causa com razões e ao mesmo tempo com obras, ao passo que os defensores da antiga, firmados em monumentos e glórias seculares, desobrigados, e por ventura incapazes de criar obras de arte, não tem outro trabalho senão defender e amparar seus princípios, princípios que apesar desses monumentos, dessas glórias, dessas defensões, e sobretudo de sua antiguidade, não deixam muitas vezes de ser incertos e até contraditórios. Agora quanto ao erro de história literária a Comissão julga escusado dizer mais nada, senão que quem põe em paralelo Delavigne e Hugo, como igualmente destrutores da arte antiga, mostra que nem os comparou, nem os leu, e por certo nem um nem outro lhe deve ficar obrigado. Delavigne, o acadêmico Delavigne, que treme a cada passo de pertencer ao seu século, não se julgaria em decente companhia vendo-se ao lado de Victor Hugo, e este, que vai por ventura mais longe do que devera, crer-se-ia sujo de todo o pó dos bacamartões pedantes dos comentadores de Aristóteles, achando-se colocado a par do clássico autor da Princesa Aurélia, do bucólico autor do Pariá.
Entremos no exame da comédia.
O autor tomou por objeto nesta composição o converter em uma ação dramática um dos antigos provérbios populares, espécie de fórmulas com que o vulgo exprime muitas vezes ideias complexas. É este o que se aplica a qualquer casa malgovernada e arruinada por toda a casta de desvarios: É a casa de Gonçalo: — eis a expressão proverbial; eis o pensamento que presidiu à composição do drama. Vejamos como o autor o tratou.
Um viúvo e uma viúva são casados em segundas núpcias: ela tem uma filha. D. Farnácia é o nome da mulher: ele chama-se Gonçalo — pobre homem que se deixa governar inteiramente por D. Farnácia prezada de fidalga, caprichosa e gastadora. Gonçalo instigado por D. Farnácia pôs na rua seu filho Bernardo, moço tão sisudo e composto, quanto Leonor, filha de D. Farnácia, é tola, namoradeira e desassisada.
A família compõe-se, além dos três, Gonçalo, D. Farnácia e Leonor, de um irmão e de uma sobrinha de D. Farnácia, chamados Bonifácio e D. Doroteia; aquele é um peralvilho, frequentador de botequins, e que não pensa senão em aceitar cartas de amores; esta é uma presumida de sábia, que em todos os seus discursos mistura palavras e frases francesas, e que só lê novelas, citando a torto e a direito quantos destemperos tem lido. Um criado e uma criada desobedientes, ladrões, e desavergonhados completam aquela ninhada doméstica.
Gonçalo tem um amigo, Florêncio, a quem deve obrigações, e dinheiro, homem prudente e sério, que pretende tirá-lo da vida de abjeção em que vive, aconselhando-o sempre para que tome o lugar de verdadeiro dono da casa, e seguindo-se disto o ser cordialmente odiado por D. Farnácia.
Dois alindados frequentam esta casa, ou antes torre de Babel — Constando e Carlos: o primeiro é o namorado de Leonor.
É com estas personagens, que o autor conduz a comédia a seu fim, e a Comissão seria demasiado prolixa se quisesse historiá-la por todos os cinco atos em que ele a dividiu. Bastará dizer que à força de gastos loucos, Gonçalo se acha finalmente no maior apuro, do qual o livra o expulso e maltratado Bernardo, obtendo uma provisão para administrar a casa paterna, ajudado por Florêncio, que sendo o principal credor exige para seu filho a mão de Leonor, e faz casar Bernardo com Doroteia, a qual tem um avultado dote, a que por isso era requestada por Carlos, amigo de Constâncio, e que juntamente com ele frequentava a casa de D. Farnácia.
À Comissão parece que o drama é em geral bem conduzido, o diálogo excelentemente travado, a sucessão das cenas lógica e natural, e a linguagem acomodada ao assunto, e com poucas exceções, limpa e corrente. Estes são os méritos que julgou se davam no drama, e pelos quais seu autor é digno de ser louvado.
Infelizmente partes e circunstâncias são estas que não bastam. Obtê-las-á para as suas composições todo aquele que escrever fortalecido de estudo: mas só o gênio dá vida às obras de arte. As formas exteriores pode-as traçar mão amestrada; vida só a infunde o alento do poeta, que se assemelha ao sopro vivificante de Deus.
Os caracteres, as situações, e os pensamentos das personagens de qualquer comédia abrangem forçosamente toda a graça cômica que nela se pode dar; e nesta não há nem um caráter, nem uma situação, nem um pensamento verdadeiramente cômico. Disto ficarão persuadidos aqueles que se derem ao trabalho de ler o drama; a Comissão está pronta a mostrá-lo quando haja quem o conteste.
Do que fica ponderado se conclui naturalmente que este drama, falho dos meios de atrair a atenção dos espectadores, correrá grande risco em ser posto às provas públicas, e portanto a Comissão louvando o que há bom nele, isto é, o que propriamente se pode chamar a sua parte material, deixa ao Conservatório o resolver o que mais justo e acertado for quanto ao destino que se lhe deve dar.


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ALEXANDRE HERCULANO 
Escrito em 1840, e publicado em: Opúsculos, tomo IX, 1909.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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