sábado, 6 de julho de 2019

Como a sugestão dos meus contos influi no senso das proporções (Conto), de José da Silva Coelho


Como a sugestão dos meus contos influi no senso das proporções

Eram quatro horas da tarde no relógio da Navegação. Estava eu à espera da lancha de Salcete que, na falta da outras me levaria a Piligão. E o calor abrasador desse dia de fim de Maio, passado em Pangim, deixara-me extenuado.

Na Navegação Fluvial, os passageiros impacientavam-se. Iam até ao extremo do cais, alongavam a vista para as bandas de Ribandar, e discutiam se seria ou não a lancha de Salsete um ponto escuro que se avistava,

Para sacudir a modorra que me ia entorpecendo os membros, levantei-me do banco onde estava e fui, por minha vez, até ao cais.

– Temos de esperar ainda uns bem puxados três quartos de hora, – disse-me o Esteves, que também estava à espera da lancha paro seguir para Ribandar.

Cumprimentei-o. Conhecia-o por o encontrar muitas vezes na lancha, nas minhas raras visitas à capital. Era funcionário público e frequentava a repartição, vindo todos os dias da sua casa de Ribandar, aproveitando a carreira de Piligão.

Mas nesse dia o Esteves não estava só. Acompanhava-o uma senhora de porte distinto, olhar inteligente, elegantemente vestida, com uma toilette cor de jambolão, resplandecente na sua beleza de mulher de trinta anos.

– Não conhece? – acudiu o Esteves. É minha mulher. E voltando-se para ela, concluiu a apresentação:

– O Sr. J da S. C.

Fiz-lhe um amável e cerimonioso cumprimento. Ela, porém, franziu o sobrolho e, com um manifesto ar de animadversão, perguntou-me:

– É o Sr. quem escreve os tais Contos Regionais para O Heraldo?

Fiquei atrapalhadíssimo. Certamente alguma das minhas críticas a tinham incomodado ou então qualquer das situações ridículas, inventadas por mim, tinha atingido alguém das suas relações.

Achei-me metido numa camisa de onze varas e quis mentir, dizer-lhe que não era eu o autor das tais histórias... Mas não havia maneira. Lá estava o marido a rir para mim com a boca escancarada, como dizendo “Faz o senhor muito bem”.

Para me ver livre da entalação, fui franco:

– Parece-me que vossa excelência não gosta dos meus contos, – disse-lhe, com sincera contrição.

Então a linda senhora teve pena de mim. O semblante, mudando de parecer a meu respeito, tornou-se mais amável. Depois, ofereceu-me um lugar no banco ao seu lado, desembaraçou-se do marido, mandando-o comprar não sei que coisas, e fez-me as suas confidências.

***

Na verdade, os meus contos não lhe desagradavam. O que, porém, a desgostava era parecerem-se sempre com pessoas das suas relações os tipos que eu punha em foco. Notava também que os defeitos que nessas pessoas passavam despercebidos, salientavam-se – depois de ridicularizados nas personagens dos contos – de tal forma que as tornavam insuportáveis de petulância, vaidade e parvoíce.

Respondi-lhe que os meus contos não tinham outro fim que não fosse o de apontar defeitos a serem corrigidos.

– De acordo, – tornou a linda senhora, batendo-me amigavelmente no ombro. – Mas há defeitos crônicos, hereditários, incuráveis. Sou amiga de uma senhora cujo marido tem defeitos assim. Essa boa rapariga é muito sugestionável. Quando o Sr. retrata um tipo sabujo, ela começa logo a ver no marido todas as formas de um molosso: grandes caninos a saírem-lhe pela boca fora, a língua pendente, uma cauda a mexer da direita para a esquerda, e até a voz do pobre homem lhe parece um latir cantante de sabujice e servilismo. Quando o senhor mete em cena um tipo asnático a escoucear disparates, lá vê ela no marido crescerem as orelhas, o focinho alongar-se, a voz zurrante, e até tem medo de se aproximar dele, com receio de um par de pinotes. Evidentemente, a pobre rapariga, sugestionada pelos seus contos, perde o sentimento das proporções. Confunde os defeitos morais com os físicos, e, na sua imaginação, aqueles lhe aparecem de uma forma tão aterradora! Ora não seja mau! Evite, de futuro, descrever tipos com defeitos do marido dessa minha amiga.

– Pois então, diga-me que defeitos ele tem, – inquiri, resolvisdíssimo a fazer-lhe a vontade.

– É mentiroso, fanfarrão, intrujão, pedante, petulante, ignorante, intrigante, meliante, – enumerou, contando-os pelos seus lindíssimos dedos.

– Basta, basta, – interrompi, tomado de susto. – Desisto de escrever, para o futuro, mais contos regionais.

***

Decididamente. A lancha pregara-nos partida. Encalhara em Combarjua. O ponto escuro que se avistava pelas bandas de Ribandar, tinha-se sumido. Não era a lancha de Salcete.

E o Esteves sem aparecer! E a pobre senhora à espera da lancha e do marido!

Então não tive remédio senão passar uma noite em Pangim, aturar os mosquitos, o calor de fornalha e o arreliante matraquear dos caminhões da “Comissão”.

Como não podia abandonar a linda dama à sua triste situação, chamei um carro, metemo-nos nele, e mandamos bater para a loja do Potiot, onde o Esteves fora comprar rendas.

E mal o carro dera volta ao Palácio, ouvimos um berro e reconhecemos a voz do Esteves.

Mandamos, imediatamente, parar o carro e desci à procura do homem. Encontrei-o no Parrongo, a beber vinho branco abafado, em companhia
de dois conselheiros.

Quando lá entrei, um deles, razoavelmente bêbado, arrotava a independência das suas opiniões; o outro convidava-me a beber também.

Fui pouco delicado. Respondi, desabridamente, que não tinha tempo e que ia levar o Esteves à mulher que o esperava. E, segurando o homem por um braço, levei-o para fora até o carro e entreguei-o à sua cara metade.

Quando me ia embora, despedindo-me do marido e da mulher, esta pediu-me um favor.

– Diga o que é, – gritei-lhe, com muito boa vontade de lho fazer.

– É que, – respondeu, – queria que o senhor escrevesse um conto e lá metesse um conselheiro bêbado.

– Um conselheiro bêbado?! – exclamei, admirado. – Um conselheiro bêbado mete-se mas no xelindró.

– Se os metessem a todos, seríamos muito felizes, – comentou o amável Parrongo, que viera até o carro, conduzindo o Esteves, que cambaleava...


Na República dos Brutos

Tenho um criadito de mesa que é muito inteligente e grande inventor de fábulas. Nos vagares, aprende a ler e tem feito progressos.

Pedru é o seu nome, já lê a Bíblia da Infância e, quando chegou à história do Noé, da sua arca e dos brutos lá enjaulados, Pedru, que é muito amigo dos animais, entusiasmou-se e, desembaraçando a voz do pigarro que lhe embargava a garganta, contou-me a seguinte fábula:

***

Terminado o dilúvio, separadas as águas superiores das inferiores, o avô

Noé despejou a sua arca e, reunindo os animais à sua roda, falou-lhes assim:

– A paz de Deus seja convosco. Graças ao Altíssimo, estamos em seco. Agora, como é preciso trabalhar para viver, vamos fundar uma república e dividir as funções do Estado por cada um dos seus membros, homens e animais. Escolha cada qual o emprego para que tiver mais jeito e venham amanhã, cada um por sua vez, mostrar-me as suas aptidões.

Dito isto, o avô Noé retirou-se e foi tomar uma grande carraspana de sumo de uvas de uma parreira que acabara de descobrir na ladeira do monte Ahrat, onde a arca estava encalhada.

***

Na manhã do dia imediato, mal Noé acabara de despertar desmoendo a camoeca que apanhara na véspera, apareceu-lhe o javali e, exibindo as suas terríveis presas, disse que queria ser comerciante.

– Não me parece que terás jeito para isso, – disse-lhe Noé, franzindo os lábios. – É preciso que me prestes provas públicas, na falta de documentos que não tens.

Retirou-se o javali e, horas depois, tornando com uma grande cabaça de vinho verde, ofereceu-a ao velho em troca de licença para comerciar. Noé, que já gostava de vinho, provou-o e, dando um estalido com a língua, aprovou:

– Bela pinga! Está deferido o teu requerimento.

E fez do javali comerciante. Mas, horas depois, teve uma cólica terrível, seguida duma disenteria. Aflito, supondo que fora envenenado pelo javali, mandou-o chamar e perguntou-lhe como fabricara o vinho que lhe dera.

– Da maneira mais inocente do mundo, – respondeu-lhe o javali – adicionei ao bagaço que estava no lagar, as parras que pude arrancar à videira e espremi tudo na cabaça. Tu descobriste o vinho para beber, eu inventei a zurrapa para vender.

– Grande maroto! – berrou Noé. – Não te posso tirar a licença concedida, mas, em castigo da tua falta de lisura no negócio, ficarás sendo, de ora em diante, porco.

E assim nasceram os primeiros comerciantes porcos.

***

Durante o tempo em que Noé esteve doente, surgiram várias questões entre os animais e, por isso, logo que se viu livre da disenteria, resolveu criar o ofício de advogado e mandou afixar editais, anunciando exames a ver se apareciam candidatos.

Compareceu um camelo e, fazendo gingar, nas suas enormes pernas, as suas duas corcovas e o seu comprido pescoço, fez uma respeitosa mesura ao velho examinador e começou a discursar:

– Ilustre e respeitável borrachão, não te assustes com a minha estupidez e com a minha ridícula figura. Bem sei que para se ser advogado é preciso ter muita ciência e manha, mas está escrito no grande livro do destino “dos advogados serão borrachos os que tiverem ciência e manha; e os que o não forem, serão estúpidos e ridículos...”. Eu não tenho ciência nem manha, mas, em compensação, passo oito dias sem beber. Mereço bem o diploma de advogado.

– Está bem! – replicou-lhe o velho. – Fica deferida a tua pretensão, mas terás carta para Timor. Os camelos que cá tenho chegam e sobram.

***

Para evitar questões e demandas entre os animais e a consequente exibição da estupidez do advogado camelo, decidiu-se Noé a educar o público dos seus brutos e, para isso, quis fundar um jornal, procurando, desde logo, um jornalista para o redigir.

Pretendeu o lugar um papagaio e, para provar as suas aptidões, começou a falar em assuntos tão desencontrados, manifestando opiniões tão disparatadas, que o velho Noé, aborrecido, para o fazer calar, deu-lhe o lugar de redator e encarregou-o da seção da administração pública.

Mal tinha acabado de se ver livre do papagaio quando, abanando as orelhas, surgiu o burro e deitou o seu requerimento.

Queria ser conselheiro do governo da república dos animais e ditar leis.

– Não pode ser! berrou Noé, iracundo e fero. – Já estou farto de encher de incompetentes e de malandrins as funções públicas. Era o que agora faltava, um burro feito conselheiro.

— Hi-ham, hi-ham, hi-ham, ham, ham, ham!!! – zurrou o burro, atroando os ares e fazendo tal alarido que o velho Noé, aflito, fechando os ouvidos com as palmas das mãos, gritou-lhe:

— Está bem! Está bem! Ficas eleito conselheiro, mas agora cala-te pelo amor de Deus, cala-te. Poderás depois zurrar à vontade no Conselho do Governo! – E ia fugir em direção à arca quando um enorme gorila, alto, forte e espadaúdo, de fenomenais patas e enormes queixadas salientes, embargou-lhe o passo e, com um salam tipicamente oriental, pediu-lhe, insistentemente, que o fizesse negociante, jornalista, advogado e conselheiro ao mesmo tempo.

O velho Noé olhou-o embasbacado e, admirado da sua petulância e do seu atrevimento, perguntou-lhe em ar de chacota:

– Pois bem! Vamos lá ver o que tu sabes fazer!

– Sei tudo! respondeu-lhe o gorila com grandes ares de bazófia e de impertinência. – Não há nada neste mundo que eu não saiba. Nasci sábio e hei-de espantar o mundo dos animais com a minha ciência, com o meu saber! Sou o mais inteligente da família dos brutos!

Ao que Noé retorquiu-lhe, condescendente:

– Grande bruto, das costas era preciso tirar-te a pele. Mas como já fiz comerciante ao porco, jornalista ao papagaio, advogado ao camelo o conselheiro ao burro, que são tão incompetentes e pedantes com tu, ficas sendo, de hoje em diante, tudo o que quiseres...

***

Achei muita graça ao Pedru e à sua fábula e, como prêmio à sua fértil imaginação, dei-lhe a ponta do charuto que estava fumando e creio que ficou bem pago.

Perguntar-me-ão o porquê:

– Bem paga com a ponta dum charuto uma fábula tão engraçada?! que, por estes tempos, certos comerciantes, jornalistas, advogados e conselheiros, não valem a ponta dum charuto...

As duas paixões do Bonifácio Monserrate

Nunca, em época de exames do Liceu e da instrução primária, correram tantas cartas de recomendação, nem para o provimento de um emprego público se moveram tantas influências, quantas foram precisas para o Bonifácio Monserrate ser nomeado vogal da comissão arqueológica.

A arqueologia era uma das suas paixões, porque o colocava – supunha ele – ao nível dos intelectuais da terra.

Tendo completado os seus estudos do curso do Liceu, Bonifácio Monserrate pensara em ir para Coimbra cursar o Direito e ingressar na magistratura colonial, mas, sendo filho único, seus pais opuseram-se à sua partida para a metrópole, alegando o risco, que o jovem estudante corria, de perder lá a sua fé religiosa, que na família era tradicional, e lembrando-lhe que a casa dos Monserrates tinha dado ao catolicismo, em três gerações seguidas, uma dúzia de padres.

Agora, resignado a ser simples advogado provisionário, o Bonifácio Monserrate, de cada vez que o Dr. Noronha publicava um livro, dizia, batendo na testa:

– Se não fora aquela caturrice dos velhos em não me mandarem para Coimbra, estaria hoje feito magistrado e teria escrito todos aqueles livros.

Nomeado vogal da comissão de arqueologia, o Bonifácio Monserrate – que não podia lançar um olhar introspectivo nem ver o que tinha na sua caixa craniana – pensou em escrever um livro e começou a estudar todos os velhos e poeirentos registros de nascimentos e óbitos, que jaziam arrumados nas estantes da paroquial, para ver se reconstituía a história dos doze padres que sua casa dera ao catolicismo.

Depois começou as suas pesquisas no escuro e bafiento malló da casa. Revistou os velhos armários, os antigos baús de tampa partida, os boiões de louça de Macau, e, estando a perscrutar certas cantos e recantos, deu um berro de triunfo: abaixo da tábua de uma velhíssima e inservível caixa de retrette descobrira, embrulhado nuns trapos, um par de chinelas de seda carmesim.

Entusiasmadíssimo com o achado, o Bonifácio pegou, com infinito cuidado e grande solicitude, nas velhas chinelas, apalpou-as, cheirou-as, beijou-as, e, trazendo-as para o seu gabinete de trabalho, começou as suas investigações arqueológicas, fazendo profundas conjecturas sobre a sua descoberta e dizendo com os seus botões:

– A seda carmesim só é apanágio dos prelados domésticos e camareiros secretos de Sua Santidade. As chinelas daquele estofo só podiam ser de qualquer

dos tais doze padres de sua casa; logo, qualquer dos tais doze padres fora prelado doméstico ou camareiro secreto da Sua Santidade. Mas, qual deles? O caso, a averiguar, era bem bicudo.

Subitamente, lembrou-se de uma tia velha e rabugenta, que vivia paralítica há mais de dez anos, e o Bonifácio Monserrate, radiante, com as chinelas nas mãos, correu ao quarto da velha, a informar-se.

A velha estava a dormitar – talvez a recordar em sonhos os seus belos tempos da mocidade, em que, linda e airosa, no seu antigo traje de taropa e baju, ia missa fazendo a admiração dos rapazes do seu tempo – quando o Bonifácio irrompeu pelo quarto dentro, ofegante, radiante, triunfante, e, apresentando-lhe as chinelas, perguntou-lhe se as conhecia.

Então, o rosto da velha iluminou-se de uma celestial alegria, e, com um choro de contentamento, agradecendo aos céus em altos brados o achado, arrebatou as chinelas, que apertou, comovidamente, ao peito, e explicou:

– Sim, aquelas chinelas conhecia-as ela: tinham sido furtadas por uma criada há muitos anos, e debalde as tinha procurado por toda a parte. Eram suas e faziam parte do seu antigo traje de taropa e baju com que contava ser enterrada. Sim, era Deus quem lhas mandara, porque a morte estava próxima.

Como por encanto, dissipou-se a alegria e o entusiasmo triunfante do Bonifácio Monserrate, que, despeitado, furiosíssimo com a velha, lhe gritou de punhos cerrados:

– Ó tia! Que imprudência! Que desleixo! Deixar ao alcance dos criados umas chinelas de seda carmesim! Isso podia dar lugar a uma confusão histórica!!!

***

A outra paixão do Bonifácio eram os bacharéis pela Universidade de Coimbra – não os indianos formados na metrópole; por estes nutria uma secreta inveja, e tinha-lhes raiva – mas os bacharéis europeus. E, ampliando a sua paixão, começou a adorar todos os europeus civis, porque aos militares, embora oficiais de engenharia, taxara-os de tarimbeiros e não lhes ligara importância; e, não passava europeu algum à paisana, conhecido ou desconhecido, sem que o Bonifácio Monserrate o cumprimentasse logo, com rasgadas barretadas, e procurasse por todos os meios aproximar-se dele e ser-lhe agradável.

Ora, sucedeu que Cipriano Cantina, soldado de infantaria europeia, que estava em diligência nas Obras Públicas, andasse à paisana enquanto olhava pelos concertos da estrada que se estavam fazendo na aldeia do Bonifácio. Este, apesar de o Cantina estar muito queimado pelo sol e mais escuro que um cantoneiro, conheceu pela fala que era europeu e, supondo-o civil, imaginou-o logo engenheiro. Daí a jazê-lo bacharel em Matemática não ia um passo, e logo o Bonifácio começou a fazer rasgados cumprimentos ao passar e repassar pelo Cipriano Cantina, que este ficou muito admirado de uma tão subida consideração por parte de um ilustre advogado.

***

Numa noite, havia uma soirée de casamento em casa de um alfaiate da aldeia onde o Cipriano Cantina estava em serviço, e, como o rapaz já lá tinha feito conhecimento, foi para aí convidado.

Cipriano Cantina tinha um namoro com a filha do taberneiro, que devia ir para a soirée e com quem prometera dançar uma polca espanhola – única dança que conseguira aprender na sua terra – e não querendo faltar à sua promessa, nem perder uma tão boa ocasião de se divertir numa terra onde não havia arraiais e ‘Noite de S. João’, começou a andar pelas casas de todos os amigos e conhecidos a ver se conseguia alugar uma casaca; mas trabalho baldado: todas as casacas estavam tomadas para a soirée do alfaiate, e o Cipriano Cantina, depois de muitas diligências, só conseguiu arranjar umas calças pretas, um colete branco, uma gravata branca e uma sobrecasaca velhíssima.

Assim vestido, estava o Cipriano Cantina próximo à casa da reunião, no se atrevendo a entrar, consciente do seu ridículo traje, e, mirando invejoso pela janela todos os cavalheiros elegantemente postos nas suas casacas passadas a ferro quando reparou no Bonifácio Monserrate que, por mera condescendência para com o seu alfaiate, fora à soirée de casamento e, lembrando-se dos rasgados cumprimentos que o Monserrate lhe faria, aproveitando de um momento em que o homem viera à janela, acenou-lhe com a mão.

O Bonifácio Monserrate, sentindo que alguém o chamava, inclinou-se para ver melhor, e, tendo-o reconhecido pelo reflexo da luz, que dava em cheio no rosto do Cantina, correu pressuroso a oferecer-lhe os seus préstimos.

Então o Cipriano Cantina, que não lhe sabia o nome, tratando-o por caro doutor, explicou-lhe que, tendo sido convidado para a sua reunião pelo mestre alfaiate, para não ser indelicado, queria entrar em casa, cumprimentar os noivos e sair imediatamente e, como não tinha casaca, pedia ao caro doutor que lhe emprestasse a sua somente por cinco minutos.

O Bonifácio Monserrate que, vendo na meia escuridão o Cantina de sobrecasaca o tomara por autentico bacharel em matemática, não se fez rogado, e prontamente, despindo a casaca, entregou-a ao rapaz que, desembaraçando-se da sua velhíssima sobrecasaca, envergou a casaca do Bonifácio e se enfiou pela casa dentro.

Passaram os cinco minutos do prazo; passaram outros cinco, passou meia hora, passou uma hora... e o Cipriano Cantina, muito entusiasmado com a sua namorada e com a casaca do caro doutor, que lhe ajustava como uma luva, não se lembrara de sair, Bonifácio Monserrate via-o pela janela aos saltos, dançando desalmadamente polcas, valsas, calidónias, pulando num só pé de uma forma tão cômica, que, pela primeira vez duvidou da autenticidade do bacharel em matemática e, como a noite esfriava, envergou a sobrecasaca do Cipriano Cantina que até então trouxera, respeitosamente, ao braço; mas, sentindo o cheiro a bafio e a coisas velhas a que tresandava a velhíssima sobrecasaca, percebeu o logro em que caíra: nunca uma pessoa que trazia uma sobrecasaca daquelas podia ser bacharel.

Mas não havia remédio; e, pacientemente, esperou o fim da reunião, encostado a uma palmeira.

Só às cinco horas da madrugada é que o Cipriano cantina, saindo a suor da casa do alfaiate, devolveu-lhe a casaca.

Foi desde então, que a paixão do Bonifácio pelos bacharéis esfriou muito.

Hoje, quando vê um europeu, não o cumprimenta logo, nem mesmo de longe, com uma rasgada barretada: espera, prudentemente, que se aproxime, e depois de, minuciosamente, o observar faz-lhe um vagaroso e respeitoso cumprimento.

Quanto à sua paixão pela arqueologia, está na mesma: escreve asneiras sobre asneiras. Ela é já nele moléstia grave e incurável, dando-lhe de há muito direito à aposentação.

Veio cá passar as férias grandes, com seus pais, o pequeno Damodara, filho do meu vizinho Quensori. Damum é o nome da família e eu gosto de lhe chamar assim.

Esse pequeno estava em Mormugão com um tio, estudou lá e passou sua instrução primária. Fala o português, veste calção e blusa, usa chapéu de sol inglês, calça sapatos, traz o cabelo penteadinho, e tem educação.

Damum vem muito a minha casa. Quando entra dá os bons dias; quando sai, sabe dizer adeus; e quando deseja levar qualquer objeto cá de casa, pede e não se apodera dele, sem que lhe seja dado.

Enquanto estou a almoçar, o Damum senta-se numa cadeira e dá-me conversa.

– Como se atreve o senhor a comer com o garfo? – perguntava-me ele, curioso. – não tem medo que as suas pontas aguçadas lhe furem a língua?

E explicava:

– Eu como à mão. Acho isso mais simples e menos perigoso.

Contudo, Damum, que é muito inteligente, aprecia os costumes ocidentais. Acha melhor comer-se à mesa, coberta com uma toalha. Censura-me, porém, o luxo de ter... um guardanapo por cada pessoa.

***

Um dia, Damum foi madrugador. Veio à minha casa, de manhã cedo, andou a procurar-me por toda a parte, e foi dar comigo num dos mais retirados quartos da casa, sentado sobre a respectiva caixa aberta, a fumar um pensativo cigarro.

– Que faz o senhor aqui, neste quarto afastado, numa atitude de abatimento, triste, cabisbaixo? – perguntou-me, comovido.

Respondi-lhe com uma das caretas características que certo esforço fisiológico provoca.

Então o rapaz compreendeu e ficou escandalizadíssimo.

– Deixar essas sujidades numa caixinha tão bem feita! – dizia ele desolado.

E tinha razão. Ele costumava exercer essas funções vitais do nosso organismo fora de casa, longe e muito longe – no quintal. Guardar aquilo, cuidadosamente, numa caixa era disparate...

* * *

Sei dum certo conselheiro, que quando vinha da província para a capital assistir às sessões do Conselho, também achava disparate mandar lavar a única camisa que trazia. Quando o criado do hotel lhe perguntava se devia chamar o lavandeiro para tomar conta da camisa, que estava imunda, o manhoso respondia-lhe, com muita filosofia:

– Para quê? Se ela fica por baixo do colete e não se vê! Também tinha razão.

Uma camisa suja é, muitas vezes, própria para cobrir uma consciência pouco limpa...

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(José Francisco da Silva Coelho - Goa: 1889-1944)
Texto-base:
Da tese de: João Figueiredo Alves da Cunha, sob o título: "Entre melindres e espertezas: personagens malandras, nos contos de Lima Barreto e José da Silva Coelho". Universidade de São Paulo - USP. São Paulo, 2016.

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