quinta-feira, 18 de julho de 2019

Eça de Queirós por Raul Brandão



Eça de Queirós por Raul Brandão

O que me interessa nos livros de Eça de Queirós é o próprio Eça. Estou tal qual como aquele velho fidalgo lisboeta que dizia assim: — É uma pena que o Eça desperdice tanto talento a contar-nos o que se passa em Leiria... — É o Eça, por trás da S. Joaneira ou por trás do conselheiro Acácio, que me aflige, me surpreende ou me encanta. Como são também as excrescências do Camilo que eu adoro em Camilo e os exageros do Fialho que eu adoro no Fialho. Nas interrupções, quando o autor se esquece e declama ou barafusta, quando vem para o tablado discutir, é que eu aplaudo com delírio. Absorvo-me. Talvez a narrativa perca, o fio corta-se, aumenta a barafunda. Bem me importa a mim a barafunda! Lá estão os autores, muito mais vivos que as figuras dos livros. Já dizia o outro, um romance, um poema ou uma álgebra, são meras explicações do universo, e eu todo me alvoroço com o que o universo fez sofrer ou fez rir ao Eça, ao Fialho e ao Camilo, e só me interessa deveras a maneira como eles reagiram. O que se passa em Leiria, ou o que se passa num andar da Baixa, é efetivamente uma insignificância, não por se passar em Leiria, em Paris ou na solidão do Monte — mas por lhe faltar grandeza.

Por isso a primeira fórmula do Eça é pior que a segunda, e dela só se aproveita o debate com a ninharia, e a maneira como ele consegue, para lhe dar alma, revesti-la de ironia.

Na segunda fase da vida do Eça sente-se a influência feminina. Alguém o levou pela mão até à ternura... Eça de Queirós percebe que há na vida coisas simples, que são as coisas eternas — a pobreza, a religiosidade de certas almas que conseguem imprimir grandeza a ideias e a sentimentos, que os críticos e os filósofos desdenham. Passa então a achar-lhes sabor e encanto, e fica um tipo interessante. Não sabe se há de rir ou chorar... O ironista para um momento diante de nós, atônito, e o esnobe sai da vida como aquele Ega celebre sai do baile do Gouvarinho, vestido de Mefistófeles, com a pena partida e o vermelhão a desfazer-se-lhe na cara, derretido pelas primeiras lágrimas...

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RAUL BRANDÃO
"Eça de Queiroz: In Memoriam" (1922)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019).

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