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6/01/2020

Resenha do livro “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós



Por: Paulo Marçaioli
Blog: esperandopaulo

Resenha do livro  “O Primo Basílio”, de Eça de Queirós
“Aquela conversação enervava Luísa; numa tal generalidade do vício parecia-lhe que o seu caso, como um edifício num nevoeiro, perdia o seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visível quase o julgava já justificado.
Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquele sentimento de uma forte imoralidade geral, onde as resistências, os orgulhos se amolecem, se enlanguescem, — como os músculos numa estufa fortemente saturada de exalações mornas.”
“O Primo Basílio” foi escrito entre Setembro de 1876 e Setembro de 1877. O romance se situa numa primeira fase mais combativa da literatura de Eça de Queirós. Tratava-se da afirmação da escola literária realista sobre uma tradição romântica em Portugal. Do lado Romântico e árcade, Antônio Feliciano de Castilho (1800-1875) e Almeida Garrett (1799-1854). O romantismo literário envolvendo o subjetivismo, o sentimentalismo e o apego às tradições. Do lado do realismo preconizado por Antero de Quental (1842-1891) e Teófilo Braga (1843-1924), a objetividade, o racionalismo, o cientificismo e a crítica social.
É importante salientar que o advento do realismo literário em Portugal deu-se de forma distinta da experiência brasileira.
Não existe muita dúvida dentro da crítica especializada que o “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881) de Machado de Assis representou o advento do realismo literário no Brasil. Ocorre que o advento das “Memórias” não foi exatamente uma ruptura radical em face do romantismo literário, mas o desdobramento, ou um movimento em continuidade.
Da chamada 3ª Geração Romântica, os temas urbanos, a descrição de tipos e ambientes burgueses e uma maior adequação da narrativa às questões sociais já estavam de certa forma presentes nas obras da primeira fase de Machado de Assis. Se pensarmos num Joaquim Manoel de Macedo cujo “A Moreninha” efetivamente inaugurou o romance folhetinesco no país, deve-se levar em consideração que o seu “Vítimas Algozes” de 1869 já antecipa em muitos aspectos do realismo literário: tratava-se de uma contundente crítica do instituto da escravidão, ainda que sob o prisma dos interesses dos grandes proprietários que ocasionalmente não levavam em consideração os malefícios, os vícios e a violência mais ou menos dissimulados da escravidão junto aos senhores e seus familiares.
Já em Portugal o advento do realismo literário deu-se não como um desdobramento do romantismo mas nos marcos de um movimento de combate às tradições do passado. Estamos no contexto de meados do século XIX, quando a revolução industrial, o advento das cidades, o fortalecimento da burguesia e a expansão do proletariado provocam mudanças significativas na Europa, incluindo o campo da cultura. Autores como Darwin, Comte, Spencer, Taine e Renan são fontes de influência nas narrativas dos escritores realistas. Seria importante salientar aqui o atraso relativo de Portugal no que diz respeito a países como França e Inglaterra. No campo das ideias este atraso é identificado na literatura realista com um tradicionalismo clerical, com um bacharelismo sem raízes e vínculos com a ciência e o conhecimento, com uma sociedade, no geral, corrompida e supersticiosa. 
No caso de Eça de Queirós, tratava-se de uma verdadeira literatura de combate: no “O Crime do Padre Amaro” uma satírica e avassaladora crítica ao catolicismo português, com seus padres metidos em escândalos sexuais e ainda granjeando, com todo o cinismo do mundo, o respeito e a liderança sobre seus rebanhos. Já no “Primo Basílio” as armas da crítica se voltam não exatamente para o casamento como instituição, mas para o casamento no contexto da sociedade atrasada de Portugal. Numa carta de Eça de Queirós endereçada ao escritor realista Teófilo Braga (12/03/1878), fica esclarecido que o intuito reformador do autor do “O Primo Basílio” não se direciona ao ataque às “instituições universais” como o casamento ou a família, mas à situação especificamente portuguesa:
“Perfeitamente: mas não ataco a família – ataco a família lisboeta – a família lisboeta produto do namoro, reunião desagradável de egoísmos que se contradizem, e mais tarde ou mais cedo centro de bambochata1. No Primo Basílio que apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa: — a senhora sentimental mal educada, nem espiritual (porque cristianismo já o não tem; sanção moral da justiça, não sabe o que isso é) assada de romance, lírica, sobre-exitada no temperamento pela ociosidade (...)”.
A crítica social é voltada em primeiro lugar para o adultério envolvendo não só Luísa, mas os demais personagens secundários, como o Conselheiro Acácio e até Jorge, marido de Luíza. A traição generalizada sinaliza a prática constante da infidelidade conjugal e a falência do casamento; a crítica da ociosidade burguesa, que ainda mantém resquícios de nobreza na sociedade aristocrata portuguesa; a crítica da política e dos cargos estatais expressa no personagem Julião, primeiramente um rancoroso niilista que vê seu trabalho científico não dar frutos pela falta de contatos oficiosos; e posteriormente um Julião resignado e sem resquício de rebeldia após ser agraciado com um cargo medíocre para compensá-lo pela não aprovação no concurso. Todas estas críticas em diferentes sentidos operam pelo lado do humor e da caricatura.
A caricatura tem como característica acentuar alguns aspectos da realidade de modo a poder melhor entende-la, em que pese o risco de se cair para o unilateral e o parcial. No caso de Eça de Queirós, o intento de combate, a crítica radical da sociedade portuguesa, sociedade carola e defasada em relação às novas tendências cientificistas do séc. XIX europeu (darwinismo, determinismo, positivismo) possibilita uma leitura muito mais interessante da realidade daquela sociedade do que o projeto romântico, pautado no idealismo e no sentimentalismo. Em todo o caso, seria em obra mais adiante, como “A Cidade e as Serras” que a literatura de Eça de Queirós tomaria novo caminho, com a sua reconciliação junto à velha Portugal, lançando um olhar não tão irônico e talvez mais compreensivo sobre a sociedade portuguesa.

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1 - Festa marcada por excessos; orgia, pândega, patuscada.
Ilustração: Belmonte.

8/27/2019

Homenagens a Eça de Queirós



Homenagens a Eça de Queirós

Senhor Diretor da Revista Moderna:

Faz-me você a inesperada honra de me pedir “algumas linhas” sobre Eça de Queirós.

Devo sem dúvida o seu pedido à circunstância de haver você sabido — não posso descobrir como — ser eu um dos 3 ou 4 portugueses, (somos ainda 4?) que há mais de 30 anos admiram o Eça de Queirós.

Há mais de 30 anos já, com efeito, vi eu uma noite, na Redação da Gazela de Portugal, em Lisboa, um vulto alto e esguio, magro como um índio esfomeado, lívido como um marfim antigo. A cara, fundamente cavada a claro escuro, era ladeada de melenas corredias de cabelo muito preto, e manchada por um bigode muito preto, por duas sobrancelhas muito pretas, por dois olhos muito pretos, luzindo entre os grossos aros, muito pretos também, de grandes lunetas escuras. Este vulto estava completamente vestido de preto e coberto por um chapéu alto, de feltro mate, um pouco cônico, como se usou nos fins do século XVI, e se vê nos retratos de Philippe II de Espanha.

Esta lúgubre pessoa era o Eça de Queirós. Na Gazeta de Portugal, onde entretanto se revelavam, com pronto e unânime aplauso, alguns dos mais influentes estadistas e estimados literatos do país, os Contos fantásticos que o Eça de Queirós publicava, — “os seus abutres”, como ele próprio lhes chamava, — eram apenas assunto de chacota: citavam-se sobre eles ditos de espírito decisivos do Teixeira de Vasconcelos e do Severo — do Severo do Espírito Santo.

— Tem talento este rapaz, — dizia o Teixeira de Vasconcelos.

E depois duma pausa, gaguejando, acrescentava:

— E pena ser completamente doido, ter estado cm Coimbra, e... e... escrever em francês.

E a hilaridade que hoje o Eça de Queirós produz com os seus escritos humorísticos, era então provocada pelos seus escritos trágicos, nas poucas pessoas que distraidamente os olhavam.

Quando a Gazeta de Portugal publicava algum folhetim do Eça de Queirós (As memórias duma forca, O senhor Diabo, Os Corvos) eu lia-o, relia-o, tornava a lê-lo, e insultava, intolerante, as pessoas que, por dias, ousassem chamar-me a atenção para escritos dos festejados lisboetas da época.

Por anos o Eça de Queirós deixou de escrever; e ninguém deu por isso senão eu, que, ao ver o que por esse tempo se publicava em Portugal, pensava sempre:

— Se o Queirós escrevesse! Quando o Queirós escrever!...

Convivemos então intimamente e fomos muito amigos.

Tudo isto se passou há mais de 30 anos. Há 30 anos o Eça de Queirós era, na completa despreocupação mundana e social dos seus 20 anos; no seu desinteressado, profundo e cintilante desdém idealista por todas as pessoas, por todas as coisas oficiais, por tudo que é irracionalmente convencionado; na forma do seu espírito e nos seus ditos incomparáveis — a mais forte e original figura de artista que jamais existiu em Portugal.

Trinta anos passaram.

Hoje o Eça de Queirós não tem senão admiradores em Portugal e no Brasil, — o que na verdade me inquietaria se eu não soubesse que muitos desses admiradores atuais fornecem ao genial romancista do naturalismo português o seu mais precioso assunto, e que todos eles hão de ficar, fixados para sempre, muito mais vivos e interessantes do que realmente são, nas obras do grande Escritor

Podia encher volumes com recordações do Eça de Queirós, que me não cabem, é claro, nas “linhas”, que você me pede, e que decerto eu já excedi.

Do Eça de Queirós deve dizer-se julgo eu, em resumo, o que se não pode dizer de mais ninguém em nenhuma outra nação: que ele é essencialmente único, — absolutamente único, — na Literatura do seu país. E é um problema interessante que eu ofereço ao estudo dos críticos, discípulos de Taine, o de descrever o Eça de Queirós como um Literato português. O que ele é, entre os primeiros escritores de todas as nações e de todos os tempos, é um dos que mais poderosamente tem  possuído, no mundo, o dom de criar vida. Mas é talvez uma novidade para os numerosos admiradores atuais do humorismo e do realismo do Eça de Queirós o informá-los de como ele é, ao mesmo tempo também, um grande criador fantástico e, quando quer, um grande poeta em verso.

É pena porém — permita-me você que eu aqui o lamente — o não ser possível já agora dizer do verdadeiramente grande artista que é o Eça de Queirós, coisa que todos os dias não escrevam os expansivos e hiperbólicos portugueses e brasileiros de milhares de medíocres pessoas do Brasil e de Portugal.

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J. BATALHA REIS
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

8/26/2019

Eça de Queirós - O escritor por excelência (Resenha)



EÇA DE QUEIRÓS, O ESCRITOR POR EXCELÊNCIA

Há meses apenas num jornal de lá-bas, dessa clara e dormente Lisboa dos pregões, dos mármores, das varinas e do sol, eu escrevia, a fechar um artigo, estas linhas:

“A cerrada ignorância do nosso meio, a inveja que como os ventos da peste açoita desapiedadamente as grandes estaturas, preguiças e indiferenças moles do nosso temperamento de meridionais neo-árabes, fazem com que, a nenhum dos grandes homens de Portugal, exceto não sei por que bendito acaso João de Deus, que, nesta década de agonia cerraram os olhos para a vida fosse dada a consoladora ventura de assistirem a um espontâneo movimento da opinião em seu favor, de apoteose festiva e grandiosa da sua obra, do seu gênio e do seu caráter. Morto para a jucunda luz que as pesadas cortinas das suas pálpebras não deixaram entrar a banhar o íris dos seus olhos magoados e taciturnos, espectro de si mesmo, gênio que a desgraça maior ainda tornou, não sei quantos anos Camilo errou trágico e desvairado pela vida sem que a clamorosa voz de todos nós dizendo-lhe quanto amávamos a sua obra levasse um relâmpago de alegria à noite sem astros daquela alma; para uma ilha dos Açores deixamos partir, a caminho do suicídio, esse Imenso e Santo Antero, um dos mais altos gênios e dos mais puros caracteres que a humanidade tem produzido, sem que lhe saíssem a embargar os passos as nossas rosas, as nossas palmas e os nossos beijos; e por último deixamos agonizar e morrer sem um murmúrio doce de ovação esse dramaturgo extraordinário, espécie de Shakespeare da nossa história, Oliveira Martins, o imortal autor da Vida de Nun’Álvares. Sirva-nos esta lição para o futuro de contrita emenda para o nosso erro. Que nós, os moços, não esqueçamos a primeira oportunidade para promover a consagração a que têm direito quatro ou cinco grandes espíritos que, pelo seu gênio e pelo seu caráter, honram a terra portuguesa. Eça, o nosso grande e poderoso romancista, em primeiro lugar, dois ou três poetas e um crítico que pelo seu trabalho constante é um nobre exemplo à confiada e risonha indolência de todos nós, em seguida.”

Pouco tempo volvido sobre a publicação deste artigo, à notícia que por um comum amigo eu recebera da ida de Eça de Queirós a Portugal corri à casa do Antônio Nobre e Justino de Montalvão para combinar a apoteose a fazer-lhe. O genial romancista não saiu porém de Paris e agora, mal chego à tumultuosa capital do mundo, tonto ainda e meio deslumbrado, recebo a boa nova de que altos e nobres espíritos vão dedicar na bela Revista Moderna um número de consagração a Eça de Queirós. Bênçãos caiam sobre os que tiveram tão formosa ideia — e a realizaram.

Eça é a mais culminante eminência das letras portuguesas no nosso tempo e, como artista, o mais supremo, o maior dos cinco séculos de literatura nacional. Garrett, que foi um admirável artista também, é diminuto ao seu lado e não sei na verdade que haja a esta hora na Europa nenhum outro cinzelador da forma, tão inquieto e tão perfeito, tão requintado e tão ateniense, como poucos são também os escritores que o igualem e raros os que o excedam. Ele é um Antônio Vieira que à sonoridade e à força juntasse a sensibilidade e a delicadeza de Garrett e a ironia de Tacheray e de João Paulo Richter.

Comparados com os seus livros o que vale o diletantismo cerebral de Barrès, interessante e agudo de resto, o preciosismo fino e nervoso dos Goncourt, a analise infinitesimal de Bourget, examinando os corações das parisienses com uma lente de relojoeiro? A obra de Eça é como uma cidade de mármore, cheia de sol, perfumada de rosas e sob um céu eternamente calado e azul. Nas suas ruas agita-se, com movimento próprio e vida ordenada e calma, uma colmeia d'almas. E o bom Jorge do Primo Basílio, o Padre Amaro, a Amélia e a São Joaneiro do Crime, a doce Maria Eduarda dos Maias, o Carlos, o portuguesíssimo Raposão da Relíquia, o frascário Teodoro, o mefistofélico João da Ega e a galeria suprema dos grotescos — o Conselheiro Acácio, o Visconde Reinaldo, Steinbroken, os Gouvarinhos, o Tomás de Alencar.

A ironia do autor desse maravilhoso Mandarim é, quanto a mim, a qualidade dominante do seu gênio e dela resulta aquele seu doce ceticismo, que longe de ser metálico e amargo como o do autor da Thais, trai ainda a ancestralidade portuguesa de Eça, a bondade da admirável raça de amorosos e de poetas donde brotamos.

Por ele Eça muitas vezes recorda-me o fino e agudo Renan.

Ao admirável criador d'almas, ao Fídias da prosa portuguesa que primeiro a desarticulou, lhe tirou a rigidez clássica e a tornou dúctil e sonora, capaz de se adaptar a todos os assuntos, vestir todas as ideias, exprimir todos os estados de consciência, grafar todas as sensações, fixar todas as cismas, falta porém e apenas uma coisa — crer.

Ah! acreditasse ele com devoção e a impossibilidade, tão filosófica e tão alta embora, de Flaubert não o tocaria, nem o amargo pessimismo do genial espírito, que sonhava gravar nos símbolos eternos da Tentação e de Pécuchet toda a vida moderna o todos os mundos desaparecidos e idos o invadiria florindo dos venenos do tédio as páginas luminosas o, serenas da sua obra de latino, nascido nas baías doces do Atlântico, pertencendo ao claro país das uvas loiras e provindo da magnificente raça dos domadores das tempestades e dos ventos que outrora haviam defrontado o Adamastor e conquistado as Índias. Tivesse ele fé; pusesse ele hipnotizado como um bardo seus grandes olhos escuros na Estrela da Manhã, que ascendendo das grutas da noite vem já anunciando Aleluias e Redenções, os paraísos d’Amanhã; acendesse a Esperança, à sua volta iluminações e relâmpagos proféticos e a sua obra teria uma amplidão e ressonância sem igual, banhar-nos-ia duma emoção mais fecundadora e larga e a alma verdadeiramente poética e boa que nela bate, sentir-se-ia voluptuariamente cantar o hino augusto e supremo da Vida Integral e Livre.

Então Eça seria igual a Ibsen e a Zola, superior a Tolstoi, maior ainda que esse epilético e grande e dispersivo gênio de Dostoiévski e a sua bela obra revolucionária do Crime, do Basílio, da Relíquia e dos Maias irradiando dum foco de concepção sintética, teria uma ação mais ampla e demolidora. O gênio de Eça, labareda sagrada, em vez de criar Almas, criaria Mundos.

Mas se o romancista não é um Profeta e um Precursor, o austero solitário de uma ideia, é para mim o maior artista da Europa e dos quatro primeiros escritores do seu tempo aquele que, no conflito eterno da Beleza, soube bater-se com maior galhardia e depois de ter percorrido as cinco partes do mundo da visão à olímpica Atenas regressou vencedor, como um Alexandre coroado de rosas brancas e de mirtos.

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DOMINGOS GUIMARÃES
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

8/24/2019

Eça de Queirós por Abel Botelho (Resenha)


Eça de Queirós por Abel Botelho

Não há aí quem o não conheça, com o seu agudo perfil inteligente, o seu andar ao mesmo tempo desmanchado e rítmico, a sua ampla testa arejada de gênio, o mento contumaz, o supercílio doce e profundo, no olhar zorato e inquieto uma ânsia febril de apreensão, e no doloroso franzir das pálpebras, nos vincos da longa face emaciada, no rictus de sarcasmo dos seus lábios a dolorida expressão do fantasista que o exterior avassalou, o atormentado esvoaçar da águia que se viu forçada a chatinar na lama.”

E uma das figuras primaciais da nossa mentalidade, um dos culminantes e indestrutíveis padrões da literatura e da arte. Assim como Sá de Miranda e Bernardim assimilaram e abrangeram em si a nossa época trovadoresca; assim como o gênio de Camões soberbamente encarnou o nosso período cíclico da epopeia; assim como depois Gil Vicente sintetizou e viveu na exteriorização mais popular, mais caraterística, mais humana, esse período brilhante e renovador do quinhentismo; e Castilho foi a tradição, Herculano foi um salutar lampejo medievo, e Garrett foi a galante estadeação do romantismo, — assim também o Eça apareceu aí no momento em que o liberalismo e o criticismo haviam entre nós mudado a face às coisas, e em que uma ressicadora sede de renovação agitava todas as classes, e, num unânime viroteio de vontades e desabrochar de esperanças, a mais ardida e iluminada fé ao novo ideal norteava e erguia os espíritos famintos.

Apareceu o Eça e apareceu o Antero. Este no campo abstrato; aquele sob uma forma ostensiva e concreta. Um esclarecendo os cérebros; o outro aquecendo as almas. Por isso a influência do primeiro foi mais apreensiva e mais prática, teve um mais largo âmbito de aplicação, e, para quantos se interessam pelas manifestações intelectuais, para quantos olham e abraçam com amor os grandes mestres dominadores do Verbo, a larga figura, afilada e nervosa do autor do Crime do Padre Amaro ficou perenemente lucilando, como um símbolo sobre os escombros fumegantes do passado.

Assim, a sua aparição e manifestação não foram um mero acidente morfológico, antes cientificamente representaram uma consequência e vieram corresponder a uma iniludível e real necessidade. Motivo pelo qual a sua obra monumental, depois de haver sido num dado momento, como que um estrídulo grito de clarim, um vitorioso emblema guerreiro, ficou perduravelmente constituindo para as gerações subsequentes um dogma sagrado e resplendente. O Primo Basílio é uma bíblia. Os Maias, a Relíquia são outros tantos inapagáveis versículos dessa maravilhosa pandeta, para sempre viva, ardendo no nosso espírito, e que a rudes golpes de analise abriu sulco no dolorido espanto da nossa alma.

Por isso todo o bom português ama, admira e adora esse formosíssimo, portentoso e colossal edifício literário, todo em ricos mármores, traçado em largas linhas de síntese, baldaquinado de aladas fantasias, da mais imaginosa e bela eurritmia, rigoroso e fantástico, idealista e pagão, opulento de imagens que são espelhos, de conceitos que são colunas, de conclusões que são como formidáveis cúpulas audaciosas, para sempre erguidas na ampla serenidade azul da nossa gloriosa história!

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ABEL BOTELHO
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Eça de Queirós e sua obra (Resenha)



Eça de Queirós e sua obra

Muitas vezes me tenho procurado explicar a razão desta espécie de febre com que a público português, o mais inteligente e o mais culto, não lê — devora, cada novo romance de Eça de Queirós. Porque nunca semelhante interesse — entre a mesma classe de leitores — despertaram os romances de Camilo, apesar do seu enorme talento e da maestria com que manejava as letras sendo de todos os escritores do século XIX o que melhor lhe conhecia os segredos e os efeitos.

E de todas as vezes tenho chegado sempre à mesma conclusão:  que o interesse que despertam os romances de Eça de Queirós, resulta do fato do seu autor ser o escritor que em Portugal, deste século, e depois do visconde Almeida Garrett, atingiu o maior grau dessa cultura literária, mundana e cosmopolita, que hoje em dia constitui a suprema aspiração do chamado — “homem moderno.”

A nossa época, é uma época eminentemente sensualista. Idealismo ninguém sabe o que seja, e ninguém ousa cultivá-lo. De quando em quando, aparecem em diferentes centros da Europa alguns espíritos que pretendem — por mero esnobismo intelectual — reagir contra esta constante preocupação de gozo raffiné, que devora a nossa época de decadência. Mas são tudo reações inúteis, porque são meramente artificiais.

O ideal do nosso português moderno e mundano, é ser como o visconde Reinaldos, oprimo Basílio, ou o Carlos da Maia; ter o ceticismo e o humour do João da Ega; atingir a cultura de Fradique Mendes; amar essas lindas flores de decadência, essas finas mulheres ligeiramente românticas, da escola de madame Bovary ou de Francillon, e que atravessam os romances de Eça de Queirós, deixando um rasto de boa perfumaria delicada e cara; e viajar como o Teodorico, com Topsius ou sem Topsius, desde as portas da Havanesa até às regiões sugestivas do Egito e de Palestina...

Como Balzac, Eça de Queirós também talhou em português uma espécie de Rastignac, símbolo do verdadeiro dândi e do apaixonado, que muda por vezes de nome, num ou noutro livro, mas conserva sempre o mesmo fundo de caráter e o mesmo cunho de personalidade. E cada homem culto, filho desta civilização que só procura avivar o espírito para o gozo materialista da existência, encontra nesse tipo desenhado por Queirós  o seu figurino, — isto é: o que ele desejaria ser, como ele desejaria pensar, e como ele ambicionaria amar...

A este atrativo puramente humano e que constitui o segredo do romance, pois toda a obra de arte não é mais do que uma concepção do mundo exterior, segundo o temperamento do artista, — há a juntar, aos livros de Queirós, essa mesma incerteza da vida moral e material, que fez escrever a Sully Prud'homme o seu livro Que sais-je?... — a mesma dúvida em que a alma moderna se debate, sem saber onde reside a suprema bem-aventurança, se no puro ceticismo, isto é, na descrença, se nas consolações idealistas duma profunda fé religiosa...

Gozo e angústia, é a quanto se resume a acanhada vida contemporânea, e que Eça de Queirós tão superiormente traduz. O autor do Primo Basílio, quando escreve, tem o condão de fazer da sua prosa de artista, um claro espelho onde se reproduz nitidamente a elite da sociedade moderna.

Não há homem mundano que nessa obra não encontre um qualquer farrapo da sua alma; nem mulher que aí não veja indicada uma das muitas lutas da sua consciência, alguma das satisfações do seu orgulho, um ou outro dos insofridos arrebatamentos do seu coração amante...

Por isso os romances de Eça de Queirós, entre o público português, são sempre esperados, não com interesse, — com voracidade!

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MARIANO PINA
Revista Moderna, 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

8/14/2019

Espírito revolucionário na obra de Eça (Crítica Literária)


Espírito revolucionário na obra de Eça

A crítica social no romance de Eça de Queirós ainda está por fazer. E no entanto que admirável estudo tentar todos os escritores que possuem uma orientação inteiramente moderna e que empregam na análise literária os processos de anotação filosófica e de definitiva conclusão científica!

Geralmente o público letrado não vê no Primo Basílio ou no Crime do Padre Amaro, na Relíquia ou nos Maias senão a evolução literária do romance, as altas e poderosas qualidades de um sugestivo artista que tem sabido compulsar como ninguém entre nós o documento humano, um raro experimentador e um observador original. Mas na obra de Eça de Queirós há mais do que pura literatura e preciosidade de estilo, há teses que o romancista desenvolve com um espírito de independência crítica e uma intuição de analista sociólogo, que raras vezes encontramos cá fora em geniais escritores da Europa contemporânea. Com a visão clara de um pensador que é ao mesmo tempo um dos primeiros artistas da língua portuguesa neste século, — senão o primeiro, — Eça de Queirós tem ferido na sua obra todos os preconceitos da sociedade burguesa, desde o absurdo e antinatural celibato dos padres católicos, no Crime do Padre Amaro e da crendice grotesca, na Relíquia, até à imoralidade do adultério "chique", no Primo Basílio, ao convencionalismo da agonizante e dessorada sociedade portuguesa, nos Maias. Sem ir até ao fim do seu pensamento como Emílio Zola, em alguns dos seis romances, o Germinal por exemplo, o grande romancista português deixa  entretanto transparecer na sua obra, bastante complexa, a aspiração vasta de integral liberdade que lhe anima o espírito de pensador inteiramente do seu tempo. E como hoje todos sabem, não são a jogralidade caduca de um anticlericalismo de melodrama nem a fraseologia vaga e vazia do jacobinismo que reclama a cabeça do rei com feijão branco, as armas de combate que podem e devem manejar todos aqueles que lutam pela renovação das almas, num futuro de liberdade e de justiça social. E, pelo contrário, a análise científica que a obra de arte reanima e aquece pelo influxo espiritual do requinte da forma, o grande instrumento demolidor por excelência.

De uma cerebração superior, Eça de Queirós como não podia deixar de ser, compreendeu também essa alta missão do escritor que tem o respeito de si mesmo e que pretende ter um lugar à parte na vanguarda dos que preparam uma sociedade igualitária e livre. Por isso nós aplaudimos o seu consciente e duplo esforço de artista e de pensador, saudando, nesse nome tão querido e tão glorioso, mais um irmão de armas na obra três vezes santa da demolição de todos os preconceitos de casta e um precursor da humanidade feliz e libertária de amanhã!

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XAVIER DE CARVALHO
Revista "Ilustração Brasileira", 20 de novembro de 1897.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Enghelberto (Conto), de Eça de Queirós



Enghelberto

Enghelberto, senescal das Ilhas, príncipe da Escânia e Senhor de Elfingor, a quem outros também chamavam o Cavaleiro de Estanho, era, na loura e corada flor dos seus vinte e três anos, o mais duro pecador da cristandade.

Em toda a Dinamarca se contava que seu avô, o velho Ulfan, para o tornar bravio e estranho a toda a doçura, lhe dera a chupar no berço corações de ursos ainda sangrentos.

Enghelberto tivera por mãe a filha deste chefe temeroso, a duquesa Tifânia, "Tifânia soberbíssima" ou "Tifânia dos peitos altos" — pois sob estes dois nomes a celebrou, em versos latinos, Hinkmar, deão da Sé de Roskilde — a tão falada Tifânia, que em moça, vestida de couro e com um casco de ferro, comandara uma frota de piratas, estrangulara o conde Magnus, seu primeiro marido, vivera depois em apregoada e triunfal concubinagem com o abade do Mosteiro de Soroé, e por fim desposara o príncipe da Escânia, moço néscio e risonho que tinha lindos cabelos cor de ouro. Mas o pai de Enghelberto, nem Tifânia decerto o conhecia, porque andando o príncipe da Escânia e a sua hoste a guerrear com Canuto IV contra o margrave de Visgrath, ela alternadamente recebia no seu leito, aberto e tumultuoso como uma praça pagã, um cavaleiro de Aquitânia, foragido na Dinamarca, um carniceiro, cujos braços felpudos e sujos de sangue, jogando a barra na festa de Santo André, a tinham maravilhado, e o cardeal de Modena, legado do Papa.

Quando Enghelberto nasceu, todas as tochas e lâmpadas do castelo de Kolnor — assim o juraram o vílico e as aias sobre os Santos Evangelhos — se apagaram bruscamente, e as que estavam apagadas começaram, maravilhosamente, a alumiar com uma luz muito clara e muito firme. Depois, ao fim de três dias, Tifânia morreu, sem agonia, ditosa e serenamente, soltando um pequenino suspiro de entre os lábios onde errava um sorriso de virgem que dorme, cansada, depois de uma festa, e que sonha com as grinaldas, as sedas, os lumes e as cadências doces das harpas. Sobre o seu corpo envolto em brocados brancos e coberto de jasmins brancos, três bispos, os de Aahruz, de Calmar e de Elsenor, espalharam o incenso e as águas lustrais e, em panegíricos facundos, declararam que a muito alta duquesa, senhora de Elfingor, tão poderosa na Terra, seria ainda toda-poderosa no Céu, resplandecendo ao lado de Deus-Padre.

O príncipe da Escânia, antes de findar o seu luto e a sua dor, porque aquele néscio moço amava a sua terrível mulher, morreu também, de uma pústula maligna. E Enghelberto, órfão de pai e de mãe, ficou com o sombrio avô Ulfan, no castelo de Kolnor, onde foi crescendo como um prodígio, em beleza e em maldade.

Ainda pequenino, à noite, à lareira, brincando junto à grande cadeira de carvalho, onde o velho Ulfan se conservava imóvel na sua longa peliça de rato da Armênia, o filho de Tifânia furtava muito destramente os alfinetes das aias, para espetar os pés nus do frade, que sobre o seu escabelo e na sombra do capuz, lia dormentemente a História das Cem Batalhas ou os Milagres de Santo Anschere. As suas aias andavam sempre arranhadas e feridas nas faces, da violência das suas mãos, pouco maiores e mais brancas que pétalas de magnólia. Desde que pôde correr pelo castelo, o seu maior gosto, o que lhe punha nos olhos admiráveis um brilho mais contente, era chamuscar com uma tocha a cabeleira crespa dos pajens ou, de cima de uma galeria, arrojar grossos escabelos sobre os serviçais e homens de armas que atravessavam a claustra.

Uma ocasião, tanto contentamento lhe dera quebrar, com uma barra de ferro, as pernas de uma velha galguinha italiana que outrora o legado do Papa dera a Tifânia, que desde então, constantemente, procurava, pelos canis e pelos aidos, algum cachorro ou anho sem defesa que pudesse torturar. Um dia que errava fora das muralhas, avistando uma velha que caminhava lentamente à beira dos fossos, vergada sob um feixe de lenha, correu de leve, sem rumor, e atirou a triste criatura à água, que felizmente era baixa e pouca porque findava o estio e havia paz em Kolnor.

Mas quando ao domingo, na igreja, sobre o estrado senhorial, quieto ao lado do velho Ulfan, com os seus lindos cabelos de ouro todos em anéis, caídos sobre o gibão de brocado, o gorro pousado no chão e as mãos postas, ele erguia os olhos docemente para o coro onde os noviços cantavam, as mulheres, pela nave, sorriam de admiração, enlevadas como diante de um anjo. E ainda depois, pelas ruas, cismavam com aqueles olhos de um azul tão luminoso, e profundo, e translúcido, como elas nunca tinham visto, nem no mar nem no céu.

A sua inteligência era singularmente clara e destra. O velho cônego da Sé de Roskilde, que vivia em Kolnor, numa torre isolada, e lhe ensinava a História Santa, as letras, os números, as divisões do Mundo e o curso dos astros, em breve soube menos que Enghelberto, e diante da sua curiosidade pelas coisas do saber, ficava enleado, tartamudeando, até que o terrível discípulo, saltando do escabelo e rindo, lhe vinha puxar as barbas ou mascarrar a face de tinta.

Chorando, um dia, o velho clérigo veio rogar a Ulfan que lhe permitisse voltar a Soroé, rezar na sua cela as suas horas canônicas. E o rude avô, que nunca soubera sequer escrever o seu nome, galhofando e de bom grado lho consentiu, no receio de que o herdeiro das suas armas e terras viesse a estragar a vida, como um rapado e macilento clérigo, entre pergaminhos cobertos de letras. Já ele andava inquieto por ver o neto mais manso, e sem aquela turbulência, aquele desdém da dor e indiferença pelo sofrimento, que são prenúncios de uma alma esforçada e soberana.

Enghelberto aprendera a cavalgar todo o ginete, e a atirar à flecha, e a manejar o montante, e a emparar de broquel, sem que através desse contato com as armas e no brio de provar destreza e força, ele se abandonasse a outras violências, além de vergastar algum cavalariço ou quebrar os dentes com o guante a algum pajem tardio. E Ulfan, com desgosto, o vira já por vezes durante as tardes macias, passear no vergel, devagar, parando a escutar o cantar dos repuxos ou a colher uma rosa silvestre à maneira de uma donzela e como se na sua alma estivessem resvalando pensamentos de graça e de doçura.

Para o desviar então da moleza, quis que ele se entregasse à caça, que acorda e aguça o gosto da guerra — e com esse intento lhe preparou uma matilha de alões e de lebréus da Bretanha, e os melhores açores e falcões que o margrave de Holtorp pôde obter na Pomerânia e no país Russiano.

Imediatamente Enghelberto se tornou um caçador violento e insaciável. Logo de madrugada, saltava na sela, e de arco ao ombro, a aljava cheia batendo-lhe a coxa, o cutelo passado no cinturão, soltava três toques de buzina, saudando o avô, que do alto da torre, embrulhado na sua peliça de rato da Armênia, as barbas a esvoaçar no vento frio, lhe acenava com a mão cabeluda. E então, colhendo sobre o guante o falcão encarapuçado de couro, Enghelberto transpunha a galope a levadiça, e desaparecia entre o arvoredo, sobre a neve dura, no meio do uivar furioso dos alões e da grita dos monteadores, armados de machados, de redes, de rojões pontiagudos e de puas de ferro.

Só pela noite cerrada recolhia a Kolnor, todo vermelho do ar agreste e do furor da matança, rouco de gritar aos lebréus, com manchas de sangue sobre o gibão de couro, cheirando a selva e a fera.

Era sobretudo a caça bravia dos javalis e dos ursos que o deleitava. Mas nem o abater dos animais, o mergulhar do cutelo nas carnes arquejantes, recebendo sobre a face os esguichos de sangue quente, nem o rasgar das peles e o arrancar das entranhas que atirava aos lebréus, lhe calmavam a febre de matança. E ainda à ceia, contando ao avô as proezas, recomeçava os longos brados do montado, cravando a faca furiosamente na madeira escura da mesa!

Mas depois, ao canto da lareira, cansado e adormecido sobre os coxins de couro, a face entre o ouro dos cabelos, com as longas pálpebras docemente cerradas e o buço lourejando como seda fina sobre os lábios escarlates e cheios de seiva, era tão formoso e parecia tão doce, que o velho capelão, pousando o breviário sobre os joelhos, murmurava para o velho Ulfan:

— Vede como há pouco era Nemrod, tão cru, e agora o tomaríeis por um menestrel de grã-gentileza, que passava e pediu agasalho.

Nem o capelão, porém, nem o velho Ulfan, o admiravam tanto na sua gentileza como Korlina, a aia especial que àquela hora preparava e trazia a Ulfan o vinho quente com especiarias. Era uma alemã do Holstein: viera com seu irmão — mandado pelo margrave para adestrar os falcões e fazer neles a delicada operação de lhes coser as pálpebras — e como se mostrara hábil em preparar os licores e os doces, ficara no serviço das cozinhas de Kolnor, que ainda eram rudes e de artes simples, como no tempo dos Jarls.

Muito tempo ela mostrara a Enghelberto, claramente, os seus desejos, nos vivos e lampejadores olhares com que o chamava. O moço, porém, que nenhum seio de mulher ainda roçara, desviava a face, corando ardentemente e hirto no seu orgulho. Mas uma tarde, no vergel onde Korlina apanhava ervas aromáticas, caiu sobre ela bruscamente, e, brutalmente, conheceu o amor.

Mas a trigueira moça foi apenas para ele como um copo onde se bebe à pressa e de um sorvo, e que se repele, saciada a sede. Bem depressa lhe enjoou as tranças muito negras e duras, os braços penugentos, a pele amarelada — e mesmo findou por a empurrar com mão rude, quando ela, surgindo nalgum sombrio corredor abobadado, lhe puxava a manga e o solicitava com uma humildade lasciva.

Já a esquecera, já ela se esbatera na turba vaga dos servos, quando, uma manhã de inverno e de grande neve, atravessando o pátio para o canil, a viu sob a funda porta da torre do tesouro, pendurada do pescoço de um cavalariço que ria alvarmente. Imediatamente a mandou agarrar, e ao pobre servo, e levar a uma das negras prisões do castelo, sob os ferros. À noite, quatro homens entraram no cárcere, amordaçaram Korlina e o cavalariço; ataram os dois corpos um ao outro, peito contra seio, com fortes cordas; estenderam aquele fardo miserável sobre uma padiola, e assim o levaram à luz de uma lanterna através da neve, para fora das muralhas, até ao fundo valado, para onde o atiraram sobre a neve fofa. Outra neve caiu e para sempre os cobriu...

E nesse momento, Enghelberto, diante da chaminé flamejante, passando a mão carinhosa sobre a cabeça fina de um galgo, exclamou de repente, rindo, para o capelão que lia num velho in-fólio:

— Rezai agora uma das vossas rezas por duas almas muito quentes que eu mandei arrefecer!

Do outro lado, de entre as grossas peliças em que se amodorrava, pesado de vinho quente, o velho Ulfan murmurou preguiçosamente:

— Conta a façanha...

Enghelberto encolheu os ombros leves:

— Uma bagatela, senhor, vilões punidos!...

E o velho chefe tornou a cerrar as pálpebras pesadas.

Toda a vida de Enghelberto se empregava na caça. Mas saciado já de abater ursos, lobos e javalis, completava agora aquela festa de matança com correrias pelos povoados e pelos caminhos, espalhando ruínas e dor. Os seus moços de caça formavam, pela multidão e pelo ruído das armas, um verdadeiro bando de guerra. Com eles, em galopes furiosos, ao estridor das buzinas, passava destruidoramente sobre as searas maduras, atravessava as aldeias, atropelando as crianças que brincavam à soleira das portas, ou, no pendor de uma colina, caía bruscamente sobre um rebanho que debandava em grande espanto, flechando as reses e o pastor. Depois, o sombrio bando, afogueado e ofegante, invadia alguma taberna à beira de uma estrada, esvaziava as pipas de cerveja, espancava o taberneiro e fazia um grande lume na lareira com os bancos partidos e as arcas escavacadas a machado.

Certa tarde, avistando na orla de um bosque uma récua de machos carregados e três mercadores que descansavam e comiam na sombra de um carvalho, galopou para eles, ordenou que lhe mostrassem os seus salvo-condutos. E ainda o mais velho, que tinha um longo nariz adunco e uma barba aguda de bode, rebuscava no peito, por dentro da simarra, com a mão trêmula, já Enghelberto gritava ao seu bando que o amarrassem, e aos dois outros, a três árvores, "porque aquelas eram decerto mercadorias roubadas!"

Debalde os três homens, já amarrados a troncos, juravam, com os olhos esbugalhados de terror, serem honrados mercadores de Nuremberga que iam à feira de Roskilde, com cartas e franquias do bispo de Tréveros!

Enghelberto e os seus homens, desmontados, já cortavam as cordas dos fardos, e iam espalhando pelo chão, com olhos chamejantes de cupidez e de pasmo, toda uma riqueza de estofos purpureados de Veneza, de couros lavrados de Córdova, tecidos de Gaza bordados a ouro, brocados de Arles, tapetes orientais, armas marchetadas, peliças da Frísia, pacotes de especiarias, frascos de essência de rosa, e azeite da Provença em botijas entrançadas de palha.

Então Enghelberto, vendo que os seus homens já disputavam com olhos chamejantes a posse daquelas coisas reluzentes e para eles estranhas, soltou um grande brado e ordenou que aquela rica presa fosse repartida segundo a lei da guerra, a lei antiga e venerável de Trotão, o Grande. E, divertido, entusiasmado com a bela aventura, quis que se cumprisse todo o velho cerimonial.

As buzinas soaram, como num final de batalha; os fardos, as mercadorias, foram amontoados em torno do estandarte de Kolnor, cravado no chão; e o mais velho dos homens de armas dividiu a presa em três lotes — porque o terço pertence ao chefe — e foi depondo em grandes braçadas, veludos, sedas, tapetes e couros lavrados, aos pés de Enghelberto, que se colocara sobre uma pedra, muito sério, apoiado ao seu grande arco. Depois, os restantes lotes foram divididos em catorze quinhões e repartidos pelos catorze homens, que o vilico chamava um a um, e que se agachavam, remexendo com as mãos escuras a doçura dos veludos, e soltavam gritos de gosto se lhes cabia alguma arma com lavores de prata, ou ficavam rindo alvarmente diante de algum espelho de marfim ou de um molho de finas rendas que desdobravam. E todos, depois, iam considerar o lote de Enghelberto, que supunham de coisas mais preciosas, por ser o lote do chefe.

Mas Enghelberto, para mostrar o seu desdém da presa, nem descera sobre ela os olhos — e repelindo, com a sua grossa bota de couro vermelho tauxeada de prata, os veludos, os cofres, as essências e as peças de baixela que ante ele se amontoavam, acenou com o arco e saltou sobre a sela.

Então o mais moço dos mercadores amarrados às árvores, vendo consumada e irreparável a rapina de tantos bens, não se conteve, e estrebuchando entre as cordas, com o pescoço esticado, todas as veias a estalar e grossas lágrimas nos olhos cor de azeviche, gritou furiosamente:

— Ladrões! Ladrões! Ladrões!

Imediatamente Enghelberto, erguido sobre os largos estribos, retesou o arco, com a flecha apontada ao peito do miserável.

Mas o vilico acudiu:

— Lume, meu doce senhor! Lume, que a flecha é arma nobre para o judeu maldito!...

E assim era pelo velho costume saxônio. Então Enghelberto mandou que amontoassem toda a sua parte da presa, misturada a galhos secos, em torno da árvore onde gemia o judeu amarrado, e que lhe lançassem o fogo que é devido aos carrascos do Senhor Jesus Cristo.

Em breve as chamas, o fumo denso, envolveram os urros, o estrebuchar do miserável. E os outros dois, ao lado, nem gemeram, lívidos de terror, quando Enghelberto lhes gritou, rindo:

— Vós outros, esperai pelos lobos!

E o bando cavalgou, partiu em grande algazarra...

Era a estação doce e triste em que nunca anoitece — e o Sol ia alto no ar fino, com um brilho lívido de ouro embaciado. Pelos rudes caminhos, recolhendo a Kolnor, a cavalgada trotava, ruidosa, estranha e mais cheia de cores que uma procissão de Natal. Alguns dos homens, tendo atirado sobre os ombros as largas peças de seda amarela ou vermelha que recaíam, envolvendo os cavalos, pareciam reis magos. Sobre pontas de lanças, iam arvorados como bandeiras, ricos tapetes tecidos em Babilônia ou finos véus nupciais que deixavam no ar um sulco branco; grossas mãos cabeludas agitavam ao alto molhos de plumas multicolores e espelhos que faiscavam, tocados de sol; e as risadas não cessavam em torno daqueles que, gulosamente e de um só trago, tinham esvaziado algum frasco de azeite de Arles, e vomitavam, debruçados no arção, berrando contra os judeus malditos. Os que haviam espalhado essência de rosa sobre os pelotes de pele de lontra, iam com um sorriso contínuo, no orgulho do perfume que exalavam. E todos se queixavam de que se não tivesse apalpado os judeus, para lhes tomar os bons dobrões de ouro que decerto traziam no forro das simarras. Na frente, ao lado do estandarte de Kolnor, Enghelberto, tendo dado o casco ao escudeiro, com os cabelos soltos, a linda face alta, sorria, como perdido em pensamentos suaves.

Ao chegar ao morro onde assentava o castelo de Kolnor, foi ele o primeiro que percebeu na torre de menagem e sobre o caminho de ronda, arqueiros, outros homens, que acenavam, como se houvesse grande nova. Atirou o cavalo pelo morro — e logo, ao transpor a levadiça, soube pelo sobrerrolda que o seu avô Ulfan estava morrendo.

Depois, subindo a negra escadaria de pedra, o vilico ainda lhe contou que se receberam, nessa tarde, notícias de se terem revoltado e tresmalhado a monte todos os servos de Jarna...

Quando Enghelberto, abrindo a grossa porta de carvalho chapeado, avistou o avô estendido no rude leito feito de grossas traves negras, vestido com a cogula de Cister, entre tochas acesas, teve um brado de cólera contra os dois monges e o notário, que se conservavam imóveis, junto à alta fresta do quarto abobadado.

— Como ousastes?... Vilões, vilões!... O meu doce senhor morrendo sem as suas armas, já amortalhado na trapagem de frade, entre tochas!

O mais velho dos monges balbuciou, curvado sob aquela grande cólera:

— Senhor, está morto desde a hora de prima...

Enghelberto empolgou as barbas longas do santo homem, que sacudiu furiosamente:

— Mentes! Está vivo!... Vivo e forte para te arrancar a língua, falsário! Onde é que tu viste em toda a Dinamarca, um senhor — e o senhor de Elfingor!... — morrer desarmado?

Com os guantes de caça que arrancara das mãos, apagou violentamente as altas chamas amarelas das tochas. Depois, tirando de sobre o peito do avô o crucifixo que atirou a um dos monges, gritou aos escudeiros apavorados que revestissem o seu senhor com todas as suas armas negras, sem sobreveste, como em dia de batalha.

E enquanto os escudeiros se apressavam, empurrou o vilico para o fundo da janela onde o sol ainda batia:

— Que me contavas há pouco de servos e de revoltas em Jarna?

O vilico, muito pálido, apenas sabia, por mensageiros chegados nessa tarde, que os servos se haviam levantado, matando o regente, por se terem dado vinte das suas mulheres e dez crianças, com cem carneiros e cinquenta marcos de prata, em saldo de uma dívida ao Mosteiro de Soroé... Tinham queimado vivo o regente, numa meda de palha...

Enghelberto sorriu, tocando o buço leve:

— Lá iremos a Jarna... E também ao Mosteiro de Soroé, ver os carneiros e a prata, que decerto foram mal contados...

Voltou ao leito, arranjou sobre o corpo do avô, já armado, a espada, de modo que o forte punho pousasse bem sobre o coração, e murmurou, como no canto de morte de Lodborg:

— Era forte e feriu com a espada! Depois estendeu a mão, num grande gesto de promessa, sobre a face do velho chefe, mais temeroso na sua rigidez:

— Sossegai, meu doce senhor, que eu serei tal como vós fostes no mundo. Terras que me deixais serão alargadas e o nome que de vós me vem se acrescentará em terror. Deste negócio de Jarna, não tenhais mágoa, que a vingança cairá onde é devida. Para a grande jornada que ides empreender, não vos faltará cavalo, que eu mandarei convosco enterrar o vosso, levando no arção um saco com cem marcos. Adeus! Que a Senhora Santa Virgem vos leve por sua mão ao Walhalla, como deve a um valente senhor de Elfingor!

Lentamente dobrou o joelho, beijou a rude mão coberta de rudes pelos que pousava rigidamente sobre a espada. Depois, com um gesto seco aos monges silenciosos e encolhidos na sombra do capuz:

— Agora, sim! O senhor de Elfingor morreu! Trazei a mortalha e rezai as rezas!

Nessa noite o corpo de Ulfan, Cabeça de Ferro, foi aberto e enchido com sal, e por sobre a armadura, com que de novo o vestiram, rebrilhava uma túnica de pano de ouro, orlada de arminhos tingidos de vermelho. E assim o colocaram, depois de penteados os longos cabelos, na sua vasta cadeira de carvalho, no topo da sala de armas, com o seu escudo aos pés, e nas mãos um livro de horas coberto de pedras faiscantes. Ao lado, o bailio segurava o pendão de Elfingor — um sol negro sobre um mar de escarlate. Seis monges rezavam de joelhos nas lajes. A espaços, duas tubas de guerra ressoavam. E o notário, na sua longa garnacha negra, lia num rolo de pergaminho, numa grande voz, a resenha das batalhas que batalhara Ulfan, e os assaltos que fizera, e as fortalezas que tomara.

No entanto, desfilavam os oficiais de Kolnor, os feudatários, os arqueiros, os homens de armas, os besteiros e todos os servos, e cada um dobrava o joelho ante o chefe morto, fazia o sinal da Cruz, e tocava com os dedos nas lajes, como para se cobrir de pó. E depois iam saudar Enghelberto que de pé no outro topo da vasta sala, se conservava imóvel e hirto, com um trêmulo e alto molho, de plumas brancas no elmo, uma sobreveste de lã branca por cima da armadura, um vasto manto de almáfega branca rojando em pregas no chão e as duas mãos envoltas num véu branco e pousadas sobre os copos da alta espada, de onde pendia um laço branco.

Ao outro dia, o grande corpo de Ulfan foi embrulhado numa pele de veado e metido num sarcófago feito com as tábuas da galera em que ele comandara a sua expedição à Escânia. Aos seus pés, foi posta uma vasilha cheia de água benta do Jordão; sobre o seu peito pousaram uma relíquia santa, o osso de um dedo de

Santo Anskere, e sobre cada uma das faces, a metade de uma hóstia consagrada. Seis vassalos de Elfingor conduziram o esquife, coberto com um pano tecido de ouro, de que Enghelberto, caminhando atrás nas suas grandes roupagens brancas, segurava com as duas mãos as duas pontas franjadas. Por todo o vasto terreiro brilhavam filas de tochas — e o rumor sob o céu cinzento era grande e lúgubre, com o gemer lento das tubas o dobrar dos sinos e os uivos soltos das carpideiras.

Quando o esquife penetrou no vasto sarcófago de pedra bruta e rude como uma pia de gado o alferes da mesnada colocou sobre ele, desembainhada, a espada de batalha de Ulfan. Então o notário, tirando de dentro da garnacha negra o rolo de pergaminho, de novo disse, numa lenta e grande voz, a nobreza de Ulfan, e os seus feudos, e as suas ações, e as suas batalhas, e todos os seus feitos em cinquenta anos de errante e sangrenta glória. E a cada pausa, num coro choroso, as carpideiras gritavam:

— Tanto revolveu a terra que abriu a sua sepultura!...

Depois, selado o enorme tampo de pedra com os selos de Elfingor e rezadas grandemente as bênçãos rituais, queimados o incenso e as resinas aromáticas, cada homem de armas, cada servo das glebas, veio depor sobre o sarcófago um ramo verde de pinheiro ou de abeto.

À porta do jazigo foi escavada uma grande cova, onde se enterraram vivos o cavalo de Ulfan e o seu lebréu favorito. E para que o chefe morto, antes de subir ao Walhalla, se não sentisse solitário no seu sepulcro, toda a noite, em redor, besteiros e soldados bateram com as lanças sobre os escudos e sopraram nas tubas de guerra.

E nunca na Dinamarca houve tão grande festim funerário. Das salas juncadas de erva verde, as mesas trasbordavam para o terreiro onde besteiros e colonos se sentavam em almofadas, sob velários franjados.

Os gamos, os gordos carneiros assados, eram trazidos sobre padiolas. Cem cessar se rolavam pipos, de onde as pontas das ascumas faziam esguichar a cerveja nova — e as canecas eram esvaziadas de um trago, em honra do chefe morto. Bardos e menestréis, ferindo as harpas, cantavam as lamentações de Gudrun, o canto de morte de Lodbrog. E os homens de armas, excitados pelos cantos heroicos, arrancavam as lorigas de couro e combatiam até que os fios de sangue corressem sobre os grandes peitos nus e brancos, por entre o rude pelo ruivo.

No ar já triste da tarde, os sinos não cessavam de dobrar, lentos e lúgubres. Às grades das prisões, sob a torre, apareciam as faces escaveiradas dos prisioneiros que o cheiro das comidas atraía e que choravam de fome... E os soldados arrebatavam os arcos e flechavam os miseráveis. E quando desceu a noite, abandonando sem ruído a capela, as carpideiras seguiram os soldados para a beira dos fossos e para debaixo das árvores da horta...

Ao outro dia, toda a vassalagem se juntou na imensa sala de armas, onde Enghelberto, de pé diante da grande sede senhorial de Ulfan, esperava todo armado, com as suas armas de batalha, tendo de um lado o alferes que sustentava o pendão, e do outro o marechal da hoste, que trazia sobre uma almofada as chaves dos castelos de Kolnor, de Elfingor, de Jarna e de Lindau.

Então, pela grande porta, entrou o senescal, trazendo nas mãos, religiosamente, uma taça terrível e magnífica — um crânio humano cravejado de rubis, assentando sobre um pé de ouro, e que pertencera a Siwald, Olho de Enguia, rei da Gótia e da Jutlândia. Ajoelhando no grande silêncio, ofertou a taça a Enghelberto, que muito lentamente a ergueu nas mãos ambas, e gritou:

— Por meu avô Ulfan, pela taça de Siwald, que é a taça da memória, e perante vós todos que sois testemunhas, juro que nunca pagarei tributo! Com a espada e a lança ferirei, por amor dos meus direitos; ante os meus inimigos tornarei o meu nome terrível, e morrerei de pé e armado!

Bebeu lentamente, gravemente. Molhou as pontas dos dedos nas gotas que restavam no fundo da taça, e traçou sobre a couraça uma larga cruz. Depois, subindo ao estrado, tomou assento com força na sede senhorial, batendo com os punhos fechados, pesadamente, sobre os dois braços de carvalho lavrado, que representavam dois focinhos de lobo. E o duro fulgor do olhar, que relanceou pela vasta sala côncava, fez baixar de terror todas as faces.

Mas já os trombeteiros, correndo aos balcões, atiravam para o terreiro uns sons festivos e roucos. Os sinos repicavam com estridor. O sol negro do pendão, agitado, movia os seus raios negros sobre o elmo de Enghelberto; a seus pés jaziam as grossas chaves dos castelos; para a abóbada subiam rolos de fumo dos turíbulos que dois capelães acéfalos balouçavam, saltando sobre as pontas das sandálias. E a um gesto arrebatado do marechal da hoste, todos bradaram, com as espadas e lanças faiscando no ar:

— Preito a Enghelberto, príncipe da Escânia! Preito a Enghelberto, senhor de Elfingor! Preito a Enghelberto, duque de Jama!

A imensa aclamação rolou, fazendo tremer as lanças nas hastarias, e ainda no terreiro ressoou mais alta, mais forte, repetida pela vilanagem que se apinhava até às barbacãs, agitando ramos verdes. Excitados, repuxando as correntes de ferro, os lebréus e os mastins latiam furiosamente.

Logo nessa madrugada, Enghelberto fez soar o alarme, e com dez lanças e cem arqueiros, correu sobre Jarna.

Os servos revoltados, armados de chuços e de foices, apenas cobertos de peles rotas de carneiro, erravam num bando, já desordenado e incerto, pelas matas que limitavam a terra senhorial. Uma tarde, desceram para a beira de uma lagoa que altas dunas dominavam.

Aí os colheu Enghelberto e sobre eles correu com os seus pesados homens vestidos de ferro e os mastins ferozes, como numa alegre caçada.

As armaduras, os penachos, os pendões, o estridor das buzinas, deslumbraram e aterraram aquela horda miserável, e em breve, junto à lagoa cinzenta, sob o céu baixo e triste, não houve mais que um montão de cadáveres a que os cães lambiam o sangue, e uma fila de cativos, amarrados com grossas cordas, que os homens de armas iam empurrando a picadas de lança para as muralhas de Jarna.

Enghelberto resplandecia, no gosto e na glória da sangrenta façanha, e ainda por vezes, durante a marcha pelo vale sombrio, estacava o corcel e despedia uma flecha sobre o bando dos cativos, rindo do grito agoniado que se erguia, dos dorsos que se encolhiam de terror. Dois dos miseráveis, feridos, sem poder andar, foram amarrados pelos pulsos aos arções de dois cavaleiros e arrastados.

Depois, transpostas as enormes muralhas do imenso castelo de Jarna, logo no terreiro, sem descavalgar e sem atender ao vilico que o saudava e lhe oferecia as chaves da torre, intimou os servos cativos, sob pena de serem todos esquartejados, a que lhe apontassem o chefe que os incitara e os levara para o monte. Um homem de grandes membros, mais louro que o milho e de ar simples e doce, logo se adiantou, batendo no peito.

Então Enghelberto, rindo, ordenou que o coroassem chefe e rei de rebeldes, com um aro de ferro em brasa. Depois — que o esfolassem!

E com um grande gesto de desdém, consentiu que aos outros cativos apenas se decepasse uma orelha e o nariz.

Então, desmontando, bateu com o guante de ferro na face do vilico que esperava, lívido e trêmulo, e bradou:

— Vilão falso, que assim deixas tresmalhar as reses do teu amo! Limpa a face, besta feia! E de beber, de beber depressa, da boa cerveja nova, que a poeira foi grande!

Cedo, ao outro dia, Enghelberto saiu do castelo, montado numa mula branca, sem cota nem elmo, levando apenas uma lança de monte, e seguido de três escudeiros e de três mastins. Assim percorreu todas as suas terras, a seis léguas em torno de Jarna.

Adiante, marchava o verdugo, um machado na mão, um grande saco de couro a tiracolo. E ao passarem pelos servos que trabalhavam nos campos, por diante dos casebres dos colonos ou pelo meio dos povoados, o verdugo parava, tirava do saco pedaços de carne morta e arremessava-os para as portas e às faces dos homens ajoelhados, gritando:

— Aviso! Aviso! Orelhas e narizes de servos de Jarna!

Desde este feito, Enghelberto habitou o castelo de Jarna, que pela vastidão, a espessura das torres, as rochas sobre que se erguia e a sombria riqueza das velhas salas, melhor condizia com o seu orgulho, o seu gosto de luxo e o risco das bravas empresas — e o grande nome do duque de Jarna começou a ressoar temerosamente por sobre a Dinamarca, que, pela fraqueza do rei Elrico, o Cordeiro, e pela feroz turbulência dos condes e dos senhores, e pela imensa relaxação dos seus bispos que viviam de mortandade e de roubo, se tornara como uma terra bravia, sem lei humana, sem lei divina, e tão talada, tão esfaimada, tão revolta, que nela era melhor ser lobo do que ser homem!

Como é grande em ramagens um abeto entre tojos rasteiros, assim entre os maus barões era grande em maldade o duque de Jarna.

Não havia em toda a Jutlândia castelos mais fortes em fossos, muralhas, torres, trens e engenhos de guerra do que os castelos de Jarna, de Kolnor e de Elfingor. Dentro de cada um deles, na grossa torre da alcáçova, as paredes desapareciam sob os grossos molhos de armas, e as arcas estalavam ao peso do dinheiro em ouro e em prata. E atraídos pela sua fama sonora, pelos largos soldos que dava, pela esperança das ricas tomadas e pela violência das empresas, toda a sorte de homens bravios, aventureiros, bastardos pobres, vassalos, rebeldes, freires excomungados, bandidos e foragidos, corriam da Escandinávia, da profunda Germânia e até da Aquitânia e da Ibéria, para se acolherem ao seu seguro pendão e comer da sua farta caldeira.

Assim se tornou um chefe irresistível Enghelberto, senescal das Ilhas, príncipe da Escânia e senhor de Elfingor, a quem também chamavam o Cavaleiro de Estanho.