segunda-feira, 8 de julho de 2019

Mariana Pinta (Conto), de Firmino Rodrigues da Silva



 Mariana Pinta

Não foram insignificantes motivos que conduziram o Padre Antônio Vieira as margens do Amazonas, desse formidável rei dos rios que luta peito a peito com o oceano, reúne-o e lhe invade o domínio. A uns coube a sorte de varar florestas ainda não calcadas pelo pé do homem civilizado, de afrontar perigos imensos, extraordinários para descobrirem os veios das suspiradas minas; enquanto que outros embevecidos na contemplação de tão estupendas maravilhas, devorados pelo amor da ciência iam indagar do gênio do rio a revelação de seus mistérios, o número de seus feudos, quais as nações que lhe bordavam as margens.

Assuntos de maior transcendência guiaram o célebre orador de Portugal às majestosas florestas do Grão-Pará. Era o amor da religião e da humanidade quem o arrancava do meio de seus triunfos, da admiração dos reis, e do respeito e veneração dos povos. Educado na América desde a mais tenra infância, aquecido pelo sol brilhante dos trópicos, ele preferia as florestas virgens do mundo da natureza aos decantados monumentos que adornam o mundo da civilização – a Europa.

Era então o tempo em que a cobiça e a avidez do ganho mais destruidoras que a peste, mais insaciáveis que a sede, tornavam ignóbeis e infames os dois benefícios da civilização. As cordilheiras gemiam com o despedaçamento de suas entranhas, e as florestas se horrorizavam com os últimos arrancos desses valentes filhos do deserto, que preferiam a morte dos combates ao lento suplicio da escavação das minas.

Contra tamanhos atentados ergueram-se, poucos sim, mas generosos brados. O mundo já não era governado pelo egoísmo, nem povos e nações inteiras atadas ao carro vencedor iam aviltar-se no pó do capitólio. Uma religião radiante havia dissipado as trevas do paganismo, o Filho do Eterno encarnara no seio de uma Virgem imaculada, e seus ditames e sua moral tinham regenerado o mundo. – Las Casas troou contra os assassinos dos descendentes do Incas, e Vieira ergue-se no Brasil o defensor dos filhos de Tupã.


Embalde instam o rei e a corte porque não parta o missionário: – não, ele quer defender infelizes, propagar na América a vinha do Senhor. Embalde a corte lhe acena com as palmas e as vitorias do gênio; que importam elas? – Sua missão é mais augusta, um anjo revelhou-lha, – é o céu quem o envia. Quem sabe se uma coroa do martírio... Oh! E o que mais anseia um missionário!

Já o galeão, que devia em troco de ninharias voltar pejado de ouro para enriquecer a metrópole, aprestava-se para a viagem: a âncora a pouco e pouco se ia suspendendo, já o Tejo como que o empurrava para longe de si, e os marinheiros saudosos entoavam a canção da despedida.... quando a um sinal de bordo estremece o navio com o baque da âncora que de novo encrava-se no leito do rio. Que será? Um enviado da parte de El-Rei que terminantemente se opõem a partida. Inúteis esforços, em vão os teólogos se reúnem para decidirem se é mais vantajosa à Religião a ficada ou a ida do missionário; – pode mais o céu que as ordens do soberano; na primeira ocasião partiu...

Tão brandamente os ventos o levavam 

Como quem o céu tinha por amigo.


Chegado ao Maranhão passou-se depois ao Pará onde a fama de seu nome já tinha ecoado, e foi recebido em triunfo. Sem contemplações a interesses humanos, como superior que era a todos eles, o missionário por toda parte expande enérgico os sentimentos de seu coração: ora convoca os principais do país para advogar a causa dos indígenas, ora embrenha-se pelas florestas a dentro, regenerando as almas na água misteriosa do batismo, anunciando aos gentios uma religião pura, cheia de bondade e de esperança.

Quão belo não seria vê-lo com essa figura majestosa e respeitável, essas vestes talares do sacerdócio, esses olhos vivos e preto cintilando engenho, essa palavra que aterrorizara os ímpios da Batávia, unir sua voz aos sibilos dos ventos, ao ruído das cataratas, aos uivos do tigre, às ruidosas exclamações dos filhos das florestas! Os arcos prestes a desprender a seta que não erra caiam a seus pés, e os braços, acostumados a lutar com a natureza em forças, erguiam no meio do deserto o sinal da redenção. Não eram templos elevados pelo orgulho dos homens a topetar com as nuvens que abrigavam os fiéis, uma simples capela de palma simbolizava a inocência de seus corações sinceros; – dir-se-ia que a singeleza rústica dos tempos primitivos da Igreja havia reaparecido na América

Tanto entusiasmo, tão fervorosa devoção pela causa dos Índios não podia deixar de acusar-lhe inumerosos inimigos no meio de uma sociedade gangrenada pela corrupção e avidez de ganho. – Seus compatriotas opuseram-se com toda a energia a causa dos desvalidos. Vieira, conhecendo os tramas de seus inimigos, escreve a El-Rei dando parte de tudo que havia acontecido, pedindo proteção aos Índios; as cartas foram interceptadas e voltaram as mãos daqueles que mais encarniçados se haviam mostrado para com eles; tudo foi patente, o raio já lampeja sobre a cabeça do missionário, é mais uma prova – que a eternidade é a recompensa do sacrifício.

Era um belo dia de festa no colégio dos Jesuítas; os sinos tocavam santos, o símbolo da inocência e da pureza, a hóstia imaculada em sacrifício à Divindade aos céus subia, enquanto que os fiéis ajoelhados batiam nos peitos pedindo misericórdia ao cordeiro de Deus; as nuvens de incenso e mirra despendidas dos turíbulos compassados, e os sons melancólicos do órgão pareciam envolver todos os fiéis em uma atmosfera de harmonia e perfumes... Eis que vozes confusas vem interromper a meditação dos fiéis, um grupo de colonos entra armado e arranca do Altar os ministros do Crucificado. Como aquele que mais venerado era entre os seus, foi Vieira o primeiro que buscavam, sem o maior sobressalto este se apresenta às turbas destemido.

Que é da tua sabedoria e artes? Por que te não livras deste conflito? dizia-lhe um: Se és santo por que não fazes com que sucumbamos? repetia-lhe outro. Todas estas blasfêmias ouvia o missionário, mas sua boca não dava uma palavra. Embalde a tempestade embravecida arroja suas fúrias contra o Chimborazo, a bonança vem e acha-o no mesmo lugar – imóvel.

Depois de atravessar as ruas públicas, foi o Padre Vieira conduzido à prisão, à ermida de São João Batista. – Notável coincidência! O pregador do deserto, aquele que havia anunciado ao mundo a vinda do Redentor hospedou em seu templo um pregador do deserto, que também viera anunciar a religião do Crucificado às nações desconhecidas do novo mundo.

Sentinelas estavam postadas para que ninguém ousasse falar ao missionário. A Providência porém não desampara os seus escolhidos, no meio do deserto faz chover maná e brotar arroios de água cristalina do âmago das rochas.

Havia por aí perto uma Índia, evocada as trevas da idolatria pelo zelo de Vieira. Foi Mariana Pinta, informada de quanto acontecera ao pai dos Índios, e bárbara, ainda há pouco retraída a fereza do deserto, compadece-se de seus infortúnios, enquanto os próprios concidadãos iníquos negavam-lhe até o pão da indigência.

Preciso foi iludir a vigilância dos guardas, entranhar-se entre as sombras da noite, para sem ser vista lançar aos pés do missionário uma oferenda, a única de que podia dispor – uma parte de seu alimento.

Entregue a mais profunda meditação sobre a perversidade dos homens, e o desamparo em que ficavam os Índios, ajoelhado ante o altar, cujos círios iluminavam-lhe a face, alheio a todas as considerações mundanas, roga o missionário ao Deus de piedade, que faça chover torrentes de bênçãos sobre os mesmos que o perseguem. Mariana entra e pasma... como a pobre neófita podia compreender esses êxtases de devoção, essa absorção de todas as faculdades humanas em um só ponto – na contemplação do Criador? Não se atrevendo a despertá-lo, ela vai depor o pequeno cabaz em que trazia a refeição, mas ele viu-a: – Mariana, que temeridade! Nunca, nunca mais, teme a malvadeza de meus inimigos.

Mariana não respondeu, mas seus olhos ergueram-se para o céu!

Ao sair as sentinelas a viram e a maltrataram, não obstante, no dia seguinte, às mesmas horas, a neófita desempenhou sua tarefa.

Era alta noite, quando o reflexo de um incêndio enrubescia todo o interior da capela, o missionário ergue-se da oração, pensando que seus inimigos tivessem lançado fogo ao templo de João; debruça-se em uma janela e vê ao longe a choupana da pobre neófita, que se desfazia em chamas, depois conheceu-lhe a voz e ouviu que ela dizia: – Queimaram minha casa! Está bom, cozinharei no meio do campo.

Até que Vieira fosse mandado para o Maranhão, Mariana não descontinuou suas visitas. Daí a mais de 28 anos, no dia 3 de junho de 1867 a capital do Pará estava risonha e alegre como em dia de festa que era; notável concurso de gente que empeçavam umas nas outras dirigia-se a igreja, em cujas torres

Tine festivo o repetido bronze.

De todas as aldeias vizinhas tinham concorrido quase todos os habitantes para tão assinalado dia com suas vestes domingueiras; o templo estava ricamente adornado, era um dia de missa nova. Depois de os padrinhos terem dado água às mãos ao celebrante, colocou-se este no meio do altar; todos os olhos se fitaram em seu rosto, todas as mães invejavam a sorte de uma Índia que ali estava, quebrada pelos anos: foi ela segundo as cerimônias da nossa Igreja quem primeiro beijou as mãos do sacerdote... Oh! Que alegria, que contentamento não sentiu esse coração, vendo seu filho ministro do Deus vivo! Os Jesuítas, em reconhecimento ao que Mariana havia praticado para com o Padre Vieira, educaram-no e o filho da indígena foi colocado na Tribo dos Levitas.


Mariana sempre que se recordava desse tão ditoso momento, dizia as suas amigas: – Nunca tive maior prazer em minha visa; já posso morrer contente, e enxugava uma lágrima que se demorava sobre as rugas de seu alquebrado semblante.

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