terça-feira, 2 de julho de 2019

O ladrão e a filha (Conto), de Raul Brandão



O ladrão e a filha

A filha da Asilada e do Morto criou-se na viela entre gritos das mulheres e chufas de soldados e ladrões. Tinha quatro anos e dormia pelos cantos ou nos braços da Gorda e da Mouca. Assentava-a nas pernas o Velho que tinha sido cavador e que abria para ela a enorme boca desdentada. Fazia-lhe festas a patroa. Enchiam-na de beijos as mulheres num frenesi e dias inteiros passavam por ela sem a verem. Esqueciam-na. Adormecia a chorar nas camas ou nos degraus das portas. Só a mãe lhe fugia sempre:

– Não a posso ver!...

Mas ela crescia. Crescia ao acaso, naquele sítio de alucinação onde os seres se transformam como em sonho, em figuras de verdade que só a certas horas vêm à superfície, irrompendo do mundo de dor e de tragédia a que pertencemos todos...

E o Morto perguntava à amante:

– Por que não podes ver o anjinho?

– Sei lá! Não a posso ver...

– És pior que as cabras!

E batia-lhe. Ela calava-se com um olho fixo de maldade e de espanto.

– Escusas de me bater, não a posso ver. Tomei-lhe raiva. Deixa-me!

Agasalhava-a o ladrão com velhos trapos. Encostava-a ao peito, e nesse inverno dera-lhe um casaco velho para a aquecer.

– O tropeço não morre? – perguntava a Asilada, talvez de propósito para o ladrão lhe bater.

O tropeço não morria. Punha-se a olhar para o pai, a agarrar-se-lhe às pernas, a querer segui-lo quando ele partia, e lá ia crescendo na viela negra entre gritos e injúrias e o cantar triste das mulheres.

– Mas por que é que bates na pequena? – diziam-lhe as outras.

– Não sei! não sei! – gritava.

No começo do inverno a Asilada foi para o hospital e antes de a levarem abraçou-se à filha a chorar num desespero. Foi difícil arrancar-lha dos braços. Tomaram conta dela as mulheres. Dormia com elas ou com o ladrão. Uma manhã disseram:

– A tua amante lá vai. Enterrou-se ontem.

E o Morto ficou horas sozinho a cismar. Acordaram-no risos fora. Levantou a cortina e foi direito ao velho cavador que tinha a pequena nos joelhos. Calaram-se todos em roda, e ele tirou-lha de repelão dos braços, encarando com o outro que se riu com a grande boca de fera desdentada. O Morto saiu com ela e só voltou à tarde, tornando a entregá-la à Gorda.

– Guarda-ma até à noite.

À noite chamou a pequena e teve-a muito tempo apertada contra si. Talvez nesse momento compreendesse o horror da Asilada pela filha e a sua ternura antes de a levarem de vez para o hospital – talvez visse o Velho com a criança nos braços e aquela boca escancarada lhe parecesse monstruosa.

– Vem comigo.

– Onde vamos, pai? Passear?

– Passear.

A pequena riu-se.

– Agora?

– Agora.

E pegando-lhe pela mãozinha levou-a até ao rio, exatamente no sítio onde encontrara pela primeira vez a Asilada. Meteu-se dentro dum barco, desamarrou-o e pôs-se a remar.

– Onde vamos, pai?

– Tu verás. Dorme.

O mesmo horror inconsciente que lhe tinha a mãe, sentia-o agora o ladrão. Não raciocinava. Nem o ódio era pela viela que esperava a criança, nem por a ver nas mãos do cavador brutal ou do soldado vesgo, que a olhava calado com ferocidade. Doía-lhe qualquer coisa, que o obrigara a tomar uma resolução para poder respirar. Aquilo não podia existir ao seu lado – tinha de desaparecer. Isto sentia-o profundamente até ao âmago, como a mãe o sentira sem o saber explicar. Na alma do ladrão, ao pegar essa noite na criança, havia ao mesmo tempo ferocidade e horror. Era necessário matá-la, absolutamente necessário.

– Agora.

Mas a criança olhou para ele e riu-se – e ele teve-lhe medo.

– Dorme!

A pequena pôs-se a balbuciar – ó pai! ó pai!... –a dizer as palavras desconexas e extraordinárias que dizem as crianças, e as obscenidades que ouvia ao Velho na viela quando lhe pegava ao colo. E o ladrão estremeceu abalado até às profundidades da vida.

– O pai! ó pai! – gritou ela de repente – o que é aquilo lá em cima?

E a pequena, que nunca tinha visto estrelas na viela trágica, apontou deslumbrada o céu.

– Estrelas.

– Ah estrelas! estrelas!... – E o monólogo infantil seguiu com estas palavras e encanto – com as palavras tão repetidas que têm sempre novidade e frescura nos bicos cor de-rosa, como se a vida pela primeira vez acordasse sempre que uma criança fala, e palavras terríveis, que pertencem à vida trágica e que ela inconscientemente misturava às outras.

Por fim adormeceu na caverna do barco olhando para o céu. Mas a dormir metia-lhe tanto medo como acordada... Estendeu as mãos devagarinho e atou-lhe à cinta uma corda com a poita. A pequena mexeu, acordou, sorriu, abriu a boca para dizer pai, e caiu logo no sono inocente. E o ladrão ficou muito tempo quieto a olhar para ela.

A criança não podia continuar a viver. Diante dos olhos tinha sempre a boca desdentada do Velho e as figuras das mulheres dizendo obscenidades. Sabia que destino a esperava. A criança era o mal. Ele só teria sossego na terra quando a atirasse ao rio e a visse descer lá para o fundo, para muito fundo, longe da vida de dor e de tragédia.

Pela primeira vez sentia que cometera um crime contra uma coisa imensa e extraordinária, contra uma coisa imensa e invisível – sentia com horror que envenenara a vida. Era necessário matá-la... E ao mesmo tempo desabava sobre ele outro espanto sem existência real... Ainda tentou avançar sem ruído, contendo a respiração, para deitar as unhas de repente e afogá-la. Não pôde... Tinha uma missão a cumprir e não conseguia executá-la.

– Terei eu medo? terei eu medo?

E apertava uma contra a outra as mãos frias e enormes.

Esbarrava contra um muro vivo de ternura. A sua alma torcia-se na nudez imensa da noite, esmagado entre duas forças contraditórias que lhe pesavam como montanhas. Olhou para o céu – para as estrelas inúteis. A criança dormia no fundo do barco. E aquelas duas forças quase as via avançar sobre ele cada vez maiores. O drama passava-se no silêncio da noite e sem poder separar a ternura do ato feroz e necessário que meditara.

A sua concentração atingia o desespero.

Por fim deitou-lhe as mãos e ela acordou:

– Pai! pai!

E imaginando que ia brincar encostou-se à cabeça curvada sobre ela e exclamou:

– As estrelas! as estrelas!... O Rosa! ó Rosa! ó Rosa!... Pai, tu sim tu és meu amigo... Que lindo lá em cima!... Pai!...

***

Pela boca inocente e pura fala agora o mundo a que pertencemos todos, nós e os ladrões das estradas. Ele detém-se esmagado. Já não pode ir até ao fim. Imobilizado ouve-a, com horror, e sente-lhe ao mesmo tempo a mãozinha nas mãos enormes. Imobilizado de dor o ladrão nem se atreve a falar.

Aquilo que julgava fácil era impossível. Matá-la era melhor, mas não podia. Tinha de aceitar o destino: o soldado vesgo, o Velho que a esperava com a alegria duma fera que sente a presa próxima e escancara as fauces temerosas. Soltou devagarinho a corda, dirigiu o barco para terra e, deitando a correr desvairado, com a criança nos braços, foi entregá-la à viela.

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