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7/09/2019

Os pêssegos (Conto), de Raul Brandão



Os pêssegos
(Ao Senhor Joaquim de Araújo)

Ai a gente que o doutor tinha naquele dia a jantar!... Primeiro a fidalga de Arnozela, gorda, cinquenta anos, cor de maçã camoesa, largas risadas cantantes; depois o abade — o diabo do abade! — comilão insaciável, um bucho que eu sei lá!... — e que já lhe tinha dito na véspera:

— Ora eu sempre quero ver esse jantar!...

E ainda, com a mãe — a morgadinha dos Trigais, tão fresca, tão boa rapariga, tão amiga dele!...

Por isso o doutor dizia à criada:

— Ai Gertrudinhas, eu quero isto como um brinco! Como um brinco, filha! O que mais o afligia, porém, eram os pêssegos...

— Ora, como o diabo hei de eu arranjar isto, não fazem favor de me dizer?...

Três frutos magníficos aqueles! Três pêssegos enormes, alourados, penugentos!...

A árvore nascia ao meio do quintal, entre couves galegas de folhas verdes, rendilhadas, e duma margem de hortelã pimenta, cortada por um fiozinho de água, que saía do tanque e atravessava a horta, embalando-a com mil murmúrios. Na primavera tinham-lhe nascido três florinhas delicadas, duma cor de rosa muito esbatida e imediatamente o doutor a rodeara de cuidados, cavando a terra em redor, matando sem piedade o besouro mais inocente que se atrevesse a passear naquele sítio, aquecendo-se ao sol do bom Deus.

Que eu nunca vi velhote mais contente! Uma alegria santa esfuziando em risadas; bebendo sempre pingas dum vinho velho que possuía arrecadado no fundo da adega.

Setenta anos saudáveis e alegres. Gostava de contar histórias galantes...

O Outono corria lindo. Os dias amanheciam azuis, límpidos, serenos, aquecidos por um sol temperado que amadurecia lentamente a fruta pelas árvores — e o doutor espreitava a todos os momentos a fruteira, olhava com admiração os pêssegos enormes, magníficos que a luz trespassando-os fazia de um ouro soberbo...

À noite, depois da regalada ceia, enfiava-se na cama, satisfeito com a frescura do linho dos seus lençóis, apagava a luz, atabafava-se bem e punha-se a discutir com a sua própria pessoa, para conciliar o sono, o caso grave e interessante de se deveria ou não convidar para o jantar em que se comeriam os pêssegos o seu excelente amigo abade de Arnozela.

— Nada! E se ele come a fruta toda?

E revolvia-se na cama aflito com aquela lembrança. Mas logo se recordava com alegria das excelentes histórias e chalaças que o seu amigo para o regalo de ambos tinha por costume contar à sobremesa.

— É o diabo aquele homem! É o diabo!

E ria-se com vontade à simples recordação daquelas pilhérias tão ricas, daqueles casos galantes sobre que versavam de ordinário as palestras do jantar.

— Mas se o homem come os pêssegos? Com um bucho como o dele!... — perguntava bocejando, com o sono um bocadinho espertado.

— Amanhã resolverei.

Mas os pêssegos é que não podiam esperar muito: iam dia para dia amadurecendo mais; tornavam-se alourados, enormes, e as manchas vermelhas pareciam à luz do sol três grandes nódoas de sangue.

— E amanhã! Convido o abade, ponho dois pêssegos na mesa para que ele não possa comer senão um, e o terceiro guardo-o para mim só.

E exclamava, olhando os frutos já maduros, excelentes, parecendo prestes a rebentar muito cheios de sumo.

— Que ricos!

A cozinha tinha um aspecto alegre e confortável com a sua grande chaminé onde se defumavam os paios do Alentejo e os presuntos saborosos, e fazia gosto ver a ordem, a simetria, o modo porque a Gertrudes dependurava os grandes tachos de cobre reluzente, dispunha as caçoilas vidradas, e encastelava a um canto as assadeiras enormes, a contrastarem com a verdura dos louros.

Naquele dia, porém, tudo estava fora dos seus lugares, e a velhota, inquieta, formigando, ralhava com a criada, provava o arroz muito lourinho e levemente tostado por cima, dispunha ao redor do lombo de porco pequeninas rodelas de limão, enfeitava com ramos de salsa a carne ensanguentada.

— Saia daqui, criatura! A cozinha fez-se para as mulheres!

E empurrava familiarmente o doutor que provava como entendido um molho já preparado.

Bom, bom... Eu vou até o quintal.... Olhe: dê cá esse prato de louça da Índia para trazer os pêssegos.

E ia a sair contente quando a criada lhe perguntou:

 Já sabe que vieram uns noivos passar uns dias à aldeia?... Estão em casa da D. Genoveva.

 Uns noivos! Olá!...

E, assaltado de repente por uma ideia brejeira, foi pulando às risadas pelo quintal adiante.

— Uns noivos!... Ih! Ih!...

O dia estava lindíssimo: perfumado pelas flores silvestres, dourado pelo sol que punha cintilações de cobre antigo na folhagem verde das árvores; num campo fronteiro duas vacas pastavam pachorrentas, e o quintal, com o pomar cuidadosamente tratado e a água brilhando como um espelho ao sol, tinha um aspecto encantador.

— Devem estar bons! Murmurou.

E seguiu pensando na beleza, no tamanho, no aroma daqueles frutos sem igual.

— Até apetece comê-los!

Abriu a navalha e dirigiu-se radiante para a árvore, com um sorriso de satisfação nos lábios vermelhos.

— Vamos a isto!

Mas de repente estacou, a fisionomia transtornada, deixou cair o prato de finíssima louça, agitou os braços num desespero, e estendeu o punho, exclamando num rugido.

— Ladrões!

Nem um! Nem um só dos pêssegos restava na árvore.

Caíram-lhe silenciosas as lágrimas pelas faces afogueadas, e, aos soluços, aos soluços, deixou-se cair sobre um banco de pedra que ali havia.

“Tinha-lhes dedicado todos os seus cuidados, toda a sua ternura! Na Primavera, depois de lhe terem nascido as florinhas, quantas aflições não tivera por causa delas? Quantas vezes, altas horas da noite, não acordara estremunhado, julgando ouvir o estalejar da saraiva nas vidraças?... E para quê todo aquele trabalho, todos aqueles incômodos?...”

Mas uma risada fresca, vibrante, cristalina, soou do lado do campo.

As lágrimas secaram-se-lhe, levantou-se dum pulo, e vagarosamente, arrastando-se cheio de

precauções, aproximou-se da sebe de trepadeiras em flor, que serviam de divisão, e olhou...

— Os noivos!

Efetivamente, sentados na relva à sombra dum carvalho, os noivos acabavam de comer o último pêssego, e pelo chão rolavam ainda os caroços muito vermelhos, em sangue, da fruta que tinham roubado.

Então o doutor, cheio de despeito, desfazendo entre as mãos trêmulas as flores da trepadeira a que se encostava, berrou, pulando de raiva:

— Ladrões! Ladrões!

E, na janela da sala do jantar, o abade, que tinha chegado naquele momento, gritava, rindo às gargalhadas: Ó doutor! Ó malandro! Então vamos ou não vamos a esse jantar!

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Raul Germano Brandão (1867-1930)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

O Homem do Cancro (Conto), de Raul Brandão



O Homem do Cancro
(A Alberto Bramão)

Lembrava-se mal dos primeiros dias de hospital. Confundia as alucinações terríveis da febre: carrancas, esgares medonhos, com a realidade triste: o senhor enfermeiro, um brutal, arrastando a perna, piteiro sempre, atrás da maca.

— Aí no vinte, rapazes!...

Aos rasgões via a enfermaria, as camas alinhadas, de cobertas de ramagens escuras; a noite — lampiões luzindo tristemente, quando redobram os gemidos, maldições, aquela gente com medo de morrer longe dos seus — principalmente uma criança chamando pela mãe, numa ânsia terrível.

Ele tinha pena também, e depois com a noite a febre voltava-lhe, tristezas grandes, alguém que morria, torcendo-se, aos uivos, lutando com a morte, para não ficar ali no hospital medonho, com a autópsia em seguida, a cova triste, um farrapo de lençol com manchas de sangue ... E o doente do vinte e um, a cama junto à dele, dizia obscenidades, rindo escárnico, roído por um cancro na face, medonhamente inchada.

— Mais um! Mais um! Lá vai aquele adiante de mim!...

Era terrível aquele homem, Odiava os que iam passando melhor, com alguma esperança já, e tendo a morte certa, e sabendo-o desiludia os mais, cheio de podridão, a cara roída, roída a alma. Dizia rindo, com uma alegria muito grande ao ver os outros empalidecer:

— Tenho visto muitos assim! Vão melhorando e de repente... zás...

E descrevia-lhes miudamente, com um regalo intenso, a casa das autópsias: os estudantes

cortando carne, atirando com desplante bocados uns aos outros, esburacando nos cadáveres...

— Que aquilo são uns malandros!...

De maneira que o temia — e já, na alucinação da febre, o doente do vinte e um lhe aparecera, dizendo dele:

Lá vai mais um! Lá vai aquele! — rindo, os olhos cheios de contentamento, com vontade de que os outros morressem primeiro, prenhe de inveja, sabendo que todos tinham nojo dele, que era repugnante, podre assim...

Pouco e pouco, porém, foi melhorando. Sentava-se na cama já, muito pálido, sem força ainda — e o médico dissera:

— Vá que você escapou de boa!...

Um dia, da aldeia apareceu-lhe a mãe — uma velhinha antiga, miudinha, muito lavada, os olhos azuis. E rindo mostrou-lhe maçãs que trazia escondidas debaixo do avental — malapios do quintal, da velha macieira, muito vermelhos.

“Ai o seu filho não imaginava como o pomar estava lindo, cheio de fruta, carregadinho, assim!... Era preciso enrijar. Querendo Deus havia de se pôr bom depressa...Depois ia até lá, passeava... Veria...”

Ele, contente, mais saudável até, o olhar luzindo, pensava nos seus, via o quintal, amava a sua casa cheio de ternura como se fosse uma pessoa: lembrava-se das árvores, da laranjeira antiga...

E a mãe papagueava-lhe dando-lhe as maçãs de presente, ajeitando-lhe a roupa, risonha, trabalhadeira — querendo ver tudo em ordem.

— Ora, meu filho!

Depois uma enfermeira passou, e a velhinha reconhecendo nela a filha da Maria da Tenda, da sua aldeia, correu, os braços abertos, radiante — e houve um contentamento, risadas — a rapariga, satisfeita por a velha lhe falar nos seus, prometendo olhar pelo doente...

— Ora a Maria! Como estás bonita, rapariga! Benza-te Deus!...

E na cama o homem do cancro espreitava mordido pela inveja — sem ninguém que dele cuidasse — odiando-os a todos...

Ai, pois todos, todos os doentes tinham quem os visitasse, mulher perdida ou mãe, que viesse um dia na semana amá-los, trazendo uma fora fruta, carícias, enchendo à quinta-feira de alegria, de cheiro a roupa lavada, a enfermaria, o hospital inteiro — e só ele...

E toda a vida fora assim — assim sempre, sempre... todos tinham nojo dele, a cara aberta de pachos em sangue, com nódoas lívidas de podridão e de matéria, sem nariz, medonho e terrível. E de cada vez o mal avançava mais, hediondo, hediondo... e ele sentia na alma violentamente um desejo grande de amar alguém. Sem lábios já, tinha vontade de dar beijos ainda...

De manhã procurava nos mercados, no Anjo — nascia o dia — pedaços de fruta apodrecida, mexendo com o pau, curvado, nojento, a babar-se, podre — Jesus!...

E pouco e pouco a alegria ia entrando no mercado. Era uma tela de artista genial e forte, sem preocupações. Montões de repolhos amarelos, cenouras, rábanos, todas as cores rompendo em contraste, amontoadas, aos murros. Em cima das bancas as couves dum verde escuro, exalando frescuras, regadas, pingando... Do outro lado, nas barracas, laranjas, canastras de maçãs, de frutas... O sol que nascia dourava a folhagem das grandes árvores e o saque àquela abundância começava. As regateiras, braços nus, fortes, manga arregaçada, discutiam. Uma flecha de sol dourada atravessava as folhas, e caindo sobre os legumes, sobre os frutos, aviventava as cores um instante... E era uma balbúrdia, uma alegria esfuziando no céu... Ele então, repelido, desaparecia. Chegada a noite vadiava pela cidade, rente às muralhas, escondendo-se na escuridão das vielas, em antros repelentes que só ele conhecia — e na alma raivava-lhe sempre uma sede grande de amor, uma ânsia infinita que nunca acalmava, em revolta sempre. E até as rameiras nojentas, vadiando na cidade à noite, sem fim, como cadelas com fome, fugiam dele! Sem ninguém que o amasse, bom Deus! E só uma noite — uma noite de chuva — uma barregã nojenta o quisera. Não tinha pálpebras ela, a miserável, roída de sífilis, um montão de andrajos, a podridão ambulante. Para se aquecerem, ela morrendo de fome, ambos morrendo de frio, juntaram-se no escuro — e foi o noivado da podridão. Ao outro dia ela morreu — e ele foi vadiando, quase feliz, quase contente.

E mais e mais nojento — terrível...

Pouco e pouco, escorraçado, sem a piedade de ninguém, toda a gente com nojo dele, odiou o mundo inteiro; afez-se lentamente a alegrar-se com a desgraça dos outros e tinha o desejo ardente de que a humanidade inteira apodrecesse mais depressa que ele — que todos morressem primeiro. De uma vez correra, cheio de raiva, atrás duma criança, procurando beijá-la para lhe comunicar a podridão que o enchia...

Quando a mãe lhe disse adeus o doente do vinte ficou cheio de resignação, o pensamento nos seus, as maçãs escondidas debaixo do travesseiro — e o outro espreitando odiava-o, odiava-o mais ainda — porque ele tinha saúde, e porque ele tinha mãe. E como o rapaz lhe oferecesse uma maçã, comeu metade — e queria que ele comesse o restante, sabendo bem que o outro não aceitaria porque tinha nojo dele — unicamente para o ver embaraçado.

— Coma, coma! Instava.

O rapaz cheio de repugnância não quis, fazendo um gesto de nojo e ele então comeu a maçã inteira.

Pouco e pouco a enfermeira começou a gostar do doente. Falavam da terra, dos seus — e juntos passavam ali na enfermaria dias inteiros amando-se...


E ele sentia ao ver os dois juntos, ela rindo, cheia de cuidados, afável e linda, um ódio imenso, uma raiva espumante, sem fim, rebentar-lhe na alma. E os dias todos, tardes inteiras, os ficava espiando, espiando... E ele morria. Como todos o odiavam, o enfermeiro havia dito contente, arrastando a perna, ao passar por ele:

— Anda malandro, esta noite, zut! E foi cantando:

O ladrão do negro melro
Toda a noite assobiou...

E um rapazola para outro doente:

— Que raio de piteira hoje, hein!...

A Morte! Era ela! Morrer, bom Deus! Morrer sem ter tido no mundo um dia de felicidade, alguém que o amasse, mulher que o beijasse fundamente, com amor, na boca! Morrer! morrer! quando o do vinte renascia para a vida, falando em casamento à enfermeira, tão linda, linda! E sentiu-se nojento naquele instante: — tendo-lhe estalado um olho, a face descarnada já, o peito também, não podendo falar desde o dia antecedente, a rouquejar — horrível, horrível — vivo ainda e sentindo já os bichos roerem-no, passearem-lhe lentamente na fronte! Morrer! morrer! Não queria! não queria! E torceu-se na cama numa angústia enorme, rugindo! Não! Não! Babujou. Mas caiu sem forças e então pediu... Bom Deus! O bom Deus bem sabia! Por piedade! Nunca ele tivera como os outros mãe que o acariciasse — alguém que lhe dissesse no mundo uma palavra amiga, cheia de bondade. E ele não pedia muito, não!... Um dia só de felicidade! Um momento — Jesus! Só um instante, alguém que o acariciasse — alguém que lhe desse um beijo na boca, um só— Senhor!...

A noite descia; a noite avançou terrível, medonha naquele hospital. Gemidos redobraram e doutras enfermarias vinha de quando em quando um grito — alguém que morria talvez... Dos Lampiões caía uma luz ensanguentada, e nas paredes a sombra das cordas que os suspendiam desenhava-se em arranhões tremulando... As camas, àquela luz vermelha e má, enfileiravam-se tristemente, e os doentes gemiam... Na do trinta — um pedreiro — à morte viam-se os lençóis sacudidos numa respiração ofegante, num arquejar cheio de angústia e àquela hora, acordados ainda, os doentes lembravam-se dos seus — das suas mães, das suas casas, da aldeia, do sol, de lá de fora... — Meu Deus! Meu Deus! Era a hora terrível, a hora angustiosa em que se tem medo de ficar ali, em que a febre aumenta, em que as alucinações começam, as súplicas do Senhor, os gemidos, os gritos do fundo da alma... Para ele aquela noite era a última, a última! Sentia-o! sentia a morte!

E o seu único olho raiado de vermelho, luzindo na cara apodrecida e negra, olhava fixo, odiendo e triste — cheio de tristeza pelas alegrias que nunca tivera — cheio dum ódio intenso por todos aqueles que as sentiam... Um pensamento dominava-o agora: — ia morrer e os outros  — o do vinte — não morriam também! E o ódio foi tão grande nele que se sentou na cama — o olho vermelho luzindo, luzindo...

Mas teve de se deitar outra vez: a enfermeira vinha ainda ajeitar a cama do vinte — e ele ouviu, ouviu bem, ela dizer alegre:

— Durma bem, vá! Amanhã tem alta!...

Ai, para aquele havia amanhã ainda, alta, saúde, o casamento e ele... Oh, Deus! Oh Senhor, Senhor!... por piedade, bom Deus! Que bandalhos!... deitou as pernas fora da cama num impulso, mas agachou-se ainda: alguém passava devagarinho, sem barulho... E ele não podia! Já não podia! Sentia-se morrer. Mas era ali — vá.... Gemidos redobraram e ouviu-se bem um grito noutra enfermaria — um grito onde a angústia era tanta, tanta, que ele mesmo o sentiu!... Vá!

— Que é? Disse o do vinte surpreendido.

Mas não teve tempo de gritar. O outro numa raiva infindável, louco, caiu sobre ele, cheio de força, apertando-lhe o pescoço entre as mãos, beijando-o, esfregando-lhe a cara pela dele com força, a ponto de pedaços podres de carne caírem...


Ao outro dia encontraram-nos mortos ambos, ambos juntos. E o enfermeiro, arrastando a perna, chamado à pressa, piteiro já, berrou:

— Ora já viram um filho da puta assim! Que canalha!

E foi dar parte, cantando:

O ladrão do negro melro
Toda a noite assobiou...

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Raul Germano Brandão (1867-1930)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

A Maria Trolha (Conto), de Raul Brandão


A Maria Trolha

Sentou-se à janela. Tinha uma vontade grande de chorar sem saber bem porquê. Uma angústia vaga, um pesar imenso tomara-a pela garganta ao cair da noite; sentia com violência a necessidade de alguém que a acariciasse honestamente: — um beijo paternal na fronte. Ia a chorar ao lembrar-se do pai que se lhe desenhou nitidamente – ia a chorar, mas para afugentar as mágoas, traçou a perna e cantou:

Se vires a mulher perdida
Não a trates com desdém...

Na viela estreita, outras vielas vinham romper ainda, murmurantes de gente, negras, vermelhejando de longe em longe à luz dos candeeiros. Uma cantiga perdia-se na noite: vozes roucas saíam duma tenda: e em cafurnas terríveis, movendo-se à luz vermelha, vultos tinham a aparência extravagante de visões. Assim com um céu de tinta em cima, os casarões muito altos perdiam-se na escuridão. Ouvia-se frigir peixe. Mulheres em saias brancas apareciam à soleira chamando avidamente:

— Anda cá! olha! ó filho!...

Um piteireiro andava aos encontrões, berrando: — Suas croias! Suas croias! Dum canto partiram risadas; depois uma barregã alta, medonha, mãos à cinta, veio despejando injúrias, cheia de chibança – e gente correu na viela rindo: outras vieram ver o que era, cheias de piedade, murmurando consolações. – Foi o amante... – disse uma. Mas a Joaquina informou: — Uns gajos que lhe partiram o espelho... – Foi bem feito! – Coitada da pobre! Mas mais gente passava, e elas, esquecendo a outra, chamavam avidamente: — Olha, ó filho! Pst!... E um pedreiro piscando o olho, tonante: Não pega! Depois um momento tudo caiu em silêncio. À beira duma janela dois homens iam conversando. Ouviam-se distintamente fragmentos de palestra.

— Ai, Lisboa! Lisboa!

— Como aquilo, menino! Como aquilo!...

E de repente uma malta rompeu pela viela acima, aos pinchos, cantando, dizendo insolências às raparigas...

...O som do bronze que nos causa horror...

E uma guitarra tristemente começou a gemer ao longe as amarguras do fado...

E no entanto, como era domingo, aquele labirinto medonho de ruelas rumorejava, borbulhando gente... As vielas cruzavam-se, despenhavam-se descendo sobre o cais, íngremes, terrivelmente negras: só de quando em quando, destacando cruamente na escuridão de tinta, uma fachada iluminada a vermelho pelo candeeiro parecia escorrer lentamente sangue – ou uma janela, fendas por onde rompiam fieiras de luz e descobriam vagamente antros terríveis onde rasteja ignóbil o vício e o crime. Sentia-se a alma opressa. As muralhas suavam a miséria de muito tempo... No alto da Sé o vento soprava. Duma banda a cidade adivinhava-se na escuridão profunda, na escuridão repelente: da outra banda o rio – um rio de tinta – e para o longe, montões de treva, de lama, o céu sem uma estrela luzindo, impenetrável, imenso – tão negro que oprimia a alma. Montões de casaria, pintados a nanquim, com clarões vermelhos de lampiões: bandas de paredes iluminadas: uma poeira de luz, suspensa no céu, mais para o longe, no meio da cidade...

...Não diz quando nem a quem!

Parou de cantar. Esquecia-se de chamar gente. Nunca sentira como naquela noite de Verão um sofrimento tão grande. Entre os beirais um formigueiro de estrelas cintilava naquela banda de céu. Tristemente viu bem naquele instante a sua vida inteira...

Criada de servir numa casa à Esperança, um casarão velho onde habitava muita gente. Em baixo o pai, na loja de sapateiro; no terceiro andar dois recém-casados, ele comerciante; em cima, na espelunca, uma hortaliceira – a senhora Aninhas do Bacalhau, com o homem e o filho – um ferreiro.

Ela servia os dois casados de há pouco – e lembrava-se bem, cheia de saudade, da alegria daquele casal, dos patrões, tão boas pessoas ambos.

A senhora, Maria da Conceição, loura, branca, gostava de ter a casa muito limpa. A Ana, a cozinheira, uma picada das bexigas e cheia, dizia com uma risadinha ao vê-la mourejando:

— Estás nas verduras! Estás nas verduras!... Isso lá para diante, passa-te! Muito econômica, tanto que a da cozinha afiançava mostrando o punho:

— É assim! Uma esganada por aí além, mulheres!...

O senhor vinha à tarde jantar – e ela arrumando a louça, enchendo os jarrões de camélias rajadas, na sala cheia de sol que dava sobre o cais, ouvia-os conversando. A senhora queria viver na aldeia. Faziam projetos. Assim que ele tivesse vinte contos comprariam uma quinta...
Ainda se a casa tivesse quintal...

— O pior é o pequeno. Está aqui um homem. Precisa de ir à aula e na aldeia não sei...

— É verdade, o pequeno... – murmurava ela.

Pelas janelas abertas via-se o rio azul, a verdura da outra banda, as fábricas, casas aos montões, pintadas de amarelo, de branco: os paquetes de costado vermelho-escuro, as mastreações erguidas no azul inefável – toda a alegria cantante do cais...

Ela era nesse tempo uma rapariga magnífica, ruiva e alta, cheia de alegria e risadas. Um dia estupidamente, caiu com o ferreiro na espelunca do terceiro andar. Ficou surpreendida. A prenhez veio depois. Quis escondê-la. Batia murros selvagens no ventre, tomou mesmo a beberagem que uma velha lhe deu. Depois a prenhez avançou e numa fúria grande ela combinara matar a criança, atirá-la ao saguão, na imundícia da cloaca; mas o pai um dia desconfiou e ela teve de fugir perante a cólera terrível do sapateiro que era cheio de austeridade.

Um ano depois, estando ela na viela, encontrou o seu antigo patrão. Passava um homem, chamou-o:

— Ó filho, olha!...

E ele atarantado reconhecendo-a, murmurou dum sobressalto:

— Ah, és tu, rapariga!...

E entrou. Parecia borracho ou sonhando vagamente, muito palerma. Com alguma vergonha, cheia de acanhamento de repente, perguntou-lhe:

— Como ia o menino:

E ele com tristeza, errante o olhar:

— O menino morreu...

“Perdera tudo, tudo... estabelecera-se, mas fora cedo de mais. Foi cedo de mais. Uma asneira! acabou-se!... veio uma letra, não pagou o seu antigo patrão, que ficara sempre com zanga por ele o deixar, protestou-lha... Pois porque se zangara o patrão? Pois um homem não pode trabalhar, um homem que tem uma família? Ainda se ele tivesse saído para empregar na casa doutro... Mas não senhor! – fora estabelecer-se. O seu antigo patrão não tivera razão – não é verdade?... Perdera tudo, tudo... Mas estava novo, havia de se arranjar”.

— Estou ainda novo.

E parecia que tinha fome, muito pálido, os olhos cheios de bondade brilhando docemente. Via-se que tinha contado longamente aquela história a toda a gente e que ninguém o ouvia já... E repetia, querendo convencer-se:

Havia de se arranjar. A senhora lá estava. Andava adoentada – uma tossesita.

Ela escutava cheia de pena, invadida por um desalento muito grande – mas o Carvalheira, que tinha vindo com outros, perguntou da janela:

— Olha que gajo! Quem é o galinhaço, ó Maria?

E ele, de repente, como acordando dum sonho, viu o lugar onde estava, e compondo as joelheiras das calças, saiu rapidamente dizendo atrapalhado com a sua voz doce, penetrada de meiguice:

— Adeus, menina!...

Tudo a torturava então: a vida maldita da viela, dormindo num leito à beira da cloaca, sentindo em cima obscenidades – a Antônia a berrar com uns gajos: a patroa ávida de ganhos, cheia de ralhos e de injúrias, quando elas não sofriam de boa vontade os homens: o envenenamento com fósforos da Joaquina, quando o amante a deixou... E essa era a única boa rapariga! Lembrava-se bem a ter visto estrebuchando, cair de repente, sem uma queixa, o olhar cheio de resignação e de tristeza... Depois morrera – e a patroa berrava, vendo-se já às voltas com a polícia:

— Ora o coirão! Nunca me aconteceu uma assim... Raio d'entaladela!... Hospital! Vão rebentar para o hospital, suas bêbadas!... Olha agora a polícia – e então o Mendes que anda de ponta comigo! O coirão!... É preciso dar aguardente à patrulha!...

E o que principalmente a deixara sem uma esperança, cheia de desalento, fora a história da Emília que elas contavam umas às outras, poetizando-a. Ao vê-la passar, tossindo, tísica, a Antônia narrara-lhe uma vez... Uma paixão por um estudante. Ele amava-a, quisera fugir com ela para o Brasil, mas o pai tinha vindo e levara-o para Freamunde – onde ele morrera pouco e pouco de saudade. E ela na viela sempre, nunca mais tivera um instante de alegria – ia morrendo também, sem pena – sustentada pela caridade das companheiras... Falava com saudade do campo, nas vindimas, quando o sol inunda intensamente os parreirais de luz... As uvas rebentam de maduras, cheias de transparência, exuberantes de vinho. Vai uma alegria vibrante, colossal, na aldeia inteira. Nas colinas verdes, onde as vides se torcem ao sol pelas ribanceiras abaixo, há risadas: um velhote piteireiro, de calça azul, esmaga entre as mãos um cacho – e fica cheio de sangue, os dedos tingidos de vermelho, como se tivesse cometido um crime. Nos tonéis homens vigorosos, as pernas nuas, com vinho até a garganta, esmagam, pisam, numa raiva, as uvas. Os lagares são do tamanho de tanques – e dir-se-ia que uma torrente de vinho espumante corre impetuosamente pelo vale fecundo. Os homens beijam as raparigas, que se abandonam como cadelas, com um desplante muito grande. São ranchos que descem por esse tempo do norte, cantando, trigueiros das mordidelas do sol, cheios de mocidade, rindo, numa despreocupação de boêmios. Vivem juntos, amando-se sob festões de vides, trabalhando onde há trabalho, vivendo onde calha. As infusas de vinho novo correm de mão em mão. Nos carreiros, carregadores possantes levam, gritando cantigas que retinem no azul, os grandes cestos de vindima...

Pouco e pouco deixou de ganhar dinheiro. Quando começou, foi procurada. A princípio só os fregueses, pessoas respeitáveis, pagando bem – um padre, um velhote menineiro, outra gente ainda que a patroa recebia com muita consideração e respeito – é que a possuíam num gabinete oculto. Depois, como as mais, veio para baixo, expondo-se aos desejos do mundo inteiro. Por fim, como nunca pudera acostumar-se à brutalidade das outras, disputando com avidez os homens – pouco dinheiro ganhava...

Um dia um homem disse que queria não sei quê de repugnante, de relesmente nojento. Ela disse-lhe que não:

— Sai-te daqui. Não, já te disse!...

Mas ele, afogueado, teimou. Fazia tinir o dinheiro no bolso, pedia:

— Vá! Que te custa? Olha dou-te seis tostões... seis, hein? Queres?

Havia dois dias que não comia, sem dinheiro, escorraçada como uma cadela sarnenta que vai parir. Teve vontade de chorar, de morrer, de pedir piedosamente que a deixassem... Num instante avaliou bem o abismo profundo a que caíra; cheia de angústia, dolorosamente, viu a imagem do pai.

E o homem pedia:

— Então? Então?

E ela de repente, decidida:

— Anda!...

Depois no fim viu, quase com espanto, que sentia como dantes a mesma rapariga – e daí em diante nunca mais lhe custou, acedia prontamente, sem se fazer de rogada.

Teve freguesia. Gabavam-na altamente. Havia discussões renhidas:

— Como aquilo! A Lola! A Lola como aquilo! Não me digas isso, menino!... Olha quem!... A Lola! Olha a porca da Lola!

As outras companheiras odiavam-na. Diziam-lhe chufas, batiam-lhe cheias de raiva, porque todos os homens a procuravam unicamente a ela – e foi preciso que a patroa – uma gorducha, de olhar vesgo, pusesse de alto, bem de alto a sua respeitabilidade, contente pelo ganho que a rapariga lhe dava, para que as outras a não matassem uma noite com pancadaria.

Havia cinco dias que a torturava um pesar imenso. As lágrimas muito tempo represadas iam-lhe rebentando em borbotões nos olhos. Expulsa de toda a parte, corrida a pau, coberta de lama e de injúrias – sentiu um desalento, uma mágoa infinita que a matava. Teve fome e saudades – e foi nesse tempo que a vida passada lhe surgiu poetizada, torturando-a. Era um almejar, uma ânsia de viver singelamente como dantes à beira do pai, amando-o.

Um dia, cheia de esperança, procurou-o. Foi encontrá-lo na loja de sapateiro, mais velho, mais curvado. Ele ergueu-se ao vê-la – e a sua figura rude era cheia de austeridade.

— Sai-te, puta!...

Ela então ajoelhou e erguendo as mãos pediu:

Meu pai, peço-lhe que me perdoe, meu pai. Pelo Senhor que está no céu... Tenho fome, meu pai! Oh meu pai!...

Arrastava-se humilhantemente, de joelhos, procurando abraçar-lhe as pernas. E ele, apontando-lhe a porta:

— Rua!

— Por quem é, meu pai, lhe peço que me perdoe... pela memória de minha mãe...

E ambos sentiram borbulhantes de lágrimas os olhos ao lembrarem-se da boa mulher. Naquele instante viram-na ambos perdoando, cheia de ternura – , uma santa. E ele chorando, impiedosamente:

— Vai-te. Foste tu que a mataste. Vai-te!... Sai da minha vista! Vai!

Ela tinha conseguido agarrar-lhe os joelhos. Desgrenhada, chorando – as palavras saíram-lhe sentidas, do fundo da alma.

Meu pai, meu pai! Eu prometo-lhe que viverei como dantes! Perdoe-me! perdoe-me! Olhe: não sabe o que eu tenho sofrido! Não calcula a minha vida! Pela memória de minha mãe!... oh meu deus!...

E ele sentindo que ia ceder, desprendeu-se num arranco e gritou, chorando:

— Sai-te! Rua! Eu vou chamar um polícia! Espera!...

Ela então viu bem que nunca lhe perdoaria. Ergueu-se e saiu cambaleante...

Foi descendo, descendo mais, descendo sempre. Vivia numa cocheira. Tinha engordado, andava suja e à noite saía, rondando, atrás da marinhagem, sujeitando-se a tudo para ganhar aqueles tristes seis vinténs.

Tinha um medo muito grande da polícia. Embrutecia lentamente com um vício terrível que adquirira: — a aguardente. No dia dezesseis de cada mês e no primeiro, espreitava os quartéis, perseguindo os soldados, que ultimamente, cheios de nojo, sentindo-a repugnante e velha, lhe batiam.

— Ó filho! Ó trinta! Tu não me conheces, ó trinta?

Não pensava quase e só de longe em longe, fulgurando um instante, a imagem do pai lhe aparecia, trechos da sua vida singela de virgem...

Começou então para ela uma vida maldita e errante. A marinhagem brutal escalavrou-a a pontapés – quando ela, na ronda terrível da noite, gania piedosamente obscenidades, para que lhe matassem a fome. Havia noites sobretudo, noites temíveis em que o sofrimento, as aflições que lhe rasgavam a alma, eram tão grandes – que nunca Jesus assim padeceu. Cabriolava na lama, o traseiro para o céu; sujeitava-se prontamente às mais horrendas infâmias que os ladrões conheciam; esfomeada, uivando como uma loba, corria numa ânsia os antros medonhos, as cafurnas onde os assassinos se acoitam. E de repente, cheia de sofrimento e de fome, fugia na noite, escalavrada a pontapés, perseguida pela polícia. Estava ignóbil, pelada, farsante. Era a imagem do vício terrível – de corcunda; o vício que faz mal e cocegueia ao mesmo tempo na barriga da gente.

Nessa noite nem uma côdea de pão arranjou. Ninguém a queria comprar. Oferecia-se humildemente de rojos – e batiam-lhe. Chorou suplicante. – e era visível, patusca, assim feia, vermelha e gorducha. Tinha muita fome! Pediu – e teve de galgar, fugindo na escuridão, ofegante, tropeçando e caindo cheia de lama e de feridas. Esgravatou nos montões dos cantos e nem um talo de couve encontrou. Vadiou pelas ruelas da Sé, errante, encostando-se às muralhas, rebentando de fome, gemendo de fome, gemendo, o olhar estupidamente vagabundo, sem um pensamento sequer. Dizia sempre, repetindo:

— Ó filho! Olha!...

E a sua voz era um grito de angústia e de raiva: havia súplicas e lágrimas, maldições e humildade.

Por fim arrastou-se até o pardieiro – uma cocheira abandonada, onde dormia ela, um ladrão e a mulher.

Piedosamente os dois deram-lhe uma côdea. Quis trincá-la e não pôde. Deitaram-na na palha e ela gemia:

— Ó filho! Olha!...

— Está piteira, o raio!...

Só eles tiveram compaixão dela – os ladrões. Ele era medonho – ela era horrível. Ambos tinham cometido crimes, crivado gente de facadas na escuridão terrível das vielas. As crianças fugiam deles – e a noite, a noite profunda, era a boa amiga de ambos...

Uma cadela gania parindo... Ao longe alguém, na noite ia tocando tristemente o fado. Sentiu-se morrer. Num instante, de repente, cintilou-lhe na alma verde de rameira – a sua vida inteira. Num momento viu o pai, cheio de austeridade, a mãe, a sua santa mãe, a boa velhinha, chorando – e sofreu tanto como durante todo o seu tempo de barregã; ia-lhe rompendo um clarão de luz no crânio – e sentia um sofrimento tão grande que o arrependimento nasceu-lhe... Depois morreu. O corpo que a marinhagem brutal comprara – o seu corpo vendido, coberto de escárnio e de lama, de sofrimento e de injúrias – o seu corpo que fora belo, cheio de mocidade e de vida, caiu por fim inerte junto à cadela que paria, junto dos ladrões que dormiam. Morreu. – E morta, inchada de pança, envolta em farrapos, com manchas verdes já de podridão nas faces, era imunda – mais imunda e mais nojenta ainda, que a cadela que gania parindo...


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Raul Germano Brandão (1867-1930)
Pesquisa: Iba Mendes (2019)

7/02/2019

Natal dos pobres (Conto), de Raul Brandão



Natal dos pobres


Natal...

Está um dia fosco de neblina incerta e tristeza. Para lá as árvores despidas não bolem. A vida parou. As nuvens andam a esta hora a rastro pelas encostas pedregosas dos montes. Não se ouve um grito. Tudo na natureza se concentra e sonha. Há entanto um grande rio envolto que nunca cessa de correr...

Longe pelos caminhos, através de pinheirais cismáticos e calados, vão velhinhas tristes, de saia pelos ombros, para consoar nessa noite com os filhos. Andam trôpegas léguas e léguas. As suas mãos calosas, as caras enrugadas, onde as lágrimas abriram sulcos, os olhos tristes, contam o que elas têm passado na vida, dias sem pão, suor de aflições, desamparos, maus tratos...

Os cavadores deixaram os arados mortos nos campos, que a chuva alaga. Que tudo repouse. O vinho de hoje conforta, como as lágrimas choradas pelas nossas desgraças, o lume de hoje aquece como o amor de nossas mães.

Nos soutos, sob a chuva que cai mansa e continua, andam pobres que não têm lenha, a arrancar uma raiz esquecida, para se aquecerem. Deus os tenha na sua mão de pai. Partem, chegam, vêm muito longe, para verem os seus meninos, matando saudades. Quase não comem e sustentam filhos, sustentam netos. Os velhos, que tem atrás de si uma vida de martírio e fomes, dizem:

– É hoje o maior dia do ano...

Na lareira arde um canhoto. Cai o nevão. A cozinha é negra, de telha vá, é negro o frio, mas as almas sentem-se agasalhadas. Por um buraco avistam-se as estrelas e uma pedra serve de lar. Ao estalido das pinhas, abafadas na cinza, repartem um pão que é o suor do seu rosto, bebem o vinho aquecido em árvores que as suas mãos cortaram...

Sentados ao lume não falam. As brasas vão-se extinguindo como um poente, ou como uma alma que vai deixar-nos. A Morte passa. No buraco do telhado a estrela reluz, o nevão cai com um ruído das flores desfolhadas, e cada um cisma em alguma coisa de indeterminado e vago, de longínquo; em certa hora da vida, na mãe, num filho ausente, naquela morta que passou seus dias a sacrificar-se por nós...

– O lume apaga-se...

– Deitai-lhe canhotos.

O lume apaga-se e as sombras da noite, em re-voadas, vêm escutar-nos atentas.

Os pobres são como os rios. Estancam a sede da terra, fazem inchar as raízes e crescer as árvores; acarretam; moem o pão nos moinhos. Ei-la a vida da terra. Todas as catedrais se construíram da sua dor; sem eles a vida pararia.

Natal dos pobres! natal dos pobres!... Porque é que criaturas misérrimas encontram ainda na sua gélida nudez horas para recordar e amar? Pobres repartem o seu pão; espezinhados dão-nos das suas lágrimas. Vinho quente! vinho quente e amargo, que sabe a aflição! Chegam-se uns aos outros para se aquecerem. Nas enfermarias, nos sítios onde se sofre, os míseros e os doentes quedam-se muito tempo a cismar. Os pobres pensam que existem seres ainda mais pobres, lares desamparados, onde nem o lume se acende; cuidam numa velhinha, que, a essa mesma hora, cisma, abandonada, e sozinha, ao pé de brasas extintas no filho doente, no filho ausente... Há cabanas nuas, lares rotos, almas mais gélidas que o nevão.

As lágrimas que se choram e se não vêem são as melhores: caem sobre a alma.

Sofia sobe as escadas com uma caneca de vinho quente, para repartir com o Gebo. Na sua fisionomia há um cansaço enorme.

A chorar, misturando-lhe lágrimas, o velho, mais gordo e todo branco, bebe o azedo vinho quente das prostitutas. Depois abraçados soluçam na trapeira fria. Fora não se ouve rumor: as coisas ingeridas escutam.

Põem-se a cismar na mãe que descansa na terra encharcada. Tudo tão triste, dias sem pão, e o amor a prendê-los, a uni-los, mais forte que a desgraça. Não protestam, não têm forças para gritar. Baixinho o velho Gebo e a filha choram aquela que a terra primeiro tragou.
– Se o Senhor também nos levasse...

E Sofia bebendo do mesmo copo:

– Tenha paciência, tenha paciência...

– Se o Senhor nos levasse juntos, na mesma hora...

Cuido que não tinha tanto frio.

– Aí tem pão.

– Sabes? Eu tenho medo de morrer. Se morresse contigo, minha filha, não tinha tanto medo.

– A mãe lá nos espera. Na cova acabam-se as precisões e as lágrimas...

– Tudo se acaba na cova. Chegada a nossa hora, acaba-se também a desgraça.

– Aqui tem o vinho.

Natal dos pobres, noite de comunhão, noite de lágrimas e saudades! Não é chuva que cai sem ruído, são lágrimas. O Gebo abre a janela e põe-se a falar para a escuridão com palavras que a noite escuta, com palavras que a noite leva.

Em torno da mesa de pinho ceiam as mulheres. Com os cotovelos fincados nas tábuas, olham o vinho quente e cismam... Ceia de natal! Ceia de natal!... Até as prostitutas se querem lembrar... Moídas de pancadas, têm más palavras, gritos, e um sorriso humilde. Fazem-se pequeninas para que lhes perdoem uma vida infame.

Falam! falam!... Parece que a mesma primavera negra fez dar emoção a estas criaturas exploradas e servidas. Lembram-se da sua vida, sempre lágrimas, risos sem piedade... Uma começa:

– Ninguém canta?

E logo outra, como se as palavras lhe saíssem de golfão:

– Eu cá foi por fome que me desfrutaram. Ninguém queria saber de mim e a minha madrasta calcava-me aos pés.

– Eu não sei como foi...

– E eu então – continua – foi por fome. O pai estava escarangado e a minha madrasta era tão má, que, por eu me demorar num recado, partiu-me um braço.

– Pois eu foi assim de repente... – diz outra.

– Ia pela rua fora. Vinha da fábrica, começou a chover e uma lama!... Tinha frio e um homem pôs-se a falar-me ao ouvido e a levar-me. Eu nem sei como aquilo foi... E a falar, a falar, até me doía o coração! E nunca mais o vi. Se o vir acho que nem o conheço.

– Enganam e nunca mais querem saber.

– A mim minha mãe bem me pregava mas a gente que há de fazer?

– Ontem os soldados puseram-me o corpo negro – diz uma.

E mostra a triste carne magoada, os seios murchos e com nódoas. No ombro os ossos furam-lhe a pele.

– Quando eu morrer... oh quando eu morrer!...

– Tola!

– Que tem? Tenho ali a roupa apartada.

– A mim, enganaram-me, levaram-me... Eu não sabia nada. Depois comecei a servir. Enganavam-me e punham-me fora... Depois não tinha mais para onde ir...

– Eu cá tive um filho...

Uma que estava calada soluçou no escuro. E como todas se voltassem pôs-se a rir e a ajeitar os cabelos.

– Eu tive um filho e pus-me a criá-lo. Depois disso o meu amigo nunca mais quis saber. Quando eu o procurava ria-se. Mostrava-lhe o inocente e ele punha-se a rir. – Mulheres não faltam, dizia-me. Vai-te! – E a gente fica feia. Vai um dia e disse-me: – Se cá tornas chamo a polícia.

– Eu chorei até não ter mais lágrimas e acabou-se tudo. São todos o mesmo. Noutro dia vi-o, mas ele fingiu que não me conheceu.

– E o teu filho era bonito?

– Era um anjinho do céu. Tanto chorei que secou-se-me o leite de chorar. A gente sempre e mais tola!...

Pôs-se muito chupadinho e morreu.

– A Maria já deitou um à roda.

– Eu cá se tivesse um filhinho acho que morria por ele. Não tinha coração para o dar a criar.

– A gente não podemos ter filhos.

– Eu cá era uma inocente. Até me dá riso! Tinha treze anos e foi logo ao entrar para a fábrica. O mestre foi quem me desfrutou. Agarrou-me, mas eu não sabia e pus-me a chorar. – Cala-te! se dizes, vais para a rua! – Abandonou-me, outros vieram... A gente há de cumprir o seu fado.

– Eu cá fui um miminho. Meu pai tinha de seu...

Depois tudo esqueci, porque senão a gente morria. Meu pai era muito meu amigo. Era preciso não ter coração para o enganar. Nem ele podia supor mal de mim, nem do outro que entrava na nossa casa. Meu pai era também muito amigo dele e tinha-lhe valido sempre. Ainda me lembro, quando meu pai comigo no colo me dizia: – Tu és o meu coraçãozinho... – Eu sempre tive um colo! Olhai: embalava-me como às crianças. – Falta-te a tua mãe, mas eu sou a tua mãe, queres? – Era uma dor do coração enganá-lo e nós enganamo-lo ambos. E eu bem sabia que ele era casado, mas mentia-me...

– Por que será que os homens mentem sempre?

– Mentia-me sempre, e eu era inocente. Mentiu-me e mentia a meu pai. O pior é que um dia fiquei grávida. Começou o meu castigo. – Vou-lhe dizer tudo.

– Diz – disse ele. Matá-lo. Se queres diz... – Eu calei-me. – E agora? – Agora... – Eu já lhe não queria, acho mesmo que nunca lhe quis deveras. Foi uma desgraça.

Já estava escrito que fosse desgraçada, acabou-se!...

Depois não podia esconder o meu erro. Só meu pai não reparava... E ele que me imaginava uma inocente!...

Esperai... – E agora? agora?... – perguntei-lhe. Então arranjei com que meu pai me deixasse ir com ele e a mulher para uma quinta. Se vós vísseis! A pobre da mulher! Batia-lhe sempre, tratava-a pior que a um cão.

– Cala-te! e ela calava-se, a pobre. – Fala! – e ela falava.

– O estupor, tu não te calarás! – Ela tinha os cabelos todos brancos e vai eu um dia perguntei-lhe quantos anos tinha. – Trinta – respondeu-me, e calou-se. Fiquei passada. O homem diante dela dava-me beijos para a ver chorar. Dizia-lhe: – Vou dormir com ela, ouves, velha? – E dormia comigo. A senhora não dizia palavra. Chorava e punha em mim uns olhos tão tristes, que faziam aflição. Um dia que ficamos sozinhas, ela disse-me: – A menina há de ser uma infeliz. – Eu chorei; e ela com a mão nos meus cabelos, a fazer-me festas! – Coitada! coitada, que sorte a sua tão negra!... Ainda eu...

– Por que não o deixa? – perguntei-lhe. – Já me tinha deitado ao rio se não fossem os meus filhos.

– Ele sempre há desgraças! Às vezes mais vale ser mulher da vida.

– Esperai pelo resto. Tive as dores uma noite no verão, em a gosto, e a pobre da senhora é que me tratou. Ele levou-me logo o filho. Na outra sala ouvi gritos. Vai e atirei-me pela cama fora, sem saber o que fazia. – Onde está o meu filho? – Fui mesmo de rastos e pus-me à porta a escutar. Eles berravam. – Se falas esgano-te! – dizia o malvado à mulher. – Mata-me! – tornava ela. – Tu queres a minha desgraça? Estorcego-te! – Depois ouvi um grande grito e fiquei como morta. – O nosso filho? o meu filho? – Nasceu morto. – A mulher a um canto chorou. Chorou sempre depois.

– Tinha-o matado, o malvado?...

– Tinha. Afogou-o na latrina. Depois veio a polícia. Esperai... A criada ouvira os gritos. Sabe-se sempre tudo, o diabo tapa dum lado e descobre do outro. Ele fugiu para o Brasil, eu fui presa, e meu pai diante duma ingratidão tão negra – quereis crer? – estalou-lhe o coração. Depois... depois... A gente quando nasce já tem a sua sina escrita.

– E a ti?... Não falas? – perguntam a uma sumida no escuro.

– A mim enganaram-me. Foi há tanto tempo que já me não lembra. Tudo perdi.

– E a tua família?

– A gente não tem família.

Na noite, a um canto do Hospital o velho banco de tábuas puídas, dá-lhe também para cismar. A ventania parou. Duma fresta tomba luar. A treva amontoa-se ao fundo, e, para além, nos corredores abobadados, arde um lampião. Direis que o negrume remexe: pedaços de escuridão destacam-se, escoam-se sem ruído pelas muralhas úmidas e espessas. Mais para o fundo há como um abismo, vala comum de treva empastada. Os gritos redobram; depois, por momentos o silêncio sufoca, como o dum sepulcro.

– Se é luar que cai daquela fresta... – cuida o banco.

– Se fosse luar!

Pela escada vê-se a enfermaria onde os lampiões em fila dão uma claridade triste, que mostra os corpos moldados em branco, caídos nos leitos: parece uma necrópole subterrânea e imensa.

– Se fosse luar... – Há que tempos que não sinto o luar. Era como um ruído branco que me envolvia outrora na floresta. Neva às vezes luar. E havia ainda outras vozes... Sempre se sonha, quando certas noites nascem! Era diferente... Havia rumor nas folhas e o vento dizia aos ramos histórias acontecidas noutros montes. Há épocas em que o vento traz noivados, ais de sapos, frangalhos arrancados às flores... Se aquela poeira fosse luar... E se o luar se pusesse a correr sobre mim, aquecendo-me como outrora, quando em mim subia não sei o quê de misterioso e forte?

Redobram os gemidos, os estertores, os gritos. Os últimos lampiões apagam-se um a um, como se alguém lhe soprasse. É a Morte seguindo o seu caminho. Sombras esvoaçam. E a cova, negra, toma corpo, vive, mais calada, maior, vala infinita, a que uma luzinha dá alma. E o banco cisma:

– Há que tempos que não sinto em mim a luz da manhã, que traz consigo a vida de tudo o que existe, dos rios, das outras árvores, nem o sol a crescer em vagas de ouro, nem a água verde, melancólica, e tão mansa entre os choupos que parece ir vogando já morta... Sinto-me transido... Transido? Isto é corno fogo, mas trespassa-me de frio. E não há nevão, mas ouço sempre gritos, ais, dores... Oh se fosse luar!... Destas enfermarias corre também um sonho parecido com luar... Será uma fonte?...

As fontes! nem te lembres das fontes!... Aqui parece que as minhas fibras mergulham num mar revolvido, que eu ignoro, mas que é feito de gritos.

Baixo a pedra começa também a lembrar-se e àquela hora perdida da noite toda a alma inconsciente do Hospital estremece. Quer recordar, palpita e logo esquece... Os sonhos dos doentes, dos pobres, dos tristes, materializam-se e são como nuvens: são de fogo, são de luar. Sombras aos bandos dissolvem-se, para outra vez se criarem.

– Acho que sempre é luar... E quando havia sol? Torrentes corriam pelo meu tronco, inundavam a minha roupa cascosa e em volta numa poeira azul andava um turbilhão de bichos. Outras árvores flutuavam na mesma poalha e as suas folhas ou eram de sol ou todas de prata. Longe – e que encanto aquela companhia sempre presente e amiga! – o fio do rio chalrava. Folhas caíam e iam devagarinho viajar sobre a água verde. Para onde?...

Debaixo de mim, até ao mais fundo das minhas raízes quantas vidas protegi e defendi!... As minhas raízes tocavam na vida!... Às vezes caia um pé de água, mas depois vinham sempre teias de sol, fios de sol, para me enredar – e o sol traz consigo um cheiro a terra e renovo que consola, o hálito dos montes e dos pinheiros meus amigos.

Nas temporadas fúnebres em que a água cai a golfões, a gente concentra-se e fica meio adormecida. Os montes envolvem-se em nuvens, os bichos na terra tremem de frio sob as raízes e as folhas secas estalam e gemem com saudades ao deixarem-nos. Se por instantes se descerra a névoa, os montes são mendigos, com um grande manto remendado. Ao fim da tarde levanta-se dos campos um lindo luar azulado que sobe e se dispersa.

É a névoa. Baba de ouro luz na água e os choupos são sombras. Ao longe havia um biombo verde de pinheiros, depois montes, e depois poentes doirados... Por que é que me ponho a pensar e a cismar? Há tanto tempo que dormia! As minhas fibras esta noite estremecem. Há de ser do luar... Oh se ainda houvesse luar!

As mulheres calaram-se. Não há ruído. Elas próprias sonham. Em torno da mesa, na cozinha saqueada, bebem sem palavra o vinho quente. Algumas pensam decerto num lar e bebem as lágrimas que caem no vinho e o gelam.

– A esta hora a minha mãezinha há de por força pensar em mim... – começa uma.

– E tu por que não foste consoar com ela?

– Punham-me fora! queriam-me lá!... Meu pai, meus irmãos...

– Em minha casa faz-se uma consoada muito grande. Assam-se pinhas no lar, e minhas irmãs pequeninas... oh minhas irmãs pequeninas!...

E sufocada desata de repente a chorar. As outras não se riem como de costume. Só uma, sentindo que iam todas chorar, canta:

Se vires a mulher perdida...

– Raparigas, é o fado... De que serve agora chorar? Ninguém foge ao seu fado.

– À noite a minha mãe aquecia vinho e dava-mo na cama. Sempre a gente é criada para uma vida! Quem adivinha?

– Cala-te!

– Eu era o miminho de todos, eu...

– Só eu nunca tive mãe, de mim ninguém se importa! Acabou-se! Cala-te! cala-te!...

Na escuridão as cinzas que restam num lar fazem tristeza e saudade. Brilham, esmorecem, vão-se apagar: são vidas que se extinguem, a alma da treva que em redor sufoca. Assim o Prédio ao abandono, sob a enxurrada, parecia cismar, como um rescaldo coberto de cinzas. Parara trágico defronte do Hospital, e cansado, tal como um pobre ao fim da vida, contempla o seu destino.

Natal dos pobres! Natal amargo dos que não têm pão e se juntam friorentos em torno dum lume que não aquece; natal dos seres que a desgraça usou... O vinho enregela, o pão é duro, mas resta ainda este lume, que jamais se apaga: – Amanhã! amanhã!...

Que poesia tão triste não vai caindo como um choro sobre aquelas almas de misérrimos, de gebos, de prostitutas, de desgraçados!

Numa trapeira o gato-pingado quer dizer: – Amo-te! – mas foi sempre tão nu que não sabe exprimir o que sente.

Na alma daquela criatura humilde, despida e escarnecida, que tinha medo de sonhar e até de chorar, fizera-se um clarão. Tal o espanto enternecido duma pedra a que uma raiz se apega e que a olha deitar flor na primeira primavera. – Fui eu, apesar da minha secura, pensa o calhau, que a trouxe no ventre.

Sem falar, bebem juntos, ele e a pobre, o mesmo vinho. Ele diz:

– Ambos somos desgraçados e sozinhos.

O vinho que havia aquecido dá-lho com um pedaço de pão. Ela olha-o, tendo sempre crescido por acaso e piedade, rota e triste. Havia pois alguém que a amasse?...

– Bebe.

– É tão bom a gente estar junta.

– Não se tem frio.

– Esta noite, sabes?... Lembro-me de minha mãe...

Por que seria que ela me enjeitou?

Fora choram. Ela ergue-se e vê no corredor uma rapariguinha que a mãe pôs fora da porta e que chora e pensa.

– E se eu me deitasse a afogar?

Dá-lhe do seu pão, reparte do seu vinho e, mísera, rota, ressequida, diz, pondo-lhe a mão na cabeça:

– Deus te crie para boa sorte...

Na terra só os pobres sabem ser desgraçados.

Meia-noite! meia-noite!... Para que tudo se crie, para que o pó se transforme em vida, que é necessário? Torrentes de chuva, oceanos de água. Eis a vida... Para que do que é matéria algo de radioso irrompa, que é preciso? Um atlântico de lágrimas.

Da matéria tem nascido à custa de gritos, de fibras torcidas, o imorredouro espírito. Através das idades ele se criou, através da dor veio surgindo. O mundo espiritual é já hoje mais vasto que o mundo material. A dor é a primavera da vida. Para se entrar na vida ou para se entrar na morte há sempre gritos. A dor ara o céu cheio de estrelas e os seres humildes.

Que se cria de tudo isto? que é que se alimenta no infinito? Destes pobres espezinhados, revolvidos, nascem as coisas eternas – húmus, amálgama, protoplasma, espírito lácteo, com que se constroem os mundos. Na vala comum os seus corpos, cansados de sofrer, são a vida da terra: as arvores, o pão, as formas, a seiva esplendente. No infinito é da sua dor que se sustenta Deus.