domingo, 15 de setembro de 2019

Alexandre Herculano e a crença em Deus (Ensaio)



Alexandre Herculano e a crença em Deus

Na Harpa do crente, nessa magnífica coleção de poesias em que se revela um grande poeta, um profundo metafísico, um cristão ardente e um patriota liberal, encontram-se os seguintes versos que fazem parte do seu belo e majestoso hino intitulado Deus e nos quais certamente faz alusão àqueles padres que, pondo em prática a mais ignóbil hipocrisia e tendo em mira exercer sobre a plebe fanática o seu domínio nefasto, procuravam aterrorizá-la com a pintura horrível dos tormentos infernais:

Embora vis hipócritas te pintem
Qual bárbaro tirano
Mentem, por dominar com férreo cetro
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio! Recear-te
É maldizer-te, oh Deus;
É o trono dos déspotas da terra
Ir colocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existência
Tranquilo, e sem temor, à sombra posto
Da tua Providência.

O Deus de Herculano não é terrível como o daqueles inquisidores que fizeram derramar tantas lágrimas, que condenaram à morte mais horrível tantos milhares de inocentes e procuravam abafar com o sangue de tantos mártires a ideia que procurava expandir-se. O Deus de Herculano não é o Deus que os jesuítas pintam como um tirano para satisfazerem a sua infrene e desordenada ambição, para dominarem a sociedade, para converterem o mundo num montão de cadáveres, sobre cujas ruínas se assentariam com um riso hipócrita, satânico e cruel. O Deus de Herculano é o Deus de paz e de amor, é o Deus do Evangelho, é o Deus que derrama os seus copiosos benefícios sobre os justos e os pecadores, é o Deus de Fénelon e de Lamartine, é o Deus das almas generosas e puras, como ele próprio o confessa no seu eloquente e filosófico poemeto A semana santa, escrito quando apenas tinha dezenove anos.

Ninguém em Portugal ainda defendeu com tanta eloquência o espiritualismo cristão como Herculano, mas é principalmente debaixo do aspecto prático que ele o considera; pode-se até afirmar que Herculano foi um dos escritores mais positivos que Portugal tem produzido em todos os séculos: é pelo lado prático, é baseando-se em fatos que ele encara especialmente todas as questões religiosas, filosóficas e políticas; por isso a convicção que produz no ânimo dos leitores é profundíssima; sem se engolfar nas mais transcendentes abstrações metafísicas, que muitas vezes são inúteis, nem cair nas sínteses abstrusas e nebulosas, que falsificam o critério, analisa os fatos com tal clareza e severidade, que neste ponto ainda ninguém o ex- cedeu nem igualou em Portugal; não se deixa arrastar pela imaginação como alguns positivistas; possui no mais alto grau uma qualidade bastante recomendável: o bom senso.


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DIOGO ROSA MACHADO
"Alexandre Herculano, Conferência Pública realizada no Ateneu Comercial de Lisboa", 15 de Julho de 1900.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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