domingo, 15 de setembro de 2019

Alexandre Herculano, O Lutador (Resenha)



O Lutador

De constituição robusta, física e moral, Alexandre Herculano parece ter nascido predestinado para a luta, e por isso não admira ter sido um dos mais notáveis batalhadores do seu tempo, qualquer que fosse o terreno, em que houvesse de terçar armas.

Moço ainda, alistou-se na expedição constitucional, e posto que não passasse de legionário obscuro, nunca deixou de bater-se com extraordinária intrepidez, expondo o peito às balas em todas as ocasiões de perigo. Apesar das suas aptidões literárias estarem ainda em gérmen, nem por isso o seu talento era absolutamente desconhecido, pois o seu espírito de estudioso infatigável bem cedo se havia manifestado. Do seu amor às letras não se aproveitou, porém, como fez Sebastião de Almeida e Brito, para deixar de cumprir rigorosamente as suas obrigações militares. O soldado, de espingarda ao ombro, esperava confiadamente a ocasião oportuna de soltar o seu canto de poeta.

Deixando os campos de batalha, onde triunfara a causa que defendera com tanta energia e convicção, Herculano começou desde logo a respirar a atmosfera das bibliotecas e dos arquivos, entregando-se a trabalhos de nova espécie, que deveriam ser como que uma distração e um repouso ao veterano da liberdade, mas que tantas vezes inquietaram tempestuosos o seu espírito severo. No silêncio do seu gabinete de estudo, onde perscrutava, sem a paciência de um monge, os segredos do passado, lá o foram despertar nos seus sonhos de vidente os alaridos dos idólatras do preconceito e da rotina. O leão, tão injustamente agredido, rugiu com violência, acordando os ecos da solidão. Polemista de primeira ordem, o atleta da palavra esmagou com a sua clava de Hércules os adversários, que tentavam amordaçar-lhe a boca, quando ele soltava a expressão da verdade histórica.

No seu ânimo inquebrantável passou um sopro de desalento, e o anacoreta das bibliotecas trocou a deliciosa companhia dos seus mais íntimos amigos, os códices e os livros, pelo convívio de alguns rudes camponeses. Desalento? Não. Herculano não se deixava esmorecer com tanta facilidade. A sua hégira literária, a sua fuga para o deserto da Azoia, não foi motivada por nenhum sentimento de fraqueza. O gigante não estava alquebrado nem abatido: estava apenas enfastiado. Era o tédio das paixões políticas e das baixezas de toda a sorte, de que ele estava afastado, mas cujo contato não podia evitar em absoluto. Transformada a sua vida literária em vida agrícola, ainda aí deu provas da solidez da sua estrutura moral. Na lavoura, como na história, foi ainda um inovador, ensinando praticamente os processos mais adequados para aperfeiçoar a cultura da oliveira e o fabrico do azeite.

Alexandre Herculano, tomando uma parte ativa, com a espingarda e com a pena, no livro, no periódico e no panfleto, nos movimentos militares e políticos, que transformaram Portugal, não se dedicou todavia a escrever a história contemporânea, da qual seria um cronista de inestimável valor. A sua crítica e a sua apreciação dos fatos e dos homens do seu tempo acham-se disseminadas, de um modo vago e bastante indefinido, por alguns dos seus artigos e opúsculos. A Voz do Profeta é um lamento bíblico que traduz apenas, de um modo enfático, a indignação partidária. Seria deveras curioso saber-se o juízo que o grande historiador formava, numa síntese luminosa, do resultado das transformações liberais. De Mousinho da Silveira deixou-nos traçado um perfil, que nos faz sentir a ausência de outros quadros idênticos na mesma galeria. Que opinião faria ele de outro insigne demolidor, Joaquim Antônio de Aguiar, cujo coração não estremeceu, cuja pena não vacilou ao redigir o decreto, que extinguiu as ordens religiosas? Apesar de forte, ou por isso mesmo talvez, Alexandre Herculano era também generoso e não costumava tripudiar sobre os vencidos, antes se compadecia do seu infortúnio. Ninguém como ele levantou com tão poderosa eloquência a sua voz de protesto a favor dos egressos e das freiras de Lorvão. A sua piedade envolvia os infelizes no manto de misericórdia, e assim é que ele amortalhou o cadáver de D. Sancho II. O Eurico é uma espécie de miserere soltado nos campos do Guadalete sobre a destronada monarquia visigótica. Nas Lendas e Narrativas a decadência e os desastres do império muçulmano na península repercutem-se dolorosamente, como se algum descendente daquela raça escrevesse tão magoadas páginas.

Se Alexandre Herculano não nos legou as suas Memórias, que deveriam ser preciosíssimas, de algum modo, até certo ponto, se poderia compensar essa falta. A sua correspondência não deixaria de fornecer elementos de superior alcance, que muito contribuiriam para satisfazer a nossa justa curiosidade. Segundo ouvi, as cartas, que lhe eram dirigidas, extraviaram-se ou foram extraviadas. É uma perda verdadeiramente digna de lástima. Devem, porém, existir muitas das cartas por ele dirigidas a diversas pessoas e que mereciam bem ser colecionadas e dadas a público. No Diário de Notícias reproduzi eu, há anos, em artigo editorial, uma carta sua, em resposta a outra do Dr. Delfim de Oliveira Maia em que este o convidava para assumir o movimento da janeirinha. Outras devem existir de não menor valia, e do mais variado assunto; a sua coleção seria sem dúvida uma das mais belas homenagens, que se poderia prestar à memória deste eminente e maravilhoso escritor de Portugal.

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SOUSA VITERBO
Boletim da Real Associação dos Arqueólogos Portugueses (1910)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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