domingo, 15 de setembro de 2019

Alexandre Herculano, soldado (Resenha)



Alexandre Herculano, soldado

Além de poeta, historiador, romancista, polemista e filósofo, foi soldado.

E se, como tal, não atingiu culminâncias, obteve no entanto um lugar de bastante evidência, de destaque muito honroso. Se não deslumbra pelos feitos d'armas, como deslumbra pelos trabalhos literários e científicos, onde o talento corre em torrente, merece todavia registro a sua briosa conduta nos campos de batalha, conduta de que há conhecimento por valiosos documentos oficiais e particulares. Se os serviços à pátria, como soldado, não constituem o bloco basilar da sua figura épica, nem por isso deixam de ser bom material de construção, cooperando para a estrutura moral do gigante, porque — na acepção translata do termo, Alexandre Herculano era um gigante — como lhe chamou o distinto poeta Antônio Xavier Rodrigues Cordeiro, que no seu "Almanaque Luso-Brasileiro" para 1879 publicou uma das melhores biografias de Alexandre Herculano.

Escolhemos, para homenagear Herculano, a apresentação da sua biografia militar. Não é difícil a tarefa, mas é exatamente essa circunstância — para nós ponderosa — a determinante da escolha. É modesto o labor, bem sabemos, mas está em harmonia com as nossas forças. Nemo dat quod non habet, nec plusquam habet. Falece-nos fôlego para empreendimento mais ousado. Falta-nos competência para enfileirar ao lado dos Plutarcos do colosso, e examiná-lo sob os aspectos mais transcendentes da sua genial individualidade. Mas sustemos as divagações e entremos no assunto, que talvez não desperte interesse, mas com certeza será visto com agrado, ou, pelo menos, com benevolência.
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Recorramos aos documentos.

Abra-se o registro do Batalhão de Voluntários da Rainha, 1º livro, 1828 a 1833, como indica a etiqueta lombar. À página 122 (no registro da 4ª Companhia) lê-se:

"Número 99. Soldado Alexandre Herculano de Carvalho. Passou a este Batalhão em 26 de março de 1882 do Extinto Batalhão vindo de França, socorrido de etape até 23 e de pão até 26 dito, e principiou a ser abonado de pret desde 19 do mesmo por ordem de sua excelência o Sr. Marechal de campo conde de Vila Flor e passou a ser abonado do dia 3 de fevereiro por ordem de S. M. Imperial de 23 de maio dito."

Desta nota biográfica infere-se que Herculano não encetou a carreira militar no Batalhão de Voluntários da Rainha, como parece depreender-se do texto da biografia acima citada. Pertenceu antes ao "Extinto Batalhão vindo de França". E, a título de esclarecimento, diremos, antes de mais nada, que Alexandre Herculano, comprometido na revolta do 4 de infantaria contra o governo (noite de 21 para 22 de agosto de 1831) teve de embarcar para Inglaterra, passando depois à França, sendo um dos emigrados liberais do depósito de Rennes, seguindo dali, em fevereiro de 1832, para Belle Isle, donde embarcou para a Ilha Terceira; e que o Batalhão de Voluntários da Rainha viera, em duas frações, de Plymouth para a mesma ilha em janeiro e fevereiro de 1829.

Continuemos as transcrições.

Abra-se agora o Registro Novo de 1 de outubro de 1833 até 1837. É já chamado Regimento de Voluntários da Rainha. À página 22 (no registro da 3ª Companhia) lê-se:

"Nº 35. Soldado Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo. — Filiação, Teodoro Candoro Cândido de Araújo. — Naturalidade, Lisboa. — Anos de idade, 22. — Polegadas de altura, 60. — Assentamento de praça e juramento, 26 de março de 1832. — Sinais: cabelo, castanho; olhos, azuis. — Estado, solteiro. — Ocupação, bibliotecário. — Casualidades: baixa, 22 de agosto de 1884. — Observações: Era nº 99. Foi escuso do serviço por ordem de Sua Majestade Imperial, o Duque de Bragança, comandante em chefe do exército, comunicada em ofício de 3 de agosto de 1834, do Barão do Pico do Celeiro, Brigadeiro geral e governador militar da Província do Douro; sendo empregado na Biblioteca desta cidade deixou de ser abonado dos seus vencimentos de pret, pão e etape desde o 1º de maio de 1833. Ficou-lhe em dívida o mês de abril segundo as determinações de Sua Majestade Imperial, do que se lhe passou título na quantia de 3.000 réis. Assinado: — J. J. E. Mosqueira, capitão de Voluntários da Rainha.

Vamos terminar com chave de ouro as nossas transcrições, recorrendo agora à excelente biografia por Xavier Cordeiro.

Depois de dizer que o seu biografado entrou nos reconhecimentos de Braga e Valongo, ação de Ponte Ferreira, expedição a Villa do Conde e em várias sortidas e tiroteios nas linhas de defesa do Porto, Cordeiro apresenta-nos atestados dos serviços militares de Herculano, um passado pelo seu capitão Esteves Mosqueira, outro pelo capitão Joaquim Antônio Nunes. Atesta aquele que enquanto Herculano serviu na sua companhia "teve sempre uma conduta militar irrepreensível e digna do maior elogio, granjeando a devida consideração de todos os seus companheiros d'armas pelo distinto e singular comportamento com que se houve em todas as ocasiões de fogo, realçando pela sua bravura e denodado valor entre os demais."

Atesta o capitão Nunes (como subalterno que fora da 1ª companhia) que, embora dispensado de todo o serviço "não houve um só fogo nas linhas de defesa em que espontaneamente se não unisse à 1ª companhia, batendo-se com o maior sangue frio, e chamando os seus irmãos à glória, porque foi sempre um dos primeiros a avançar contra o inimigo."

Honrosos atentados, sem dúvida, evidenciando à saciedade ter Herculano merecido a gloriosa antonomásia de "bravo do Mindelo", para alguns meramente decorativa.

Honrosos atestados, sem dúvida, demonstrando exuberantemente que até como soldado ele bem sérvio a pátria.

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Veneradores tão entusiastas, quanto obscuros, do extraordinário talento de Alexandre Herculano, curvamo-nos reverentes perante a sua memória, justamente nimbada pelo halo brilhante da admiração geral.

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CUNHA BRANDÃO
Boletim da Real Associação dos Arqueólogos Portugueses (1910)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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