domingo, 29 de setembro de 2019

Bandeira de Fernão Dias (Resenha)



Bandeira de Fernão Dias

O Sr. Paulo Setúbal fez um grande renome de romancista e teve mesmo os maiores sucessos de livraria dos últimos tempos com os seus dois primeiros livros, que eram muito mal escritos.

Constituíam, porém, uma novidade. Por outro lado, o público deixava de lado a correção e pensava apenas nos entrechos, ambos muito vivos, animados, empolgantes.

Do crédito, que lhe foi assim concedido, o Sr. Paulo Setúbal não abusou. De livro para livro, foi melhorando. Pode até dizer-se que não o fez gradativa e lentamente: há verdadeiros saltos, de um para outro. Cada um é muito melhor que o anterior. Guardou
as suas qualidades essenciais de bom narrador, que sabe prender fortemente a atenção do leitor, e melhorou consideravelmente o estilo.

Atualmente é, sem favor nenhum, sem nenhuma restrição, um bom, um ótimo romancista. Tem um estilo pessoal, cheio de vida, e tem, sobretudo, o dom supremo do romancista, que empolga o leitor, e que o faz, no fim de cada capítulo, passar ansiosamente para o seguinte.

A "Bandeira de Fernão Dias" é a história daquele Fernão Dias Pais Leme, o caçador de esmeraldas, que Bilac pôs em verso, num dos mais belos poemetos da nossa língua. O episódio é sedutor. O Sr. Paulo Setúbal o condimentou a seu modo e o aproveitou admiravelmente bem.

Já lhe foram apontadas algumas incorreções. É possível que outras muitas possam ser encontradas. Isso, porém, é fatal.

Não se precisa voltar a falar de Alexandre Dumas Pai, cujos romances estão cheios de anacronismos. Esses anacronismos lhe foram doutamente apontados por doutos eruditos. A posteridade mandou os eruditos à fava e continuou a cercar de sucesso as obras do grande romancista.

Mas o exemplo melhor é o de Flaubert. Porque Alexandre Dumas não ligava um apreço excessivo à erudição. Flaubert, ao contrário, teve um trabalho formidável para escrever "Salambô". Passou anos a estudar pormenores mínimos. Estava certo de ter atingido a perfeição no conjunto e nos detalhes.

No entanto, quando publicou o seu livro, não faltou quem lhe apontasse vários senões.

Há, portanto, um conselho a dar aos que forem ler "A Bandeira de Fernão Dias". Assim que começarem essa agradável tarefa, recomendem aos seus criados que, se o Sr. Rocha Pombo aparecer para lhes falar, o enxotem imediatamente, sem a menor contemplação. Podem deixar entrar (embora seja um pouco imprudente) o Sr. João Ribeiro, porque na fauna dos eruditos é de uma variedade zoológica tolerante e mansa.

Em "A Bandeira de Fernão Dias" há, entretanto, coisas que o Sr. Paulo Setúbal podia corrigir. Assim, por exemplo, lá se acha um velho índio, que esteve na França para assistir ao casamento de Henrique II.

Era, de certo, um índio a deixar inveja a Voronoff e outros sábios remoçadores, porquanto o casamento de Henrique II foi em 1533 e o romance de Paulo Setúbal se passa no meio do século 17... Ora, o autor diz do índio que ele veio da França porque "se aborrecia nos boulevards".

Evidentemente, Paulo Setúbal pensa nos boulevards como eles são hoje: largas avenidas, onde se passeia agradavelmente. Os boulevards primitivos eram ou profundos fossos ou altos muros.

Mas o caso mais engraçado do livro é o do suplício a que o filho de Fernão Dias condena Martim Preto.

Aí há evidentemente a lembrança de um episódio do romance de Eça de Queirós, a "Ilustre Casa de Ramires". Nesta, Eça de Queirós descreve a morte do Bastardo, metendo-o em uma lagoa cheia de sanguessugas, que lhe chupam todo o sangue. É uma página belíssima.

Zé Dias não faz isso. Amarra o corpo de Martim Preto, enlaçando-o em uma corda, pendura-o a um galho de árvore e deixa-o mergulhar pouco a pouco em um lugar do rio, onde fervilha um cardume de piranhas vorazes.

Estas começam logo a devorar o corpo do infeliz, que uiva de dor. Dentro de pouco tempo, ele está completamente devorado. Fica apenas a "ossada lisa". Os índios puxam-na então das águas e a deixam pendurada do galho.

É uma série de despropósitos, inacreditável. Se, de fato, as piranhas houvessem apenas deixado uma ossada lisa, a corda que, anteriormente, estava prendendo o corpo, por cima dos músculos, teria deixado cair a referida ossada. Por outro lado, se vê que o Sr. Paulo Setúbal pensa na ossada que ficou, como nas que se acham nos gabinetes de História Natural, armadas com pequenas molas de arame, para prender as várias peças do esqueleto. Se as piranhas tinham comido toda a parte de carne (músculos, tendões, nervos...) deixando a ossada lisa, esta não se podia manter unida: desfar-se-ia.

Mas tudo isso (os boulevards, a ossada, etc.) não passa de meia dúzia de linhas, fáceis de corrigir ou suprimir.

O romance é excelente. Ele nos toma no primeiro capítulo, nos leva, nos arrasta pelos outros, sempre desejoso, no fim de cada um, de ver o que dirá o seguinte, até à última linha.

A memória de Fernão Dias Pais Leme não tem do que se queixar. Fernão Dias não achou as formosas pedras com que sonhava, mas achou o poeta maravilhoso que o imortalizou no "Caçador de Esmeraldas" e acha agora um romancista admirável, que o faz reviver de modo a perpetuar-lhe invejável fama.

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Revista "Letras Brasileiras", abril de 1944.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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