domingo, 29 de setembro de 2019

Afrânio Peixoto (Resenha Biográfica)



Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto, na sua curiosidade universal, sabia tudo, porque tudo lia com interesse transbordante e comunicativo. Mas de alguns assuntos foi mestre grande e respeitado. Assim de sua medicina legal, a que abriu novos horizontes, da higiene aplicada às realidades nacionais, que professou com igual autoridade, de história da literatura e da educação, de seus poetas prediletos, Camões e Castro Alves. Na estreiteza de um comentário fiquemos com esta faceta do talento indagador, crítico, iluminado pelo senso humanista dos problemas estéticos, do homem extraordinário que tanto podia ser romancista como os melhores da língua portuguesa, como professor e cientista entre os maiores do seu meio e do seu tempo.

O amor a Camões teve em Afrânio a compensação moderna do amor a Castro Alves, envolvendo aos dois num culto harmonioso, que se referia intencionalmente aos extremos da curva poética, das origens às culminâncias do lirismo pátrio. Fez de Os Lusíadas o breviário de sua paixão literária, o código da beleza vernácula, o tesouro farto e misterioso entre cujas pedrarias de ocidente e oriente cintila, sangra e canta o coração da raça. Estudou o poema e o poeta com um sentimento de proporção, a erudição analítica, a compreensão sutil e renovadora que lhe deu direito de figurar na linha dos mais ilustres camonistas — de Severim de Faria a José Maria Rodrigues, de morgado de Mateus a Afonso Lopes Vieira, ou seja, na série dos devotos, em que entraram Garrett, Oliveira Martins e Camilo. Os "Ensaios Camonianos" aí estão para testemunhar os primores desse culto, com a defesa, a interpretação, a exaltação dos dez cantos de Os Lusíadas apreciados como lirismo eterno, ciência profunda, dignidade humana, mensagem, política, discurso cívico, história cândida, poesia pura e imortal — a mais sonora e alta que a Renascença produziu, sublime nas próprias imperfeições...

Considerou a Castro Alves o neto brasileiro de Camões, mostrou a influência, que dele recebeu o cantor os Escravos, e erigiu a sua vida e a sua arte modelos impostos, pela veneração do povo, ao orgulho do país. Nenhum dos "cástridas" (nome que deu aos admiradores de Castro Alves) lhe sobrepujou a exposição sensata e empolgante dessa poesia, nem a estudou com tão claro espírito de verdade. O Brasil precisava do seu símbolo juvenil de idealismo libertário, de seu trovador adolescente que murmurasse ao ouvido das gerações a música dos amores imperecíveis, e que fosse — bardo da Abolição, inimigo angélico das tiranias, Ariel militante — o namorado das Ilusões que incessantemente se renovam. Partia de pressuposto morosamente justo: de que o poeta e uma força espiritual que se não separa da aventura dolorosa ou ingênua da sua pobre vida, e, assim, deve apresentar-se menos nos seus versos do que na sua biografia. O Castro Alves de Afrânio Peixoto é, enfim, não um abstrato ou esquivo menestrel de lira dourada, porém o homem na verdade tangível dos seus infortúnios, na grandeza insólita dos seus protestos, na sua realidade viva — e nova.

Foi Afrânio quem resolveu o supremo problema, quanto à poética de seu genial conterrâneo, de lhe pôr em ordem as poesias, restituindo-as à classificação idealizada pelo autor (Obras Completas, 1921). De sua iniciativa fora a comemoração, com esplêndido relevo, do cinquentenário, em 1921. Não o fulminasse tão cedo a morte, e seria a sua a voz mais festejada nas celebrações do centenário, que se avizinha, em 1922.

Dois postas marcam dois destinos. Mas no caso de Afrânio assinalavam dois pontos siderais, unidos por sua admirável intuição dos valores permanentes. Um era Portugal — e a língua. O outro era o Brasil — e a literatura. O seu trabalho pessoal e magnífico de escritor de cem livros consistiu em tecer entre esses dois lumes a ponte delicada da análise e da mística intelectual — que era como um arco-íris sobre as duas margens do oceano.

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PEDRO CALMON
"Ilustração Brasileira", fevereiro de 1947.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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