domingo, 15 de setembro de 2019

Os naturalistas e os parnasianos (Ensaio)



Os naturalistas e os parnasianos

Sucedendo aos românticos, sem transição violenta, porquanto, entre aqueles já havia elementos fartamente aproveitados mais tarde, vieram os naturalistas. Propunha-se o Naturalismo olhar com mais penetração a realidade, ver a vida sem paixão nem grita. A linha objetiva deveria preocupar mais os naturalistas que os tesouros falaciosos do mundo subjetivo. A exemplo daquela "beleza imóvel" de Baudelaire, sua arte não deveria chorar nem rir. Tudo, porém, seriam maravilhas, enganos da novidade. Os parnasianos não desertaram das fontes tradicionais do nosso lirismo. Guiados, a princípio, por Machado de Assis, Luís Guimarães Júnior e Gonçalves Crespo, dissidentes do puro romantismo, os nossos chamados parnasianos foram procurar modelos principalmente na poesia francesa, em Leconte de Lisle, Heredia, Gautier e Sully Prudhomme.

Cabe a Raimundo Correia, Olavo Bilac e ao Sr. Alberto de Oliveira, primordial lugar entre os representantes dessa corrente. Raimundo Correia é o mais profundo, o mais arguto e penetrante dos três; Bilac é o mais amoroso, o mais lírico, e perfeito; o Sr. Alberto de Oliveira, o mais nacional, aquele que mais intimamente soube traduzir os encantos da nossa terra.

Não se mostraram porventura mais impassíveis que os poetas os prosadores do Naturalismo. A história do romance naturalista, aqui, está feita na obra de quatro escritores: Machado de Assis, Aluísio Azevedo, Júlio Ribeiro e Raul Pompeia. Machado de Assis é o psicólogo, sobreleva a todos pela profundeza da inteligência, pelo apuro da linguagem, pela sobriedade da forma e pela ironia sutil, que o aproxima da linhagem dos Sterne, dos Swift, na Inglaterra, dos Anatole, na França, e dos João Paulo, na Alemanha. Da sua obra se desprende um sentimento de constante preocupação pela beleza ou pela miséria terrena, e uma rara compreensão da triste inutilidade a que as contingências reduziram o coração e o espírito do homem. Em seus romances, o documento humano não obedece a um plano preconcebido, a um postulado primordial, a uma lei qualquer científica ou literária. Reflete-se neles, apenas, um espírito indagador, que, a todo instante, se observa a si mesmo através dos outros, e vai corrigindo, com o sorriso ou a lágrima, a imagem que a vida lhe põe diante dos olhos. Machado de Assis, é, sem favor, sobre variados aspectos, o mais significativo dos escritores de ficção da língua portuguesa, e, especialmente entre nós, ficará como exemplo de discrição, graça de estilo e finura de percepção. Aluísio Azevedo é um impressionista, tem a visão móbil e rápida, o senso do colorido, é um retratista seguro e espontâneo. Os flagrantes que desenhou são de uma leveza de toque admirável. Júlio Ribeiro é um voluptuoso, cheio de requinte e artifício, mas possuidor de grande imaginação. Raul Pompeia é um inquieto, um insatisfeito, um poeta comovido ante o espetáculo do mundo e a fuga perene das coisas.

Entre os críticos, historiadores e publicistas, que, de 1870 em diante se notabilizaram, estão Tobias Barreto, chefe aplaudido da chamada escola do Recife, engenho versátil, cultor fecundo da poesia, da jurisprudência, da etnografia, da filosofia e da historiografia, polemista e orador de fama; Sílvio Romero, crítico abundante, autor da primeira história sistematizada da nossa literatura, folclorista, sociólogo e professor de filosofia; José Veríssimo, o mais equilibrado e sensato dos nossos críticos literários; Araripe Júnior, espírito sutil, mas escritor nebuloso; Joaquim Nabuco, historiador elegante e orador de grande relevo; Artur Orlando, Alcindo Guanabara, um dos nossos mais completos jornalistas, Rocha Lima, Eduardo Prado, publicista vigoroso, o Sr. Capistrano de Abreu, notável sabedor da nossa história,; principalmente da colonial, crítico e filólogo distinto; e Rui Barbosa, cuja fecunda atividade como orador, jurisconsulto e jornalista, e cujo prestígio universal honram a nacionalidade brasileira.

No teatro naturalista são dignos de r Artur Azevedo, Valentim Magalhães e Moreira Sampaio, que se esforçaram, o primeiro mais que todos, por continuar a tradição dos Martins Pena e dos França Júnior.


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RONALD DE CARVALHO
Estudos Brasileiros (1924)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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