sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Luís Guimarães Júnior (Ensaio)



Luís Guimarães Júnior 
Antigo livro de matrículas do Externato do Imperial Colégio de Pedro Segundo registra a matrícula do aluno Luís Pereira Guimarães Júnior. 
Livro da mesma espécie assinala em 1863 a matrícula do primeiranista Luís Pereira Guimarães Júnior nas aulas maiores, ou de ensino superior, na Faculdade de Direito de São Paulo. A matrícula, subscrita pelo lente e secretário da Faculdade, o doutor coimbrão José Maria de Avelar Brotero, designou o matriculado como "natural do Rio de Janeiro e filho de outro", a saber filho de pessoa da qual o estudante reproduzia o nome com o acréscimo latino e distintivo de Júnior. 
Passado à Faculdade do Recife em 1865, no ano Seguinte Luís Guimarães teria para colega de terceiro ano jurídico um poeta, Antônio de Castro Alves. Não terminaria este o quinquênio regulamentar de curso, concluído em 1869 por Luís Guimarães em turma na qual com mais relevo figuravam Tobias Barreto e Araripe Júnior. 
Luís Guimarães saindo formado do Recife a este deixava um livro de poesias, Corimbos. Livro de primeira circulação na capital pernambucana onde o autor vivera vários anos e onde compusera a maior parte da obra.  
Acadêmico em São Paulo, Luís Guimarães começara a poetar e escrever. No Segundo Reinado os Cursos Jurídicos de São Paulo, Olinda e Recife constituíram centros de iniciação literária, escolas preparatórias de palavra e pena para brilhantes cometimentos futuros de oratória e de letras dos que saindo dos Cursos Jurídicos entravam na vida pública meio adestrados para as suas lutas às vezes aspérrimas. 
Luís Guimarães acabou elegendo carreira mais de discrição que ruído, a diplomacia, no Império a carreira mais facilitada aos portadores de um diploma de doutor ou bacharel em Direito. 
Adido de legação, de primeira ou segunda classe, tal o primeiro cargo da nossa diplomacia de então. Servia de aprendizagem da arte de bem representar um país ante outros países, observando-os e se mister os iludindo antes que iludissem. 
Luís Guimarães estreou adido de legação na América, de costume mandar os diplomatas principiantes a serviço no continente de onde naturais. Antes do Velho o Novo Mundo de mapas e nações tão diferentes. 
O adido Luís Guimarães seguiu em 1872 para o Chile, aí dirigida legação nossa pelo barão Aguiar de Andrada, ministro residente e bom mestre em matéria de relações internacionais e segredos de chancelaria. 
Secretário de legação, em 1873, em Londres na era vitoriana, no mesmo cargo na legação junto à Santa Sé nos pontificados de Pio IX e Leão XIII, ainda secretário de legação e depois encarregado de negócios em Portugal reinantes D. Luís e D. Carlos, proclamada a República no Brasil viu-se Luís Guimarães ministro plenipotenciário em 1892 mandado à Venezuela. 
Tornava-se chefe quem no curso de carreira tivera por guias Aguiar de Andrada, Penedo, Araguaia, Lopes Gama, Carvalho Borges, com a circunstância de haver servido Luís Guimarães Aguiar em Lisboa, de 1884 a 1888, com o barão Aguiar de Andrada seu chefe em 1872 no Chile, quando Luís Guimarães adido de legação. 
Em Lisboa, em maio de 1898, falecia Luís Guimarães, nascido carioca a 17 de fevereiro de 1847. 
Dito algo da vida e da carreira de Luís Guimarães diplomata, volta-se exclusiva atenção para o homem de letras, nestas principalmente poeta. 
Em o nosso período romântico do século passado a publicação do primeiro livro de versos de Luís Guimarães, Corimbos, ficou entre a edição das Coroas Flutuantes, do poeta português, e a das Espumas Flutuantes de Castro Alves. 
A estampa dos Corimbos muito deveu à animação de amigo de Luís Guimarães. Foi a do seu condiscípulo de Faculdade no Recife e vindouro colega na diplomacia, Henrique Mamede Lins de Almeida. Louve-se o dedicado pela escassez das dedicações. 
Corimbos é bem livro de autor moço, de hinos ao Amor, obra de poeta em plena adoração da Vida, fiado sem reservas nas suas promessas, a principal o amor na cumplicidade das seduções femininas tão variadas, tão de surpresas doces ou amargas. 
Desde os Corimbos os versos do jovem Luís Guimarães cantam o Mar, e quanto com ele se relaciona. Há nos Corimbos, bem destacada na alvura de página inteira, esta quadra: 
Versos escritos na areia
Deus fez o amor, mas temendo
Rival tão belo e tão forte
Deu-lhe as lágrimas por guias
E por companheira a morte.
 
O poeta datou a quadra: 
— Bota-fogo 186... 
Reticências substituíram último algarismo. Só o poeta diria porquê. 
Bota-fogo escreveu Luís Guimarães, tal grafia usada outrora por alguns. E bom foi passar a quadra a livro, apagadiço o lugar onde escritos os pequenos versos. 
Duradouras ao invés são lembranças da vida do poeta nos versos do Em Noite de Luar a Bordo dos Corimbos. Referem-se de certo a um desses idílios de apenas o tempo das travessias. Em geral passatempos para não perder o hábito de amar, na troca de juras eternas para imediato olvido no primeiro porto onde os viajantes desembarcam. 
Ninguém nos viu, ninguém nos escutava,
Deserto era o convés.
 
O que o poeta recordou a Maria quantos terão dito, dizem e dirão a outras de diversos nomes! 
Lembro-me sempre — sempre me recordo
Daquela noite de luar a bordo
 
repetiu ainda o poeta para saudade da passageira que o encantou ao luar. 
Foge o tempo, sempre irreparável, transformando porém o poeta promissor dos Corimbos no cinzelador de Sonetos e Rimas, no livro novo A Bordo. 
No navio tudo dorme, a hélice rumoreja, o homem do leme em vigília, o barco enorme à guia dos faróis. Dessa noite de travessia disse o poeta: 
Eu subo ao tombadilho. À noite pura
Entrego a fronte... Às nuvens luminosas
Conto as minhas saudades dolorosas.
 
Luís Guimarães não viajava apenas para contar as milhas que o iam aproximando do porto de destino. Mesmo as cenas de mar alto o interessavam. 
Indo à diplomata no Chile, os albatrozes, donos do espaço nas solidões marinhas, inspiram-lhe belo soneto, verdadeiro quadro oceânico e datado — Mar Pacífico, 1872. 
De outra vez, ao passar por Pernambuco, o poeta n'alma revivendo o antigo estudante, inspira-se em saudades na sombra noturna, ao bramir do Lamarão, de vagas em cachões balançando a âncora do vapor quase a soltá-la, enquanto 
Todos contemplam do Recife as luzes. 
Que faz Luís Guimarães? Explica: 
Era na escura Olinda, a penitente
Das negras catedrais, das negras cruzes
Que eu punha os olhos meus saudosamente.
 
E, para contraste, o poeta, viajando ainda, no entre sós de mar e céu, enlevou-se a contemplar argenteando a toalha das águas: 
A grande, a calma, a solitária Lua! 
Capitais ou não, também as cidades mereceram versos de Luís Guimarães": Paris, "Princesa da Gália, Empório do Universo"; Londres, "a milionária Londres indigente"; Roma, "a colossal Senhora dos monarcas da terra"; Veneza, "a patrícia voluptuosa"; Sorrento, pintada em soneto-aquarela. 
Nem se furta o poeta ao sortilégio da natureza da sua terra. Em Sorrento a brisa, tênue, em mole eflúvio: 
Cerzia as ondas da dormente enseada; em Paisagem, datada de Petrópolis, “suspirava o rio tépido plangente". 
E pelo rio as vozes afinando
As lavadeiras cantam tristemente.
 
Tristeza, essa bem a exprime Luís Guimarães no Fora da Barra, datado de 1873, ao deixar o Rio de Janeiro seguindo para Londres, quando 
Na fugitiva luz do sol poente
Vai se apagando — ao longe — tristemente
Do Corcovado a majestosa serra.
 
Na Itália, em 1876, sente Luís Guimarães a nostalgia do Brasil. No tão celebrado ager do em torno de Roma, evoca o solo pátrio em íntimo gemido assim expresso:
É que nestas planícies nuas erra
O fantasma solene e enegrecido
Das montanhas azuis da minha terra.
 
Nos Sonetos e Rimas, com forma apurada, Luís Guimarães continuou a não se esquecer do Amor, a prestar-lhe o culto rendido nos Corimbos. Nos Sonetos e Rimas oferece o poeta bastantes versos à amorável esposa sorrindo com ela a horas felizes, com ela de dores sobretudo pela perda de filhos mal de berço. 
De sentimentos de família Luís Guimarães deixou provas nos Sonetos e Rimas, sobretudo na Visita à Casa Paterna, soneto que a imprensa e as antologias têm posto em contínua circulação como o têm feito declamadores, de toda voz e gesto. 
Luís Guimarães foi Homem do século XIX e de um Brasil conhecedor da escravidão negra, ela também nos Estados Unidos onde ainda se aviva no preconceito da cor. Não admira que os escravos inspirassem versos ao poeta dos Sonetos e Rimas, sem os arrebatamentos condoreiros de Castro Alves, nem o entre nostalgia e saudade dos versos de Gonçalves Crespo ao reviver infância no Brasil onde bem de perto vira o cativeiro no seu aspecto rural. 
Composto de três partes é Sonetos e Rimas. A segunda parte forma galeria, a dos Poetas Mortos, um a um glorificados, em treze poesias. Trazem por epígrafe verso ou versos de cada poeta evocado; verso ou versos de fecho a cada poesia de Os Poetas Mortos, no grupo José de Alencar pelas páginas de "Iracema". 
Tornando a vivos, seja dito que no todo da beleza de Eva os poetas bastante se preocupavam sempre com o pé feminil, real ou supostamente de mimo. Nos Sonetos e Rimas quatorze versos de A Borralheira não deixam mal a asserção. A clássica coscuvilhice humana logo personalizou a homenagem de A Borralheira, dizendo-a prestada pelo poeta a formosa dama a cujos pés valia a pena deixar preito. 
Nos Sonetos e Rimas há um soneto — As Duas Forças — no qual Luís Guimarães figurou duas águias solenes, majestosas, pairantes no infinito. Uma foi de voo a Júpiter pedindo-lhe a guerra, a tempestade; a outra águia subiu a Deus rogando-lhe a paz e a liberdade. Abaixadas da imensidade a águia que fora a Deus pousou em França, a que fora a Júpiter em Berlim.

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ESCRAGNOLLE DÓRIA
Revista da Semana, 13 de maio de 1944.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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