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10/11/2019

Luís Guimarães Júnior (Ensaio)



Luís Guimarães Júnior 
Antigo livro de matrículas do Externato do Imperial Colégio de Pedro Segundo registra a matrícula do aluno Luís Pereira Guimarães Júnior. 
Livro da mesma espécie assinala em 1863 a matrícula do primeiranista Luís Pereira Guimarães Júnior nas aulas maiores, ou de ensino superior, na Faculdade de Direito de São Paulo. A matrícula, subscrita pelo lente e secretário da Faculdade, o doutor coimbrão José Maria de Avelar Brotero, designou o matriculado como "natural do Rio de Janeiro e filho de outro", a saber filho de pessoa da qual o estudante reproduzia o nome com o acréscimo latino e distintivo de Júnior. 
Passado à Faculdade do Recife em 1865, no ano Seguinte Luís Guimarães teria para colega de terceiro ano jurídico um poeta, Antônio de Castro Alves. Não terminaria este o quinquênio regulamentar de curso, concluído em 1869 por Luís Guimarães em turma na qual com mais relevo figuravam Tobias Barreto e Araripe Júnior. 
Luís Guimarães saindo formado do Recife a este deixava um livro de poesias, Corimbos. Livro de primeira circulação na capital pernambucana onde o autor vivera vários anos e onde compusera a maior parte da obra.  
Acadêmico em São Paulo, Luís Guimarães começara a poetar e escrever. No Segundo Reinado os Cursos Jurídicos de São Paulo, Olinda e Recife constituíram centros de iniciação literária, escolas preparatórias de palavra e pena para brilhantes cometimentos futuros de oratória e de letras dos que saindo dos Cursos Jurídicos entravam na vida pública meio adestrados para as suas lutas às vezes aspérrimas. 
Luís Guimarães acabou elegendo carreira mais de discrição que ruído, a diplomacia, no Império a carreira mais facilitada aos portadores de um diploma de doutor ou bacharel em Direito. 
Adido de legação, de primeira ou segunda classe, tal o primeiro cargo da nossa diplomacia de então. Servia de aprendizagem da arte de bem representar um país ante outros países, observando-os e se mister os iludindo antes que iludissem. 
Luís Guimarães estreou adido de legação na América, de costume mandar os diplomatas principiantes a serviço no continente de onde naturais. Antes do Velho o Novo Mundo de mapas e nações tão diferentes. 
O adido Luís Guimarães seguiu em 1872 para o Chile, aí dirigida legação nossa pelo barão Aguiar de Andrada, ministro residente e bom mestre em matéria de relações internacionais e segredos de chancelaria. 
Secretário de legação, em 1873, em Londres na era vitoriana, no mesmo cargo na legação junto à Santa Sé nos pontificados de Pio IX e Leão XIII, ainda secretário de legação e depois encarregado de negócios em Portugal reinantes D. Luís e D. Carlos, proclamada a República no Brasil viu-se Luís Guimarães ministro plenipotenciário em 1892 mandado à Venezuela. 
Tornava-se chefe quem no curso de carreira tivera por guias Aguiar de Andrada, Penedo, Araguaia, Lopes Gama, Carvalho Borges, com a circunstância de haver servido Luís Guimarães Aguiar em Lisboa, de 1884 a 1888, com o barão Aguiar de Andrada seu chefe em 1872 no Chile, quando Luís Guimarães adido de legação. 
Em Lisboa, em maio de 1898, falecia Luís Guimarães, nascido carioca a 17 de fevereiro de 1847. 
Dito algo da vida e da carreira de Luís Guimarães diplomata, volta-se exclusiva atenção para o homem de letras, nestas principalmente poeta. 
Em o nosso período romântico do século passado a publicação do primeiro livro de versos de Luís Guimarães, Corimbos, ficou entre a edição das Coroas Flutuantes, do poeta português, e a das Espumas Flutuantes de Castro Alves. 
A estampa dos Corimbos muito deveu à animação de amigo de Luís Guimarães. Foi a do seu condiscípulo de Faculdade no Recife e vindouro colega na diplomacia, Henrique Mamede Lins de Almeida. Louve-se o dedicado pela escassez das dedicações. 
Corimbos é bem livro de autor moço, de hinos ao Amor, obra de poeta em plena adoração da Vida, fiado sem reservas nas suas promessas, a principal o amor na cumplicidade das seduções femininas tão variadas, tão de surpresas doces ou amargas. 
Desde os Corimbos os versos do jovem Luís Guimarães cantam o Mar, e quanto com ele se relaciona. Há nos Corimbos, bem destacada na alvura de página inteira, esta quadra: 
Versos escritos na areia
Deus fez o amor, mas temendo
Rival tão belo e tão forte
Deu-lhe as lágrimas por guias
E por companheira a morte.
 
O poeta datou a quadra: 
— Bota-fogo 186... 
Reticências substituíram último algarismo. Só o poeta diria porquê. 
Bota-fogo escreveu Luís Guimarães, tal grafia usada outrora por alguns. E bom foi passar a quadra a livro, apagadiço o lugar onde escritos os pequenos versos. 
Duradouras ao invés são lembranças da vida do poeta nos versos do Em Noite de Luar a Bordo dos Corimbos. Referem-se de certo a um desses idílios de apenas o tempo das travessias. Em geral passatempos para não perder o hábito de amar, na troca de juras eternas para imediato olvido no primeiro porto onde os viajantes desembarcam. 
Ninguém nos viu, ninguém nos escutava,
Deserto era o convés.
 
O que o poeta recordou a Maria quantos terão dito, dizem e dirão a outras de diversos nomes! 
Lembro-me sempre — sempre me recordo
Daquela noite de luar a bordo
 
repetiu ainda o poeta para saudade da passageira que o encantou ao luar. 
Foge o tempo, sempre irreparável, transformando porém o poeta promissor dos Corimbos no cinzelador de Sonetos e Rimas, no livro novo A Bordo. 
No navio tudo dorme, a hélice rumoreja, o homem do leme em vigília, o barco enorme à guia dos faróis. Dessa noite de travessia disse o poeta: 
Eu subo ao tombadilho. À noite pura
Entrego a fronte... Às nuvens luminosas
Conto as minhas saudades dolorosas.
 
Luís Guimarães não viajava apenas para contar as milhas que o iam aproximando do porto de destino. Mesmo as cenas de mar alto o interessavam. 
Indo à diplomata no Chile, os albatrozes, donos do espaço nas solidões marinhas, inspiram-lhe belo soneto, verdadeiro quadro oceânico e datado — Mar Pacífico, 1872. 
De outra vez, ao passar por Pernambuco, o poeta n'alma revivendo o antigo estudante, inspira-se em saudades na sombra noturna, ao bramir do Lamarão, de vagas em cachões balançando a âncora do vapor quase a soltá-la, enquanto 
Todos contemplam do Recife as luzes. 
Que faz Luís Guimarães? Explica: 
Era na escura Olinda, a penitente
Das negras catedrais, das negras cruzes
Que eu punha os olhos meus saudosamente.
 
E, para contraste, o poeta, viajando ainda, no entre sós de mar e céu, enlevou-se a contemplar argenteando a toalha das águas: 
A grande, a calma, a solitária Lua! 
Capitais ou não, também as cidades mereceram versos de Luís Guimarães": Paris, "Princesa da Gália, Empório do Universo"; Londres, "a milionária Londres indigente"; Roma, "a colossal Senhora dos monarcas da terra"; Veneza, "a patrícia voluptuosa"; Sorrento, pintada em soneto-aquarela. 
Nem se furta o poeta ao sortilégio da natureza da sua terra. Em Sorrento a brisa, tênue, em mole eflúvio: 
Cerzia as ondas da dormente enseada; em Paisagem, datada de Petrópolis, “suspirava o rio tépido plangente". 
E pelo rio as vozes afinando
As lavadeiras cantam tristemente.
 
Tristeza, essa bem a exprime Luís Guimarães no Fora da Barra, datado de 1873, ao deixar o Rio de Janeiro seguindo para Londres, quando 
Na fugitiva luz do sol poente
Vai se apagando — ao longe — tristemente
Do Corcovado a majestosa serra.
 
Na Itália, em 1876, sente Luís Guimarães a nostalgia do Brasil. No tão celebrado ager do em torno de Roma, evoca o solo pátrio em íntimo gemido assim expresso:
É que nestas planícies nuas erra
O fantasma solene e enegrecido
Das montanhas azuis da minha terra.
 
Nos Sonetos e Rimas, com forma apurada, Luís Guimarães continuou a não se esquecer do Amor, a prestar-lhe o culto rendido nos Corimbos. Nos Sonetos e Rimas oferece o poeta bastantes versos à amorável esposa sorrindo com ela a horas felizes, com ela de dores sobretudo pela perda de filhos mal de berço. 
De sentimentos de família Luís Guimarães deixou provas nos Sonetos e Rimas, sobretudo na Visita à Casa Paterna, soneto que a imprensa e as antologias têm posto em contínua circulação como o têm feito declamadores, de toda voz e gesto. 
Luís Guimarães foi Homem do século XIX e de um Brasil conhecedor da escravidão negra, ela também nos Estados Unidos onde ainda se aviva no preconceito da cor. Não admira que os escravos inspirassem versos ao poeta dos Sonetos e Rimas, sem os arrebatamentos condoreiros de Castro Alves, nem o entre nostalgia e saudade dos versos de Gonçalves Crespo ao reviver infância no Brasil onde bem de perto vira o cativeiro no seu aspecto rural. 
Composto de três partes é Sonetos e Rimas. A segunda parte forma galeria, a dos Poetas Mortos, um a um glorificados, em treze poesias. Trazem por epígrafe verso ou versos de cada poeta evocado; verso ou versos de fecho a cada poesia de Os Poetas Mortos, no grupo José de Alencar pelas páginas de "Iracema". 
Tornando a vivos, seja dito que no todo da beleza de Eva os poetas bastante se preocupavam sempre com o pé feminil, real ou supostamente de mimo. Nos Sonetos e Rimas quatorze versos de A Borralheira não deixam mal a asserção. A clássica coscuvilhice humana logo personalizou a homenagem de A Borralheira, dizendo-a prestada pelo poeta a formosa dama a cujos pés valia a pena deixar preito. 
Nos Sonetos e Rimas há um soneto — As Duas Forças — no qual Luís Guimarães figurou duas águias solenes, majestosas, pairantes no infinito. Uma foi de voo a Júpiter pedindo-lhe a guerra, a tempestade; a outra águia subiu a Deus rogando-lhe a paz e a liberdade. Abaixadas da imensidade a águia que fora a Deus pousou em França, a que fora a Júpiter em Berlim.

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ESCRAGNOLLE DÓRIA
Revista da Semana, 13 de maio de 1944.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

12/27/2018

O sineiro de Canudos (Conto), de Escragnolle Dória



O sineiro de Canudos

Salvador Mocambo tinha na cabeça, a palmos, o sertão de Canudos, onde tanta gente suou sangue na revolta de Antônio Conselheiro. Nascera na caatinga, quase dela se não afastara. Vaqueiro fora o pai de Salvador Mocambo, o filho seguiu-lhe a profissão. Na mocidade destemperara vazante. Serenando na dança, ralhara na viola cantigas sem fim; pusera às tontas, com artifícios e denguices, muita cabocla bonita, tornando-se figura obrigatória de quanta encarniçada havia.

Destro, forçudo, valente, um galalão, não se repassava de sol ou chuva. Sabia das manhas das boiadas, conhecia pelo volume da barriga a segurança das éguas, conservando sem falha de memória os ferros de gado do patrão e os marcos das fazendas vizinhas. O vaqueiro Salvador, tal a melhor joia da fazenda do capitão Jonas Lebre, ignorante às posses próprias, pois vivia à larga na capital baiana. Solteirão, impertinente, gastava dinheiro com as mulheres damas, só de cor duvidosa. No fim do inverno o capitão Jonas recebia o produto da venda do gado, honestissimamente vendido pela jagunçada. O boiame do capitão progredia de ano em ano; as epizootias do rengue e do mal triste não pareciam feitas para os seus touros ou garrotes.

Salvador Mocambo constituíra-se o vigilante-mor da bicharada do capitão Jonas cuja única obrigação era, consoante o hábito sertanejo, conceder ao vaqueiro o quarto dos produtos da fazenda. Salvador não desejava riquezas. Bastava-lhe o sertão, os seus tesouros quando respeitados pelo vento da seca. Era dono dos juazeiros, de folhas muito verdes e flores amarelas, como vestidos de esmeralda e ouro; sem empecilhos possuía os mundurucus isolados e muito altos no centro da vegetação rasteira, torres de catedral sobre cidade pequena; os chiques-chiques, abrindo a neve em perfumes de folhas alvinitentes, defendidas pela ponta de agudos espinhos, os saxáteis cabeça de frade, os canudos de pito, que, quando juntos, pelas flores em espigas e penachos, lembram um exército só de oficiais.

Salvador Mocambo adorava os sertões, amor forte, singelo, bom. Desgracioso como todo tabaréu, nervos afogados em preguiça, Salvador era o homem de luta que são todos os matutos nortistas quando um obstáculo qualquer lhes fustiga a alma adormecida, os músculos afrouxados, de nativo ócio, moles como a fruta sorva, ou inquebráveis qual ferro resistente. "Eu só tenho medo do sol" — dizia Salvador rindo; realmente o sol é o tirano do sertão e o carrasco do sertanejo. Quando os céus choram apenas em outubro as chuvas do caju, será de lágrimas o verão sertanejo. Até as aves emigram na rápida trajetória da fuga.

Um dia Salvador teve a vida povoada pela paixão. Amou e sofreu. Quis casar e a noiva acabou raptada por um moço da cidade. O tabaréu sentiu a raiva, o ciúme, a afronta bater-lhe às portas do coração pedindo agasalho eterno. Travou-lhe a boca o gosto do sangue; na mente enterrou-se-lhe, à moda de prego, a terrível justiça da vingança. Montou a cavalo, atirou-se pela caatinga como no encalço da boiada em disparo. Alcançou o par fugitivo num sítio onde os mulungus e as quixabeiras vicejavam luxuriantes à beira das cacimbas. Matou o rival, pôs nua a mulher e tocou para traz. Deixou a antiga noiva com o cadáver do amante e raptor junto dos mulungus e quixabeiras, aqueles de flores vermelhas, o sangue do assassinado, estes de frutos negros, como o luto da miséria desamparada.

Correram vozes pelo sertão acerca do crime. As autoridades não se moveram, nem os matutos culparam o autor do desagravo pundonoroso. Salvador Mocambo tornou-se, porém, insociável, taciturno, gelado em silêncio torvo. Já nem escrevia ao capitão Jonas, deixando a um jagunçote a tarefa de comunicar-se com o senhor da fazenda. O capitão Jonas mostrava-se cada vez mais amigo das crioulas de baraugandau. Contribuía, com o áspero labor dos vaqueiros, para a compra daqueles vistosos ornamentos de prata que, sobre as camisas de bicão, as crioulas colocam à cinta nos dias de festança do Bonfim. As Vênus de chamusco davam-lhe em troca a gama variada de suas ambrosias e dos seus néctares, o vatapá, o caruru; o acaçá de leite, o agurá laranjiforme de arroz fermentado, moído em pedra e água adoçada, sem esquecer a misturada do bobó, com os seus ingredientes vários: o feijão mendubi, água, sal e banana da terra. O velhão do Jonas preferia tais comedorias aos umbigos-de-freira, biscoitos que as mãos das sinhazinhas lhe ofereciam à hora do chá nalguma casa de cabedais, dotes e heranças. A pesca do marido à moda do tarraxo, atraindo o peixe coma luz, era infrutífera com o ricaço do Jonas, cujo estômago amoroso só admitia jabá de gado preto. Para este pândego negreiro suavam a mais não poder o Salvador Mocambo e os companheiros no sertão, agachados à beira das cacimbas ou correndo atrás das boiadas soltas, enquanto a jia do capitão Jonas, aliás bem branco, se enlodava no charco dos amores africanos, alguns cheirosos à maritacaca.

Salvador deixara de escrever ao patrão depois do assassinato cometido por ele, receoso como desconfiado matuto, que o viessem incomodar. Chegada a época do verde, a feliz quadra chuvosa, Salvador sentia-se rei na caatinga onde a bicharada fervia, desde as seriemas chorosas até as suçuaranas ferozes de garras prontas a pôr qualquer vivente em um bolo de carnes. Salvador conhecia igualmente os dias de aragem, as horas da medonha seca quando só o ouricuri fornece a padaria sinistra dos pães de bró, pondo os ventres em forma de tambor sem saciar a fome. Salvador não arredara pé, quase morrera, ao grunhir do vento da seca, o flagelante nordeste.

Não tinha mais um boi, nem mais um cavalo para açoitar a manguá de couro! Alimentava-se com um nada, sem o recurso da caça. Lá se armasse mundéus para muçununga. Ah! se ainda houvesse uma castanha de muturi nos cajueiros! Pretendê-lo era querer a pititinga miúda, que nada em águas fartas, a rastejar pelo solo ressequido... Uma porcelana cheia d'água valeria um tesouro. Salvador rapou rente as crinas do cavalo, pôs-lhe àás ancas esqueléticas o sino, outrora cheio de provisões e demandou a serra longínqua onde a mulher do compadre João Mindo sevava mandioca no tijupá hospitaleiro. O cavalo custou a subir o tombador íngreme, mas afinal sempre atingiu o suspirado sítio do Mindo.

Dissipada por completo a medonha catástrofe da seca, Salvador regressou ao sertão, voltando por pequenas jornadas, saudando uma por uma, com indizível emoção, as plantas surgindo aos olhos saudosos: as baranas oferecendo ao viajante o presente das suas flores em cacho, os juás apertados em moitas e os marpeiros disseminadíssimos, o roxo dolente da casca das mubusanas, um mundo de ramos a ocultar uma fauna das mais ricas. O canto da primeira saracura trouxe lágrimas aos olhos rudes de Salvador. Sentiu, pela primeira vez na vida, uma sensação indefinível, agridoce, a saudade, o divino travo-gozo.

Dispunha-se Salvador a voltar de novo às antigas lidas de vaqueiro, quando vozes de amigos entraram a contar-lhe as proezas do famoso asceta sertanejo, Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro, que, mercê da dor, pregava pelos sertões afora a redenção dos homens. No ânimo do vaqueiro havia ainda restos do temor pelo crime de morte praticado no desafogo do ódio e do ciúme, o grande espinho dos corações humanos. Começou a ruminar a ideia de limpar pelo perdão a escorralha sanguínea de sua vida. Hora a hora cresceu-lhe o desejo de juntar-se ao Antônio Conselheiro, cujos devotos alcançavam o céu.  

Um dia entendeu partir para Canudos, a implorar os favores do Alto pela sua salvação. Partiu. Achou em caminho gente de todos os pontos e laias, gente de Alagoinhas, Feira de Santana Jeremoabo, Bom Conselho, Simão Dias. Era mescla de tudo a peregrinação e os peregrinos. Salvador passava de contínuo por patrícios simplórios e bons. Acotovelava nas estradas as mais despejadas solteiras, vestidas de vícios, mas despidas de vergonha, e os mais terríveis clavinoteiros, réus de muitas mortes.

Chegado a Canudos, quedou assombrado ante a beleza da igreja nova, mole assombrosa, protesto formidável contra a arquitetura e a estética, à margem do Vaza-barris.

Salvador foi acolhido em Canudos com satisfação e aplauso. Não tardou em ser querido na grei de Conselheiro e de seus temerosos asseclas: Chico Ema Quinquim de Coiqui, João Abade, Pajeú, Lalau, José Gamo e tantos outros. Privou logo com Antônio Bentinho, mulato que era osso e ronha, trazendo o Conselheiro a par de quanto se dizia e pensava em Canudos; não faltou a um só beija, cerimônia na qual os santos, verônicas e cruzes eram osculados, de boca em boca, pela multidão dos jagunços fanatizados, desencardindo a consciência de crimes no beatério histero-iluminado da religião do Conselheiro.

Salvador admirava o Conselheiro com todas as forças d'alma. Acompanhara-o de longe, respeitoso, na sombra; quando o Conselheiro, por indicação de Antônio Beatinho, dirigiu-lhe a palavra, Salvador sentiu uma zonzeira na cabeça, quase perdeu os sentidos...

O Conselheiro falou-lhe, duas ou três palavras apenas, e afastou-se caxingando um pouco, vestido de azulão, a cabeça nua, as mãos grosseiras sustendo um cajado, os ombros varridos pela grenha hirsuta, o peito invadido pelas barbas grisalhas tirante a brancas, os olhos pretos nas covas das órbitas em o rosto macerado, o rosto comprido, pálido, a palidez dos desenterrados.

Salvador nem teve tempo de responder-lhe, confessar-lhe o seu antigo crime, expor-lhe o sangue oxidado da velha culpa. Salvador raro o via a não ser nas cerimônias do santuário, nem havia muito quem visse o Conselheiro no arraial dos bequinhos e das casas de taipa.

Depois chegaram os dias aziagos de Canudos. Cresciam as desgraças à maneira de fértil língua de vaca, que todos têm e ninguém cultiva. A paisagem triste entrou a só ter ecos para tiros e lutas; Antônio Conselheiro queimara em 1893, no Bom Conselho, as tábuas que na localidade recebiam os editais para a cobrança dos impostos decretados pelas câmaras recém-autônomas da Bahia. Em Maceté, Uaná, no Cambaio, em mil encontros, cada vez mais renhidos, a jagunçada habituou-se a derrotar a fraqueza do governo, isto é, as forças comandadas por chefes cuja hierarquia vencida ia mostrando a importância das derrotas legais, o tenente Pires Ferreira, o major Febrônio, o coronel Moreira César, o general Artur Oscar. Salvador prestou relevantes serviços na caatinga. A princípio a voz do canhão o intimidou bastante, mas dissipou-se célere a pávida impressão. Nas gargantas do Cambaio obrara proezas contra as forças do major Febrônio, atirando enormes lascas de pedra "que passavam como balas rasas monstruosas sobre as tropas apavoradas."

Quando Salvador voltava a Canudos não era mais o herói, mas o candidato a salvação, jejuava, rezava à semelhança da beata mais débil e histérica...

Por fim a batalha foi apenas em torno de Canudos bloqueado. Salvador Mocambo assumiu então as funções de sineiro efetivo da igreja velha, funções desempenhadas com uma pontualidade fervorosa. Canudos tinha diante de si um exército de quase 6.000 homens, recebendo diariamente a visita incômoda das balas de um Withorth 32, a matadeira dos jagunços. Desde a madrugada pelo correr do dia, o duelo de morte se travava, enchendo de ecos sinistros os ermos onde as árvores eram a exceção da regra triste de uma esterilidade infinita, a esterilidade das maldições bíblicas. Quando a balaria da fraqueza do governo se tornava mais densa, Salvador ia para a torre da igreja velha. O sino badalava furioso, com impaciências e cóleras, vibrante, falando de ódios surdos pôr todas as moléculas vibrantes do metal. Assistira Salvador ao encontro da jagunçada contra as tropas de Moreira César, sempre de corda na mão, sempre puxando o velho sino para o clamor da vingança, o berreiro da revide. A casaria de Canudos fora invadida pela gente de Moreira César, o Coronel Corta-Cabeças, e o combate se travara imenso, disperso, brutal, implacável, até as tropas legais ficarem em pavoroso desbarato.

No meio das sangreiras vinham caindo os crepúsculos, véu de pudor sobre os mistérios da morte. Salvador trepava à torre, diluía-se no espaço o som da Ave Maria, o sino entrava a tocar umas notas doces, plangentes, pacíficas. Os jagunços cessavam o fogo.

Assim foi sempre, até nos dias de completo cerco do arraial. O toque da Ave Maria era infalível. Contraste singular, os canhões da Favela pareciam esperar aquele momento para despejar sobre Canudos a mais dura cólera. As pausas da Ave Maria marcavam-se a estouro de granadas e shrapnels.

Na descaída da noite serena o sineiro punha a faceirice trágica de não perder uma só nota da voz religiosa do bronze até transformar a mística Ave Maria num sinal de alarme, feroz, contínuo, animando a fuzilaria dos jagunços nas crinalhas das igrejas.

Toda a alma de Canudos vivia no sino e no sineiro da igreja velha. A jagunçada, rija de bronze, rezava e matava, matava quando lhe cortavam o caminho do céu alcançado nas preces e jejuns. A igreja velha, ao peso de tanta bala, mostrava enorme ventre aberto. Aluído o madeiramento, o campanário a cair, Salvador nele subia para o toque vespertino.

Um dia, porém, monstruoso shrapnel alargou ainda mais o escancarado ventre de ruínas do templo. O teto saltou em estilhas, a torre desceu numa queda violenta. O sino, o sino de Salvador, voou pelos ares, badalando ainda, chegando ao solo a tinir de raiva.

Salvador Mocambo compreendeu o fim da missão própria. Contemplou longamente o instrumento, o fiel companheiro, inerte na terra, rezou um Padre Nosso e dirigiu-se a desaparecer.

De tarde, na linha de fogo, à hora da Ave Maria, um tiro de Mauser varou-lhe os intestinos. Salvador veio se arrastando gemendo até alcançar o sino da igreja velha. Apalpou-o, cingiu-o, agonizou e morreu, abraçando sempre o velho sino, posto ao chão, entregado ao rigor de todos os silêncios.
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Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

4/21/2018

Bernardo Guimarães (Biografia), por Escragnolle Dória,


Bernardo Guimarães – Aspectos biográficos

Texto publicado em 1925, na Revista da Semana. Pesquisa e Adaptação ortográfica: Iba Mendes (2018)

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Biógrafos diversificam quanto ao ano de nascimento de Bernardo Guimarães, em Ouro Preto, a 15 de agosto, segundo uns de 1825, conforme outros de 1827.

Inocêncio no Dicionário Bibliográfico, Blake no Dicionário Bibliográfico Brasileiro, Rio Branco nas Efemérides Brasileiras consideram Bernardo Guimarães nascido em 1827.

Xavier da Veiga nas Efemérides Mineiras, apoiado em Badaró, no Parnaso Mineiro, e na Província de Minas, jornal da época do óbito de Bernardo, aponta-lhe para berço o ano de 1825.

Pinto Coelho, em Poesias e Romances do Dr. Bernardo Guimarães, citando-lhe a biografia inserida no Colombo, jornal da campanha redigido por Lúcio de Mendonça e Oliveira Andrade; Dilermando Cruz em Bernardo Guimarães, registram a data natalícia de 15 de agosto de 1825.

Ao calor da Independência, portanto, viu o mundo Bernardo Guimarães, filho de João Joaquim da Silva Guimarães e D. Constança Guimarães.

O pai gozava influência na província: sabarense, figurava entre os deputados por Minas da primeira legislatura do Império; suplente do cônego Januário, preferindo este tomar assento na Assembleia como representante do Rio de Janeiro. Era João Guimarães homem de letras, cultor do verso, e talvez como mineiro esclarecido da época sabia bem música e melhor latim.

O Dr. Paulo do Vale no Parnaso de Acadêmico Paulistano, coleção de produções dos poetas da Academia de São Paulo, desde a fundação até 1881, aponta como favorecido das musas Joaquim Caetano da Silva Guimarães, formado em 1840, irmão de Bernardo, e com o correr do tempo desembargador da Relação de Ouro Preto.

Bernardo saindo, pois, aos seus na poesia não degenerou, confirmou, verbo este mais raro nas progênies.

Graduado em Direito, em 1852, doze anos após o irmão, na mesma Faculdade de São Paulo, Bernardo Guimarães começou a galgar as asperezas da vida, mais cruciantes para um moço pobre e sem pai alcaide. Tinha de nascer de si mesmo para lembrar-nos de uma expressão de Tácito: criar-se na luta, sangrar no merecimento.

Professor de retórica e filosofia no liceu de Ouro Preto, juiz municipal de Catalão, em Goiás, consagrou a tais empregos meia dúzia de anos. Em 1859, no Rio de Janeiro, militou na imprensa, encarregado da parte literária da Actualidade, jornal político, de liberais, a cuja testa se achavam Flávio Farnese e Lafaiete.

Regressando a Minas natal, aí existiu até à morte, em 10 de março de 1884, pedindo filialmente ao berço de Ouro Preto terra de túmulo.

Eis, em resumo, a fé de ofício terrena de Bernardo Guimarães. Às suas páginas as letras dariam iluminura de primor.

O tempo que não dava às vicissitudes do existir ia-se-lhe no culto das letras, compreensível no sossego de Ouro Preto. Sem dúvida os momentos felizes de Bernardo Guimarães hão de correr todos à conta da lira e da pena.

Poeta, deu-nos os Cantos de Solidão, em 1853; as Inspirações da Tarde, em 1858; as Poesias, em 1868; as Novas Poesias, em 1876; as Folhas do Outono, em 1883.

Eis trinta anos de culto à poesia com intervalos de preito à prosa em uma dúzia de romances e novelas, afora uma incursão pelo teatro com A voz do Pajé; drama existente: Os Três Recrutas, obra perdida, e Os Inconfidentes, produção truncada.

Trinta anos, pois, de labor e fecundidade descendo para as letras pátrias das montanhas mineiras, por esforço de um homem que, no retiro provinciano, talvez tivesse ensejo de seguir o conselho de São Francisco de Sales, desejar poucas coisas sobre a terra, desejando-as pouco.

Na poesia como na prosa coube a Bernardo Guimarães ser um grande nacionalista no ângulo do bairrismo mineiro, exilado algum tempo em Goiás e no Rio, ainda assim pedaços de coração brasileiro.

Temas, personagens, cenas, tudo na obra de Bernardo Guimarães é Brasil; estuda-o, pinta-o, exalta-o. Espalhou-se a luz do gabinete de trabalho dele por obra inteiriça de patriota, refletiu-se sobre o país inteiro. A idade, os desgostos, as desilusões não conseguiram, como a tantos, esclerosar-lhe o talento. Escreveu até à última hora, um romance póstumo, O Bandido do Rio das Mortes, ainda o deu a ler a muita gente. Falou dos silêncios do túmulo.

Viajou um pouco pelo Brasil e muito pela vida nacional; visitou o indianismo, os problemas sociais, a história, o fantástico, tudo dentro de limites rigorosamente brasileiros. Nada viu além da pátria, cegueira bendita aos olhos da posteridade.

Tanto tratou do índio Afonso como da enjeitada Rosaura e da escrava Isaura, descreveu o seminarista e o garimpeiro, ocupou-se com a cabeça de Tiradentes e com os paulistas em São João del-Rei.

Cantou nos versos as nossas caçadas de veados ou os nossos combates de touros, enternecido pelo sabiá, o triste da solidão, como pelo cavalo branco Cisne a embalá-lo em rápidos galopes.

Teve notas na lira para as cenas do sertão sem desdenhar os encantos da cidade.

Para descrever aquelas mandou "sozinha a pobre musa, de chapéu de palha, de xale sobraçado, sandálias de romeira, aos ombros velho violão, nos cabelos singelas flores que apanhou no campo”.

Quão diferentes as cariocas de A Bahia de Botafogo: "fatigadas dos saraus brilhantes, belezas em horas de remanso vindo à praia conversar com as flores, com as aragens, dando livremente às virações da tarde as fugitivas emoções de baile.”

Há muito que estudar no Bernardo Guimarães romancista, mas na sua obra, como na de todo o romancista, atraem sobretudo ideia e devaneio as figuras femininas.

Em A Escrava Isaura, Bernardo Guimarães não só apresentou um tipo de mulher como trouxe pedra para o lapidar da escravidão, tarefa dos poetas e prosadores do segundo reinado, de Castro Alves a Alencar, do Navio Negreiro ao Demônio Familiar, para citar só dois nomes assinalando duas obras.

Filha de feitor e de escrava, Isaura atravessa a princípio vida de sofrimentos e humilhações para conhecer por fim o casamento e a felicidade. É figura de resignação e esta nunca foi maior do que na cena do baile no Recife quando em pleno fervor de danças Isaura se vê apontada como escrava.

Esculpida mais fundo na dor é a Margarida de O Seminarista. No livro, sob a ficção esconde-se o debatido e cada vez mais intrincado problema do celibato clerical, ao qual uns dão escudo, na defesa do sacrifício, sobre o qual outros desferem golpes, defendendo as leis naturais.

Antes de apresentar-nos Rosaura, a enjeitada, Bernardo, no capítulo primeiro do romance, descreve cena entre estudantes de São Paulo no tempo antigo. Evoca a mocidade própria. Macedo ressuscitara a dele no proêmio de A Moreninha, pintando reunião de estudantes. Com que fundo selo a mocidade se grava em todas as almas!

Não conhecemos ainda Rosaura e já nos achamos no velho São Paulo, às nove da noite, a cidade de ruas desertas, as janelas da sala de uma "republica" abertas para as vargens alagadiças cortadas pela fita movediça do Tamanduateí.

Filha de amores culpados, Rosaura conhece a vida dos expostos, criados pelo favor de uns na comiseração de todos.

Não lhe bastou a escravidão de nascimento, afligem-a com o cativeiro, e por ele se irmana a Isaura até que, como sucedera a esta, lhe descubram a origem e lhe deem lugar na sociedade.

Jupira é, na obra de Bernardo romancista, figura já oposta, com dupla vida na arte, no romance do seu criador, numa ópera nacional e triunfante de Francisco Braga.

Cheia de amor, Jupira, desdenhada por outra, esquece ternuras e desvairada propõe a Quirino matar o infiel, a troco de ser para sempre do vingador. Cumprido o pacto no âmago do sertão, assassinado Carlito, Quirino arroja-se aos braços de Jupira, em frenesi de paixão avermelhada de sangue. Mas enquanto aperta a caipira contra o peito sente uma faca nas mãos dela, atravessar-lhe o coração e ouve uma voz rosnar-lhe "morre também, vil matador! eu não te quero...”

Passados tempos caçadores encontraram em uma grota, no seio de mata profunda, esqueleto de mulher pendurado a uma árvore por um Cipó.

Outra vítima de amores desditosos é Paulina, “ a Filha do Fazendeiro, cuja, vida revela quanto a morte se cose sempre aos passos do amor.

Eduardo ama Paulina, também requestada por um primo. Toma este satisfações ao rival, que para livrá-lo de alguma loucura jura pelas cinzas paternas não servir nunca de estorvo ao casamento de Roberto com Paulina. Daí uma série de desgraças conduzindo Roberto ao suicídio, dando morte a Paulina, obtido por Eduardo, burel de frade em convento da Bahia.

As figuras dos romances de Bernardo Guimarães movem-se, padecem ou gozam em sítios variados. Dão ensejo ao escritor para pintar paisagens brasileiras, numa espécie de coreografia de arte.

Desenha em geral com largueza, logo ao começar o romance, ora o Rio Grande de Minas, léguas acima das paragens onde reunido ao Parnaíba toma o nome de Paraná, ora uma fazenda nas vizinhanças de Uberaba, situada ao pé de um lançante, entre duas vertentes orladas de buritis, cujas linhas se perdem na imensidade dos horizontes como fileira de guerreiros selvagens postados em ordem de batalha ao longo dos chapadões. Romancista-pintor não desenhou na literatura os quadrinhos de gênero, nos quais tanto brilhou além-mar a perfeição na paciência de um Meissonier. Bernardo descreve-nos a carvão a rua ouro-pretana das Cabeças, rua sinistra lembrando as cabeças de enforcados fincadas na ponta de estacas para escarmento de povos. A pintura data de frigidíssima noite de maio, em Ouro Preto, vento glacial a uivar pelos telhados, corujas a guincharem agourentas.

Eis aí algumas ligeiras pinceladas sobre este grande poeta e romancista brasileiro.

ESCRAGNOLLE DÓRIA
Revista da Semana, agosto de 1925.

9/22/2016

Miss Star (Conto), de Escragnolle Doria


Conto publicado na "Revista Litteraria", em sua edição de 3 de março de 1895. A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes

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Aspectos biográficos:

Luiz Gastão de Escragnolle Dória nasceu no Rio de Janeiro, no dia 31 de janeiro de 1869, filho do Dr. Luiz Manuel das Chagas Dória e de dona Adelaide de Escragnolle Dória. Faleceu em 4 de janeiro de 1948, na mesma cidade.

"Amando profundamente os assuntos da cultura e da meditação, a eles se dedicou por toda a vida por toda a vida. Exerceu-se, desde a mocidade, em vários gêneros: cultivou a poesia rigorosa e metrificada, a harmoniosa poesia parnasiana; cultivou o poema em prosa, gênero dificílimo, prestigiado na França pelo maravilhoso Baudelaire e, no Brasil, pelo ardente e doloroso Raul Pompeia; cultivou a crônica, o conto, o ensaio, a conferência. Findou, porém, sua atividade literária como estudioso dos  temas de história, brasileira e mundial. Era essa, na sua última fase  a Revista da Semana, que já se vinha prolongando desde tantos e tantos anos  a especialização a que se consagrara. Possuindo um arquivo enorme, dispunha de recursos preciosos para os estudos que empreendia. E não eram somente recursos escritos; eram, também, recursos iconográficos, documentos, não raro, de maior valor. Sua colaboração desse caráter poderia formar livros e livros, se ele os tivesse querido, se ele tivesse possuído os recursos necessários para a realização de tal obra" (Jornal do Brasil, 15 de janeiro de 1948)

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Miss Star, de Escragnolle Doria

Conheci-a num teatro. E representava-se não sei quê; uma farsa qualquer. Alguém me apresentou-a sem cerimônia. Banidas as regras da etiqueta ficamos logo amigos. Conversamos como se fôramos íntimos. Agradou-me tanta singeleza de modos casada a tanta ingenuidade modesta.

Era a inglesinha mais gentil que até hoje produziu Albion. O seu retrato? Uma carinha boa, meiga, leal; olhos azuis como turquesas, cabelos lavados em ouro; uma boquinha de rosa desabrochada em manhãs de orvalho; uma cútis fina, feita de luar, acanhamentos adoráveis, gestos lânguidos, sorrisos ternos. Parecia saída do "Midsummer's Night".

Nascera em Londres, num feio quarteirão enegrecido pelos bulcões de fumo golfados das chaminés das grandes fábricas. Passara a infância vendo o Tamisa rolar as águas pretas pela capital do carvão. Educada em severo lar anglicano pouco conhecia o mundo. Habituara-se ao piedoso recolhimento dominical, às leituras da Bíblia nos penates. Não conhecia quase nada dos squares, dos passeios, dos arrabaldes da monstruosa London. De vez em quando ia a Druy Laue assistir algum espetáculo com umas tias velhas, cheias de shockings e bandós. Uma só vez fora campos em fora; mirara o céu, as árvores, a corrente múrmura dos regatos; ouvira a orquestra gazil dos passarinhos; libertara-se do tumulto de Regeut Street, esquecera os cabe, os horse-guards, os grooms, todas as figuras indispensáveis do caleidoscópio londrino.

Contou-me tudo isso simplesmente, sem exageros, Miss Arabele Star. Enquanto falava, eu, embevecido, a julgava deveras bonita, com o seu vestido cor de rosa seco, elegante, correto, obra prima de hábil modista. Simpatizou também comigo: amável, recompensou-me com um obrigado na saída do teatro quando lhe pus sobre os ombros esbeltos a capinha preta para protegê-la do sereno. De pé, no vestíbulo, vi-a, com tristeza, entrar no carro.

Trotavam os árdegos cavalos, o veículo sumiu-se na treva, deixei-me ficar ali até que desaparecesse.

Poucos dias depois encontrei miss Star num sarau. Reatamos o fio das confidências. Confessou-me ter ficado deslumbrada chegando ao Brasil. Extasiava-se diante das matas, dos rios, das paisagens, da natureza inteira. As cartas para as amigas de Londres iam repletas de minúcias sobre o belo país em que estava. Aos parentes mandava caixas com mimos exóticos: — folhas leves de avenca; folhas rendadas da verde samambaia; borboletas, umas de grandes asas azuis, outras pretas, veludosas, mosqueadas de pintas vermelhas; besouros esmeraldinos e áureos.

À irmãzinha Bettina, pensionista num longínquo colégio irlandês, enviara um coleiro empalhado.

Gostava de nossa língua em cujos vocábulos achava encantos especiais. Mesmo em inglês substituía sempre remember por saudade.

Expandiu-se comigo na franqueza de ligeiro flirt. Gabei-lhe a beleza do apelido. Miss Star! Não brilhava ela como os astros, como as castas estrelas de Otelo, your chaste stars? Mostrou-se satisfeita, lisonjeada com o madrigal.

Paliamos de Shakespeare a propósito de Julieta. Oh! poesia dos amores da filha do Capuleto! E os beijos na sombra, o bamboar da escada de seda no balcão opalescido pelo luar de Verona, os trilos da cotovia, a aurora listrando de ouro o horizonte, o frio noivado do sepulcro!

Eu preferia Desdemona, a tempestade de Chipre, a câmara onde flutuava a canção do salgueiro triste.

Quando menina, miss Star lera muito Walter Scott. Povoara a cabeça de sonhos, julgara-se Ivanhoe e Flora Mac Ivos, fechada na biblioteca de uma das tais tias cheias de shockings e bandós.

Descobrira por acaso, atrás de velha prateleira, coberto de pó, um tanto estragado, um volume de Byron. E Scheherazade viera contar-lhe histórias ao ouvido... Vivia com Zuleica, e, no ardor do entusiasmo, chegara a gravar, no tronco de uma palmeira o seu nome por baixo do da noiva de Abidos. Muitas vezes era já noite quando saía da biblioteca. Que de artifícios para esconder o fruto proibido! Que dor quando o surpreendendo procederam a rápido auto de fé!

Falou-se de teatros. Miss Star vira a excêntrica e nervosa Sarah. Uma neurótica de primeira ordem, observei pilheriando. Aborreceu-se um pouco com o remoque. Mostrou-se as mãozinhas que tinham aplaudido a grande atriz a ponto de inchar. Nunca se esquecera da inimitável Fedra, incestuosa, lânguida, apaixonada, da lirial Margarida Gautier, de todas as criações da famosa artista. Citei-lhe a Duse. Não a conhecia. Ouvira no Pedro II o Coquelin, único na graça, na veia cômica, no modo de acentuar o mínimo dito de espírito.

Descreveu-me a sua vida. Tinha poucas relações. Vivia com os pais num dos arrabaldes mais pitorescos do Rio de Janeiro. Dava-se apenas com uma brasileira, sua vizinha. Estimava-a bastante, o que provocou algum ciúme entre as outras amigas patrícias. Como, pois, aquela morena, olhos de jabuticaba, lábios sanguíneos, tranças  negras quais noites de escuro vencia as loiras donas dos lumes cor do céu, das róseas bocas, das comas de ouro fino? Conspiravam três contra a morena Dolores: miss Eugenia Laker, inglesa muito patriota e muito sardenta; miss Marta Laker, soberbo tipo de formosura, masculinizada, emérita jogadora de lawnienis; miss Lucy Biug, amante de corridas, a comprar poules, a descrever Epsom, a discorrer sobre stud-book os forfaits.

Miss Star gostava, porém, deveras de Dolores. Agradavam-lhe a animação e a vivacidade da brasileira.

Tanto fez miss Star que obrigou o pai a convidar-me para uma reunião íntima, honra difícil de conceder a estranhos por filhos da Inglaterra. Fui. Achei miss Star com o mesmo vestido do teatro. A coincidência, visivelmente afetuosa, penhorou-me.

Uma loirinha acanhada tocou ao piano o God Save The Queen. O auditório, contrito e sisudo ouviu atento o hino da pátria distante a pedir pela soberana ausente. Miss Star cantou uma suave melodia, "A última Rosa." Rouxinoleava de manso, calma. Tocante em verdade a fresca harmonia dessa voz de cristal ferido a soluçar — last rose of summer.

Lá estavam as amigas do peito, sorridentes, expansivas. Miss Star veio apresentar-me Dolores. A morena sorriu de maliciosa, o olhar brilhando preguiçoso de volúpia. Na fronte de miss Star pousou-se uma rugazinha de contrariedade. Para disfarçar o amuo trouxe a seleção de aquarelas que lhe haviam consumido longas horas de trabalho. Eram magníficas pela firmeza de tons, pela suavidade dos matizes. Copiara uma porção de cabeças infantis, preferindo as de Reynolds às de Greuze.

Separamo-nos. Precisei afastar-me do Rio e nunca mais a vi. Um dia encontrei na rua, a morena Dolores, já casada. Pedi-lhe notícias da amiga; partira para a terra natal, falara sempre em mim, não esquecera as breves horas de nossa intimidade.

"Não sei porque se me afigura pôr nisso tudo os olhos pela ultima vez", murmurara Miss Star na ocasião da despedida em tom de convicta melancolia.

De vez em quando, ao avistar Dolores, não deixava de interrogá-la a respeito de Miss Star. Escrevia ela a Dolores de contínuo, cartas longas, cheias de saudades, não olvidando jamais um post-scriptum afetivo e reservado para mim. Nem suspeitava Miss Star que eu lia tais missivas. Numa delas contava à amiga que os pais tinham resolvido casá-la com um patrício rico, mas a quem não amava. Dormia sua alma virgem, no ninho do coração não lhe cantara a ave do amor.

Imaginei-a logo burguesamente instalada num cottage engrinaldado de hera, a vigiar as travessuras dos filhinhos sobre os grandes gramados enquanto o circunspeto marido saboreava o Times na cadeira de balanço.

Na última de suas epístolas a Dolores, comunicava que partia para a Escócia, a convalescer de grave moléstia pulmonar. O clima do Brasil a restabeleceria logo, mas os médicos não lhe permitiam a viagem. E, em frases ungidas de tristeza, dava a perceber que não se lhe desvanecera no espírito a ideia da morte.

Não escreveu mais até que uma carta tarjada anunciou a Dolores e a mim que a inglesinha não pertencia ao número dos vivos. Nada fazia prever tão fatal desfecho, ainda nas vésperas de morrer gorjeara com sua a vozinha de cristal ferido. Finara-se na Escócia, junto aos lagos azuis, no declínio da primavera. Last rose of sumer.

De noite quantas vezes dela não me lembro! Contemplando o céu bordado de astros a cintilarem doces, tristes, julgo neles ver os olhos tristes, doces, da inglesinha. Na outra vida deve ser o mundo das estrelas a pátria de Miss Star.