domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: Escravidão vermelha (História do Brasil)



Entradas e Bandeiras. — Escravidão vermelha

As entradas para prear os Índios e as bandeiras que, além deste fito, devassavam o sertão em busca das minas, vieram do 1º século.
A 1ª será mandada por Cabral para explorar a terra. Fomos todos nos batees armados e a bandeira comnosco... fomos ataa hua lagoa grande de agoa doce... diz Vaz Caminha. Vespúcio também disse que uma expedição mandada por ele penetrara no interior umas quarenta léguas. Martim Afonso, no Rio, penetra no interior, durante dias e, de São Vicente, vai a Piratininga. A 4ª será a de Pero Lobo, em 31, às margens do Paraná. Foram precursões. Agora vai Francisco Bruza de Espinosa, com o Padre Azpilcoeta Navarro, em 1553, de Porto Seguro ao Jequitinhonha, ao vale do São Francisco, ao rio Pardo, 350 léguas entre índios selvagens. Em 60, Mem de Sá manda do Espírito Santo ao sertão Antônio Dias Adorno, Vasco Rodrigues Caldas, Antônio Ribeiro. A de 1567, de Martins de Carvalho, também de Porto Seguro, e de Sebastião Tourinho, em 1572, ainda de Porto Seguro, a de Antônio Dias Adorno, em 1575, por Caravelas e Mucuri... contam-se nos quinhentos. Nos seiscentos um certo Marcos Azeredo sobe o Rio Doce e dizem traz prata e esmeraldas, pelo que é preso e, não querendo revelar o segredo, morre na prisão. Barbalho Bezerra tenta reconstituir-lhe o roteiro, mas falece antes da aventura.
Capistrano de Abreu pôde pois resumir num esquema as “bandeiras” em (a) bandeiras paulistas; (b) bandeiras baianas; (c) bandeiras pernambucanas; (d) bandeiras maranhenses; (e) bandeiras amazônicas. Propaganda política regional, depois de enaltecer o bandeirante tende a fazê-lo apenas de São Paulo.
Antônio Raposo Tavares, natural de Beja, parte, em 1629, com mil paulistas e dois mil índios, entram na direção do Paraguai e caem nas missões de Santo Antônio, exigindo a entrega de um prisioneiro índio que fugira e aí se asilara. O padre jesuíta defende o índio e recusa-se a entregá-lo. A carnificina e o incêndio foram a consequência. Outras missões, São Miguel, Jesus Maria, São Paulo, São Francisco Xavier, todas as do vale do Paraná são devastadas.
As bulas pontificais e os éditos reais contra a escravização dos índios produziram irritação e rebeldia entre os escravagistas de São Paulo e até do Rio. Quando veio a restauração, em 1640, chegaram, em São Paulo, a proclamar Amador Bueno, “nosso rei”. Este ajuizado lavrador, embora aclamado, deixou correr as coisas, — o tempo resolve por nós, — e todos acabaram aceitando Dom João IV. No Rio, o lealismo foi imediato, o que promoveu equiparação de títulos e de honras, como os de Lisboa e Porto.
Entre 1650-60 há as bandeiras de Domingos Barbosa, Calheiros, Luiz Pedroso de Barros e Antônio Pedroso de Barros que repetem, em menor, as façanhas de Antônio Raposo. João Correia de Sá, na direção do Rio Doce, parte em busca das esmeraldas. De 53 é a bandeira de Álvaro Rodrigues do Prado em busca de Sabaraboçu ou a “serra resplandecente”. Bartolomeu Bueno, Luiz Castanho, Soares Bicudo, de São Paulo, atingem Goiás, entre 70 e 80. Fernão Dias Pais Leme é de 72, e parte com o título de capitão-mor das minas de esmeraldas: vai às cabeceiras do rio Doce, do rio de São Francisco e, tendo como centro o Serro, faz excursões por quatro anos. Depois de incontáveis tormentos, rebeliões, morticínios, expira o aventureiro, às margens do rio das Velhas. Do genro Manuel Borba Gato e do filho Garcia Rodrigues Pais, fia a continuação do sonho, a descoberta do ouro e das esmeraldas. As jazidas de Sabará aparecem. Antônio Rodrigues Arzão, de Taubaté, vai, em 93, ao Rio Doce descendo até Vitória, no Espírito Santo; seu cunhado Bartholomeu Bueno de Cerqueira, que em 70 estivera no sertão de Goiaz, vai, em 94, à região de Vila Rica, ou de Ouro Preto.
O sonho do século XVI, com Gabriel Soares, Robério Dias, das minas de prata, realiza-se, passando das esmeraldas ao ouro. Fora a previsão dessas minas que separara o Brasil em dois governos. O Governador do Sul, Dom Francisco de Sousa, já trazia o título de Governador e intendente das Minas. Um Código Mineiro elaborado em 1603, ficou nas Chancelarias do reino até 1619, quando foi expedido, e publicado no Brasil, em 1652.
Essas entradas e bandeiras, para descer índios escravos e devassar o sertão em busca de minas, dão endereços ao Brasil colonial predador, agrário, criador e mineiro. Os objetivos saíram uns dos outros e misturaram-se. Eles trouxeram a consequência da integração do país, além do litoral possuído.
Entravam as bandeiras para prear e descer índios escravizados, devassavam o sertão, encontravam minas e recuavam a fronteira sem dificuldades pois que a posse era comum hispano-portuguesa... diz o povo. O único benefício que nos trouxe a ocupação espanhola foi “abolir” a demarcação de Tordesilhas, podendo o colono ir aos limites do Brasil atual, pois que tudo era da mesma coroa... Com a Restauração, o fato consumado do uti possidetis tornou portuguesa e brasileira a posse, graças às entradas e bandeiras, responsabilidade entretanto contestada.
As entradas despovoadoras, captando o índio, deixavam estradas no deserto, para a civilização: evidentemente o manso processo colonizador dos Jesuítas, de José Bonifácio, do General Rondon, seria preferível: mas a violência dos bandeirantes tem justificações de Varnhagen, de Von Ihering de todos os coloniais europeus, que não são amáveis com os povos bárbaros. Aliás nem sempre eles, selvagens, têm a docilidade resignada. O mundo é dos capazes; é a lei de ferro da natureza e da civilização. O mesmo santo e doce Anchieta chegava à exasperação, para catequizar o índio: para este gênero de gente não há melhor pregação do que espada e vara de ferro (Cartas).
Esses caminhos internos são ainda hoje os nervos e vasos comunicantes do sertão brasileiro. Simonsen estabeleceu que a pecuária foi a segunda linha dos engenhos litorâneos. As entradas, para prear índios e descobrir minas, fizeram a extensão da fronteira aos limites mais ocidentais. O Brasil foi andando, em extensão e contiguidade, isto é ocupação. Não esquecer que chamamos “Paulistas” aos portugueses e neoportugueses de São Paulo. A insistência tem razão.

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