domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: O “Brasil esquecido” (História do Brasil)



O “Brasil esquecido”

Depois disso, desse meio século contínuo de preocupações, quase ano a ano, para exploração, reconhecimento, caça aos invasores, feitorias fundadas, tentame das capitanias, governo geral e padres jesuítas provendo ao Brasil, educando a gente para servi-lo... é profundamente injusto e doloroso ouvir, e ler, de um ingrato nativismo, — que vive, ainda hoje, como que a fazer sempre a independência do Brasil — ouvir, e ler, que o Brasil foi esquecido.
A evidência foi outra, documentalmente. Nenhuma nação colonizadora fez mais ou melhor com as suas colônias. A Espanha, a Holanda, a Inglaterra, ainda hoje, não se podem comparar a Portugal. Nenhuma assimilou o indígena. Nenhuma deu identidade moral ao aborígene e ao colonizador, em nação uma e a mesma, idêntica à mãe Pátria, como Portugal. Vimos que não podia fazer muito e não poderia fazer mais: fez tudo o que pôde. Sem gente, sem dinheiro, cercado de invejosos e inimigos. A terra era escassa e quase nada produzia. Apenas pau-brasil, mercadoria pobre. Simonsen dá exemplo de uma nau, do valor aquisitivo de hoje, valendo mais de 1.500 contos, que carregava apenas 1.000 contos de brasil: de especiarias da Índia seriam 10.000 contos. Vir ao Brasil negociar era perder dinheiro e tempo: mas vinham. O mesmo, diz aquele Padre Rui Pereira aludido, quanto ao moral, mas os Jesuítas vieram. E havia Franceses: Dom João III alegou, em 1530, que os prejuízos dados por eles andavam por mais de 100.000 contos, de hoje. Aquele citado historiador calcula que, de 1500 e 1532, o valor do trato do pau-brasil orçaria por 120.000 contos, dos quais a Coroa tinha 30.000. Para Portugal, o Brasil foi deficitário nas primeiras décadas. Simonsen, que descobriu secretas ignorâncias de história no Brasil, com a decifração da economia, diz, cheio de razões e números, que sequer o lucro da Coroa não cobria as despesas com a defesa do domínio.
E não havia só defender, porém explorar e constituir, fundar e produzir. Povoar, sobretudo. Para as Índias era defeso irem mulheres portuguesas: mas vieram para aqui, vieram ricos-homens e fidalgos e a arraia miúda misturou-se com os portadores dos nomes mais nobres do reino. E isto sem proveito, como os pais, dignos desse nome, que criam os filhos, sem sequer pensarem no que vão dar, cuidando apenas em fazê-los o melhor possível. Como cumprindo um dever.
Portugal, comparado a qualquer das nações colonizadoras de ontem ou de hoje, foi benemérito; julgado em si, teve a abnegação que só tem, na linguagem humana, um epíteto: foi materno... Como essas criaturas divinas que morrem, ou ficam perpetuamente enfermas, esvaídas de fadiga e fraqueza, por terem a glória de haver criado um filho muito grande... Filho às vezes ingrato: também é da natureza.

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