domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto: Os franceses no Maranhão (História do Brasil)



Os franceses no Maranhão

A primeira consequência do domínio espanhol no Brasil foi dar-lhe os inimigos de Espanha por próprios. Não perdeu, por isso, os antigos. E agora, a França que fora por D. Antônio, Prior do Crato, contra Filipe II, tinha a mais, ser contra Espanha, no mesmo Brasil. Rechaçados ao sul, em 1555, na “França Antárctica”, ia começar, no Maranhão, a “França Equinocial”.
Desde o fim do século anterior, 1594, que se haviam estabelecido, na ilha do Maranhão, Jacques Riffault e Charles des Vaux, armadores de Dieppe, em comunicação com o gentio, com o qual traficavam. Trataram de interessar a Coroa no estabelecimento, de onde, já em 1612, nova expedição, sob o comando de Daniel de La Touche, senhor de La Ravardière, que funda a cidade de São Luís, nome dado em honra do Delfim, que seria depois Luiz XIII. Vieram fidalgos e homens de guerra, católicos e protestantes, entre os colonos, e o capuchinho Fr. Claude d’Abbeville, que escreveu um livro de história da empresa e de suas observações na terra ocupada. Um dos chefes, Francisco de Rassily, tornou à França a promover novos recursos e, com ele, Claude d’Abbeville e alguns índios, levados por amostra.
O livro do capuchinho, impresso em Paris, em 1614, a História da Missão dos Padres Capuchinhos na ilha do Maranhão, é um dos nossos clássicos sobre etnografia indígena. Seguiu-se-lhe, em 1615, a publicação da obra do superior da Missão, o Padre Yves d’Evreux, continuando a de d’Abbeville, informação dos Tupinambás do norte: a edição foi completamente destruída por interesses domésticos das Cortes ora parentas, de França e Espanha e, só no século XIX, tirou Ferdinand Denis, de um raríssimo exemplar achado na Biblioteca de Paris, edição de 1864.
A colônia, que prosperava, tinha os seus dias contados. Jerônimo de Albuquerque fundara, próximo, o forte de Camocim. Martim Soares Moreno havia fundado Fortaleza, núcleo de colonização no Ceará. Albuquerque, que tornara a Pernambuco, preparou expedição e desembarcou 500 homens em Guaxenduba, derrotando os Franceses, com os quais tratou pedir-se, sobre o litígio, a decisão pelas cortes de França e Espanha. Ocorreu porém Alexandre de Moura com reforços e maior patente, que não respeitou o trato e, dando combate, venceu de novo os Franceses, que tiveram de retirar, sem maior perseguição, deixando apenas a artilharia. (Os nossos eram portugueses e nada tinham com tais Cortes, de França e Espanha).
Em 1615, estava o porto de São Luís adquirido e em 1616 Caldeira Castelo Branco, mandado a colonizar o Pará, com 150 homens e artilharia para forte, fundou Belém. O primeiro governador do novo Estado do Maranhão (Ceará, Piauí, Maranhão e Pará) criado em 1521, foi Francisco Coelho de Carvalho, despachado em 24 e mandado tocar em Pernambuco, com socorro e tropas e munições para Matias de Albuquerque, capitão-mor de Pernambuco, receoso de invasão holandesa. Funcionários para o novo estado, famílias para núcleo de povoamento e missão de capuchos sob ordens de Fr. Cristóvão de Lisboa, foram ter ao Ceará e, depois, ao Maranhão. Em 1616 o Brasil atingia o seu limite norte ocupado até o Pará. Os Franceses teriam de consolar-se, e foi o que fizeram, indo estabelecer-se além, na Guiana Francesa. Também Holandeses e Ingleses: mas isso é lá com a Espanha. (Nós, apesar de tudo, continuávamos Portugal).

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