sábado, 30 de novembro de 2019

Impressões sobre Florbela Espanca (Resenha)



Impressões sobre Florbela Espanca

Atendendo ao pedido de uma gentil leitora desta revista, daremos aqui algumas impressões sobre os versos da grande voz lírica portuguesa que foi Florbela Espanca — que morreu quase desconhecida e cuja personalidade literária tem sido estudada ultimamente em Portugal com grande interesse crítico.

Valemo-nos do interessante estudo do Sr. Diogo Ivens Tavares sobre a poetisa, onde o narcisismo de Florbela Espanca é analisado através de algumas das suas mais belas composições.

Narcisismo que transparecia na insistência com que Florbela falava de suas mãos, em versos cantantes:

Ó minhas mãos talhadas em marfim,
..............................................................

As minhas mãos outrora carinhosas,
Palravam como pombas...

Ou na inocência com que falava de seu corpo e de seus gestos:

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina...
Pele dourada de alabastro antigo...
Frágeis mãos de madona florentina...

Os seus “Versos de Orgulho” acentuam essa nota de narcisismo e neles Florbela Espanca afirma que todos invejavam as suas asas, o seu nascimento, com princesa, entre plebeus, "numa torre de orgulho e de desdém”...

“Conto de Fadas” é um soneto inesquecível:

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o unguento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras de uma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é d’ouro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!
— Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A Princesa do conto: “Era uma vez...”

E a evocação do que poderia ter sido, antes, a vida da poetisa, ressalta, emocionante e vivaz, no soneto “Lembrança”:

Fui Essa que nas ruas esmolou
E fui a que habitou Paços Reais;
No mármore de curvas ogivais
Fui Essa que as mãos pálidas pousou...

Tanto poeta em versos me cantou!
Fiei o linho à porta dos casais...
Fui descobrir a Índia e nunca mais
Voltei! Fui essa nau que não voltou...
  
Tenho o perfil moreno, lusitano,
E os olhos verdes, cor do verde Oceano,
Sereia que nasceu de navegantes...

Tudo em cinzentas brumas se dilui...
Ah, quem me dera ser Essas que eu fui,
As que me lembro de ter sido... dantes!...

A personalidade de Florbela Espanca está merecendo, agora, o destaque que faz jus pelas inextinguíveis reservas de beleza que essa alma lírica revelou nos admiráveis versos que nos deixou.

Versos como esses são caminhos iluminados e suaves, que valem como refrigério e consolo nos tempos atormentados em que vivemos.

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Revista "Vamos Ler!", 21 de março de 1940.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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