sábado, 30 de novembro de 2019

Flor e Bela (Resenha)



Flor e Bela

Quando Florbela Espanca veio habitar o mundo que é nosso, sua mãe perguntou num misto de ternura e ansiedade: “Menino?”

Uma voz lhe respondeu: “Não, menina. Uma flor!” Sim, Florbela chegava com o destino das flores: possuiria beleza, espargiria encanto, como também seria amarfanhada, torturada! Haveria de sofrer desconhecidas tristezas, vazios infindos nos quais se perderia sua alma insatisfeita.

Sendo mulher e artista, Florbela torna-se princesa, infanta, monja, árvore, pedra, terra, túmulo, além de identificar-se com a nuvem, o som, a luz, com os próprios deuses.

Quando a realidade a surpreende, tortura-se com a tragicidade de desencontro:

E quanto mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando
Acordo do meu sonho...
E não sou nada!

Busca sempre o incognoscível, algo eterno e nunca definido.

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

Muita vez a emoção suplanta-lhe a linguagem. Florbela não esconde o desencanto:

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Maravilha-se com o pressentir da plenitude. Tão inacessível ela se lhe afigura...

Sonho que um verso meu tem claridade para encher todo o mudo!

Florbela Espanca procura na poesia a forma primeira te libertação:

Eu fui na vida a irmã dum só irmão,
já não sou a irmã de ninguém mais!

Ora, sua mensagem é a do desengano:

... pelo mundo, na vida, o que é que esperas?
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras sem quimeras?”

Ora, a da transfiguração erótica:

Em ti sou Glória, Altura e poesia!
E vejo-me milagre cheio de graça
dentro de ti, em ti-igual a Deus!

Em se tratando de amor, as exigências de Florbela perdiam-se no infinito.

José Régio, que tão bem lhe soube captar a sensibilidade, manifesta-se a respeito:

"Nem o Deus se viesse a amar Florbela, sendo um Deus, lograria satisfazer sua ansiedade! Por certo o acharia demasiado humano: e até com ele se repetiria a tragédia do desencontro."

Ela própria declara em seus poemas sofridos:


Minha alma é como a pedra funerária
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus:
O amor dum homem? — Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento balouçada...
Um homem — quando eu sonho o amor dum deus.

Atingindo a transcendência das coisas, participando do seu mistério, Florbela haveria de revelar a experiência do sofrimento, do sofrimento por ela transformado em beleza — na mesma beleza que lhe fora legada ao nascer. Florbela Espanca haveria de cumprir o seu destino de flor.


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ÍRIS CARVALHO DE MENDONÇA
Revista "Leitura", abril de 1962.
Ilustração: Maria Liberata Campos (1949)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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