domingo, 3 de novembro de 2019

Afrânio Peixoto - O Descobrimento (História do Brasil)



O Descobrimento

Foi descoberto... O Tratado de Tordesilhas, concluído a 7 de junho, assinado a 2 de julho de 1494 em Arevalo, dizia que todos os descobrimentos portugueses ao oriente de uma raya ou linea derecha de polo a polo... a tresientas & setenta leguas de las yslas del Cabo Verde, ou que, desde essa data, viriam a descobrir os portugueses, seriam deles; para o ocidente seriam dos Castelhanos. A linha limitante ou divisória das duas bandas do mundo seria riscada por pilotos, como astrólogos y marineros & qualesquer otras personas que convengan, dentro de dez meses. Isto é ao tempo de Dom João II; Dom Manuel pede à Santa Sé confirmação do Tratado, o que Júlio II concede, a 24 de janeiro de 1506. A pedido dos reis de Espanha, um pontífice espanhol, Alexandre VI (Bórgia), sem audiência de Portugal, dividira o mundo pelo meio e dera aos portugueses um hemisfério limitado até 100 léguas de Cabo Verde. D. João II não reclamou do Papa, negociou com Espanha: a linha seria a 250 léguas, se os Espanhóis descobrissem novas terras ao ocidente até 20 de julho de 1494, de 370 se isso não tivesse ocorrido até esta data. A linha do Pontífice caía no mar, deixando a Índia, pela África, aos portugueses; a concessão a Colombo, até onze dias da assinatura do tratado, dar-nos-ia um terço, ainda assim, do Brasil; a linha definitiva deu-nos o Brasil quase todo, da embocadura do Amazonas, ao limite sul de São Paulo.

A 370 léguas a oeste da ilha mais ocidental do arquipélago de Cabo Verde... acabava o hemisfério português pelo ocidente... Dom João II insistente, tenaz (el Hombre, como lhe chamava Isabel a Católica) e os seus diplomatas e técnicos previram o Brasil, aí incluído: a Espanha e a Igreja concediam-lhe a África e as Índias, supondo que o contentavam; não, ele queria mais, e exigiu também o Brasil...

Duarte Pacheco Pereira, o grande piloto, escritor, cosmógrafo e herói que veio com Cabral ao Brasil, e fora dos negociantes de Tordesilhas, dirigindo-se a el-Rei D. Manuel escreveu, em 1506, no Esmeraldo: Por tanto bemaventurado Principe temos sabido & visto como no terceiro anno de vosso Reynado do hano de nosso senhor de mil quatrocentos noventa & oito donde nos vossa alteza mandou descobrir ha parte oucidental passando alem ha grandeza do mar ociano honde he achada & navegada huma tam grande terra firme com muitas e grandes Ilhas ajacentes a ella que se estende a setenta grados de Ladeza da linha equinocial contra ho polo artico (Esmeraldus de Situ Orbis). “É achada e navegada”, traduzem os comentadores: achou-se e navegou-se o Brasil. Mas, em 1498, Dom Manuel mandara Duarte Pacheco achar esse Brasil suspeitado em Tordesilhas, em 1494, pelos portugueses, um deles esse Duarte Pacheco que, em 1500, vem, com Cabral, a isso...

O depoimento de Pero Vaz, do Mestre João, físico e cirurgião, que vinha na Armada, e do Piloto Anônimo, sobre o descobrimento, em 1500, não revela surpresa e imprevisto... O Piloto refere “o grandíssimo prazer” do achamento. Achar o que se procura faz isto. O imprevisto não; esse, surpreende. Nesses documentos, os únicos de testemunhas, não há tempestades, ao menos a invocada para o desvio da rota. Vasco da Gama passara também ao ocidente de Cabo Verde, empegado no mar, para evitar as calmarias africanas e dobrar de largo o Cabo de Boa Esperança, como fez Cabral, mas não aportou ao Brasil... Mestre Joham, o físico da armada, diz a el-Rei D. Manuel:

Quando, senor, al sityo desta tierra, mande Vossa Alteza traer un napa-mundi que tiene Pero Vaaz Bisagudo, e por ay podrra ver Vosa Alteza el sityo desta tierra, en pero, aquel napa-mundi non certyfica esta tierra ser habytada, o no. Es napamundi antiguo... Já o Brasil estava em napamundi antiguo: ao menos sabia-o um dos descobridores...

Fundado nestes dois documentos, de Duarte Pacheco e de Mestre Joham, ambos testemunhas presenciais do achado de 1500, diz o americanista Henri Vignaud: não poderá haver dúvida alguma que não é Cabral o primeiro descobridor português do Brasil. (Americ Vespuce — ses voyages...  1911). Depois disso, continuar-se-á a falar da “tempestade”, “das calmarias”, do “acaso”, como fizeram, da quarta-feira, 22 de abril, 3 de maio, que foi domingo... Ignorância ou teima: ou as duas.

A 22 de abril, à tardinha, houveram vista da terra, o monte Pascoal, o arvoredo. A 23 navegaram contra a terra e surgiram na foz de um rio. Viram homens nus, com arcos e flechas. A 24 navegaram ao longo da costa, buscando abrigo, aguada e lenha. Acharam um porto, abrigado por arrecifes e aí ancoraram. A 26, domingo, o franciscano Fr. Henrique Soares, de Coimbra, ajudado por outros religiosos, celebrou, num ilhéu, a primeira missa. Na sexta-feira, 1º de maio, erigiram em terra firme uma grande cruz de madeira, feita por dois carpinteiros de bordo, com as armas e divisas de Dom Manuel, sendo rezada então a segunda missa. Para o reino, a dar notícia do achado, seguiu o navio de Gaspar de Lemos. Com as araras e papagaios, arcos, flechas, penas, amostras da terra e da gente, pretende Castanheda fora um índio: & mandou-lhe hu home daquela terra. A armada agora de onze navios, partiu a 2 de maio, sábado, rumo de África, para passar o Cabo de Boa Esperança pelo largo, segundo recomendava a experiência de Bartolomeu Dias e de Vasco da Gama.

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