segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Machado de Assis e Carolina



Carolina Augusta de Novais que viria a ser uma das figuras feminina indiretamente de maior significação na literatura brasileira, era portuguesa e chegou ao Rio de Janeiro, para residir com o irmão enfermo, nos fins de 1866. Ao lado de Faustino Xavier de Novais, poeta satírico, prestando-lhe a desvelada assistência de irmã, Carolina, com os seus 32 anos, simpática, atraente, desembaraçada, inteligente, habituada ao trato com intelectuais, tornou-se o centro das reuniões com que os amigos do doente procuravam alegrá-lo. Entre aqueles amigos, estava Joaquim Maria Machado de Assis, com quem um ano após, vencida a resistência da família da noiva, toda ela rebelada contra o pretendente mulato se casava movida por um firme e superior sentimento de mulher de espírito.

A esta singular mulher, dedicou Machado de Assis o soneto seguinte:

Querida! Ao pé do leito derradeiro,
em que descansas desta longa vida,
aqui venho e virei, pobre querida,
trazer-te o coração de companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
que, a despeito de toda a humana lida,
fez a nossa existência apetecida
e num recanto pôs um mundo inteiro...

Trago-te flores - restos arrancados
da terra que nos viu passar unidos
e ora mortos nos deixa e separados;

que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
pensamentos de vida formulados,
são pensamentos idos e vividos.


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Consulta bibliográfica:
Revista Leitura, dezembro de 1943.

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