terça-feira, 21 de janeiro de 2020

"Domingo de manhã" (Poema), de Henri Murger


Poema: "Domingo de manhã"
Autor: Henri Murger
Tradutor: Joaquim Serra
Ano: 1868
Revisão ortográfica: Iba Mendes (2020)

DOMINGO DE MANHÃ
(HENRI MURGER)

Disse o Sábado ao Domingo:
“Amigo, rende-me a guarda,
Já meia noite não tarda,
Est’hora pertence a ti...
Estou cansado do trabalho,
O sono bole comigo,
Toma o lugar, meu amigo”...
Disse o Domingo: — Eis-me aqui!

E despertou bocejando;
Viu as estrelas fulgindo;
Bocejou já se vestindo,
Esfregou olhos com a mão;
Finalmente preparado,
Foi risonho e com doçuras
Despertar lá nas alturas
O sol, que dormia então:

“Dessa alcova do oriente
Surge, ó grande preguiçoso!
Já busca a lua o repouso
Fechando os olhos nos céus;
No bosque para saudar-te
A calhandra além se apresta;
Vem, que o dia hoje é de festa,
Traz os lindos raios teus!

Chegou ao monte o Domingo,
Dali os olhos vagueia;
Vê dormindo toda a aldeia:
“Não despertemo-la”, diz...
E caminha docemente,
Com cautela, sem abalo:
“Não cantes — murmura ao galo
Deixa-os dormir como eu fiz!”

Do labor todos repousam;
Que este dia é de descanso;
O sol caminha de manso
Para mais tarde chegar...
E se, além da madrugada,
Inda alguém se apraz num sonho,
O dia, que o vê risonho,
Deixa-lhe o sonho acabar!

Mas enfim, eis o Domingo,
Domingo de primavera!
Na flor a luz reverbera,
Céu e mar é tudo azul!
Fala a violeta com a rosa
Uma linguagem diversa,
E o forte cedro conversa
Com o caniço do paul!

Junto ao ninho bate as azas
Linda pomba, que acordara,
E, vendo que o dia aclara,
bom-dia ao sol que vem;
E mil outras companheiras,
Outros alados cantores,
Girando por entre as flores,
Ali descantam também!

Traz o Domingo consigo
A todos novo deleite,
Para a donzela um enfeite,
Muito rir, muito folgar!
Quantos brincos e folguedos!
Quantas garrafas vazias!
Que folgazãs sinfonias!
Quanto correr e bailar!

Como tudo está tranquilo
Ou na aldeia ou no caminho!
Não volve a roda o moinho,
A bigorna muda está!
Os bois ruminam contentes,
Livres do jugo pesado,
E a charrua no eirado...
Repousa, encostada lá...

Todos folgam satisfeitos,
Que conversas neste dia!
 — Como vai teu pai, Maria?
 — E o teu filhinho, Manoel?
 — Bela estação, meu vizinho!
 — A colheita há de ser boa!
Não trabalha outra pessoa,
A não ser o menestrel!

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