domingo, 19 de janeiro de 2020

Poesias de Bernardino Lopes (Brasões)



GAULESA

Forma divina em mármore lavrada.
Tu, flor da pátria, que ao Rei Sol, pertence;
E não há quem te veja, que não pense
No estelífero baile da embaixada.

E és rosa ainda; rosa fluminense
— Alva corola em púrpura afogada;
Quero-te assim em pompas de alvorada,
Embaixatriz do chic parisiense,

Calcando o boulevard às três da tarde,
Premida a carne, que em volúpias arde,
Na correção finíssima da cassa;

Parasol japonês que a altura excede
Das mãozinhas gritando em peau de Suède,
Toda aureolada no esplendor da graça!


ÉCUYÈRE

Surge; deslumbra a olímpica amazona,
Do amor, da graça no esplendente facho!
Freme; e em palmas parece vir abaixo
O claro, o alegre, o amplo funil de lona.

Empolga o circo; e, de improviso, é dona
Do high-life aceso e todo o populacho...
Ferve-me o sangue bravo de muchacho,
Quando sobre o ginete ela abandona

Do corpo excele o empurpurado lírio;
E não me arranca do infernal delírio
A surpresa que, doido, a todos causo...

É que eu a vejo, no meu sonho de arte,
Como um fraldejo rubro de estandarte
Arrebatado no tropel do aplauso!

 

OLGA

A carne em flor, carne insolente e herege,
Aflita ruge e, cúpida, blasfema
Contra o flagelo, contra a odiosa algema
Do elegante costume de barège.

Não há mesmo ninguém que a não inveje,
Quando ela traz, como sensual poema,
Numa arrogância bíblica e suprema,
A carne em flor, carne insolente e herege;

Transparecendo a luxuriosa verve
Do sangue experto e audaz, que explode e ferve
No mais airoso invólucro de fêmea,

Como um champagne efervescente e lindo
De romãs e papoulas, colorindo
Esguia taça de cristal da Boêmia.

 

CÁRMEN

Passa no grande tom, pisando o asfalto
Do amplo trotoir cheio e surpreso; e há tanta
Glória, que o dia sonoriza, e canta
A própria laje onde ela aplica o salto.

Do borzeguim francês, chic e pernalto,
Calcando pé, que, de pequeno, espanta;
E erguendo, e abrindo o excelso olhar, quebranta
A luz do sol espadanando do alto.

Mas há um quê de sonhos importunos
Na solidão dos seus dois olhos brunos,
Que a dor talvez de lágrimas borrife...

É a saudade, a lembrança inquieta e vaga
De uma longínqua e pequenina plaga:
A tristeza insular de Tenerife!

 

COMÉDIA ELEGANTE
(Ao Dr. Ferreira de Araújo)

Em plena fantasia
Aqui. Armemos a tenda,
Em que há de pousar a graça;
— Cinco ou seis nesgas de cassa,
Toda beirada de renda.

Tudo claro e tudo breve,
Quase translúcido e a esmo.
Que o ninho pareça mesmo
Um fino floco de neve.

Cheire a jasmins, a violeta
— O aroma esquisito e brando;
E ande-lhe em torno, flaflando,
A ronda de borboletas:

As mariposas do riso,
As róseas vespas da verve.
Quando, enfim, o sangue ferve
Loucura é ter-se juízo.

Pálio de sonhos, em suma,
Que, sob a luz radiosa,
Tenha o frescor de uma rosa,
Todo um ar leve de pluma;

Donde, olhando por um rombo,
Eu contemple a cada passo
A glória, que, no mormaço,
Deixa a plumagem de um pombo.

De andorinhelas a frota,
Asas e caudas em jogo;
E o sol, como águia de fogo,
Em região mais remota.

Asas! Tão belo que é vê-las,
Como um beijo aéreo e lindo,
Subindo sempre, subindo
O áureo redil das estrelas!...

Aqui, de amor e fragrância
Numa tênue e simples aura,
Hão de vir Beatriz e Laura
Sentar-se ao chá da elegância.

Tudo se adore e se note:
Uma quente flor purpúrea,
Ou, transpirando a luxúria,
O alvo esplendor de um decote.

E rubra, sobre a barraca,
Grite uma flâmula solta
De liberdade e revolta,
Como uma língua polaca.

Abrindo as penas por cima,
No sangue da madrugada,
Trine, faceta e dourada,
A ave travessa da rima.

Deixo que enflorem-me a tenda
Lauréis de acantos e parra...
— Cheia de sons de guitarra,
— Toda beirada de renda!

 

TIRO ÀS POMBAS

Vamos! Põe o sombrero na cabeça;
Vão comigo os caniços e a tarrafa,
Duas claras fatias de anho frio
E vinho, um vinho de âmbar, na garrafa
Para incitar a nossa gulodice.

Ao rio, pois, ao rio,
Minha bela condessa,
Para uma alegre e divertida pesca...

— Prefiro a caça, a tua boca disse,
Boca de rosa, perfumada e fresca!

Pois seja, eu concordava,
Abotoando as tuas luvas pardas;
Atirarei às pombas e às torcazes.
E, logo, pondo as nossas espingardas
A tiracolo, fomos indo, fomos
Como dois bons e joviais rapazes.

Não era mais a flor dos hipódromos
É dos bailes fidalgos
A linda flor, que junto a mim marchava
Festejando aos dois galgos,
Que, atrelados, seguiam-nos a estrada,
De coleiras de prata e orelhas rombas;
Era Diana, então transfigurada
Em mais galante e humana caçadora,
De corset verde, e gorro de veludo
Encarcerando a úmida trança loira.

Era no mês das pombas,
Asas em harpa, em bando,
E a mais clara manhã das manhãs claras,
Estrelada de flores de laranja,
O bom cheiro exalando;
E era rasgando os campos e as searas
A trilha que nós íamos seguindo.

Vinha rompendo a aurora:

A terra, o céu, se transformava tudo
Num panorama lindo!
Nas mais ridentes claves
Instrumentavam, pelo verde afora,
As festivais e pequeninas aves
O formoso libreto
Da luz, bordando de auri-rosa franja
O frescor matinal do azul celeste...

E era um concerto agreste!
Mas tão belo, tão límpido, tão doce,
Como se aquilo fosse
O farinado de rimas de um soneto.

Era no mês dás pombas!

Iam os galgos abanando a cauda,
A lamberem-te, alegres, a mão alva.
Hoje desse episódio e de mim zombas.
Pois foi a melhor lauda
Do meu livro de amor; dessas, que a gente
Marca, cheia de riso e de interesse,
Com uma folha de malva...

Nunca manhã tão próspera morresse!

Era no mês das pombas,
E era com febre que eu te dava um beijo.
Já não sei se fizemos, finalmente,
De mortas aves pródiga colheita...
Eu me lembro, porém, que dessa feita
Matamos o desejo!

 

NO BAILE

Ontem, no baile, quando todos viam,
Em apoteose franca,
Aquela flor de renda e de escumilha,
A mariposa branca,
Girar no tour de uma infernal quadrilha,
Eu lhe quebrei o leque perfumado.

E aqueles lábios róseos me sorriam
Depois desse fracasso,
Que eu cometi, por ter errado o passo.

Aquele belo mimo
Foi presente, talvez, de um namorado,
Ou dádiva de um primo,
Como lembrança de uma data... O moço
Com certeza lho deu depois — pudera!
De enlevados instantes,
Quando, na tarde de uma primavera,
Adorava-lhe a curva do pescoço...
— Como são doidos todos os amantes!
...........................................................................

Mas voltemos ao caso
Do meu célebre crime,
Em que vítima fui do meu desazo,
Cujo remorso pertinaz me oprime.

Aquela flor me odiará... Mas isto
É a maior desgraça,
Que, impiedosa, cabe-me em sentença
(Do coração no código, está visto)
Mas tudo diz-me que ela em mim não pensa.

E eu creio vê-la ainda.
Como uma nuvem diáfana de cassa,
Ligeira e leve, perfumosa e linda,
Adelgaçar-se no âmbito da sala...
Melodiava a orquestra. A contradança
Animava-se aos poucos;
Mas eu somente ouvia a sua fala,
Como quem ouve a voz de uma criança.
— Pobres poetas, como somos loucos!

Apresentei-lhe o braço
No segundo intervalo, e deu-se um giro!
Ela — flores no colo e no regaço,
(Creio que margaridas)
Disse-me, entre sorrisos e um suspiro,
Coisas tão boas, breves e queridas!...

Cedeu-me o leque para ter libertas
Suas duas mãozinhas enluvadas;
E assim me honrava a tentadora moça.
As pálpebras abertas
Eu tinha às suas graças adoradas,
Quando ela disse, despertando-me, ouça...

Tour de mains... chaîne, tá! foi-se a vareta!
Quebrei-lhe o leque! A examinar me animo
A asa infeliz daquela borboleta,
Que talvez fosse o talismã do primo...

Inclinei-me submisso:
Tinha o rosto escaldando e a alma viúva.
E quando eu desculpei-me, assustadiço,
Levou-me à boca a pérola da luva!

 

MADRIGAL DE UM DOIDO

I
Eu nada disse, nem pedi, nem quero;
E, certo, eu nada disse
Dos teus encantos, porque sou sineiro.
Tudo quanto esta boca,
Que tem beijado o turbilhão de atrizes,
Dissesse, além de pálida tolice,
Seria a expressão oca:
Só há perfume e cor no que tu dizes,
Amada flor da Espanha,
Rosa branca do sonho e da esperança,
Por quem — triunfo que ninguém alcança!
Andamos todos na floral campanha.
O teu destino olímpico preside
O amor, o amor semente;
E és para mim, senhora, um poeta e um crente,
A grande estrela do país do Cid!

II
Nada pedi, nem peço
À tua graça, ao teu ardor, à tua
Carne sedosa de mulher, mais alva
Do que um raio de lua;
E mais cheirosa, e de maior apreço
Do que uma folha sensual de malva!
Flor e vespa a um só tempo; borboleta,
Que áureas asas derrama
Por sobre a clara cena da opereta;
E dama igual à dama
De Pompadour; graciosa gentileza
Da corte Benoiton, que as honras faça
E o esplendor de uma sala,
Mais que uma estrela de maior grandeza,
Que um diamante sem jaça,
Branca, da cor de uma formosa opala!...
Ninon que se destaca
Pela correta linha do colete;
Olhos cheios de lume,
Como polidas lâminas de faca;
Mulher que se adivinha no perfume,
No tilintar febril do bracelete!

III
Nada quero, bem certo,
Além desta ventura de adorar-te,
Além do gozo de te ver de perto.
Tu, que és a orquídea d’arte,
Cheia de mimos, cheia de desvelos,
— Dedos, que de ti cuidam, perfumando,
Aclimatada dentro das estufas,
Deves ser desejada
Por fidalgos excêntricos e belos,
Os dândis da alta roda,
De vidro ao olho e, mão empelicada;
Duques do sport, e fino talhe à moda,
Lapela em flor, num apurado esmero,
Principalmente quando
Das cançonetas o pandeiro rufas...

— Castanholas na mão ...
Bravos!
Salero!

 

INVERNO

Por este inverno, que é de risos, e algo
Tem de estranha e sonhada primavera,
Na asa alegre e volúvel da quimera
Passeio o meu espírito fidalgo.

Levo um nome esquisito e um leve buço
De escandinavo príncipe janota;
E, disfarçadas no canhão da bota,
As frasqueiras de kirsch e kümmel russo;

Seguindo sempre — cavalheiro guapo,
Das filhas de Eva o luxuoso bando,
Jovial e altivo, como que levando
Cem condessas austríacas no papo!

O redondo monóculo de míope,
Para dar linha e ver melhor, aplica
A minha mão calçada de pelica
Da cor preta e lustrosa de um etíope.

Agasalhado, justo, em lã e pele
— Veston polaca e o gorro então de lontra,
Rompendo o dia quem quiser me encontra,
Antes que o groom o árabe ao carro atrele.

Pois logo que de púrpura se encharque
A umidade cortante do ar opaco,
Vou, de bengala e orquídea no casaco,
Dar um passeio higiênico no parque.

Opalinam-se as matutinas brumas
De encontro à luz... E é todo o céu coberto
Pelo maior, mais amplo leque aberto,
De muito brancas e flocadas plumas!

Esse giro de artísticos detalhes
É alto, é nobre, é parisiense, é chic!
E faz lembrar o soberano Henrique
Nas alemedas flóreas de Versailles.

Andam senhoras— tipos de romance,
Na quentura sensual dos water-proofs,
De quadris largos, à feição dos pufs,
Trocando, a jeito, olhares de relance,

Num disfarçado e interessante flirto,
Donde parte uma certa garridice,
Como um thiê, que, ao fresco albor, saísse
Das ramadas floríferas de um mirto.

E depois disto — um delicioso almoço,
Entre a glória de nove ou dez mulheres,
De dólmen, feito como o dos alferes,
E peliças, e arminhos no pescoço.

E já o sol, que de áureas lanças anda
Golpeando o espaço, como o herói manchego,
Põe quenturas e uns toques de aconchego
No rutilante quadro da varanda.

Inglesa, aquela; e aquela (não desvaires,
Oh! delicado espírito de raça!)
Patrícia; porém uma, a de mais graça,
Luxuriosa flor de Buenos Aires!

A alegoria esplêndida do estuque
— Vênus surgindo do elemento salso,
Contemplo; e as luvas devagar descalço,
Com a fidalguia natural de um duque.

Eu, que na extrema correção não peco,
Dou o braço a uma estrela italiana,
Que me oferece, nobre e soberana,
A belíssima rosa do jaleco.

De sua mão, branca e franzina, tomo
Tão alto mimo, exótico e bonito,
E nela um beijo, manso, deposito
Com toda a graça de um galant'uomo!

Vou docemente conduzindo à mesa...
Sentam-se todos num festim galhardo;
E eu, defronte, aparando o frio dardo
Do ciumento e garço olhar da inglesa.

Um distinto menu: lebre e perdizes
Em porcelana antiga de tons claros;
E no cristal dá copa — vinhos raros
De todo o gosto e todos os matizes...

Ramalhetes enfloram-se nas jarras
De bacarat, em cujo esmalte brinca
O mago olhar de uma alemã, que trinca
Corações pequeninos de alcaparras;

Dá começo ao epícuro massacre
Fino prato de espargo ou beterraba
Sauce piquante... E quando a miss acaba
Tem a boca inflamada e cor de lacre!

Hilariantes trincolejos e altos
Sons de metal e louça fina em choque;
Anda no ar o aticismo de um remoque
De afinados espíritos exaltos...

Quando ainda uma vez — a quarta ou quinta,
Do Tokai ou do Chipre esgoto a dose,
Numa esfuziante e trépida nevrose,
A prataria do dessert tilinta.

Frutos de cá, das mais variadas cascas,
Pintalegrando a alvura da toalha;
E a polpa de ouro, que o criado talha,
De um cheiroso melão, servido às lascas.

Que a amorável inglesa se constranja
Jamais permito, pelo simples fato
De, sem magoar-se e sem quebrar o prato,
Não poder debulhar uma laranja;

Eu, que me sinto agitadíssimo e arfo
Por agradar ao vis-à-vis travesso,
Vermelha, em cacto, a fruta lhe ofereço
Apunhalada nos pontais do garfo.

Que ela ao ato de um gentlemen se esquerde
Não se me dá, pois tenho encanto novo
Vendo-a tomar, em taça casca de ovo,
Dois delicados goles de chá verde.

Não fosse inglesa esta mulher, não fosse
Do alvo país dos olhos de esmeralda,
E, em vez de chá, preferiria a calda
Da compota real que o garçom trouxe.

Para que, enfim, a natureza integre
A áurea jovialidade que ali rola,
Sai das pautas iguais de uma gaiola
A nota aguda de um canário alegre.

O fim das horas de repasto é lindo!
Rumor de saias, qualquer coisa tomba...
Há o barulho fugaz de asas de pomba,
Nervosa e forte pelo espaço abrindo!...

O mulherio claro se despenca
Por toda a sala... E, enternecido, eu olho
A miss, que ajusta ao curvo peito um molho
De palmazinhas naturais de avenca;

E a rir, para que o busto desempene,
Levanta os braços e desaparece,
Arrepanhando ao alto a loira messe
Do cabelo a exalar fleur de la reine...

 

TÊTE-À-TÊTE

Sábado, ao pino! Sábado... excelente
Dia, de ouro e de azul, para a entrevista
De uma excêntrica flor, mundana e albente,
E este esquisito artista.

Ao meu encontro, doce amada, corre
Quando, alegre vibrada,
A sonora campânula sagrada
Tinir, trinando, trêmula, na torre...

Ou vem mais cedo, às onze...
— Já em minha mente o teu perfil perpassa!
Ah! se eu pudesse perpetuar-te a graça,
Como se perpetua um rosto em bronze!

Nem podem versos imortalizar-te
A figura travessa:
Há um sonho estelar de culpa e de arte
Na tua leve e original cabeça.

Mas, espera: vejamos
Onde o esconderijo dessas andorinhas.
Olha que estão frutificando as vinhas
E aves, noivando, cantam-lhe nos ramos.

E o verde ri!... Prende o cabelo ao grampo,
Afoga o corpo em lirial frescura
De talhe doce, e entrega-me a cintura
Que eu te conduzo ao campo.

Uma latada a jeito,
Ou... tu mesma dirás o que preferes;
Saibas, formosa, que sou pouco afeito
Ao convívio elegante das mulheres.

Nem o lilás do madrigal floreja
Na aura da graça, a espiritual moléstia;
Não penses que eu esteja
Desfolhando a violeta da modéstia.

Violetas, sim, mas em pequenos molhos
Nos teus seios arfantes...
Não, que para tontear-me eram bastantes
As violetas escuras de teus olhos.

Nem tanto o vinho: ele há de, cristalino,
Num ágape florido,
Rosar-me as faces e há de ser bebido
Por um só cálix, facetado e fino.

Cerejas?... pensa, louca,
Que me ofereces uma nos teus lábios;
Só tarde eu saberei, pelos ressábios,
Se mordo o fruto ou se te mordo a boca.

Linda, com um ar de súplica e vergonha!
Entre promessas e a perdiz trufada
Dizendo irá do amor e do Borgonha
Tua boca estrelada.

Entre nós se desfralde
O cor de rosa pavilhão do riso;
E fora, sobre o nosso paraíso;
Desdobre o sol a outra bandeira jalde!

 

DIAS ALEGRES

I
Foi uma tarde do diabo!
Ante a florista basbaque,
Pus na lapela do fraque
Um teso jasmim do Cabo;

Dei certo tic ao bigode,
Ao cabelo, à barba rala,
E fui, dançando a bengala,
Tomar o carro... Um pagode!

De veia e toilette nova
Chego ao termo; que travesso!
Ou eu um poema mereço,
Ou eu mereço... uma sova.

Dedo no tímpano — dlinde...
Tudo a surpresa, ao acaso;
Quem me vai vendo o desazo
De minudências prescinde.

Criada ao alto. Perfeito,
Diante de tanta elegância,
Tanto o meu ar de importância,
Como o meu jasmim no peito.

Então, maior que os califas,
No vestíbulo procuro
Abafar, cauto e seguro,
Meus passos nas alcatifas.

Ouço gemidos no quarto...
Sendo de moça a vivenda
Supus que... boas, entenda!
Ou se tratava de um parto.

Entro, fazendo um exame:
Sobre a mesa de pão preto
Dois canários — um dueto.
Fofos, no chalé de arame.

Un coup d’ceil ao gabinete:
— Luz velada, doce e morna;
O quadro do chão adorna
Vivo painel de um tapete.

O bric-à-brac de luxo
Do interior de uma artista
Exposto à lâmpada, à vista,
Coalha o dunkerke de buxo.

No padrão frio do estofo
Do cortinado da porta,
Estrelejando em cor morta
As Artemísia do mofo.

Da memória agora cai-me
Um gáudio para as esposas:
Havia entre tantas coisas
Um tomo azul do D. Jaime.

Mas o que a palheta doura
É o cabelo, a fulva lhama
Da pequena sobre a cama,
A flor da opereta, a loira!

Livre do pente e dos grampos,
Espalhado sobre a fronha...
Ouro de cor mais risonha
Que a da macega dos campos,

Gemendo — sorte do diabo!
Vítima, enfim, de um ataque...
Murcho, da casa do fraque
Caiu-me o jasmim do Cabo...

II
Salero, viva Ia gracia!
Pepita, alegre Pepita,
Lembras-me, fresca e bonita,
Um flóreo ramo de acácia.

Permite, filha, que eu ache
Bizarra a tua jaqueta,
Sobre curta saia preta
Toda bordada a sutache.

Risonho e flavo domingo!
O sol enchendo os espaços
Como enchia antigos paços
O áureo esplendor de um gardingo

Verão largo, verão pleno,
Que faz estuar o sangue
Na tua carne alva e langue,
Pondo-me o rosto moreno.

E cornetins, e fanfarras
— Agora nisto reparo,
Anda vibrando no claro
O pelotão das cigarras.

Vamos, oh! alma espanhola,
À solidão de uma quinta:
Meu braço na tua cinta,
Teus dedos na ventarola.

Vamos ver o céu e o campo...
Põe ao alto a trança ardente,
Apunhalada a serpente
Pelo florete de um grampo.

Belo atavio descubro
Para o penteado em novelo:
Na treva de teu cabelo
O sangue de um cravo rubro.

Não vamos lá como ricos;
Como noivos... que respondes?
Agora que estão as frondes
Cheias de flores e bicos!...

Contigo, flor de Coquimbo,
Irei a pé pelos ermos,
Buscando as rimas e os termos
Nas espirais do cachimbo.

Pelo matiz dos caminhos,
Vendo-te o chiste de guizos,
Há de se abrir em sorrisos
A boca ingênua dos ninhos.

Que não vá outro conosco,
Para adiar tanta coisa;
Contigo, a sós, quem não ousa
Sobre um divã de pão tosco?!

Sem testemunha e sem pompa,
Que eu tenho raiva do pasmo;
Nada esfrie o entusiasmo,
Nada o meu sonho interrompa,

Olhos de uva em fronte nívea...
— Nessas duas taças conto
Esvaziar tonto, tonto,
Todo o Xerez da lascívia.

Que me morda e me massacre,
Fibra a fibra, veia a veia,
Todo o enxame da colmeia
Da tua boca de lacre.

E um flamboyant largo e velho,
Cheio de hera e ditirambos,
Sobre o calor de nós ambos
Abra um parágua vermelho.

Aqui tens o teu toureiro
(Sem glórias e sem damasco)
Olha as guitarras e o frasco...
Salero, niña, salero!

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