sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

O Bêbado (Conto), de Guy de Maupassant


O Bêbado

O vento norte sibilava em tempestade, arrastando pelo céu enormes nuvens de inverno, pesadas e negras, que atiravam, na sua passagem, à terra, bátegas furiosas.

O mar, bravo, mugia e sacudia a costa, precipitando na praia enormes vagas, lentas e espumosas, que se desmoronavam com detonações que pareciam de artilharia. Essas vagas vinham muito suavemente, uma após outra, altas como montanhas, espalhando no ar, ao impulso das rajadas, a espuma branca de suas cristas, à maneira de um suor de monstros.

O furacão abismava-se no pequeno vale de Yport, sibilava e gemia, arrancando as telhas, quebrando os alpendres, derrubando as chaminés, lançando nas ruas tais rajadas de vento que só se podia marchar segurando-se a gente às paredes, e que as crianças haveriam sido levadas como folhas e atiradas por cima das casas.

Tinham atado as barcas de pesca até dentro de terra, com receio do mar, que invadiria a praia com a enchente da maré, e alguns marítimos, amparados por detrás do ventre bojudo das embarcações deitadas de flanco, olhavam para aquela cólera do céu e do mar.

Depois, afastavam-se pouco a pouco, porque a noite caía com a tempestade, envolvendo de sombra o oceano enraivecido, e todo o estrepitar dos elementos em fúria.

Só dois homens ficavam de mãos nas algibeiras, os costados roliços sob a borrasca, a cabeça enterrada no barrete de lá até aos olhos. Eram dois corpulentos pescadores normandos, de barba intonsa e pele crestada pelas rajadas salgadas do mar largo, os olhos azuis picados por um grão preto no meio, os olhos perfurantes dos marinheiros que veem até ao fim do horizonte como uma ave de preia.

Um deles dizia:

— Vamos embora, ó Jeremias. Vamos passar um pouco de tempo ao dominó. Sou eu que pago.

O outro hesitava, tentado pelo jogo e pela aguardente, pois sabia muito bem que iria embriagar-se se entrasse em casa de Paumelle, hesitava ao pensamento de que tinha a mulher sozinha no seu casebre.

Perguntou:

— Parece que fizeste a aposta de me emborrachar todas as noites. Não me dirás o que ganhas com isso, uma vez que és tu que pagas sempre?

E ria com bom gosto, à ideia de toda aquela aguardente bebida à custa do outro; ria com um riso contente de Normando que se sente bem.

Mathurin, o seu camarada, continuava a puxá-lo pelo braço.

— Vamos, avia-te Jeremias. Não se pode assim entrar uma noite em casa sem levar a barriga quente. Parece que tens medo que a mulher te dê açoites !

Jeremias respondeu:

—É que outro dia, não atinei com a porta... Quase que me pescaram na valeta defronte de casa!

E sorria ainda àquela lembrança de borrachão, dirigindo-se lentamente para o café de Paumelle, cujos vidros iluminados brilhavam; ia puxado por Mathurin e empurrado pelo vento, incapaz de resistir àquelas duas forças.

A sala baixa achava-se cheia de marítimos, de fumo e de gritos. Todos aqueles homens, vestidos de lá, de cotovelos assentes nas mesas, vociferavam para se fazerem ouvir. Quanto mais bebedores entravam, mais era preciso berrar entre o ruído das vozes e o bater dos dominós no mármore, o que aumentava ainda mais a inferneira.

Jeremias e Mathurin foram sentar-se a um canto, começaram uma partida, e os cálices desapareciam uns após outros, na profundeza das suas goelas. Depois jogaram mais partidas e beberam mais cálices. Mathurin continuava a despejar, e a piscar o olho ao patrão, um homem gordo, vermelho como brasas e que ria patuscamente como se soubesse desempenhar uma comprida farsa; e Jeremias ingeria o álcool, balouçava a cabeça, soltava gargalhadas que mais pareciam rugidos, olhando o seu compadre com ar estupido e contente.

Todos os fregueses saíam. E, de cada vez que um deles abria a porta da rua para se ir, uma rajada de vento entrava no bar, fazendo redemoinhar o pesado fumo dos cachimbos, balouçando as candeias no extremo dos seus ganchos e fazendo vacilar as suas chamas; e ouvia-se de repente o choque profundo de uma vaga derruindo-se e o mugir da borrasca. Jeremias, a camisa entreaberta no peito, tomava posições de bêbado, de perna estendida, um braço pendente; e na outra mão segurava os dominós.

Por fim, ficaram sós com o patrão, que se aproximara, cheio de interesse.

Perguntou:

— Bem, ó Jeremias, como vai então esse interior? Já te refrescaste à força de te regares?

E Jeremias tartamudeou:

— Uma vez que ainda corre é porque ainda está seco cá por dentro.

O dono do bar olhava para Mathurin com ar finório. Disse:

— E o teu irmão, Mathurin, onde estará ele a esta hora?

O marítimo teve um riso mudo.

— Está no quente, não te dê cuidado.

E ambos olharam para Jeremias, que pousava triunfalmente o doble, anunciando:

— Aqui está síndico.

Quando acabaram a partida, o patrão declarou:

Sabem que mais meus rapazes? vou até vale de lençóis. Deixo-lhes uma candeia e mais uma medida, Fica-lhes bastante com que se entreterem. Tu, depois, fecharás a porta por fora, Mathurin, e metrarás a chave por debaixo da porta como na noite passada.

Mathurin replicou:

Vai descansado. Está entendido.

Paumelle apertou a mão aos seus dois fregueses retardatários, e subiu pesadamente a escada de madeira. Durante alguns minutos, os seus pesados passos ressoaram na pequena casa; depois, um pesado estalido revelou que ele acabava de meter-se no leito.

Os dois homens continuaram a jogar; de tempos a tempos, um ímpeto mais raivoso do furacão sacudia a porta, fazia tremer as paredes, e os dois bebedores levantavam a cabeça, como se alguém fosse a entrar. Depois, Mathurin pegava no litro e enchia o copo de Jeremias. Mas de repente, o relógio, pendurado por cima do balcão, deu meia noite.

O seu timbre roufenho lembrava um choque de caçarolas, e as pancadas vibravam tempo, com uma ressonância de ferragem.

Mathurin, de repente, levantou-se, como um marinheiro que houvesse terminado o seu quarto:

— Vamo-nos embora, ó Jeremias, é preciso desandar.

O outro pôs-se em movimento com mais custo, tomou o seu aprumo apoiando-se à mesa, depois ganhou a porta, que abriu, enquanto o seu com companheiro apagava a candeia.

Quando se acharam na rua, Mathurin fechou o estabelecimento; depois disse:

— Agora boa noite, até amanhã.

E desapareceu na escuridão.

***

Jeremias deu três passos, depois oscilou, estendeu os braços, encontrou uma parede que o susteve de pé e tornou a pôr-se em marcha cambaleando. Por momentos, uma rajada de vento acompanhada de chuva, investindo pela estreita rua, atirava-o para a frente, fazendo-o correr alguns passos; depois, quando a violência da tromba cessava, o bêbado estacava de pronto, perdido o impulso, e continuava a vacilar nas suas pernas caprichosas de borrachão.

Ia por instinto, para sua casa, como os pássaros vão para o ninho. Enfim, reconheceu a sua porta e pôs-se a tatear para descobrir a fechadura e meter a chave. Mas não atinava com o buraco e praguejava a meia voz. Então pôs-se a bater a grandes pancadas, chamando a mulher para que viesse abrir:

— Melina! Eh! Melina!

Como se apoiasse contra o batente para não cair, este cedeu, a porta abriu-se, e Jeremias, perdendo o apoio, entrou em sua casa, sentindo que qualquer coisa pesada lhe passava por cima do corpo, fugindo em seguida no meio da escuridão.

Jeremias não se mexeu, cheio de medo, como louco, no espavorido de homem que viu o diabo, e a cuja cabeça vinham todas as coisas misteriosas das trevas. Esteve muito tempo assim sem fazer e mínimo movimento. Mas, como visse que nada bulia, veio-lho um pouco de lucidez, da lucidez perturbada dos bêbados.

Assentou-se, muito vagarosamente. Esperou ainda bastante tempo, e, desentorpecendo-se afinal, bradou:

— Melina!

A mulher não respondeu.

Então, de repente, uma dúvida lhe atravessou o cérebro obscurecido, uma dúvida indecisa, uma vaga suspeita. Continuava sem se mexer, sentado por terra, na escuridão, procurando concatenar ideias, agarrando-se a reflexões incompletas e vacilantes como os seus pés.

Bradou de novo:

— Olha cá, o que era aquilo, ó Melina? Dize-me o que era aquilo. Não te faço mal.

Esperou. Nenhuma voz se elevou na sombra. Raciocinava alto, agora.

—Estou bêbado, não faz mal! Estou bêbado! Foi ele que me pôs neste estado; foi ele, p'ra que eu não desse com a casa. Estou bêbado!

E continuava:

— Olha cá! o que era aquilo, ó Melina, ou me dizes ou desgraço-me.
Depois de ter tornado a escutar, contava com um raciocínio lento e obstinado de homem embriagado:

— Foi ele que me reteve em casa daquele malandro do Paumelle! e as outras noites a mesma coisa, p'ra que eu não entrasse em casa. Ele é um cúmplice. Ah! canalha!

Lentamente, equilibrou-se nos joelhos. Ganhava-o uma cólera surda, que se misturava à fermentação das bebidas.

— Dizes-me ou não o que foi aquilo ó Melina? Se não me dizes escangalho-te; olha que eu aviso te!

Achava-se agora de pé, tremendo numa cólera fulminante, como se o álcool que tinha no corpo se lhe houvesse inflamado nas veias. Deu um passo, tropeçou numa cadeira, agarrou-a, caminhou para a frente, encontrou o leito, apalpou-o e sentiu dentro dele o corpo quente de sua mulher.

Então, sufocado de raiva, grunhiu:

—Ah! estás aqui, patifa, estavas aqui e não me respondias.

E, levantando a cadeira que sustinha no seu punho robusto de marítimo, atirou-o para a frente em exasperada fúria. Um grito saiu da cama um grito louco, angustioso.

Então ele pôs-se a bater como um malhador numa granja. Dentro em pouco nada mexia ali:

A cadeira voara em pedaços; mas restava-lhe um pé dela, ainda, na mão, e ele continuava a bater, já arquejante.

Depois, de repente, parou para perguntar:

— Não me dirás quem era que a uma hora destas?...

Melina não respondeu.

Então, abatido de fadiga, embrutecido de violência, tornou a assentar-se por terra, estendeu-se e deixou-se dormir.

Ao romper da manhã, um seu vizinho, vendo a porta aberta, entrou. Viu Jeremias roncando no chão, onde jaziam dispersos os pedaços da cadeira, e, no seu leito, uma pasta enorme, uma massa disforme de carne e de sangue.


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Revista "Careta", 10 de fevereiro de 1912.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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