segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Petrarca, Luís de Camões e Faria e Sousa (Resenha)


Petrarca, Luís de Camões e Faria e Sousa
Não sei com certeza se o amador da lendária Laura, o padre Petrarca, foi o primeiro que solenizou na escuridade melancólica duma igreja, na semana santa, a primeira impressão da mulher amada. É certo que muitos poetas imortais, e outros já olvidados, tão lírico e sentimental acharam o exórdio dos seus amores, na semana trágica da agonia de Cristo, que assinalaram a visão das mulheres amadas à luz crepuscular dos ofícios da Paixão. Refere Petrarca em um soneto como e quando foi que viu Laura pela primeira vez:
Era 'l giorno ch'al sol si scoloraro
per la pietà del suo Factore i rai,
quando i' fui preso, et non me ne guardai,
ché i be' vostr'occhi, Donna, mi legaro.

Tempo non mi parea da far riparo
contra colpi d'Amor; però n'andai
secur, senza sospetto: onde i mei guai
nel comune dolor s'incominciaro.

Trovommi Amor del tutto disarmato,
et aperta la via per gli occhi al core,
che di lagrime son fatti uscio et varco.

Però, al mio parer, non li fu honore
ferir me de saetta in quello stato,
a voi armata non mostrar pur l'arco.

É muito possível que Luís de Camões visse Catarina de Ataíde na Igreja das Chagas, na semana santa de 1542; e, ao lembrar-se do caso análogo de Petrarca e do soneto consagrado a esse acontecimento, de propósito se aproximasse das ideias do seu mestre em amor e lirismo. Eis o soneto muito conhecido:
O culto divinal se celebrava
No templo donde toda a criatura
Louva o Feitor divino, que a feitura
Com seu sagrado sangue restaurava.

Amor ali, que o tempo me aguardava,
Onde a vontade tinha mais segura,
Com uma rara e angélica figura
A vista da razão me salteava.

Eu crendo que o lugar me defendia
De seu livre costume não sabendo
Que nenhum confiado lhe fugia,

Deixei-me cativar, mas hoje vendo,
Senhora, que por vosso me queria,
Do tempo que fui livre me arrependo.

O remate do soneto do nosso poeta é original e belíssimo; todavia, o de Petrarca não lhe cede em fineza, segundo o estilo do tempo e a chamada arte nova de cantar d’amores, — o petrarquismo, uma destilação de conceitos que, por muito adelgaçados, ao atarem-se, desatavam-se em nada. O amador de Laura entende que o Amor não andou briosamente ferindo-o a ele desarmado, na igreja, onde o assalto não era de esperar, e deixando-a intacta a ela que tinha armas com que lhe reagir. O amador de Natércia, cuidando que o templo seria defeso às investidas de amor, acha-se cativo; mas pesa-lhe não o ter sido sempre. São duas imagens que rivalizam em refinação de galanteria.
Também Manuel de Faria e Sousa, o gongórico poeta da Fuente de Aganipe, se incluiu na lista dos amantes surpreendidos na semana santa. Deitou namoros na sé do Porto a uma D. Catarina Machado. Do modo como refere o caso o bispo do Pará, nas suas Memórias, Faria e Sousa, tirante a analogia do amor profano florescido na semana consagrada a chorar a paixão divina em 1614, não comungou do ideal contemplativo dos dois poetas seus antecessores: acompanhando ao bispo, de cuja família era, e ajoelhando a fazer oração em terça-feira maior, ajustou-se com uma dama, com quem depois casou, diz D. Fr. João Queirós.
Passou alguns trabalhos duros para conseguir que Pedro Machado, primeiro contador da fazenda do Porto, lhe desse a filha; mas em 1616 já estava casado, e trinta e cinco anos o foi; e, tão querido dela, que, falecido em Madrid, voltou em osso a Pombeiro na companhia da sua inconsolável viúva. Esta Catarina, amada num templo, merecia que os próprios anjos a requestassem; mas a Catarina de Camões e a Laura de Petrarca, uma por leviana e treda, outra por esquiva e arisca, parecem mulheres mais galanteadas ao compasso das valsas de Strauss do que ao soluçar dos trenos de Jeremias.
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CAMILO CASTELO BRANCO
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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