domingo, 15 de março de 2020

As meias dos flamingos (Conto), de Horacio Quiroga




As meias dos flamingos

Tradução: Iba Mendes (2020)

Certa vez as cobras deram um grande baile. Convidaram as rãs e os sapos, os flamingos, os jacarés e os peixes. Os peixes, como não caminham, não puderam dançar. Mas sendo o baile realizado à beira do rio, vieram para a areia e aplaudiam com a cauda.

Os jacarés, para se enfeitarem bem, haviam colocado no pescoço um colar de bananas e fumavam cigarros paraguaios. Os sapos tinham posto escamas de peixe em todo o corpo, e andavam maneando como se estivessem nadando. E sempre que passavam muito sérios pela margem do rio, os peixes gritavam caçoando deles.

As rãs tinham perfumado todo o corpo e andavam nas pontas dos pés. Ademais, cada qual trazia uma lanterna, uma espécie de farolzinho, como se fosse um vaga-lume balançando. 

Porém as mais formosas entre todos eram as cobras, as quais, sem exceção, vestiam trajes de bailarinas, da mesma cor de cada uma delas. As cobras vermelhas traziam uma sainha de seda vermelha; as verdes, sainha de seda verde; as amarelas, de seda amarela; e as jararacas, uma sainha de seda de cor de barro e cinza, porque assim é a cor delas.

Porém as que estavam mais esplêndidas eram as cobras coral, que vestiam cumpridas túnicas vermelhas, brancas e pretas, e bailavam como serpentinas. Quando as cobras dançavam e davam voltas apoiadas na ponta da cauda, todos os convidados aplaudiam em êxtases frenéticos.

Apenas os flamingos, que então tinham as patas brancas, e têm agora, como sempre, o nariz muito grosso e torcido, só os flamingos estavam tristes, uma vez que, tendo pouca inteligência, não sabiam como se enfeitar. Invejavam os trajes de todos, especialmente os das cobras coral. Toda vez que uma cobra passava na frente deles, toda faceira e fazendo ondular as serpentinas, os flamingos morriam de tristeza.

Um flamingo então disse:

— Eu sei o que vamos fazer. Vamos colocar meias vermelhas, pretas e brancas, e as cobras coral vão ficar loucas por nós.

E levantando voo todos juntos, foram bater num magazine do povoado.

— Tã-tã! — bateram com as patas

— Quem é? — perguntou o vendedor.

— Somos os flamingos. Tem meias vermelhas, brancas e pretas?

— Não, não tenho não — respondeu o vendedor. — Estão loucos? Não encontrarão meias assim em nenhum lugar.

Os flamingos foram então a outro magazine.

— Tã-tã! — Tem meias vermelhas, pretas e brancas?

O outro vendedor respondeu:

— O que dizem? Vermelhas, brancas e pretas? Não existem meias assim em parte alguma. Vocês estão malucos? Quem são?

— Somos os flamingos — responderam eles.

E o homem disse:

— Então com certeza são flamingos doidos.

Foram em seguida ao terceiro magazine.

— Tã-tã! — Tem meias vermelhas, pretas e brancas?

— O vendedor gritou:

— Qual a cor? Vermelhas, brancas e pretas? Apenas pássaros narigudos como vocês podem pedir meias assim. Desapareçam!

E o homem os expulsou com a vassoura.

Os flamingos recorreram assim por todos os magazines, e em toda parte os tomavam por loucos.

Então um tatu, que tinha ido beber água no rio, quis caçoar dos flamingos e lhes disse com grande reverência:

— Boa noite, senhores flamingos! Eu sei o que vocês estão buscando. Não vão encontrar meias assim em nenhum magazine. Talvez as encontre em Buenos Aires, porém terão que pedi-las por intermédio dos correios. Minha cunhada, a coruja, tem meias assim, vermelhas, brancas e pretas.

Os flamingos lhe agradeceram e foram voando à toca da coruja:

— Boa noite, coruja! Viemos aqui pedir-te meias vermelhas, brancas e pretas. Hoje será o grande baile das cobras, e se nós pusermos essas meias, as cobras coral vão ficar loucas por nós.

— Com muito prazer! — respondeu a coruja. Aguardem um segundo, e já volto.

E voando, deixou sozinhos os flamingos, e daí a pouco retornou com as meias. Porém não eram meias, mas couros de cobras coral, belíssimos couros que a coruja havia recentemente caçado.

— Aqui estão as meias — disse-lhes a coruja. Não se preocupem com nada, senão com uma coisa apenas: dancem a noite toda, dancem sem nunca parar, dance de costa, de bico, de cabeça, como bem quiserem, porém, jamais parem de dançar, do contrário, em vez de dançar, chorarão.

Mas os flamingos, que não são bons da cabeça, não compreenderam bem o risco que corriam com isso, e tomados de alegria calçaram os couros de cobras coral como meias, enfiando as patas ali dentro como se fossem tubos. E bastante satisfeitos foram voando ao baile.

Quando viram os flamingos com suas bonitas meias, todos ficaram morrendo de inveja. As cobras queriam dançar somente com eles, e como os flamingos não pararam um só momento de movimentar as patas, as cobras não conseguiam ver bem de que eram confeccionadas aquelas preciosas meias.

Pouco a pouco, contudo, as cobras começaram a desconfiar. Quando os flamingos passavam dançando ao lado delas, agachavam-se até o chão para poder ver melhor.
     
As cobras coral, sobretudo, estavam muito inquietas. Não tiravam os olhos das meias, e se agachavam também, tentando tocar com a língua as patas dos flamingos, porque as línguas das cobras são semelhantes às mãos dos humanos. Porém os flamingos dançavam e dançavam sem nunca parar, não obstante estivessem cansadíssimos a ponto de não poder mais.

As cobras coral, cientes disso, pediram logo às rãs os seus faroizinhos, que eram vaga-lumes, e esperaram todas juntas que os flamingos sucumbissem de cansados.

Efetivamente, um minuto depois, um flamingo, que já não podia mais, tropeçou num jacaré, cambaleou e tombou de costas. Mais que depressa, as cobras coral correram com seus faroizinhos e alumiaram bem as patas do flamingo. E vendo de que eram feitas aquelas meias, lançaram um silvo tão alto que se ouviu até na outra banda do Paraná.

— Não são meias! — gritaram as cobras. — Agora sabemos o que são. Enganaram-nos. Os flamingos mataram as nossas irmãs e calçaram seus couros como meias! As meias que trazem são de cobras coral.

Ao ouvir isto, os flamingos, tomados de pavor, por terem sido descobertos, tentaram voar; no entanto, estavam tão exaustos que não puderam erguer uma só pata. Então as cobras coral precipitaram-se sobre eles e, enroscando-se em suas pernas, desfizeram as meias com dentadas. Arrancaram-lhes as meias aos pedaços, enfurecidas, e mordiam ao mesmo tempo as patas, para que eles morressem.

Os flamingos, loucos de dor, saltavam de um lado para o outro, sem que as cobras coral se desenrolassem de suas patas. Por fim, vendo que não restava um só pedaço de meias, as cobras os deixaram livres, cansados e ajeitando as serpentinas dos seus trajes de baile.

Afinal, as cobras coral estavam convictas de que os flamingos iriam morrer, porque pelo menos a metade que os picaram eram venenosas.

Mas os flamingos não morreram. Correram para o rio, lançando-se na água, pois que sentiam uma agudíssima dor, e suas patas, que eram brancas, estavam agora vermelhas por causa do veneno das cobras. Passaram dias e dias, e sempre sentiam terrível ardor nas patas, e as tinham sempre da cor de sangue, porque haviam sido envenenadas.

***

Isso se deu a muitíssimo tempo. E ainda hoje os flamingos ficam quase o dia inteiro com suas patas vermelhas metidas na água, tratando de acalmar o ardor que sentem nelas.

Às vezes se afastam da margem e vão até a terra para ver como estão. Mas as dores do veneno retornam no mesmo instante, e correm a meter-se na água. Há momentos em que a dor é tão grande, que encolhem uma pata e ficam parados horas inteiras, uma vez que não podem estirá-las.

Esta é a história dos flamingos, que outrora tinham as patas brancas e hoje as têm vermelhas. Todos os peixes conhecem os motivos, e riem deles. Mas os flamingos, enquanto se tratam na água, não perdem ocasião para vingar-se, comendo o maior número de peixinhos que se aproxima para zombar deles.

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