domingo, 15 de março de 2020

À deriva (Conto), de Horacio Quiroga




À deriva

Tradução: Iba Mendes (2020)


O homem pisou em algo meio mole, e logo sentiu uma picada no pé. Pulou para frente e, ao voltar-se com uma maldição, viu uma jararacuçu que, enrolada sobre si mesma, aguardava outro ataque.

O homem lançou uma rápida olhadela a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue adensavam com dificuldade, e puxou o facão da cintura. A cobra percebeu a ameaça e afundou ainda mais a cabeça no centro de seu próprio espiral; porém o facão caiu de cheio, deslocando-lhe as vértebras.

O homem agachou-se para olhar o ferimento, limpou as gotículas de sangue, observando-a por alguns instantes. Uma dor aguda brotava das duas manchinhas arroxeadas e começava a invadir todo o pé. Apressadamente cingiu o tornozelo com um lenço e seguiu por um atalho até o seu rancho.

A dor no pé aumentava progressivamente, e logo o homem sentiu duas ou três pontadas que, como relâmpagos, irradiavam-se desde o ferimento até a batata da perna. Movia a perna com dificuldade. Uma sequidão metálica na garganta, seguida de uma sede lancinante, arrancou-lhe uma nova maldição.

Chegou por fim ao rancho e deixou cair os braços sobre a roda de uma moenda. As manchinhas arroxeadas ocultavam-se na monstruosa inchação do pé inteiro. A pele tornou-se adiposa e de tal modo que parecia romper-se, de tão tensa que estava. Quis chamar a mulher, mas a voz se lhe embargou num arrastado ronco de garganta ressequida. A sede o devorava.

— Doroteia! — conseguiu soltar um grito de agonia. — Dê-me cachaça!

Sua mulher correu com um copo cheio, que o homem bebeu em três tragos. Mas não sentiu gosto algum.

— Pedi cachaça, e não água! — rugiu novamente. — Dê-me cachaça!

— Mas é cachaça, Paulino! — protestou a mulher, assustada.

— Não, você me deu água! Já disse que quero cachaça!

A mulher correu outra vez, retornando com o garrafão. O homem engoliu dois copos, um atrás do outro, mas não sentiu coisa alguma na garganta.

— Bem, a coisa está ficando feia... — sussurrou então observando o pé arroxeado e já com brilho de gangrena. Sob a rígida atadura do lenço, a carne expandia-se como um monstruoso pedaço de tripa.

As dores pungentes sucediam-se num contínuo relampejar, e chegavam até a virilha. Demais, a excruciante sequidão da garganta, que se aquecia ainda mais com o movimentar da respiração, também aumentava. Ao tentar se erguer, um vômito fulminante o manteve meio minuto com a testa encostada na roda da moenda.

Porém o homem não queria morrer, e descendo até à margem do rio, entrou na sua canoa. Acomodou-se na popa e principiou a remar até o meio do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.

O homem, numa determinação sombria, pôde de fato chegar até o meio do rio; porém suas mãos dormentes deixaram cair ali o remo da canoa, e após um novo vômito — agora com sangue —  dirigiu um olhar ao Sol, que a esta altura já transpunha o monte.

A perna inteira, até a metade da coxa, era já uma porção disforme e duríssima, que fazia rebentar a roupa. O homem cortou a atadura e rasgou a calça com a faca. O baixo ventre transbordou inchado, terrivelmente dolorido e com manchas lívidas enormes. O homem ponderou que jamais poderia chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e achou por bem pedir ajudar a seu compadre Alvez, apesar de estarem brigados havia algum tempo.

A correnteza do rio precipitava-se agora até a costa brasileira, e o homem pôde atracar com facilidade. Arrastou-se pela vereda, ribanceira acima, mas depois de vinte metros desabou exausto, ficando estendido de bruços.

— Alvez! — vociferou com toda a força que pôde. E aguçou o ouvido em vão.

— Compadre Alvez! Não me negue este favor! — gritou mais uma vez, erguendo a cabeça do chão.

No silêncio da selva não se ouviu um único rumor. O homem ainda teve força para chegar até sua canoa, mas a correnteza, apanhando-a de novo, conduziu-a velozmente à deriva.

O Paraná corre ali num imenso fosso, cujas paredes com cem metros de altura, estreitam funebremente o rio. Desde as margens, alinhadas de negros blocos de basalto, desponta o bosque, também negro. À frente, dos lados, atrás, a eterna muralha lúgubre, em cujo fundo o rio rodopiante se precipita em contínuos borbotões de água lodacenta. A paisagem é agressiva, e nela impera um silêncio de morte. Ao entardecer, contudo, sua beleza sombria e tranquila adquire uma majestade única.

O Sol ia caindo quando o homem, encolhendo-se no fundo da canoa, sentiu um violento calafrio, e logo em seguida, assombrado, aprumou pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. A perna lhe doía apenas um pouco, a sede mitigava, e o peito, agora livre, abria-se em lenta inspiração.

O veneno começa a evadir-se, não tinha dúvida. Sentia-se quase bem, e apesar de não ter forças para mover a mão, confiava na queda do orvalho para recompor-se. Calculou que antes de três horas decorridas estaria em Tacurú-Pucú.

O bem-estar aumentava, e com ele uma sonolência repleta de recordações. Já não sentia nada na perna, nem no ventre. Será que seu compadre Gaona ainda vivia em Tacurú-Pucú? Talvez encontrasse também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado da oficina.

Chegaria logo? O céu, no poente, abria-se num leque de ouro, e o rio também se havia colorido. Da costa paraguaia, já sombreada de treva, o monte deixava cair sobre o rio seu frescor crepuscular, em penetrantes fragrância de flores de laranjeiras e mel silvestre. Um casal de araras cruzou bem alto e em silêncio até o Paraguai.

Lá embaixo, por sobre o rio dourado, a canoa derivava velozmente, girando de quando em quando sobre si mesma, ante o borbulhar de um remoinho. O homem que seguia nela sentia-se cada vez melhor, e punha-se a pensar no tempo exato em que não vira seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez não, nem tanto. Dois anos e nove meses? Bem provável. Oito meses e meio? Sim, exatamente isso.

Quanto ao recebedor de madeiras de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, conhecera-o em Puerto Esperanza, numa Sexta-feira Santa... Sexta-feira? Sim, ou quinta...

O homem esticou lentamente os dedos da mão.

— Numa quinta-feira...

E parou de respirar...

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