domingo, 1 de março de 2020

Fatos pitorescos sobre Camilo Castelo Branco (Resenha)



Fatos pitorescos sobre Camilo Castelo Branco
“Formidável corda de risos, formidável corda de lágrimas”, como lhe chamou Silva Pinto, Camilo Castelo Branco ofereceu à literatura portuguesa páginas imorredouras.
Se a cegueira o não conduz ao desespero da morte, Camilo teria talvez duplicado a sua obra. Vida aventurosa, amoroso irrequieto, espírito irreverente, raro da sua boca saía um elogio.
Uma tarde, em São Miguel de Seide, o glorioso autor do Amor de Perdição vergastava tudo e todos. Um amigo disse-lhe: “Sempre me refugio em Vítor Hugo, para ver se você também diz mal dele”.
E logo Camilo: “Esse velho não era nada tolo!”.
Um filho começou dando indícios de loucura. E o implacável ironista explicava: “Coitado! Era um rapaz inteligente. Ficou assim desde que leu as obras do Teófilo Braga...”
Camilo, no alvor da sua brilhante carreira literária, era brigão. Detestava os pusilânimes. De um camarada com quem cortara relações, disse um dia:
“É um homem tão cobarde que a gente cospe-lhe no rosto, limpa-lhe depois a cara com o bico da bota e ele ainda nos diz: Muito obrigado!”
***
As suas irreverências ficaram célebres. Um pintor, no Porto, convidou-o a ir a uma exposição. O pintor tinha mais jactância que talento. E apontando um retrato a óleo, explicou a Camilo: “Agora só me dedico a retratos. Veja o mestre, este. Que lhe parece?”.
Resposta de Camilo: “Na verdade, está parecidíssimo. Quem é?”.
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As suas permanentes dificuldades de dinheiro levaram o desventurado romancista a lutas constantes com os editores. Propõe escrever um livro acerca de Lisboa antes do terremoto de 1755, mas como o livro não mete brasileiros nem amor, os editores dão-lhe apenas 150 mil réis.
***
Na obra de Camilo, diz Junqueiro, não há uma árvore. Mas é um perdulário de talento. O seu feitio azedo era certamente filho da desgraça que raro o abandonava.
***
Um dia, ao tomar a diligência na Praça da Batalha, para ir visitar um amigo que morava nos subúrbios do Porto, cumprimentou delicadamente duas damas. Uma delas disse para a outra:
— Olha Maria Isabel, este ó que é o Camilo que escreve livros.
— Por sinal uma boa peste — comentou a outra. — Uma peste enjoativa!
Camilo ouviu, mas disfarçou. Daí a momentos encarou com a dama que o alcunhou de peste, dizendo com a maior desfaçatez:
— Oh! Maria Isabel, desculpa. Há bocado não te reconheci.
A interpelada, de semblante carregado, protestou:
— Vossa senhoria está enganado. Chamo-me na verdade Maria Isabel, mas não o conheço!
E o diálogo continuou assim:
— Ah! minha ingrata! Não te lembras do teu antigo namorado? O teu Camilo como tu me chamavas na intimidade?
— O meu Camilo? — exclamou a dama, furiosa.
— Depressa te esqueceste dos nossos amores, quando eras cozinheira da estalagem do Manuel Domingos...
— Cozinheira eu? O seu insolente, seu grande malcriado!
— Que belos petiscos tu me fazias! E quando a tua patroa nos apanhou a darmos as nossas beijocas?
— Sr. Camilo Castelo Branco! — acabou por dizer a senhora, colérica.
— Ah! Já me conheces?!
A companheira fez ver à dama ofendida que ele certamente ouvira tratá-lo por peste e vingou-se cruelmente. Já na carruagem, ainda Camilo lhe disse, com uma gargalhada:
— Adeus, Maria Isabel. Dá beijinhos ao nosso petiz...
***
Próximo de um café frequentado por Camilo, vivia uma senhora brasileira de nome Iracema. Trocista, alcunhou o escritor de Flautinhas e de Pernoita, devido à circunstância de ter as pernas altas e magras. O romancista sabia do caso, ria-se e não ligava importância.
Mas a senhora, solteirona, quando soube de quem se tratava, abandonou as alcunhas e começou a lançar-lhe olhares doces. Os amigos, sabedores da reviravolta da formosa Iracema, felicitaram o herói. Ele, risonho, elucidou:
— Vou escrever à apreciadora do meu admirável focinho bexigoso...
E mandou-lhe por um moço, duas quadras. A primeira era assim:
Diz-me, oh! jovem caipira,
Gostas muito do Flautinhas?
Minha linda, minha Iracêmea
 boa p'rás galinhas...
A segunda quadra é impublicável. E assinou. “Teu Camilo, o Flautinhas”.
Daí a uma hora, apareceu no café um rapazito magro, a tremer muito, e perguntou quem era o malcriado de um tal Camilo que lhe queria partir a cara.
Camilo levantou-se logo e quando o brasileirinho, irmão da ofendida, ia dar-lhe um soco, ele travou-lhe o braço, dizendo sorridente:
— Espere meu amigo. O senhor é fraquíssimo, com poucas carnes, etéreo, quase gasoso. Se eu lhe desse um tabefe, ia parar à Foz.
E contou-lhe as troças da mana.
O rapazito concordou, dizendo:
— Não deixa vossa senhoria de ter razão, mas aqueles versos são muito fortes, Sr. Camilo.
O escritor sorriu, abraçou-o e pregou no corpo do mano da Iracêmea uma formidável bebedeira de vinho do Porto.
Por fim, o escritor pegou no rapazinho e foi levá-lo a casa, dizendo à brasileirinha que estava à janela:
— O seu mano, apesar de não se lamber com a bebedeira em honra da nossa amizade ainda terá forças para dar a Vossa Senhoria, um beijo de reconciliação em meu nome.
A senhorinha bateu-lhe com a janela na cara e assim terminou a picaresca aventura.
***
Em 1861, Camilo e Vieira de Castro moravam na Rua de São Julião, onde recebiam raras visitas. Uma noite, Camilo deu ali uma ceia memorável que se prolongou até altas horas. Quando o criado o avisou que despontava a aurora, o romancista irritou-se:
— O dia nasce para o merceeiro e para o alfaiate ali defronte. Para nós, não. Fecha as portas das janelas e deixa as luzes acesas!
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LOURENÇO RODRIGUES
Anedotas e episódios da vida de pessoas célebres.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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