terça-feira, 26 de maio de 2020

Camilo, a sua vida e a sua obra (Resenha)



Camilo, a sua vida e a sua obra
A meu ver, um dos aspectos mais curiosos e mais impressionantes da obra de Camilo é o que essa obra tem de comum com a vida do grande romancista. Dir-se-ia que em cada página palpita o seu coração, estremece a sua alma. A obra de Camilo, antes mesmo de ser o documento admirável duma época, é a síntese flagrante da fisionomia moral que caracterizou o seu autor. Para adivinhar, para surpreender bem o que há de confuso, de contraditório, de humano em todas as suas páginas — bastará recordar a vida tumultuosa do autor de A Brasileira de Prazins e do Amor de Perdição. Em cada um dos seus livros há o farrapo glorioso duma reminiscência pessoal, ora alegre ora triste, ora sombria ora irônica, mas sempre viva e sempre penetrante. Poder-se-ia dizer que a vida de Camilo foi o mais sentido de todos os seus romances e, se Camilo não nos quis contar a todos a sua vida (que obra admirável de dor e de sarcasmo!) deixou-nos nas páginas dos seus livros os elementos para a reconstituirmos, quase traço a traço, com as suas tristezas, com os seus desalentos, com as suas paixões. A maioria dos seus personagens são auto-biografias. A maioria dos casos contados nos seus romances tiveram o grande escritor por intérprete e por ator. Em cada página da sua obra há um "momento" da sua vida. E ainda agora, ao escrever estas linhas, eu penso que se Camilo não tem sido o "desgraçado" que sempre foi em toda a sua vida — só Deus sabe se nós teríamos motivos para agradecer-lhe, hoje, as lágrimas que ele nos tem feito chorar...
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LUÍS DE OLIVEIRA GUIMARÃES
16 de março de 1925.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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