sábado, 30 de maio de 2020

Conhecimentos úteis (Conto), de Camilo Castelo Branco


CONHECIMENTOS ÚTEIS
LÃS E ALGODÕES
A LÃ
No princípio, Adão e Eva amanheceram nus, e estavam contentes, ao que parecia, com a singeleza do seu trajar. Não está sobejamente averiguado se Adão e Eva anoiteceram contentes, no primeiro dia da humanidade. O certo e sabido é que se vestiram de folhagem de figueira, logo que a serpente os embaiu a comerem do fruto proibido. Devemos disso inferir que o pudor foi consequência do pecado; e que, a não existir o pecado, esta bonita coisa, que se chama pudor, faltaria à beleza da mulher; e os poetas, e romancistas, e moralistas desconheceriam um manancial de graciosos discursos, sermões, e madrigais, que correm impressos acerca do pudor. Ainda assim, melhor fora que Eva não desse trela à serpente, e que a virtude ingênita da inocência nos deixasse andar, sem vergonhas do mundo, quais saímos das mãos do Criador.
Ao crime da desobediência, seguiu-se o do homicídio, praticado por Caim. O homem, que matou o homem, não sentiu repugnância em matar os bichos, e particularmente os carneiros. Com a morte violenta dos carneiros, veio a reforma no vestido. Começaram os homens a vestir-se com as peles das suas vítimas, e não foi sem razão, atendendo que, no Outono, se despegavam secas as folhas das árvores e o pudor ficava em transes até à Primavera.
Passou o carneiro a ser civilizado na companhia do homem, e o homem reconheceu a conveniência de tosquiar o carneiro anualmente, em vez de o matar. Os animais de lã branca eram os preferidos. Consta da Bíblia que Labão deu a Jacó, para apascentá-lo, o rebanho dos lanígeros apintalados, e a seus filhos encarregou o pastorearem o rebanho de felpo negro, que dispensa tinturaria, e o rebanho de felpo branco estreme.
Não se sabe quem inventou a fiação. Dizem os historiadores que Penélope e Lucrécia fiavam; mas a primeira no que primou foi na tecelagem. Na Grécia a fiação chegou a subido aperfeiçoamento.
Os carneiros tiveram grande consideração em Roma. Os censores legislaram prêmios aos cultores da lã e coimas onerosas aos proprietários descuidados do melhoramento dos carneiros, cujas raças se apuravam em Tarento. Os carneiros, chamados merinos, originários de Espanha, eram os mais preciosos. A antiguidade não conheceu outro estofo, e com ele fabricavam as túnicas recamadas de enfeites.
Deve-se ao cuidado dos Mouros, dominadores da Península, a raça mais avantajada de todas, a do carneiro merino. Os primeiros que apareceram em França foram de Espanha em 1757; e em 1775 pôde obtê-los a Áustria. A Espanha, em melhores tempos, até com os seus carneiros mandava a civilização aos centros dela.
A Inglaterra tem lá consigo este provérbio: “O carneiro é o termômetro da prosperidade de um povo.” Ora vejam onde está a prosperidade! E nós, os Portugueses, temos muito mais barões que carneiros! E, depois que temos rebanhos de barões, pedimos frades; e de carneiros apenas se lembram alguma vez os legisladores para lançarem contribuições aos lavradores que os têm; os quais lavradores, para não pagarem o imposto, comem os carneiros. E como, a passo igual, minguam os carneiros e crescem os barões, pode afoitamente, e sem receio de paradoxo, dizer-se que o barão mata o carneiro, assim como isto mata aquilo, no dizer do mestre Victor Hugo.
Vejamos como a Inglaterra se constituiu rainha do Universo, que conquistou com o carneiro.
Diz David Law: “Quando, em 1778, uma leva de condenados ingleses foi  transportada a Botany Bay para coadjuvar os colonos de lã e estabelecer rebanhos permanentes, passaram para ali de Bengala carneiros de raça pequena, de pelo hirto, como eles são naquela parte da Índia. Notou-se logo que estes anãzados animais se melhoravam a olhos vistos com a mudança do clima e pasto. A lã desbastou-se, passando a ser brando felpo, conquanto não fosse mais fino. Doze anos depois desta auspiciosa experiência, a colônia tinha seis mil carneiros, os quais, prolificando com os de Espanha, vieram a dar lã quase igual à dos merinos”.
Este exemplo, com outros análogos, explica a prosperidade da Inglaterra, e tudo vem argumentando a favor do carneiro como termômetro para avaliar a riqueza de uma nação.
É muito para louvar a Deus a suscetibilidade de aperfeiçoarem-se, que ele deu a alguns animais destituídos de razão, como parece que é o carneiro, segundo a opinião dos naturalistas. Com a espécie humana foi mais esquiva a liberalidade do Criador.
Entre nós, e nestes últimos trinta anos, vão-se as raças mesclando e procriando; mas a progênie, no máximo das vezes, sai ou mais mazorra que os progenitores, ou mais defecada e entanguida. O carneiro lãzudo de Botany Bay melhorou; o lãzudo racional transmite à prole o canhestro da sua figura e do seu espírito; tudo, pelos modos, feito à semelhança de Deus. O carneiro, pois, é muito mais progressista do que o homem; e é-o porque não cria teoria de progressos, e se deixa ir impassivelmente à vontade da Providência, que o fez carneiro; e não é como o homem, que ousa sujeitar aos moldes de suas fantasias o destino da humanidade, delineado na mente do Criador.
Tornando à parte suculenta e erudita deste artigo, darei notícias acerca do algodão, as quais andei escavando no pó das bibliotecas, para afinal de tudo me sair com um artigo, que me há de carear o desamorável epíteto de erudito, que em linguagem de damas literatas e peraltas, formados em Alexandre Dumas, é sinônimo de maçador.
Heródoto... Heródoto! Que nome! Só o escrevê-lo é uma ejaculação de sabedoria! É este um nome que dá de quem o escreve a severa imagem de um doutor em cânones, com barrete de troçal, e a pitada do meio-grosso engatilhada ao nariz.
Heródoto, que floresceu 445 anos antes da vinda de Cristo, diz que há na Índia umas árvores silvestres, que frutificam uma lã mais bela e fina que a das reses, da qual os indígenas se vestem.
Virgílio, n’As Geórgicas, também menciona a árvore do algodão. Estrabo viu telas de algodão, matizadas de flores pintadas. Plínio, Teofrasto, Arriano, e outros excruciantes cáusticos da paciência humana, dizem todos que há árvores que produzem algodão, coisa que eu não contesto. A propósito do algodão, vou dar-lhes um romance, intitulado...
***
O ALGODÃO
Era no baile natalício do barão de***. Festejava ele os anos de sua formosa filha Etelvina, que se morria de amores de um jovem que tinha diferentes gravatas, várias bengalinhas, e um pé muito pequeno, cujo calcanhar assentava num supedâneo, quatro dedos acima do botão da bota. Chamava-se Porfírio, e era cético e rico.
Etelvina queria-lhe da alma, e escrevia-lhe pela posta interna cartas, que eram modelo, afora a ortografia. E ele, o cético, para dizer que o era, escrevia “cinto que estou cético”. Corriam parelhas em ortografia, e como parelha que eram, escouceavam a prosódia.
Estavam, pois, no baile.
Porfírio entrara, e, feitos os cumprimentos, foi fumar. Voltou à sala, e disse a Etelvina, com fátuo sorriso de quem desfruta o próximo:
— Está hoje muito bonita; o seu seio é de jaspe.
E, quando isto dizia, ouviu uma voz de um grupo, que o escutava, acrescentar:
— E de algodão.
Porfírio encarou no homem que tal dissera; mediu-o de alto a baixo, e murmurou:
— Retire a palavra.
— O algodão?
— Sim, o algodão.
— Não retiro, cavalheiro, porque eu sou o proprietário do peito daquela fada.
— Mente! — replicou Porfírio.
— Pois bem: as nossas espadas abrirão bocas mais verdadeiras.

***

No dia seguinte, quatro padrinhos acordaram que os bravos se  degolassem no campo da honra, e depois se dessem mútuas explicações  acerca do algodão. Porfírio arremeteu furioso contra o adversário, e  estragou-lhe o punho da manga direita da camisa. O proprietário soi-disant do peito de Etelvina cortou uma orelha da gravata azul-celeste de  Porfírio.
Os padrinhos lavraram e assinaram a seguinte ata do duelo:
“Considerando que os cavalheiros Porfírio de tal e Felisberto de tal se houveram corajosamente no pleito de suas honras;
Considerando que o motivo da sua discórdia assentava numa alusão a uma dama, que, no entender de um, tinha peito de jaspe, e, no do outro, de algodão;
Considerando que o cavalheiro Felisberto ofendera o cavalheiro Porfírio, denominando-se proprietário do peito da dama;
Considerando que efetivamente, depois do duelo e mútuo desagravo, o senhor Felisberto tirou do fundo de um chapéu umas pastas convexas de algodão que disse serem sua propriedade, havida por consentimento da dama, que ele amara com acrisolada ternura;
Considerando mais que a honra do peito de uma senhora não pode estar à mercê de um equívoco;
Os dois cavalheiros, ouvidos os padrinhos, retiraram as expressões com que suas dignidades estavam feridas, e resolveram mandar à dama o algodão sobreposto a uma empada de pombos em forma de coração.”
Segue as assinaturas dos padrinhos.
***

ETELVINA COMEU O PASTEL (CONCLUSÃO)


Porfírio, passando ao escurecer debaixo das janelas de Etelvina, recebeu uma baldada de água pela cabeça, e ficou constipado, oito dias de cama.

Quando se levantou, viu nos jornais a notícia do casamento de Felisberto com Etelvina. Tirou uma cópia da ata do duelo, e mandou-a ao noivo.

O noivo, nas costas do traslado, que devolveu pelo mesmo portador, escreveu o seguinte:


“Não seja tolo.”

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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