Pobres crianças!
Amavam-se,
sonhavam-se, e perdiam-se em êxtases de felicidade pelo futuro além!
Tinha quinze
anos ela e ele vinte. Ambos riquíssimos dos tesouros daquela idade, ouro de
fantasia, diamantes de esperança, um mundo que não cabia neste, e, além de
tudo, um céu de amor, que não tem que ver com o céu dos mártires, dos apóstolos
e dos confessores!
Pobres
crianças!
Helena era
filha de um professor de Línguas. Guilherme era o melhor discípulo do
professor.
A situação do
mestre, em todas as nove Línguas, que ele sabia, chamava-se “pobreza”. Ora o
discípulo destinava-se a imitar o mestre na profissão e na ventura.
O pai de Guilherme
era um algibebe, falido, de Lisboa, que se fizera guarda-portão de um visconde,
que fora com ele caixeiro em casa do mesmo patrão.
A Helenazita,
quando tinha dez anos, emendava os erros em francês, de Guilherme; aos doze,
emendava-lhos em inglês; e aos quinze, dizia ao condiscípulo que o amava, em
todas as Línguas.
O velho
professor não dava por isto. Andava lá absorvido em acrescentar cento e trinta
mil vocábulos ao velho Calepino, e nem sequer levantava mão do ímprobo trabalho
para cismar se a sua obra de vinte anos acharia um editor em Portugal. De si
para si tinha ele que a Academia Real das Ciências, avaliadora nata dos feitos
imortais do espírito humano, lhe tomaria à sua custa a estampa dos cento e
trinta mil vocábulos. Feito isto, o poliglota, farto de trabalho, gozaria a
doirada mediocridade em gloriosa velhice.
E, no entanto,
iam-se amando as pobres crianças.
***
O professor
educara o filho único da viúva condessa de Prazins até aos dezessete anos. Nesta
idade, morreu o discípulo, e a mãe ficou sempre chorando o filho, e
bem-querendo ao mestre.
Helena
costumava ir passar o Estio a Sintra, e o Outono a Pedrouços, em companhia da
condessa, que andava nos seus trinta e sete anos. A fidalga, conquanto saudosa
e desconsolada, desadorava a convivência do capelão, e da parentela pesada de
anos, de espírito, e brasões. A conversar com a viçosa e ilustrada Helena
corriam-lhe as melhores horas dos seus raros contentamentos. Animada pela
familiaridade, a filha do helenista contou à condessa o segredo dos seus
amores. A excelente senhora folgava de ver aquela flor abrindo a medo a urna dos
seus perfumes. Excitava-a a referir as coisas, muitas vezes contadas, as quais
se resumiam em inocentes colóquios da menina com o pálido Guilherme, simpático
à condessa, por ser da estatura e idade de seu filho.
— Que fins são
os vossos? — dizia a fidalga. — Não podem ser mais honestos do que são, creio
eu. Mas Helena é pobre, e o seu Guilherme também.
Helena, pela
primeira vez, pensou na pobreza, e custou-lhe a dar com a relação de uma coisa
com a outra.
— Que tem que
eu seja pobre?! — disse ela, com sincera e receosa curiosidade.
Tem, que seu
pai não há de querer que a menina case com um moço sem emprego, nem meios para
a sustentar. Diga ao Guilherme que cuide em ter posição, e depois será seu marido.
Eu me empenharei a ver se consigo que o empreguem.
Helena, de
assombrada que ficou pelo raio de luz nova, nem se lembrou de beijar as mãos à
benévola senhora.
Tomou conta do
recado; e, assim que teve ocasião, disse a Guilherme o que passara com a condessa.
Guilherme
respondeu lhanamente:
— Eu já pensei
nisso, Helena: cuido que teu pai, se eu lhe pedir que me deixe cá ficar a
ajudá-lo nas lições, me aceitará.
— Pois então,
pergunta-lho, Guilherme, para ficarmos descansados.
Quando chegou
a hora da pergunta, o moço titubeou, e faleceu de ânimo para o ato, que ele,
dois dias antes, julgara tão simples. É que desvelara uma noite, cismando nas
vantagens de ser rico, e nos tropeços materiais que empeciam o coração. Ocorreram-lhe
à memória nessa noite muitos versos latinos dos seus livros, acerca da
inconveniência de ser pobre, versos que ele decorara sem lhes entender o
conceito aplicável às situações da vida.
***
— Que te disse
o pai? — perguntou a ansiosa Helena.
— Faltou-me
o ânimo e a fala. Já por três vezes lhe disse que desejava ser seu filho, e
fiquei nisto, à espera que ele me pedisse a explicação do meu embaraço. Teu pai
sorriu-se; e, à terceira vez, disse-me: “Querias ser meu filho para me herdar o
meu Horácio de 1629 e o meu Tucídides de 1731? És tolo, Guilherme! Melhor te
fora ser filho daquele forçureiro, que ali mora defronte, que já tem um filho
cônego, e prepara o outro para os conselhos da coroa! Tu não sabes ainda o que
é ser pobre!...” Estas palavras acabaram de me desanimar. Parece-me que encerram
a resposta de teu pai, se ele adivinhou o meu pensamento...
Helena viu
embaciarem-se os olhos de Guilherme, e disse-lhe amoravelmente:
— Não
desanimes, que eu lhe falarei. Tem esperança, meu amigo. Eu vou ver se o pai já
saiu da escrivaninha.
— Aqui estou,
Helena — disse o professor entrando.
A filha e o
discípulo empalideceram.
— Diz aí o que
ias dizer-me, filha — tornou brandamente o helenista.
A face da
menina passou do branco ao escarlate. Balbuciou alguns monossílabos, que o pai
parecia escutar atento, com ar de quem se interessa muito na revelação de um
segredo; mas Helena era ininteligível, ou de mais a entendia o velho.
— Se não
falas, falarei por ti — disse ele. — Foste criada com Guilherme, estás afeita
com ele, és sua amiga como irmã, e desejas ser sua esposa. Escolheste bem,
filha; Guilherme é um rapaz inteligente, estudioso, e sisudo. Escolheste mal,
filha: Guilherme é um rapaz pobre, sem ofício, e sem velhacaria para suprir a
falta do ofício. Não te deixo casar, porque um pai não consente que sua filha
seja desgraçada. Guilherme tem boas qualidades provadas; mas falta-lhe dar a
prova do essencial; falta-lhe provar que é honrado. Um homem honrado não
sacrifica aos desejos do coração o bem-estar de uma menina. Guilherme, antes de
me pedir noiva, devia colocar-se de modo que eu não tivesse de perguntar-lhe se
ele tem com que sustentar minha filha e os meus netos. Num moço honrado, o
coração, antes de impor prazeres, impõe deveres. Tenho respondido. O meu
discípulo sabe o que lhe convém fazer, se quer continuar a merecer a minha
estima paternal.
***
Foi a chorosa
Helena desafogar nos braços da condessa de Prazins. A condoída senhora começou
desde aquela hora a escrever cartas a todos os seus amigos, pedindo uma
colocação para Guilherme da Costa. Respondiam alguns, perguntando-lhe que
habilitações tinha o pretendente.
Informava a
fidalga que o seu afilhado sabia as Línguas grega, latina, alemã, inglesa,
francesa, e outras ciências dos estudos secundários.
Ao cabo de
dois meses de solicitações, descobriu-se que a república não tinha algum lugar
em que pudessem ser exercitadas as habilitações de Guilherme da Costa. Estavam
todos os cargos públicos preenchidos por sujeitos idôneos que não tinham alguma
daquelas habilitações.
Resolveu a
condessa ir pessoalmente falar com o diretor da alfândega de Lisboa, cavalheiro
muito atencioso, que ofereceu ao moço tão auspiciosamente apadrinhado um lugar
de guarda-supra, com trezentos e sessenta réis diários. O pretendente
informou-se do exercício do seu cargo, e soube que tinha de ajudar a carregar e
descarregar os fardos nos armazéns da alfândega. Consultou suas débeis forças,
e resignou, nas mãos da condessa, a nomeação, já de si muito pesado fardo de
ignomínia.
Helena
chorava, a fidalga raivava contra os seus conhecidos, e Guilherme caía de cama
com febre, e com sincero desejo de morrer.
No entretanto,
o professor, concluída a reforma do Calepino, andava por portas dos sócios da Academia
Real das Ciências, solicitando a publicação do seu trabalho. Respondiam-lhe que
o privilégio das publicações por conta da Academia era regalia dos escritores
já acadêmicos efetivos. Um destes, movido por sentimentos de humanidade, propôs
sócio o abalizado poliglota, professor. Rejeitou-o a pluralidade dos votos,
posto que, na mesma sessão, fora admitido um poeta, que tinha escrito duas
poesias a um anjo, quatro à brisa da tarde, e uma ode natalícia, parecida com
um ditirambo, à esposa do sócio proponente.
O professor
adoeceu também de febres, e desejava também sinceramente morrer na labareda dos
seus manuscritos.
Guilherme
convalesceu, e foi velar a doença do pai de Helena. A todos acudia a condessa
com bastantes recursos, posto que os houvesse de cercear às suas despesas. A
viúva pleiteava com seus cunhados os bens herdados, com grande risco de os
perder. A sociedade assim o pensava, e assim cabalmente se explica o
malograrem-se-lhe as diligências no alcance de uma posição para Guilherme. O
certo é que a condessa vivia sem fausto, e sem mais amigas que as menos ricas
que ela, e sem mais amigos que os resignados a adorarem-na silenciosos e
respeitadores. Eram pouquíssimos.
Recobrado o
velho da fulminante doença, Guilherme falou assim na presença de Helena e do
mestre:
— Vou procurar
a minha vida noutra parte. Dizem-me que eu alcançarei uma posição lucrativa num
colégio, no Rio de Janeiro, e que poderei, com alguns anos de trabalho, ser proprietário
de um estabelecimento de educação. O meu pensamento é chamar ao Brasil o meu
querido mestre, logo que a sua ida seja bem prosperada. Essa será a melhor
vingança que pode tirar da pátria, mãe sem entranhas, sem regaço onde um ancião
possa encostar a face, e morrer, depois de quarenta anos de professorado.
— Vai, meu
filho — disse o velho soluçante -, vai, e chama-me, que eu te levarei a esposa.
Helena queria
chorar. O pai, limpando as suas lágrimas, exclamou:
— Nem uma
lágrima, filha! se não é chorar de alegria o teu... de alegria, sim, porque,
bendito seja o Altíssimo! Eis aqui três infelizes honrados! Três, é muito, meu Deus!
***
Dias
depois, Guilherme devia sair para o Brasil, num barco de vela. O amo de seu pai
deu-lhe metade da passagem, e a condessa a outra metade, e o professor vendeu o
seu Tucídides de 1731, e o seu Horácio de 1629 para comprar roupa branca ao
aventureiro. O moço, quando soube a venda das preciosas edições, quis
resgatá-las. Resgatá-las... com quê? Ofereceu o seu sangue. De que servia o
sangue de Guilherme ao comprador dos dois livros raros? Ofereceu o duplo do
dinheiro trocado por eles; ia-se já movendo o livreiro às lágrimas do mancebo,
quando este cismava na traça com que negociaria quarenta mil réis para dar
pelos livros.
Saiu
alucinado, e procurou o capitão do navio. Contou-lhe a sua vida; e, chegando à
passagem do resgate dos livros, o marinheiro desatou uma casquinada de riso
alvar, exclamando:
— Deixe ficar
com todos os diabos os livros, que eu não dava quatro patacas por eles.
Guilherme
arrepelou-se, e o capitão atalhou a furiosa e muda resposta com esta branda
pergunta:
— Que quer
você que eu lhe faça? Diga lá. Quer que eu lhe dê quarenta mil réis para ir
buscar os livros?
— Queria —
respondeu Guilherme — que me levasse como criado, como marinheiro, de qualquer
modo, a pagar-lhe eu lá, e que me restituísse o dinheiro da passagem.
— Isso não é
comigo: é com o proprietário do navio. Vá-se lá ter com ele. Estou que o homem,
se você lhe der fiador à passagem, lhe dará o dinheiro, que já lá tem.
Foi Guilherme,
com poucas esperanças, contar ao proprietário da galera a sua vida.
Acertou de ser
humano o capitalista. Admitiu-o sem fiança, e restituiu-lhe os quarenta mil
réis recebidos.
Correu o moço
a resgatar os livros, e levou-os para bordo com a sua bagagem.
Na manhã da
partida, foram ao bota-fora o quebrantado professor e a filha. Os passageiros e
a tripulação viram a um canto da câmara aquele grupo de um ancião entre duas
existências em flor, mas em flor desbotada, pendidas, como boninas dos campos,
ao lado do velho tronco, que o furacão arrancou desde as raízes. Viram aquele
grupo, abafando em gemidos, e passaram como homens que viram muito chorar, e de
muito domarem o oceano se disseram que as lágrimas eram indignas do homem.
Deram o último
abraço, na escotilha. Já o professor estava no bote com a filha nos braços,
quando Guilherme desceu ao beliche, mandando esperar o bote, e voltou com os
dois livros in-fólio. Desceu a escadinha, entrou no bote, e depôs no regaço de
Helena os dois livros, dizendo:
— Dá-os a teu
pai, minha esposa: eram dois amigos dele que eu lhe roubava.
O velho, em
tremuras, ergueu-se a custo, clamando:
— O Tucídides
e o Horácio! Que é isto, Guilherme?
— Levava-os a
pesarem-me no coração; assim vou mais leve, meu pai... Há de ser-me doce o
trabalho para resgatá-los.
Guilherme
beijou a mão do mestre e de Helena, e fugiu com os olhos turvos, vendo a custo
as escaleiras que subia.
***
A quinta carta
que o moço escreveu do Rio de Janeiro a Helena rezava assim:
“A
minha enfermidade progride. Nem já a diminuição do trabalho me dá tréguas aos
padecimentos. Deixei de leccionar, e consegui passar a melhores ares para a
chácara de um meu discípulo; mas aqui mesmo as dores de peito são tais, que nem
me deixam lugar a entreter o espírito na leitura. Só as tuas cartas me
refrigeram; mas essas sei-as eu de cor, e as de teu bom pai também.
Fui mal
sucedido nos meus planos, minha querida Helena. Foram sonhos de infeliz. Se Deus
me desse saúde, não eram vãos os meus projetos; porém, assim, extenuado, e
caminhando aceleradamente ao termo dos meus infortúnios, que hei de eu fazer? Seria
uma crueldade chamar-vos, para em breve vos deixar em terra estranha, onde só o
trabalho é benquisto, e o desamparo uma situação sem igual na escala dos
suplícios.
É já certo
para mim que não te verei mais, Helena!... Dizem os médicos que os ares da
pátria me restaurariam; pode ser que o ar que tu respiras me aviventasse;
creio-o; mas de que me serve a vida? Que ia eu fazer aí nesta pobreza,
desvalido, doente, sem forças, nem já vontade para trabalhar?
Desligada
estás do teu juramento, Helena. Não olhes a minha imagem no teu futuro. Vê-me
antes no Céu, que o hei merecido, com a dor paciente, e a funda crença que os
nossos corações unidos recolheram do religioso coração de teu pai.
Se a Providência
te der um apoio nesta vida, aceita-o, que eu te abençoo a resolução.
Creio que este
desapego é já o pressentimento de que tudo se vai desfazendo entre nós, menos o
imortal espírito que, daqui até ao Céu, te vê em todos os átomos do ar que vai
matando, e em todas as estrelas que me estão sempre apregoando o escuro nada
desta vida.
Teu pai
precisa de amparo, Helena, e tu és digna de um homem a quem ele possa
dignamente chamar “filho”.
Não me
esqueças, não; mas não te sacrifiques à minha memória, que eu já não sou senão
uma lembrança...”
Helena, que
lera em soluços a carta, chegando a este período, soltou um estridente grito e
perdeu os sentidos.
***
A condessa de
Prazins ganhara as demandas, e enriquecera.
No mesmo dia
em que a última sentença foi lavrada, o velho e sua filha, a muito instados em
sua mal rebuçada pobreza, deixaram a pobre casa em que viviam, e hospedaram-se
no palácio da condessa. E no primeiro paquete Helena mandara a Guilherme uma
carta da fidalga, chamando-o imediatamente a Portugal.
Ao
mesmo tempo, Guilherme, prezado ao pai do discípulo, que lhe emprestara a
chácara, saiu do Rio de Janeiro para além de São Paulo, cujo clima é mais
sadio. O moço deixava-se ir indolentemente, sem contar os benefícios do ar; mas
ainda assim, no dizer dele, secreto impulso o acoroçoava a seguir os ditames da
protetora amizade do negociante. À saída do Rio, deixou Guilherme cartas
escritas para Portugal, nas quais dizia o seu destino.
Do Paraguai
escreveu, confiando as cartas a um alemão que vinha a Lisboa; mas este alemão
naufragara, e as cartas de Guilherme não acudiram às ânsias de Helena. As que
tinham ido de Portugal, com o chamamento da condessa, perderam-se entre a
capital do império e a remota província, para onde tinham sido
descautelosamente dirigidas. Deu-se,
pois, que no espaço de cinco meses, os dois infelizes não trocaram palavra, se
é que em espírito se não encontraram em algum oásis do seu imenso e solitário
deserto.
Que angústias
lá e cá! Para ambos havia uma quase certeza da morte do outro. O moço, ao sair
do Rio, tinha escrito a Helena: — “Vou procurar a sepultura em melhor clima: lá
para o Sul a vegetação é mais rica de flores, e o dormir eterno é acalentado
pelas maviosas melodias das aves. Flores são um formoso pavilhão de sepultura:
onde elas perfumam deve dar menos asco a putrefação do cadáver.”
Era de razão
que a pobre Helena o julgasse morto, cinco meses depois desta carta, cinco
meses de sepulcral silêncio!
Ai! a sofrer
tanto aquela infeliz porque não morria? Que esperança lhe escorava a hastezinha
da existência sem flor única, sem renovos de outra Primavera? Aqui é o ponto de
crermos que da mão de Deus estava a triste, sempre orando, sempre esperando,
quando ninguém esperava!
***
Acaso
encontrara Guilherme em Mato Grosso um seu condiscípulo de latim, recentemente
chegado de Lisboa. Pediu-lhe novas do mestre comum, e recebeu-as tristes. O
português disse que fora despedir-se, e encontrara outra família no prédio, e
ninguém que lhe dissesse o destino do velho e da filha. Conjecturou Guilherme
que o pai falecera e a filha iria abrigar a sua orfandade e pobreza na caridade
da condessa de Prazins.
As melhoras
foram tão rápidas como passageiras. Talvez que o moço vigorizasse, se um raio
de alegria lhe aquecesse os pulmões congelados pela glacial desgraça. Oh! que
milagres opera o contentamento! Quantas vezes a imprevista mão de uma mulher sustém
uma lousa, que já inclina ao peito de onde o coração saía em golfos de sangue! Um
dever sagrado, a obrigação de viver para amparo de um filho, é tantas vezes o
sustentáculo de uma vida desesperada! Afetos, ainda menos poderosos, bastam a
dilatar o horizonte da vida aos desalentados caminheiros da sepultura. O
arraiar de uma esperança, que os alvoroça, como ao fatigado viageiro do deserto
a moita das palmeiras; uma saudade do que foi, rompendo as trevas do futuro
para lá nos acender luz igual à que julgávamos para sempre extinta!... Em quão
pouco está a vida, e a morte!
***
A condessa de
Prazins tivera um amigo leal nos dias da dolorosa experiência. Era um
jornalista. Os serviços, que ele pudera fazer à viúva assoberbada por litígios,
eram apregoar os direitos da sua causa, na imprensa. Por amor da justiça da
ilustre dama fora ele despedido de alguns jornais, subornados pelos
contendores. Já o escritor tirava a partido a faculdade de advogar no jornal,
onde ia escrever, os direitos da condessa. A sociedade, sem rebuço nem
respeito, indigitava o escritor como esperançoso marido da viúva, se pior não
era ainda o conceito.
O jornalista,
Francisco de Alpoim, visitava muitas vezes a condessa, quando parentes e amigos
a não visitavam nunca, e raro se via nos salões do festejado palácio, depois
que os respeitos e amizades ali surgiram como por encanto. Não poucas vezes a
opulenta Prazins apeava da carruagem à porta da modesta casa do jornalista, e
sentava-se diante da banca do operário incansável, consultando-o sobre coisas
de pouca monta com o fim de obrigá-lo a levar-lhe resposta.
Não
constrangido, mas timorato, Francisco de Alpoim nunca bem se afez a passar as
noites na sala da condessa. Parece que hei de recorrer ao absurdo para
idoneamente explicar o constrangimento do literato. É verdade que os seus
méritos de defensor ficam sendo ouro com liga; mas a verdade, em romances, é
que eu quero no superior quilate.
Alpoim amava a
condessa, desde que a vira no escritório do advogado, onde o jornalista praticava.
Fora, de mandado do patrono, consultá-la e examinar títulos, algumas vezes. Nestas
diligências, o amor acrisolou-se em paixão e a paixão em profundo e silencioso
respeito, coisa parecida com o terror religioso, nas almas nimiamente
supersticiosas.
Lembrou-se ele
por vezes, que a perda das demandas igualaria a fidalga a qualquer senhora
talhada para esposa de um bacharel, escritor público. Este desejo, porém,
volvia-se-lhe odioso, ao lembrar-se que vira chorar a condessa, com medo de
perder as suas demandas, chorar de vergonha de ser pobre, chorar o perdimento
de algumas formosas esperanças em que andava embevecida. E, por isso, nem na
pobreza, nem na opulência lhe disse que a adorava.
De per si, a
fidalga pasmava do desinteresse, senão orgulho, do literato, e cismava em
premiá-lo melindrosamente da dedicação a que ela supunha dever o bom resultado,
até certo ponto, dos seus pleitos.
Helena via com
estima o escritor, este admirava-lhe a lindeza, ornada com as galas da
melancolia.
A condessa, a
sós com a menina, exaltava as qualidades de Francisco de Alpoim, e a sós com
ele, dizia de Helena com maternal afeto o mais que poderia dizer-se de uma
filha ou de um anjo.
Compreendeu-a
Alpoim, e então se desenganou de que não era amado. Teve más noites de chorar a
esvaída esperança de quatro anos; mas, aferrou-se à âncora da dignidade, e saiu
outro, caldeado da forja do sofrimento. Os brios podem tudo que o coração não
pode.
***
Quando a
condessa sondou o coração de Helena, a respeito de Francisco de Alpoim, achou
lá a imagem de Guilherme. Deixou-a chorar, incitou-a mesmo a redobradas
lágrimas, lembrando-lhe a mesma renunciação do moço, provavelmente falecido, e
deste ponto em diante obrigou-a a olhar para o futuro. E dizia-lhe: — Guilherme
adivinhava a existência de Francisco de Alpoim, quando lhe escrevia: “Se a Providência
te der um apoio nesta vida, aceita-o, que eu te abençoo a resolução”. Eu creio
que no seio de Francisco de Alpoim está o coração de Guilherme. Eram dois anjos
que lhe deviam aparecer: — Aceite o
segundo, filha, já que o primeiro lho levou Deus.
— Guilherme há
de tornar! — exclamava Helena, com fervente veemência de sua fé.
— Não tornará,
Helena.
— Pois vossa excelência
tem a certeza de que ele morreu?
— Não... mas
não tenho uma só probabilidade de que ele viva.
Às razões da
condessa acresceram as instâncias do velho, que estremecia as virtudes do moço,
chorando sempre a perda do discípulo. Helena, criada na obediência filial, e no
respeito à protetora de seu pai, cedeu silenciosa, contando com uma breve morte
resgatar-se da violência, sem ter dado desgosto a alguém. Muitas damas me dirão
que era fraca a moça... Ora, meta cada qual a mão em sua consciência, e
mostre-me as maravilhas, que eu ainda não descobri neste barro, que tão lindas
formas tem na leitora, e tão desgracioso é, se a mais leve pancada o desmancha!
Caso estranho!
O escritor à força de contemplar Helena, passou da simpática condolência ao
amor grave e cismador. Sabia a curta história de Helena, e invejava o coração
que ainda palpitava por Guilherme. Já queria poder certificar-se de que a
imagem de um homem morto lhe não disputava os sonhos da triste menina. Segredava
à condessa os seus receios, e folgava de ouvir que o tempo faria o seu dever,
deixando os mortos em eterna paz, e os vivos no livre gozo de suas venturas.
Era pobre Helena,
como sabem; porém o bacharel não pensava nisso. O escritor apurava do seu
trabalho uns cem mil réis cada mês, e imaginava-se mais que rico, porque se
tinha em conta de feliz. A condessa, porém, não queria que a sua Helena fosse a
paga única de grandes serviços. Pensou em dotá-la; mas temeu, com acerto, ferir
o melindre de Alpoim. Inventou um bilhete de lotaria comprado em nome de Helena:
e corrida a roda, inventou um prêmio de dez contos, cuja veracidade ninguém
averiguou. É certo que a filha do ex-professor de Línguas dotava-se com vinte
mil cruzados.
***
Estava marcado
o dia do casamento, e Helena esperava ainda. Já Francisco de Alpoim se ocupava
alegremente de mobilar casa, com todas as poéticas condições da vida doméstica.
Pensava nas delícias do trabalho, com um anjo inspirador ao lado. Despedia-se
com tédio das noites desbaratadas nos cafés, nos teatros e nos bailes. Mandava
ajardinar o quintal, para que as flores, na Primavera, lhe festejassem a
esposa, se a inveja as não despeitasse.
E Helena
esperava ainda, e via com indiferença as cassas, e sedas, e galas do seu
enxoval.
“Se fosse uma
mortalha!...” — dizia ela entre si.
A condessa
nunca levantava a voz em monólogos; porém aqui não há remédio senão obrigá-la a
dizer-nos o que pensava, com a face ainda bela encostada à mão, e o cotovelo do
gentil braço apoiado num parapeito de miradouro, olhando ao mar:
“No tempo em
que Alpoim me obrigava com tantos sacrifícios, sacrificando-me até os seus
interesses, pude imaginar-me amada por ele, e o meu orgulho sofreu com isso. Perdoei-lhe
por ver quanto me ele respeitava, e quase cheguei a lisonjear-me de ser assim
amada!... Foi um engano, como tantos que nós, orgulhosas e desatinadas, sabemos
criar!... Ei-lo aí está feliz, se é que alguma vez se julgou infeliz na
distância que nos separava!... Ainda bem que eu nunca lhe ouvi nem disse
palavra, que hoje possa envergonhar-me, nem obrigá-lo a ele a explicações. Será
certo que eu alguma vez o amei?...”
A condessa
como que fugiu de si mesma para não responder a semelhante pergunta. Ainda bem,
que, momentos depois, ao recordar-se da pergunta, respondeu-se assim: “Que
disparate!”
Entendam lá as
senhoras!
***
Guilherme
tocou o extremo de atonia moral em que já não há vontade própria.
O
dedicado capitalista veio à Europa, e trouxe-o em sua companhia. Apenas
transpuseram a linha do oceano, que para tantas compleições é baliza entre vida
e morte, Guilherme recobrou alentos; e como ao enlevar-se no céu estrelado,
reconhecia com júbilo o céu da Pátria, em as estrelas invocadas nos devaneios
da sua infância pareceu-lhe que acordava, e se lembrava de ter vivido! Viu Helena,
ouviu-a nos juramentos do último adeus! Minuto a minuto, recordou tudo que
pouco e pouco lá vira queimar-se ao Sol ardente da América. “Se ela vivesse!” —
exclamava ele. E logo ajuntava: “Viveria para outro, que eu aqui vou pobre como
vim! Nem as esperanças que foram comigo!”
Desembarcou Guilherme,
em Lisboa, no ano 1856.
O pulso era
regular, as faces reviçavam nas antigas cores, a ideia descongelava-se do
torpor da alma, o anjo da esperança ondeava-lhe nos páramos de luz, que se
abrilhantavam como nova aurora de poesia. Era a Pátria!... O que esta palavra
é, só os grandemente desgraçados o sabem!
Foi à Rua da Procissão,
onde morava o mestre. Tinha o coração em ânsias, quando perguntava por ele. Deus
louvado! Um antigo vizinho mandou-o procurar o velho e a filha a casa da
condessa de Prazins, e — desgraça inexorável! — acrescentou:
“Ainda há dias
aqui esteve o bom do pai, contando-me que a filha vai casar com um doutor muito
sábio, e leva vinte mil cruzados de dote, que lhe saíram na lotaria! Mereceu-o
a Deus, que era uma alma pura aquela menina!”
Dali Guilherme
foi procurar seu pai: tinha morrido. Foi procurar o benfeitor, que o trouxe à Pátria,
e disse-lhe: “Não achei ninguém: não tenho Pátria... Leve-me outra vez
consigo.”
***
E Helena
esperava ainda.
Era por uma
tarde de abril. O Tejo mostrava a serenidade de um lago. As serras de além
toucavam-se de escarlate, com os clarões moribundos do Sol.
Helena
descera, pelo braço do pai, ao Cais das Colunas. Dali vira ela partir, dois
anos antes, a galera Carlota, que
levava Guilherme. Ia despedir-se, despedir-se de uma sombra, que ainda de lá
lhe acenava com um lenço, então molhado de lágrimas e agora de sangue!...
E, a
despedir-se, esperava ainda!
Ao voltar do Tejo
os olhos lagrimosos, viu, reparou, enxugou os olhos para ver, enxugou-os
segunda vez, largou precipitadamente o braço do pai, e correu, correu... e o
ancião a segui-la, e a clamar: “filha, minha filha!...”
Lá ao longe,
ao lado da Memória, vinha Guilherme,
a passo lento, só, com os olhos em terra.
Acaso os
ergueu, e viu uma mulher correndo para ele. Parou, e ouviu o seu nome. Correu
para Helena, e já tão perto, que o hálito ofegante aquecia a face de ambos, não
pôde ampará-la nos braços, e ergueu-a da terra sem sentidos.
Daí a pouco, o
ancião e a filha exânime, nos braços de Guilherme, entraram numa carruagem.
A populaça não
queria deixar romper a carruagem sem saber a história. O escárnio da
curiosidade! O máximo inferno das angústias!
***
No dia
seguinte, a condessa apeou à porta do escritor, e disse-lhe:
— Venha
comigo.
Entraram numa
sala do palácio, manso e manso, e avizinharam-se de outra em que estavam Helena,
Guilherme e o velho.
— Quem é
aquele homem?! — perguntou o escritor, atordoado com a visão e com o ar
misterioso daqueles passos.
— Escutemo-lo
— disse a condessa.
E Guilherme
dizia assim:
— Basta-me
ver-te feliz, minha irmã... Desliguei-te da tua palavra; não permita Deus que
eu viesse tolher o teu futuro. A minha vida já por lá ficou, Helena. Creio que
vim dar-te o final adeus, e mais nada. Teu pai reconhece as virtudes de teu
marido: deve tê-las, porque te soube avaliar, minha irmã. Hei de amar-vos a
ambos, e provar-vo-lo enquanto viver...
— Oh! que
frieza, Guilherme! — exclamou Helena.
— Frieza, não,
minha amiga... — atalhou ele limpando o suor da fronte. – Eu precisava de vida,
que não tenho, para achar sabor à luta com a desgraça. Aqui há só o coração com
uma pouca de virtude fácil. Estas renúncias ao pé da sepultura não custam
nada... Eu hei de ver o teu esposo, e falar-lhe do anjo que tu eras, e ele me
dirá o anjo que tu hás de ser.
— Nobre alma!
— murmurou o escritor, e entrou de golpe na sala, e a condessa com ele.
Guilherme
ergueu-se para cumprimentar a fidalga. Francisco de Alpoim adiantou-se a
apertar-lhe a mão, e disse:
— O senhor me
dirá o anjo que foi Helena, e o anjo que ela há de ser. O irmão sou eu, e como
irmão lhes dou uma casa para residirem. Lá estão as flores, Helena, que se
abriram para festejar a sua verdadeira ventura. A sua felicidade comigo seria
uma ficção, como tantas que o mundo pactua em chamar contentamentos.
A condessa
abraçou Francisco de Alpoim, e, se não falou, isto ouviu ela que lhe dizia a
alma:
— Quem pudera
ser amada por ele!...
***
CONCLUSÃO
O leitor já
sabe.
Estão casados
Helena e Guilherme, poucos dias depois.
Com a
felicidade, vem a saúde, e com a saúde descerram-se novos horizontes de
felicidade.
Um casamento
está sabido; mas o outro?
O outro é de
uma simplicidade que aflige o romancista mais imaginativo.
A condessa
está, uma noite, tomando chá em uma banquinha de charão, e defronte dela está Francisco
de Alpoim. A condessa ri da pequenez da banqueta, e diz:
— É uma mesa
de amantes felizes!... Senancour escreve que alguns espíritos, para sentirem o
gozo da soledade, carecem de um pequeno quarto, com uma pequeníssima mobília. Devia
ter dito isto dos amantes, e não dos solitários. Parece-lhe?
— Sonhei essa
felicidade — respondeu Alpoim.
— Quando?
— Quando
sonhava, e chorava de alegria por aspirar a tão pouco.
— E não
realizou o sonho!... porquê!...
— O anjo que
eu chamava à minha soledade, destinava-se às deslumbrantes glórias da vida. Nunca
me viu na minha obscuridade.
— E esqueceu
depois essa mulher?... mulher, digo, para corrigir a palavra “anjo”...
— Não a
esqueci: ergui entre nós a barreira da dignidade de ambos.
— E, se hoje a
encontrasse, reconhecia-a?
— Sim, minha
senhora: reconhecia-a, amiga como podem sê-lo os anjos.
— E quisera
que ela fosse sua esposa? — redarguiu a condessa, estendendo-lhe a mão.
Francisco de Alpoim
ergueu-se arrebatadamente, e neste movimento a banqueta ia tombando.
A condessa
abraçou-o; e, apontando para a mesa que caía, disse:
— Não me parece
que estas banquinhas sejam muito boas para esposos felizes!...
***
A condessa de
Prazins vive em dulcíssima intimidade com D. Helena da Costa. Os dois maridos,
altos personagens na política, posto que adversários, e chefes de litigantes
lojas maçônicas, são amigos inseparáveis!
Já é
quererem-se muito!...
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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).
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