domingo, 24 de maio de 2020

Das tendências camilianas (Resenha)



Das tendências camilianas
Camilo, figura máxima da nossa literatura, repisou persistentemente, intencionalmente, certo assunto que com atenção analisado, deixa aperceber uma vaga finalidade de revolta.
Acusam-no de abusar da personagem lorpa do labroste simplório que volta rico e cheio de pose.
Certos, não viram...
Zurzindo sem dó o brasileiro ricalhaço, advindo de Santa Cruz com as aljabas tingidas de pintos, falando ridiculamente, pretensiosamente com o sotaque carioca, e exteriorizando sempre, ao chegar, suas intenções amorudas — Camilo deu as primeiras machadadas no palanque podre, onde a sociedade rica se estava exibindo.
Daí, talvez, o primeiro passo para a transformação da fácies moral da família portuguesa, daí, talvez, o magno motivo, porque, a propósito da sua estátua, se sentiu sempre o peso de uma obstrução misteriosa, de uma descrença que se adivinha, mas se não enfrenta...
Mas, não resta dúvida a certos.
Esvurma-se ainda um cediço ódio à memória do grande escritor: a sua geração já passou, jaz quase em cinzas no eterno estágio das sepulturas, mas o cáustico ficou sólido como um monumento e, se contorceu a burguesia censurável do passado, como que calunia ainda os filhos das personagens vergastadas pelo seu látego de colosso torturado pelos desgostos e pelas injustiças do meio burguês.
Porém ele, caminhando impávido e independente, mais agitava a temerosa áspide da sua ironia.
Camilo foi, é certo, um crucificado do sofrimento.
Todavia o grande escritor devia ter sentido a hora de um íntimo regozijo, manejando o escalpelo da sua verve contundente, estripando os bubões de certos a supurar ridículo e nauseabundo pus.
Zurziu os maus na razão direta do seu poder e do seu fausto.
***
Em verdade, a sua obra não representou, apenas, uma simples transformação; representou mais: uma agitação superior e calma, uma revolução silenciosa e forte. Ele procurou com firmeza colocar certo número de criaturas no lugar devido, mostra-las como eram, crivar-lhes o prestígio com os zagalotes da sua análise, corroendo a pretensão dum grosso grupo de ricalhaços impudentes que imaginavam poder comprar o talento a dinheiro de contado com o acrescente da espórtula de corretagem.
Ocultando algumas das suas personagens com a mascarilha de nomes fantásticos apontou indivíduos da sua época, pessoas conhecidas, fatos conhecidos, onde o ridículo se ajustava como castigo tardo.
Na sua obra surpreendente há muito de produto da sua imaginação; mas abundam as descrições de passos, de gentes e locais que arredam dúvidas dos espíritos de que Camilo seria um gênio mais criador do que analista.
Há tragédia e lágrimas, emoção e sangue na série, inultrapassada em Portugal, dos seus volumes; mas, existe nela superabundante o sorriso cáustico que rebentou tanta rã cheia de vento, reprimiu tanto desejo inconfessável e aniquilou os estranhos e soberbos ímpetos do ouro ridicularizado.
Molière amalgamando a comédia com a tragédia e atirando-lhes a flux o seu talento, a sua fantasia castigou certas castas da sociedade do tempo em que viveu; Zola analisou os podres de ricos e pobres em águas-fortes admiráveis, insuflando na escumalha o desejo de vida e de vingança; Rochefort abalou o poder da política e dos políticos, provando a incompatibilidade do povo com os títeres da nobreza e da finança; Eça e Ramalho nas Farpas com a sua mordacidade, trouxeram a terreno muitas gloríolas manchadas; depois, Fialho zurziu com segurança muito pedante estúpido...
Mas, Camilo foi maior porque tentou desde mais distante época machucar o despotismo e sorrir das castas — e assim conseguiu que a arca do peito da sociedade portuguesa se elevasse num austo mais amplo e respirasse, dentro em pouco, mais livremente.
Ministros, nobres, conselheiros e outros que o não eram, mas pretendiam crachás e veneras, sangrou-os o seu acicate aguçado.
E a sociedade, rindo da cáfila, se não cavalgou logo sobre ela, pôs-lhe pela primeira vez o pé no estribo.
Essa atitude, naturalmente, granjeou-lhe um ódio que não fatiga. Há de extinguir-se quando esta geração se extinguir, por que como legítima herança, ele transmitiu-se de pais a filhos. Esse ódio que não se patenteia, circula-lhes nas veias, nos próprios glóbulos sanguíneos.
É por esse motivo, já adivinhado por alguns, que eu vejo a consagração póstuma de Camilo — a consagração condigna — muito longe deste nosso tempo, que será santíssimo — mas que, para a memória de Camilo, não será ainda o ano de completa justiça.
Ainda hoje a sua memória paga as tendências iconoclastas de seu espírito.
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M. DUARTE LOPES
Livro Memorial: a Camilo Castelo Branco no seu centenário (1925)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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