domingo, 17 de maio de 2020

Gabriel d'Annunzio e Eugênio de Castro (Resenha)




Gabriel d'Annunzio e Eugênio de Castro
 D'Annunzio encantou-se com um lusíada, disse a sua admiração, e o seu elogio formidável é claro e sonoro como um clarim retumbante: "há dois poetas no mundo, Eugênio de Castro e eu!" 
Assim, o cintilante poeta da "Rainha de Sabá" e do "Cavaleiro das Mãos Irresistíveis" conseguiu vencer o altivo exclusivismo, da águia italiana! 
Célebre pelo patriotismo e pelo cetro literário, d'Annunzio centraliza em si toda à glória; e se condescende em dividi-la, irmãmente, com Eugênio de Castro, é porque o nosso poeta lhe agrada sobremaneira. A poesia de Eugênio de Castro possui as variadas facetas dos diamantes, e a sua luz irisada tem cambiantes ora vivas, ora dolentes — tesouro sem fim, ardente labareda, soberba pirotecnia que ilumina os céus da nossa literatura com imprevista novidade — a do Simbolismo. 
D'Annunzio, cuja residência nas margens do Gardia, é um museu digno de admiração, ao conhecer a poesia de Eugênio de Castro, desfranziu a ruga de soberano desdém com que, na clarividência do seu gênio, costuma julgar as obras de arte. 
Deixou-se vencer pelas catadupas de harmonia e beleza orientais e gemas esplendentes da inspiração de Eugênio de Castro. 
E ele, o herói de Fiume, de psicologia tão estranha, embebeu-se no estro do lusíada, com o mesmo desvanecimento com que varia as cores da feérica iluminação da sua sala de música, escolhendo o etéreo lilás, o romântico rosa, o celeste azul, o formoso ouro, conforme o caráter da melodia que seja interpretada no mavioso piano em que tocaram mãos prodigiosas de Lizt! 
Que mais em "Il Vittoriale", o palácio do requintado italiano, que nos ajude a conhecer o homem? A lâmpada acesa em frente do retrato da mãe, luz perene a alumiar o seu talvez único e grande amor, E um Buda, calvo e feio, cego dum olho, bastante parecido com o poeta... Parecença que d'Annunzio reconhece com espirituosa ironia. 
Incontestavelmente uma das figuras marcantes do mundo latino, d'Annunzio, enamorado da mocidade e da beleza, sofre por não ter morrido em plena pujança física. Quisera escapar à decadência que espera os homens de longa vida!
E por isso, não é de admirar que, ávido de perfeição brilhante e maravilhosa, Gabriel d'Annunzio tenha dado a sua incondicional admiração a Eugênio de Castro, do glorioso e entusiástico cantor da beleza, do amor e da fascinação efêmera dos frágeis e poderosos bens da Terral!
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MARIA ADELAIDE DA SILVA PAIVA
9 de fevereiro de 1933.Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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