sábado, 6 de junho de 2020

Camilo e o Realismo (Apontamentos)



Camilo e o  Realismo
(Apontamentos)
Assegurou Camilo, na sua polêmica desabrida com Alexandre da Conceição, que não pretendera, escrevendo o Eusébio Macário, "lançar o ridículo sobre a escola realista", e que estava longe de considerar Eça de Queirós "apenas um romancista ridículo".
Que o autor do Eusébio Macário não considerasse a Eça de Queirós "um romancista ridículo" é de acreditar piamente. Quanto ao resto...
Embora Camilo não tentasse lançar, de um modo absoluto, "o ridículo sobre a escola realista", certo é que tentou satirizá-la, e satirizou, procurando-lhe os pontos fracos para os salientar caricaturalmente. O Eusébio Macário e a Corja, publicou-os Camilo à uma para demonstrar que também era capaz de escrever romances, conformes à Escola realista, e à outra para, aproveitando o ensejo, dar escape à sua natural antipatia par ela, antipatia exacerbada pela forma incorreta (quanto a linguagem) como a Escola era seguida em Portugal.
Assim, Camilo no Eusébio Macário e na Corja vinca e exagera senões e também caraterísticas da Escola realista, tendo em mente, sobretudo e quase só, a maneira porque essa Escola era praticada em o nosso país, por Eça de Queirós principalmente.
É por isso que, no Eusébio Macário e na Corja, sobressai, além de vários outros, o intento de ridicularizar certas expressões muito do agrado realista em Portugal. Por exemplo (apenas considerando o Eusébio Macário:
"O sol punha nas paredes clareiras faiscantes, cruas..."
"...davam gritos dum timbre muito agudo que punham ecos nas colinas batidas do largo sol..."
"...penugem de frutas mimosas que lhe punha umas tonalidades cupidíneas, irritantes."
"...um fado que punha vibrações involuntárias nas nádegas do pai..."
"Uivos longínquos de lobo ouviam-se e punham-lhe vibrações na espinha..."
"...punha nos olhos cintilações de mordente desenvoltura..."
"...punham-lhe no sangue irritações juvenis..."
"Ela pusera nos seus gestos e ares frescos, movediços de moça aldeã uns toques de sentimentalidades de reserva..."
"Punha uma grande confiança no maciço dos seios..."   
"...tinha nuvens que lhe punham negruras, tristezas intermitentes."
"...punha nas janelas olhares vagos..."
"...uma guitarra com manchas gordurosas de suor que punham brilhos..."
A insistência de Camilo neste emprego do verbo pôr basta para mostrar, às claras, a sua intenção de sátira — tanto mais que não é pelos defeitos da linguagem que a Escola se caracteriza. Esses defeitos não advêm da Escola, mas simplesmente dos escritores.
O próprio Camilo falou, a tal propósito, nos "vícios acintosos do estilo estragado pela imitação", estragado pela imitação, com intuito satírico, no tocante ao Eusébio Macário e à Corja.
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CLÁUDIO BASTO
Viana do Castelo, 9 de março de 1925.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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