segunda-feira, 1 de junho de 2020

O General Carlos Ribeiro (Biografia), por Camilo Castelo Branco



O GENERAL CARLOS RIBEIRO
RECORDAÇÕES DA MOCIDADE
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AO VISCONDE DE BENALCANFOR
Meu querido Ricardo Guimarães:
Recebe a dedicatória deste folheto como um cartão de despedida. Vou-me embora.
Naturalmente, escreverás dez linhas sinceras da minha necrologia. Dize que fui teu amigo trinta e seis anos; e que, à medida que eu ia lendo as tuas prosas progressivas e remoçadas, nunca pude imaginar que tivesses envelhecido.
Folgo de te não ver há muito tempo. Imagino que te deixo rapaz engrinaldando os festões das tuas primaveras de há trinta e seis anos para os ofereceres aos nossos 50.000 leitores — um rico auditório! Continua tu a ministrar-lhes os teus cabazes de flores, visto que, por impedimentos especiais de regime e outros estorvos complicados de engrenagens financeiras, não podes deitar-lhes pérolas.
Adeus, Ricardo. A Química subterrânea espera a minha alma. Vou mineralizar-me. Levo apenas, como saudade, uma flecha de luz reflexa do nosso passado, que me não deixa ir contente ao meu destino de azote, amoníaco e outros gazes. É a nostalgia dos teus e dos meus folhetins de 1854. A proscrita ignomínia do carroção do Torto — aquele touro de Falaris, puxado a vacas — que então esbatemos para a treva medieval, em outro país dar-nos-ia a celebridade imorredoura de Guesto Ansur, o salvador autêntico das cem donzelas lusitanas tributadas às prezas obscenas do califa. Também nós, visconde, salvamos centenas de donzelas portuenses das orgias do execrável defunto “Manoel José de Oliveira”— aquele Mauregato couraçado, com espaduas alcatroadas, musculatura de um lenho rijo e inflexo como os braços da forca, e articulações de cobre azinhavrado, onde eram contundidas as carnes virginais. Se não fomos nós, quem foi que remiu das contusões e daquele foro ignóbil as meninas portuenses, atualmente alodiais e intactas, salvo seja, nos seus quadris e nas suas espáduas? Pois tens acaso notícia de que o Oliveira Martins, no seu livro sociológico das “Raças humanas e civilização primitiva”, nos encadeasse nos elos do transformismo evolutivo do carroção em carro Ripert? Sabes que ele consagrasse um capítulo àquele dólmen de castanho — a ara celta do sanguinário Irminsulf dos nossos ferocíssimos avós? Nem uma palavra! “Isto faz vontade de morrer!” como disse Alexandre Herculano, muito menos ofendido dos ingratos.
Enfim, Ricardo, esta carta, sobre ser uma confirmação, quase póstuma, de fidelidade no afeto a um dos meus mais velhos amigos, deve ser-te não menos agradável como exemplo consolador de que as vidas mortificadas têm uma compensação — é acabarem com um sorriso. Neste país, os bastardos da Fortuna prostituta, se fizeram exame de instrução primaria, devem morrer com a serenidade de sábios. Dantes, havia a imortalidade da alma e as recompensas eternas como esteio a infelizes sublunares. Hoje em dia, aqueles dogmas, espécie de caput mortuum, não amparam muita gente; mas há coisa melhor: é a escola primaria que levanta o discípulo ao nível da felicidade do professor a três tostões por dia com dez meses de atraso. Depois, morre-se de uma anasarca de filosofia com uma ligeira complicação de fome. Assim se explica o grande furor da instrução nacional que tu, com uma seriedade estranha aos nossos hábitos, inspecionas observantissimamente.
Vai, fiscaliza, evangeliza. Dilata, quanto em ti couber, as células conscientes dos hemisférios cerebrais do Alentejo e Algarve. Dá-lhes um elastério grande, expansivo, na razão inversa das retrações da mucosa do estômago, à qual não chega a tua alçada tônica. Lembra eruditamente aos pedagogos que ninguém se exalça às glórias do Tabor sem ser arrastado pela Rua da Amargura. Dize-lhes, afinal, que a posteridade, mediante as suas confrarias e os seus dobres a finados, lhes dará brindes de missas gerais em dia de Fieis Defuntos — muito distintos dos defuntos infiéis. E, pelo que me diz respeito, recomenda-me também aos sufrágios pios da Pátria — esta querida mãe interessante, incapaz de tirar de dificuldades um filho vivo: mas, depois, tira-lhe a alma do purgatório, sendo preciso.

CAMILO CASTELO BRANCO
São Miguel de Seide, 6 de dezembro de 1883.

*** 
Gabriel de Mortillet, professor de Antropologia, publicou, neste corrente ano (1883), o seu livro Le préhistorique antiquité de l’homme. Em mais de uma página o sábio professor menciona respeitosamente Carlos Ribeiro, o geólogo português, que tão brilhantemente fez as honras da casa lusitana aos congressistas estrangeiros que estiveram aqui a discutir assuntos de antropologia e arqueologia pré-histórica.
O general Carlos Ribeiro faleceu em 13 de novembro de 1882. A satisfação de se ver tão culminantemente enaltecido no livro europeu de Mortillet não a gozou; e pena foi, porque seria essa a mais idealmente querida das suas recompensas. Bem sabem que os prêmios, os galardões substanciais que neste reinozinho de 90 léguas, como lhe chamava Garrett, auferem os sábios do quilate de Carlos Ribeiro são por tal modo notórios e falados que a gente, pelo comum, apenas tem notícia dos tais sábios quando lhes vê o retrato póstumo no Ocidente.
Estes homens trabalham em segredo como os alquimistas. Na Academia Real das Ciências conversa-se, uma vez por outra, a respeito deles, com uma grande admiração do tamanho dos bocejos. Para os sócios velhos a antropologia apenas tem a característica acadêmica de ser palavra grega, e como tal a reverenciam; mas há deles que professam, muito pela rama, o quantum satis de umas ciências abstrusas que assentam os seus laboratórios para além das fronteiras da história. É inexato, porém, que o insigne acadêmico discursasse monólogos paleontológicos diante dos seus confrades pouco porosos e assaz impermeáveis às infiltrações da ciência nova. Não. Ele tinha sócios no martírio — o Ferreira Lapa, o Tomás de Carvalho, o Bocage, o Latino Coelho, o Corvo, o Aguiar, os quais, se não encontraram, como Carlos Ribeiro, vestígios de um ser inteligente nas camadas terciarias, seriam muito capazes de o achar, se o procurassem, o Anthropopithecus.
Não se cuide que eu, com o selvagismo de um minhoto sem literatura, pretendo molestar os hereditários joanetes da Academia. Nego. Os meus joanetes de sócio correspondente acham-se também comprometidos. Considero a Academia Real uma arca da sapiência humanal, de reserva para a catástrofe de um dilúvio de ignorâncias eminentes. Respeito-a como um banco das nossas riquezas espirituais, banco sem transações, com acionistas todos de prenda, dando-se ares de estar sempre em liquidação; mas não liquida. Se não vive muito ao sol ardente que refunde o velho mundo, tem a vitalidade sombria do obituário. Quando um soco vai continuar na vida eterna o sono das suas sessões, os confrades vivos gemem-lhe o elogio fúnebre, uma Nênia em períodos redondos, ore rotundo, na prosa da fundação do estabelecimento; em seguida, recolhem-se a brunir velhos adjetivos e a escovar algumas metáforas de fivelas e rabicho, para a necrologia de um futuro confrade morto. De resto, muito mais modestos que justos juízes dos seus produtos, os acadêmicos, quanto ao estipêndio das suas lucubrações, são mais abstêmios que os anacoretas da Tebaida, e fazem livros mais em conta do que Santo Antão e São Pacômio faziam balaios. Eles desdenham briosamente a cobiça gananciosa dos quarenta imortais assalariados da Academia francesa; mas prelibam com delícias a justiça póstuma, o galardão do elogio fúnebre — esta rica moeda portuguesa incorruptível em que não entra a liga do ouro vil.
Tornando ao Anthropopithecus. Toda a gente sabe o que é, na pré-histórica, o Anthropopithecus; mas eu não me dispenso de falar deste sujeito que nos precedeu há 240.000 anos, pouco mais ou menos. Suponho que não serei desagradável às Senhoras menos lidas em antropologia, para as quais os vocábulos pliocene e miocene, o mamífero primata, o prognatismo são as jaças do límpido diamante da sua erudição.
Mortillet, com bastante lógica e com lucidíssima observação mais convincente que a lógica, afirma que o homem quaternário primitivo era algum tanto diferente do homem atual. O crânio do nosso antepassado das cavernas difere consideravelmente do crânio do leitor. O ilustre professor de antropologia é, portanto, obrigado a concluir que os animais inteligentes que petiscavam lume e lascavam pedras na época terciaria não eram homens na acepção geológica e paleontológica da palavra; mas sim animais de outro gênero, precursores do homem, na escala dos seres. A este precursor, intermédio ao antropoide conhecido e ao homem atual, chamou Mortillet um Anthropopithecus. Claro é que a espécie humana conhece o avô, o antropoide; mas não conhece o pai. Órfã e póstuma, a desgraçada!
Carlos Ribeiro havia descoberto nas margens do Tejo o sílex lascado em terrenos terciários e quaternários, acusando um trabalho intencional e inteligente no animal precursor do homem. No Congresso Internacional de Bruxelas (1872), duvidaram, mormente o douto Bourgeois, que nos exemplares expostos por Carlos Ribeiro houvesse trabalhos intencionais que provassem a existência de um indivíduo capaz de petiscar lume e lascar pedras na época terciaria. A favor do sábio português apenas se insurgiu a opinião autorizada de Mr. Franks.
Na exposição internacional de Paris (1878) o nosso geólogo apresentou os exemplares, entre os quais Mortillet apartou 22 com vestígios irrefutáveis de trabalho inteligente. Cartailhac abundou no parecer do seu colega e de outros especialistas.
Afinal, Carlos Ribeiro triunfou desassombradamente quando os congressistas na obra de Monte-Redondo, em Ota, confirmaram em novos exemplares a sua opinião refutada em Bruxelas. Desde então, nos anais da antropologia e pré-história foi assinalada como irrefutável a existência do Anthropopithecus em Portugal. Era o terceiro. Bourgeois tinha explorado um em Thenay. Em honra do inventor, esse vestígio do animal inteligente anterior ao homem chamou-se Anthropopithecus Bourgeoisii. Mr. Rames achara o segundo em Cantal, o qual foi chamado Anthropopithecus Ramesii. O de Portugal, descoberto por Carlos Ribeiro, recebeu o glorioso nome Anthropopithecus Ribeiroii.
Uma observação caturra ao sábio Mortillet: Este genitivo alatinado e ligeiramente macarrônico, Ribeiroii, parece pertencer também à época terciaria, à pré-histórica da língua de Plínio, o moço. Ribeiroii em genitivo indica o nominativo Ribeiroius. O extremado antropologista devera ter escrito Anthropopithecus Riberie, ou, mais eufônico, Ribeirensis. Espero e ouso pedir aos futuros congressistas que adotem esta errata, afim de que o nome glorioso do nosso concidadão não vá latinamente deturpado pelas idades fora.
Posto isto, a leitora naturalmente deseja saber que figura tinha o Anthropopithecus. Os sábios não satisfazem cabalmente a curiosidade de sua excelência. Calculam apenas que ele era muito mais pequeno que o homem, atendendo à pequenez das pedras que lascava para seu uso; mas, a respeito do animal português, a julgar pelo tamanho dos sílex, presume-se que ele anatomicamente fosse mais encorpado que os outros. Isto é concludentíssimo e consolativo, minhas senhoras. Mr. Abel Hovelacque, outro sábio, presume que aquele nosso pai pequeno seria do tamanho dos atuais macacos maiores. Na verdade, os senhores bispo de Coimbra, conselheiro Nazaré e vários tambores-mores acentuam e afirmam a procedência daquele patriarca mais avantajado no tamanho.
Bastará de ciência? Mas o que não posso, minha senhora, é esquivá-la ao desaire de proceder de macaco. Não lhe assevero que seja de chimpanzé, de gorila, de orango. A minha esbelta leitora é o tipo aperfeiçoado de todas estas famílias. Segundo o genealógico Hoeckel, vossa excelência promana de um piteco, derivado de um lêmure, produto de um canguru. É a primeira vertebrada, e não direi primeira “mamífera” para evitar equívocos. Em todo caso, esquisita árvore de geração, na verdade; mas, se a minha delicadeza se dói, ciência obriga; porque, enfim, este folheto é uma obra de vulgarização, à la portée des gens du monde. Pretendo ser mais útil que agradável às senhoras modernamente orientadas, as quais, entre os flagícios acústicos dos seus pianos e o moinho estupidamente burguês das suas maquinas de costura, abrem um parêntesis à discreta biologia.
E tenham muita fé, minhas senhoras; porque as ciências de observação, diz Letourneau na Biologia mais avançada, exigem primeiramente de quem as quer cultivar um ato de fé. Ato de fé! Também a ciência positiva reclama a sua virtude teologal. Pelos modos, é precisa tanta fé para acreditar no Jeová de Moisés e no Messias de São João Evangelista, como no “Panteísmo” de Espinosa, na “Vontade” de Schopenhauer, e no “Inconsciente” de Von Hartmann. Por tanto, façam suas excelências um ato de fé como biólogas, e outro ato de caridade como católicas, prestando-me a sua benévola atenção.
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Carlos Ribeiro não andou toda a vida, como Boucher de Perthes, a esgaravatar nas camadas do globo a certidão de idade do homem. Também ele borboleteou à flor da terra, com as asas polvilhadas dos matizes da alegria juvenil, os seus devaneios.
Entre os 15 e 16 anos, fingia eu que estudava química na Politécnica do Porto. Carlos Ribeiro, naquele ano, 1844, já tenente, com 30 anos de idade, completava matemáticas com sinceridade e aproveitamento. Era de estatura mediana, refeito, de espáduas fortes, rosto redondo, purpurino, com um pequeno bigode cortado na comissura dos lábios muito nacarinos. Grave nas falas, muito delicado em conselhos e atenções com os cabulas; e simpatizava com a minha modesta ignorância que ele, confessando a atividade funcional do meu cérebro, ingenuamente atribuía a eu não possuir compêndio de química,— uma coisa bastante necessária a quem se matricula. Era o Lassaigne — parece-me ser este o nome do sábio naturalista, que alguns condiscípulos generosos me emprestavam à porta da Academia, quando se avistava o lente, um ex-frade, Santa Clara, contemporâneo de Orfila, Berzelius e Liebig. Porque mãos sagradas andava então a química portuguesa!
Aproveito a ocasião para agradecer aos que ainda vivem, se algum vive, a gentileza do seu empréstimo, para que eu, em honra do frade, saísse cristalinamente e triunfantemente do meu ato de química sem a mácula de um R.
Já divulguei em um livro este caso à Europa culta.
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Agora, vou contar outro caso mais trovadoresco — um episódio da vida amorosa do defunto antropologista, o general Carlos Ribeiro.
Por aquele tempo, uma senhora esmeradamente educada no gosto da época, e com uma grande distinção de formosura, abandonara em Lisboa o esposo, e refugiara-se no Porto com um sedutor de condição baixa e bens de fortuna paralelos. Este casal anticanônico habitava uma casinhola barata na rua da Sovela, paredes-meias do quarto escolástico de Carlos Ribeiro. O tenente, quando regressava da aula, via na janela de peitoril, uma vez por outra, a sua misteriosa e lépida vizinha encará-lo com uma fixidez perturbadora como um envoltório de fluidos galvânicos.
Certa estanqueira estabelecida na loja da casa onde se aninharam aqueles amores clandestinos, informou-o da má vida íntima dos adventícios. Havia desavenças todas as noites, gritaria, choradeira, e às vezes repelões recíprocos, a ponto dela cair no sobrado. Destas altercações noturnas, a informadora pudera liquidar que o homem se chamava Bramão, ela Glória, e que tinha marido na capital. Entre os epítetos que ele lhe desfechava, o mais acentuado e repetido era bêbeda, grandíssima bêbeda; e a estanqueira justificava a qualificação, contando que a menina Glória, assim que o Bramão saía, mandava ao armazém da Companhia fronteiro duas garrafas vazias que se trocavam por garrafas lacradas de 800 reis. — Acho que se emborracham ambos de dois! — conjeturava a mulher dos tabacos, oferecendo a sua opinião indecisa ao reflexivo freguês dos cigarros.
Uma noite, foi tamanha a gritaria, que a patrulha bateu à porta da estanqueira perguntando que gritos eram aqueles no primeiro andar. A mulher, na sua impaciência de estrenoitada, respondeu azedamente que era uma criatura com a sua pinga; que fossem os soldados à sua vida, porque não havia remédio a dar-lhe à carraspana senão cozê-la; e que cada qual em sua casa podia embebedar-se como quisesse e quando quisesse. Se percebiam? perguntava colérica. E a patrulha: que sim, que a cozesse ela e mais a vizinha. E a estanqueira: — Malandros!
Eram então triviais no Porto estas cenas do Baixo-império, dialogadas entre o pequeno comércio e os pretorianos municipais — os janízaros do Costa Cabral. Naquele tempo, tudo que era tropa chamava-se pretorianos e janízaros — uns pobres diabos a 30 reis por dia e rancho de couve galega com feijão fradinho. Depois é que expluiu o caceteiro, pago pelos edis, a 480 reis diários, e mais, consoante a pressão exercida nos ossos parietais do patuleia.
O tenente estava à janela a escutar o alarido, sentia uma compaixão infinita por aquela formosa senhora; e cismava se a embriaguez seria refúgio de grandes tribulações naquela alma que se atirava a um charco de vinho para apagar a luz do entendimento e da memória — perturbar a vida aflitiva da consciência escorreita.
Na manhã seguinte a esta noite tempestuosa, Bramão saiu e não voltou mais.
A estanqueira soube daí a dias da criada de Glória que a sua ama tinha vendido a única pulseira, porque o pelintra do patrão lhe não deixara vintém; e ajuntou que ela pouco mais tinha que vender, a não ser os vestidinhos, porque já tinha derretido as joias para sustentar o vício do amante, que era jogador e perdia sempre.
A criada, aquecida pelo atrito das revelações, confessou que sua ama tomava a piela todas as tardes, quando a não apanhava também todas as manhãs, bendito seja o Senhor! Que o patrão vinha de fora levado de todos os diabos, e entrava às testilhas com ela, palavra puxa palavra, e iam às do cabo, pancada de criar bicho, e batiam de meias. A senhora, coitadinha, antes de se emborrachar, chorava lágrimas como punhos, a contar-lhe a sua vida. Que era filha de gente grande, e casara, contra vontade sua, com um almofariz da casa real. A estanqueira não compreendia o casamento com o almofariz. Carlos Ribeiro emendou para almoxarife, explicando o ofício com a sua costumada bondade ilustradora.
Como quer que fosse, a infeliz senhora embriagava-se depois que chorava lucidamente. Era isso mesmo o que o tenente havia conjeturado com a sua romântica intuição de 1844.
Da piedade não é trivial a passagem para o amor; mas, se à comoção do amor precede a do compadecimento, o caso de Carlos Ribeiro é vulgar. Escreveu o meu amigo a D. Glória oferecendo-lhe os seus serviços desinteresseiros numa terra em que sua excelência era hospeda, e não tinha talvez relações. A vizinha respondeu-lhe com uma caligrafia inglesa, e uma gramática impenetrável à unha da crítica mais meticulosa. Em meio da sua prosa florida, alinhava-se o alexandrino de Victor Hugo:
Oh! n’insultez jamais une femme qui tombe...
O matemático ficou mais deslumbrado com a contextura da carta do que ficaria trinta anos depois quando achou em Ota a garantia da sua imortalidade como homem de ciência — o Antropopithecus.
A correspondência travou-se em frases recheadas de versos de Hugo e Lamartine, até que o tenente entrou sozinho, sem os poetas auxiliares, e somente com a sua prosa comovida, na alcova da vizinha. Era uma alcova sem pretensões bizantinas, nem cosméticos caros; apenas algum Patchouli nacional, e água de Colônia, em parodia, fabricada por um pseudo Farina, e muito almíscar, perfumaria dos gineceus infestos à Moral, perdição dos caixeiros de risca ao meio, e grandes absorventes de licor de Rosa e de Van Switen. Era, em suma, a alcova atrapalhada de uma touriste que vai vagamundeando a sua vida escoteiramente, sem reparar se há estofos, estatuetas, bronzes e Sevres e pavilhão de ondulações cetinosas, com lampejos crus de metais esmaltados, no leito das reles estalagens onde pernoita.
Ele sentiu na antecâmara o fartum acidulado da baga alcoolizada dos vinhos crassos da Companhia: era o perfume de uma adega do Roncão. Foi uma nuvem de maus presságios no azul da sua felicidade aquele cheiro.
Entravam a dialogar na temperatura madrigalesca do último romance de Arlincourt, quando ela mandou servir vinho do Porto de oito tostões com pasteis de Santa Clara e quequis da Palaia. O hóspede sacrificou-se cortesmente a algumas libações, pequenos goles intercalados de perguntas e respostas, deixando o cálice opalino em meio. Ela, entretanto, numa exaltação teatral, defendia a tese do adultério, com reminiscências pioradas da Lélia de George Sand; e, como inconsciamente, na abstração entusiasta dos largos gestos, ia engatando uns cálices nos outros, em rápida viagem para a região do Falstaff e da Maria Parda de Gil Vicente. Parecia mesmo uma atriz francesa des Variétés, com uma forte diátese de bambochata, que viesse de cear no Café Tortoni com champagne frappé, na roda reinadia de Roger de Bauvoir e Roqueplan. Carlos, quando a viu em afinação mais que suspeita, sentiu borbulhar-lhe o pranto da ingenuidade; porque ela, carminada pela ebulição do sangue, esbandalhada, e escandecida pelo que havia sincero e lógico na sua declamação, relampejava uns clarões elétricos que pegariam fogo em carne menos combustível que a do artilheiro; porém, a ele, faziam-no chorar as lágrimas entranhadas que os olhos têm pejo de mostrar, e, represadas na alma, chegam a cegá-la como um colírio de ácido sulfúrico concentrado. Figura-se-me que estou a escrever isto em 1844! Que imagens! que botica!
E a dama, numa absorção de visitada pelo ece Deus, com o íris aceso e a pupila retraída pela atropina da Companhia, não despegava do fio das ideias, torrencialmente. Trejeitos esquisitos e sacudidos da escola melodramática de Emile Doux. Fazia vibrações glóticas, cavas, guturais de quem recita trenos. Arredondava frases repolhudas, pomposas, de dramalhão, respigadas nos Dous Renegados e no Cativo de Fez. Por baixo do vinho já estava o absinto do ódio ao pai que a violentara a casar-se; mas a losna não lhe calcinava os nervos sem a combustão inflamatória dos extrafinos, muito secos, do Alto-Douro.
Acidulada sob a influência das suas virginais reminiscências de menina e moça, eterzava-se. Ora, é regra corrente que o álcool, submetido aos ácidos, transforma-se em éter. Insignes farmacêuticos o asseveram. Todas as comoções internas são química. Isto, que dantes se chamava alma, é uma retorta de cristal da Boêmia em uns sujeitos, e de barro de Estremoz em outros sujeitos. O grito das paixões que desfibram e matam é o estampido da retorta que rebenta. Agora, a diferença: se a retorta é de cristal, os estilhaços, embora embaciados de lágrimas, tem ainda rutilações que encantam a Arte. E, se a retorta é de barro, os cacos abeberados nas lágrimas repelem a vista porque parecem lodo. Edgard Poe, Alfred de Musset e Baudelaire, envenenados pelo álcool, são hóstias imoladas a um meio social responsável — são retortas de cristal feitas pedaços pela paixão. O Sena cospe às margens, cada mês, dezenas de suicidas que apenas tem vinte e quatro horas de nojosa exposição na Morgue. São os cacos da retorta de barro dissolvidos em lama.
Quanto a Glória, para ser uma consumada trágica na voz e no gesto, bastara-lhe uma regra que não se acha bastante inculcada nas preleções do Conservatório Real das Artes cênicas, isto é: carregar-lhe no copo.
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Acerca deste elixir vitalizador das citadas Artes cênicas — necessidade fisiológica (o copo, intenda-se, e não as Artes) do sangue lusitano de origem celtibera — não sei quais sejam as cogitações atuais do meu Luís Augusto Palmeirim, egrégio diretor do Conservatório Real. Cumpre-lhe, todavia, estar precavido contra as anemias e opilações (opilações, no sentido casto de chloroses) daquele aviário de rouxinóis e outros pássaros que regorjeiam em perpétuo abril, estofando os seus ninhos com o pólen das flores. — Pólen das flores, notem a figura que é rara nestes tempos hostis à retórica. Ora pois. Que aquele seminário das Artes cênicas burburinhe sonoroso de interjeições tremiculosas como calafrios, arranques trágicos, morbidezas de bemóis e sustenidos; e que, depois de um purgatório de rabecas e pianos,— suplício indispensável — rutilem, ao diante, pelas trapeiras das águas-furtadas do Bairro-alto as constelações sidéreas das Sarah, das Nilson, das Patti, dos Rubeinstein, neste país de Manoel Mendes Enxundia, da Cana-verde, do Passarinho trigueiro e do Fado choradinho. Notem que o Dr. Letourneau escreve que uma ponta de vinolência é a poesia da digestão; e também afirma que onde quer que se usa a bebedeira, existe uma literatura bacante. A regra em Portugal falha praticamente. Temos a bebedeira sem a literatura, talvez por falta de editores pouco sérios.
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D. Glória, não obstante, seria ridícula hoje em dia que a ciência glacial esfriou a admiração pelas mulheres de talento menos metódico, desvairado por exorbitâncias Vadias.
Naquele tempo as senhoras que recendiam essências de macáçar, e tinham sido iniciadas nas assembleias pelos parlapatões da Restauração, eram assim. Reinavam os parvenus, uns devassos broncos, algum tanto desbastados pelo esmeril da emigração, ou saídos das cadeias com uma grande fome de mundo, de diabo e de carne, os três amigos figadais do corpo, como explica metafisicamente a Cartilha da doutrina para uso dos colégios de meninas. Eles tinham as fossas nasais virgens do nitro das granadas do Porto; mas eram destemidos fundibulários de patacos rejeitados à sege do sacrificado duque de Bragança que lhes dera pátria sem os inconvenientes da forca, e dilacerara o coração nos sobressaltos das batalhas. Eram os bagageiros do espólio opimo com todos os caracteres étnicos da ciganagem portuguesa. Compravam conventos com títulos azuis e rebatiam a 17 p. c. os arriscados e sacratíssimos empréstimos aos Regeneradores de 20 e aos pallikares empenachados da Belfastada.
Os parvenus inculcavam como norma da perfeição feminil a Corina de madama de Stäel, a mesma madama em pessoa a fazer aos psicólogos filosofias, e coisas mais práticas a Benjamin Constant, como a Récamier ao velho lúbrico que fazia, da sua parte, o Gênio do Cristianismo. Todas e todos muito devassos e eloquentes, boas e bons para começarem os seus romancinhos ao fogão e concluí-los nas alcovas. Foi este o ideal da mulher que os emigrados trouxeram dos boulevards e dos hotéis garnis a 2,50 francos, com uma demão do verniz de Mabille.
Lia-se então copiosamente a obra emocional de Paul de Kock; e os hierofantas do reino restaurado folheavam com mão diurna e noturna a República de Platão, onde o grande legislador, em pleno luxo de policiamento helênico, preceituava que as mulheres passassem de mão em mão. Esfervilhavam por isso as Xantipas com que os Sócrates altruístas obsequiavam os Alcibíades, e floresciam as Márcias que os virtuosos maridos Catões emprestavam aos Hortênsios. Assim como nas lojas maçônicas muitos dos triunfadores de 34 — um grupo saído da barbaria da Idade Média — se chamavam Catões e Sócrates, por igual teor, no santuário da família, usavam os mesmos hábitos greco-romanos. Foi por isso que, em 37, o apocalíptico autor da Voz do Profeta denominou Lisboa uma caverna de vícios e desenfreamentos.
Uma francesa, amante vária de vários franceses, Mademoiselle Pauline de Flaugerguis, dava o tom em Lisboa, por esse tempo, em versos e frescor de cútis polvilhada de bismuto. Rodeavam-na os areopagitas do plectro e da sintaxe, a mestrança da versejadura — Castilho, Garrett e os outros da constelação. Esta boêmia trovista foi dada como tipo de mulher emancipada pelo talento. Teve ovações das liras primaciais. Damas da corte, criadas em novenas e lausperenes, atiraram as camáldulas às urtigas e pegaram de fazer muitos galicismos gramaticais e pessoais. Viveu-se uma rasgada bacanal à francesa, em que tomaram o seu quinhão pro rata as mulheres dos marqueses, as filhas dos algibebes e as esposas dos ex-almoxarifes. É como foi. A D. Glória era um fruto bichoso, sorvado, de árvore que não sevou a raiz em terreno alheio mal adubado. Era cedo ainda. Às portuguesas faltava-lhes o savoir-vivre, para se aguentarem corrompidas e elegantes. Jam novus rerum nascitur ordo. Isto hoje está melhor — está como deve ser. A mulher cai; mas sabe cair neste palco; e não podia ser assim há quarenta anos. Go ahead!
O certo é que aquela dama foi a primeira paixão de Carlos — a primeira que é tão forte e pouco menos tola que a sétima e a vigésima nona.
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Três meses volvidos, Ribeiro tinha perdido a alegria, o afeto ao trabalho, a convicção da sua imaculada probidade, e já lutava com as duras hostilidades da pobreza. Quanto a Glória, cada dia mais formosa, mais fascinadora e mais crapulosa. Ele chegou a pedir-lhe em joelhos e de mãos erguidas que se abstivesse de beber tão destemperadamente; e ela, no lúcido uso das suas faculdades dirigentes, respondeu que não podia,— que o embriagar-se era o seu suave e doce suicídio, porque queria morrer.
Carlos obtivera informações de Lisboa. O pai de Glória ainda vivia. Era um bom proprietário rural na comarca de Torres Vedras, tinha sido criado particular do Sr. D. João VI, casara com uma retreta da Sra. D. Carlota Joaquina, e tinha o hábito de Cristo. O marido era mentecapto e velho. Perdera a razão com a queda do Sr. D. Miguel e do seu almoxarifado no Alfeite. Quanto a Bramão, um industrioso, vivia de apostas ao bilhar no Marrare das 7 portas e era casado com uma pecadora acirrante, uma trigueira de bigode que se desforrava usurariamente das perfídias do marido, sendo pérfida para todos os amantes.
Meditava Carlos em comiserar o velho cavaleiro de Cristo, na esperança de regenerar a dignidade de Glória com a convivência do pai venerando e das irmãs honestas. O velho respondera a quem lhe pediu compaixão para a filha que a julgava morta, e morta devia estar para ele; mas que não a repulsaria do seu talher, porque a desgraçada tinha a seu favor como desculpa o haver casado constrangida.
Quando o tenente, triste por deixá-la e alegre por salvá-la, lhe comunicou a resposta do pai, ela improperou-lhe a covardia de a não desenganar, se estava farto de aturá-la, e reprovou a missão caritativa de a reconciliar com a família, não tendo procuração para isso. Depois, trocaram-se palavras desabridas.
***
No dia seguinte, D. Glória deixou a casinha da rua da Sovela e foi para o Bom Jesus do Monte com um dos leões daquele tempo em que a cidade da Virgem parecia ser da Vênus Calipígia — uma leoneira da Hircânia, onde as epidermes roliças das donzelas de Cedofeita e as ostras da Águia de Ouro eram o pastio noturno daqueles dragões, produto da concubinagem do romântico burro de Buridan com a clássica burra de Balaão. Desta progênie, que herdara da mãe o dom da palavra, e do pai um amor menos indeciso às duas maquias, evolucionou-se o crevé, o estouradinho, um fenômeno embriológico, que encaracola belezas na testa exígua de microcéfalo, incalamistra o bigode, e tem do D. Juan de Maraña simplesmente a guitarra com que perverte famílias espanholas vigiadas pela polícia médica. De resto e au fond, os estouradinhos são grupos de moléculas, agregações granulosas, saturadas de marisco, de cerveja barata da Baviera e nicotina, justificando a formula excêntrica e um tanto paradoxal de Bacon: o vácuo de mistura com o solido. Protegidos pela lei geral do atomismo, agitam-se no turbilhão universal da matéria inconsciente: são “acasos da concorrência vital”, como diria Darwin; mas não confundir concorrência com seleção natural; que a natureza é mais logica e demorada nos seus transformismos. Pela rapidez com que do leão pujante de 1840 se engendrou o catita escrofuloso de 1880, é claro que a seleção foi artificial, estabalhoadamente, grande celeridade. A este respeito, os curiosos orientem-se em Topinard, L’Antropologiepassim. Cumpre notar que, no arranjo orgânico do estouradinho, colaboram 65 elementos conhecidos, diz a Ciência. 65! que prodigalidade! A não ser a Ciência, quem diria que a Natureza para construir um cretino gastou quase cinco dúzias e meia de elementos — os mesmos que despendeu para fazer o mar, o espaço, o mundo sideral, os ciprestais balsâmicos do Líbano e os fedores humanos da Baixa; o Caneiro de Alcântara onde os micróbios fazem as suas regatas recreativamente, e o Amazonas, a banheira do sol, espraiando-se em escamas refulgentes; o Garrett que faiscava, como um cérebro de diamantes facetados, as Viagens na minha terra, e o cérebro do outro Garrett que supurava, como um tumor apostemado, as Viagens a Leixões! Com as últimas palavras da biologia é que a Ciência rejeita o dogma da alma, e nos convence de que o estouradinho, pelo que respeita à porção cinzenta do cérebro, deixa de ser o rei da criação para retroceder, por atavismo e sem hipérbole, à família dos vibriões, um quase infusório, e pouco mais que proto-organismo, irresponsável pelos seus flagrantes delitos de brutalidade.
Em obséquio a estes irresponsáveis é que o bispo Sr. D. Antônio Aires de Gouveia tanto e valorosamente impugnou a pena de morte. Todavia, o seu vitorioso repto à forca, malogrado em Becária, em Lamartine e Victor Hugo, seria socialmente mais completo, se sua excelência também conseguisse que, em vez do menu pouco peitoral da estricnina municipalense, se servissem côtelettes de veau sauté aux truffes aos magros cães vadios, inofensivos na sua fome e na sua sede. Struggle for life. Sei essa trivialidade erudita; mas a luta pela existência não autoriza que os vereadores sejam carrascos dos cães, enquanto o equilíbrio dos negócios públicos e o pagamento em dia dos 6 por cento das inscrições lhes permitir comerem o boi. Ora — digamo-lo de passagem — o boi era um Deus entre os egípcios, o divino Ápis, e entre nós é o manso e pingue holocausto de uma bestialidade carnívora; porque nós, os europeus, comemos os Deuses alheios em bifes, e os próprios em hóstias. Sacrílega pouca-vergonha!
***
Voltando ao drama e às palpitações do leitor por um pouco suspensas, a estanqueira contou depois que, enquanto o tenente estava na matemática fazendo garatujas na lousa, um esbelto rapaz, todo de preto, com um cassetete, pantalonas à hussard, fazia tilintar o tinido das suas esporas amarelas no pavimento de D. Glória. Trabalhosa e frágil senhora!
***
Eu morava na rua Escura, no bairro mais pobre e lamacento do Porto, um beco fétido de courama surrada, em uma esquina que olha para a viela dos Pélames. Éramos dois os estudantes que ocupávamos o terceiro andar com uma retorcida varanda de pau, esmadrigada, num escalabro de incêndio, debruçada em ameaças sobre os transeuntes como a varanda de Dâmocles, muito mais perigosa que a lendária espada, cujo gume deve estar muito rombo e puído da esgrima dos eruditos em Dâmocles. No primeiro andar morava a proprietária, uma adela que nos cozinhava certas iguarias dignas de ser expostas ao sevo das aves de rapina no peitoril daquela varanda. Quanto a ratos, era uma sucursal de Montfaucon. O segundo andar tinha escritos desde muito, e não havia homem desesperado, cansado da vida, que ousasse tentar o suicídio naquelas ruínas minacíssimas. Quem procurava casa, olhava com terror, e seguia o seu caminho, como se ali morassem os leprosos de Xavier de Maistre.
Disse-me a patroa, uma noite, alegremente, que tinha alugado o segundo andar por dezesseis tostões mensais a uma criatura, que lhe parecia mulher de pouco mais ou menos; e acrescentou com uma sensata indulgencia: “Seja ela o diabo que for, o que eu quero é que me pague adiantado; senão, minha amiguinha, viela, viela!” e apontava para a rua com um gesto de braço e dedo perfurante como uma estocada.
Com efeito, a devoluta varanda do segundo andar, tão destroçada como a minha, aguardava uma Julieta adequada competentemente aos Romeus do terceiro.
A inquilina entrou e pagou.
Quando eu recolhia da química e subia ao meu terceiro andar fazendo gemer os degraus, olhei curiosamente para a saleta do segundo, e conheci a Glória da rua da Sovela. Estava muito acabada, olheiras fundas, os ângulos faciais descarnados, os beiços roxos, calcinados pela combustão dos licores. Na epiderme transparente já não lhe revia o rubor cetíneo do sangue colorante. Sobre as saliências malares, manchas rubras que poderiam ser de vermelhão ordinário ou da febre ética; os tegumentos pareciam emplastados por uma camada de velha cera amarelada. As cordoveias do pescoço, muito esbagachado, com umas saliências nodosas como cordão de São Francisco.
Havia um ano que ela tinha deixado Carlos Ribeiro imerso em uma grande comiseração, dizia ele; mas eu sabia que era maior a saudade que o dó.
Procurei o meu amigo que havia concluído o curso e entrara na fileira. Estava fora do Porto em serviço. Melhor foi assim, porque a notícia que eu lhe levava poderia magoá-lo ou fazê-lo descer até ao vilipendio de a visitar.
Ao fim de quinze dias, disse-me a patroa que a Aurora — nome de guerra que se dera D. Glória — uma noite por outra, recolhia consigo um engajado. Falava sempre com figuras decentinhas a minha patroa. “Engajado” era decente. Diziam então as senhoras nos bailes da Assembleia: “Já estou engajada para a terceira polca”.
Quanto à natureza dos engajados, disse-me que eram velhos. Conhecera o Raposeira, um de óculos, que tinha loja de batinas e galões para esquifes, na rua Chan: outro, era amanuense da câmara do bispo — ambos muito borrachões. E prometia pô-la no olho da rua, se ela continuasse a fazer-lhe troça, por noite velha, em cima da cabeça, dançando o Sarambeque.
O Sarambeque era da natureza bordelenga do Hulalá, um bailado dissoluto, priapesco das Ilhas Havaí. Eu nunca pude ver a assembleia da vizinha, nem o cavalheiro bestial ajoujado por tal dama às suas soirées dançantes. Quem quer que fosse, dava, no repicado sapateio da sua fúria endiabrada de selvagem de Ceilão, oscilações de terremoto ao prédio. Muitas vezes, receei que, verbi gratia, desabada aquela casa filial das orgias de Sardanápalo, eu fosse o cândido bode expiatório sacrificado no entulho da derrocada às iras dos deuses e da senhoria. Depois, noite alta, havia comedorias — um aziumado de azeite rancido e alhos, estrugidos eméticos, emanações sulfídricas daquelas almas latrinárias. Lamento, já agora, não ter então colhido notas para hoje me inculcar um Petrônio testemunhal e autêntico dessas ceias de Trimalcião com iscas de fígado e o rascante de Cabeceiras de Basto.
***
Um dia, de madrugada, acordou-me um grande berreiro nas escadas. O meu companheiro, o bom Machado de Carção, um médico que morreu há muitos anos, foi examinar de perto a desordem, e contou-me que um velhote apoplético, com ares de jarreta provinciano, estava gritando que Aurora lhe roubara vinte e cinco pintos da algibeira do colete, depois de o ter embebedado com genebra.
O roubado saíra em berros para a rua, e os calcetas, que trabalhavam no lajedo arrastando os grilhões, assobiaram-no. Aurora dava gritos de inocente contra a calúnia, e a proprietária intimava-lhe ordem de despejo imediato. Daí a pouco, a ladra era preza pelo cabo de polícia, conduzida à regedoria e de lá para o Aljube.
Fui para a química do egresso e encontrei o tenente Ribeiro. Contei-lhe o caso que ele me ouviu com os olhos marejados. Depois, pediu-me que cometesse o delito infando da vigésima quarta falta na aula, e o ajudasse a salvar, se possível fosse, aquela enorme desgraçada, visto que ele não queria figurar pessoalmente. Mandou-me ao regedor; que soubesse onde estava o roubado, e lhe restituísse os 12.000$ reis para ele não ser parte à preza. Que lhe referisse eu a sinistra vida de Glória para que ele, compadecido, a não mandasse ao tribunal. E que, depois, fosse eu ao Aljube, e lhe dissesse que, se ela embarcasse no primeiro vapor para Lisboa a procurar o amparo de seu pai, havia quem lhe pagasse as despesas.
Fui ao Aljube às 3 da tarde. Lá dentro era noite. Glória estava enovelada a dormir sobre uma enxerga a um canto. Ela tinha saído, quinze dias antes, de uma enfermaria do hospital de Santo Antônio, quando a sua vizinha, mais feliz, era levada, ainda morna, em uma padiola para o teatro anatômico. A devassidão emparceirada com a morte mandaram aquele esquálido presente ao escalpelo da ciência. Ah! quantas curvas de musculatura roídas pelo hidrargírio eu retalhei para hoje poder, como testemunha de vista, jurar que o coração é um músculo oco!
No soalho em que dormia Glória, parecia que tinha chuviscado lama. A enxerga era de uma preza, cujo cão de água, gordo e muito sujo, dormia aconchegado dos quadris da outra. A dona do cão tinha uma cara cheia de enigmas, acidentada de periósteos cariados, esfoliados, com barbas. Seria uma riqueza craniológica para um Haeckel ou Topinard; mas para mim era simplesmente uma asneira paradoxal em anatomia comparada. Nunca me esqueceu. Lembro-me sempre da figura indelével daquela mulher, quando nego a blasfema hipótese do Deus de Moisés e do Sr. padre Grainha, um Deus que fez à sua imagem e semelhança e — o que mais é — à sua custa, um tipo humano com o perfil divino daquele feitio. Contou-me que estava ali por ter dado uns tabefes numa regatona de castanhas cosidas que lhe deitava o raio do olho ao marido, o João do Corgo, um calceta que andava a cumprir sentença de toda a vida, inocente, por ter ajudado a matar um padre. Inocente! Como ela qualificava a iniquidade da justiça social com seu marido que matara em colaboração um levita! Queria talvez que o premiassem como quem mata um lobo.
Com referência à sua companheira, também a julgava inocentíssima. Contou-me que se enchera de aguardente até cair; e logo à entrada protestara que se havia de enforcar nas grades. Acrescentou, numa irritação de quem tem sofrido injustiças exulcerantes, que a pobre da criatura não roubara nada; que todo o dinheiro que tinha eram seis vinténs em prata que comprara de aguardente.
Entretanto, Glória ressonava.
Era um bonito exemplar de um cancro roído pelos micróbios de fora, de parceria com os microzimas de dentro — herança do Paraíso. Isso que ali tresandava era um dos abscessos estercorais que genealogicamente nos vieram do ventre primordial de Eva, nossa matriarca. De lá nos deriva — divina Iniquidade! — esta sifilização das almas, transmissível e incurável a despeito dos vários Robs depurantes, brevet d’invention, das farmácias do Vaticano.
Enquanto ela dormia, fui a minha casa que pegava com o Aljube pelas traseiras, e rebusquei no estafado colchão de Glória os vinte e cinco pintos, visto que ela os não tinha em si. Lá estavam em uma bolsa de camurça. Fui com o dinheiro à regedoria, onde compus o meu primeiro e inédito romance oral, nada auspicioso, contando à autoridade inflexa que a preza estava inocente, porque o queixoso, antes de se embriagar, escondera o dinheiro no colchão, e não sabia depois onde o metera. O meu romance foi pateado, pelo sorriso do regedor, como inverossímil — desastre que depois me tem sucedido com outros muitos romances, inspirados por intuitos menos louváveis e mais verossímeis. Eu quisera salvar Glória da imputação de ladra. Em todo caso, o funcionário, lavrado um auto que assinei como apresentante do roubo, embolsou o velho devasso, um negociante de fruta da Penajoia, que me queria dar um pinto de alvíssaras, o qual eu rejeitei com um pudor anacrônico, arcadiano.
Eu que descera das penedias transmontanas, perfumadas das essências das matas altas, vestidas do rosicler das auroras, da purpura vespertina dos crepúsculos, de moitas de rosmaninhos, e resvalara à sarjeta da rua Escura, fui como um arcaico Tesouro de Meninos, caído no enxurdeiro e focinhado por aquele cerdo da Penajoia; ou, melhor comparado, era o nenúfar solitário, a impoluta ninfeia do pântano português de 1845.
Quando voltei ao Aljube estava ela muito atordoada, numa bestificação, a queixar-se de fome, porque não comia desde a véspera, e o álcool causticava-lhe as mucosas. Fui à estalagem da rua de São Sebastião, ali ao pé, e mandei-lhe o jantar. Comeu pouco e não quis vinho. Pediu genebra que lhe não dei. Ao anoitecer, chegou um quadrilheiro com a ordem da soltura. Acompanhei-a ao seu segundo andar. Ela olhava muito pasmada para o colchão que ainda tinha parte dos intestinos de retraço de palha moída por fora da abertura; mas não fez alguma reflexão em voz alta. Propus-lhe a saída para Lisboa no dia seguinte, com os meios que o meu amigo lhe liberalizava. Falei-lhe no perdão do pai, na sua regeneração — fui tocante; e ela, com uma indolência idiota, e um escancarar de boca:
— Tanto se me dá como se me deu.
A mulher que, um ano antes, citava Lamartine, Victor Hugo e Sand estava assim estilista: Tanto se me dá como se me deu!
***
Como aquela senhora se despenhou vertiginosamente até cair no fojo imundo de uma devassidão bestialmente suja é fenômeno que só espanta quem não sabe lógica, nem conheceu um exemplo. E quem não conhece três exemplos que o dispensem de encadear os elos da lógica?
Eis-me na retórica!
Eu não ignoro que esta espécie de autópsia em cadáver estampilhado com a infâmia que não discutem pessoas que se prezam, é um arcaísmo, uma subjetividade obsoleta. A escola naturalista estabelece que a compreensão pública está por tanta maneira salitrada destas podridões que não carece da catequese psicológica para perceber o desabamento.
Pois se intendem como foi que aquele corpo tábido de D. Glória chegou assim no enxurro ao ergástulo das ladras, queiram desculpar esse pedaço de estilo quaternário, que aí fica para admiração dos arqueólogos, como se fosse um crânio dos Paraderos da Patagônia.
Consintam, porém, que eu me imagine, em 1845, na rua Escura, a interrogar o segredo da miséria humana, Deus, o Motor Imóvel, assim chamado por Aristóteles. Como caiu na esterqueira do aljube das ladras aquela pasta de estrume, o farrapo roxo das escareias de uma ulcera cancerada que, uma só vez, Jesus, com os seus olhos abrasadores de fogo divino, poderá cauterizar no peito da meretriz de Magdala? Para resgatar uma judia formosa e dissoluta das presas aveludadas da lascívia oriental, foi preciso um ente ultra-humano; e, para esse bom êxito, fez-se mister que o Deus — mais conhecido entre as famílias pelo Padre Eterno — baixasse da sua metafísica imaterial ao antropoide, incorporando-se num gentil nazareno; aliás, talvez não fizesse nada — palpita-me. Um Deus extreme, categoria ideal incompreensível, sem mescla de homem, com uma organização desconhecida aos biólogos, não vingaria, com todo o seu mise en cène de trovões e relâmpagos, infiltrar contrição no peito daquela mundana, calafetado pelos beijos dos tetrarcas, dos pretores e dos opulentos chatins da Assíria. É bem notório que os feios cornudos diabos do vício, dispersos no ambiente, muito familiares com os costumes de planetas, cometas, meteoros, etc., e blasés em trovoadas, não largam as suas vítimas, ainda que a faísca elétrica de um corisco lhes queime aquela parte do cavalo morto a que o anexim português deita a cevada. O diabo tem a enorme força que Deus lhe deu sobre a nossa fragilidade. Nós somos a pluminha volátil da pomba redemoinhando vertiginosamente nas convulsões de uma tromba terrestre. Fez-se, por tanto, mister a humanidade gentilíssima de Jesus, adorável na sua vida casta e na sua indulgente misericórdia com as pecadoras, para reduzir aquela à honestidade. Ele tinha escrito com o dedo na poeira da praça a sentença absolutória de uma adúltera. Além disso, o valoroso galileu atagantara com umas disciplinas de esparto as costas da quase sempre respeitável classe comercial, que armara vitrines de modas e confecções no templo. Seria ali que provavelmente a espaventosa Madalena, com grandes usuras, e talvez a gis, ou à custa de meiguices fraudulentas, comprara as suas pompas — a escarlata pérsica dos seus mantos roçagantes, as meadas de pérolas de que enastrava as suas tranças loiras, e as essências aromáticas com que ungira, a despeito de Judas, os pés do mavioso acariciador das crianças inocentes, e juiz compadecido das filhas de Jerusalém iscadas da corrupção romana.
Creio na conversão de Maria Madalena; porém a de santa Maria Egipsíaca e das três santas Margaridas, uma de Cortona, outra do Fausto, e a terceira de apelido Gauthier, essas são falácias de hagiólogos e dramaturgos.
***
A filha do Cavaleiro de Cristo, esposa do ex-almoxarife, foi para Lisboa, decentemente trajada, em beliche de 1ª classe. Carlos Ribeiro hipotecara talvez o seu soldo de seis meses. Se me dessem a escolher, eu preferiria ter praticado este ato a ter feito a descoberta do Anthropopithecus Ribeiroii.
***
Em 1845, ao deixar o Porto e a química para ir jurar bandeiras na boemia de Coimbra, despedi-me de Carlos Ribeiro e nunca mais o vi. Trinta e sete anos de separação absoluta como exórdio da eternidade!
Pois que as nossas pesquisas paleontológicas eram em mundos diversos, nunca mais nos encontramos. Olhávamos as cumiadas de montanhas em horizontes opostos: ele — para o acume da Ciência, a desvendar os segredos do gênesis; eu— para a Arte, a subjetividade estéril. O arqueólogo, pelo pregão dos mestres europeus, assumiu a eminência; depois, morreu; mas está na posse da imortalidade. Bem boa coisa. Enquanto eu, graças à magnânima concessão dos meus patrícios letrados, estive toda a vida, ao sopé da montanha alcantilada, a descrever coisas feitas pessoas por essas terras quentes dos Brasis, onde há fermentações, e avatar e os transformismos darwinistas como em nenhuma outra fauna.
A este rude caboucar de um terço de século, devo eu— ó celestiais bebedeiras de glória! — a exultação atordoante de me ver, aqui há dias, conceituado em certa gazeta da capital como romancista conhecido. Li-o em letra redonda e resisti à apoplexia do júbilo. “Romancista” tout court era já uma apoteose hiperbólica; porém, de mais a mais “conhecido”, isso transcende os êxtases de uma idolatria católica, que me coloca na jerarquia literata de São Cipriano, de Santo Atanásio e de outros Santos Padres romancistas mistagogos maiores da marca. Mas, visto que assim o querem, este culto pagão muito me penhora. Pois bem! Quando um plumitivo arrojado, sovando aos pés os conspiradores do silêncio, trepa até não ser de todo desconhecido no Chiado — 5ª essência de Babilônia com perfumes de Marrocos — esse petulante gênio não transporá as fronteiras da modéstia, se almejar as doidas delícias de ouvir, um belo dia, nomear a sua pessoa conhecida no não menos conhecido Poço do Borratem.
Pois é verdade: eu, como novelista, descobri mais antropoides do que ele como geólogo. Mas faz pena que eu não procurasse ensejo de pedir aos setenta anos do general as recordações do tenente.
Quanto a Glória que, por uma inconsciente zombaria de si mesma, ao atufar-se na noite caliginosa da miséria e da infâmia anônima, se chamara Aurora, se isto fosse um romance, pode ser que eu, nesta idade provecta, ainda tivesse explosões de fantasia rara para fazê-la morrer de alcoolismo, no catre do hospital, para onde a levaram esfrangalhada, mordida pelos cães vadios, apupada pelos gaiatos, sovada pelos pontapés da guarda-municipal, espumando gromos de sangue nos últimos vômitos da aguardente.
Mas eu não sei como, nem quando ela morreu; nem sei se é viva e se está na quinta dos seus avoengos restaurando com capilés e água de Lourdes o estômago e os erros da sua mocidade.
***
Este episódio da mocidade do douto general, se eu o contasse há trinta anos, teria os recortes, os matizes e filigranas idealistas da poesia que ainda nessa época de transição enfeitava as suas dissecções nauseabundas das paixões animais. Todo analista da vida e da morte vestia umas luvas brancas quando expunha sobre a sua banca de trabalho uma peça anatômica, um coração para descoser, e saía com as luvas sem nodoa. Era isso um grande mal. O romantismo poético enflorava as putrefações com cores e sutilezas tais de pétalas e aromas que, em vez da repulsão pelo podre, punha nas cabeças azoadas as vertigens dos abismos. Essa perversa missão da Poesia sofreu o extermínio de todos os flagelos que estão ao alcance desinfetante e higiênico da Ciência. Pouquíssimos e esporádicos são já os poetas no termo genuíno de “deturpadores da realidade”. Os que ainda rimam deteriorando a verdade experimental com embustes metafísicos são uns atavismos que fazem lembrar, na sociedade atual, as aberrações genésicas que remontam o homem à torpeza selvagem da Austrália e à civilização refinada da Roma de Juvenal, e da Grécia de Anacreonte. Essa chaga insanável da besta humana esvurmará sempre a sua peçonha já em brochuras, já nas partes da polícia por ultrajes à veneranda Moral — uma velhinha tão trôpega que, assim que lhe embarram, cai no asfalto, e entra a gritar pelo hábil Antunes e por outros hábeis que não ganhariam a sua vida oficialmente gloriosa, se a Moral fosse mais acatada e menos atacada. O leitor, se é uma espécie de hábil Antunes da vernaculidade, seja indulgente com este jogo de vocábulos que também é um ataque desmoralizado à língua.
Quanto ao poeta cientifico, genial, racionalista, concluída que seja a sua obra de sapa e a última batalha dada aos deuses, esse tem de desaparecer como inútil, e ridículo como um arcaísmo. Ainda ontem, na França, Eugène Véron, no seu livro de ESTÉTICA, escreveu que tout le monde, sauf les idiots, est poète. A condicional sauf, poderia excluir muitos poetas nossos conhecidos; mas Véron inverteu paralogicamente a exceção em regra. Ele, se fosse um digno interprete da Ciência implacável, deveria ter escrito: Ninguém é poeta, exceto os idiotas.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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