domingo, 31 de maio de 2020

Camilo, o intérprete de Portugal (Resenha)



Camilo, o intérprete de Portugal

O grande romancista é bem o espelho da alma portuguesa, numa época atribulada da sua vida e da sua história. Violento, impulsivo, arrebatado, cedendo abruptamente a uma provocação, quer ela partisse de qualquer beócio escritor de parvônia, quer ela proviesse de nomes literários já feitos e consagrados, Camilo, como o gênio deste povo, arremetia furioso para o inimigo, esmiuçava-lhe a personalidade, acachapava-lhe a figura, punha-lhe em foco o riso alvar, escancarava-lhe a boca desdentada, e desfazia-o.
Nem sempre era justo e o próprio escritor por mais de uma vez o reconheceu. Feria a torto e a direito, muitas vezes irrefletidamente, para obedecer a uma inclinação combativa do seu espírito.
Quem o visse brandir a pena como um rijo montante a desbastar infiéis, julgaria que o grande romancista era homem de má catadura, um traga mouros inacessível a amizades e a carinhos, na obcecação doentia de exterminar tudo e todos.
Pela sua correspondência e pelas notícias que até nós trazem os seus íntimos, vê-se que Camilo para os seus amigos era afável, correto, obsequiador, até.
— É que o leão não admitia que a fauna mais miúda zombasse dele. E realmente ele foi o primeiro do seu tempo.
A sua obra foi anarquicamente elaborada, como a sua vida foi anarquicamente conduzida. Mas ela, arlequinando o riso e fazendo soluçar a dor, esmaltando tipos ideais e atirando para a sarjeta do desprezo caracteres abomináveis ou para o anfiteatro do circo histriões inconscientes, brilha em cada página, palpita em cada período, porque e o povo português que ali esta fotografado, em suas eminências e declives, em suas extravagâncias e loucuras.
Mas Camilo, como todos os homens de gênio, como Camões, Shakespeare, e tantos outros não foi compreendido no seu tempo. Então o burguês olhava-o com cólera e o intelectual com desconfiança. E o povo, que ele tão bem descreveu em suas paixões e desvarios, pouco se interessava por glórias literárias.
É por isso Camilo viveu pobre, trabalhando como um escravo, amarrado à pena como a um potro de tortura, no meio da indiferença da gente da sua terra e da exploração de certos livreiros que muito se alimentaram do sangue do escritor.
E a sua obra fecundíssima, extensíssima, como poucos escritores a terão feito tão vasta, ressentiu-se por isso e pelo seu temperamento da falta de uniformidade que tanto se lhe censura.
Mas talvez se ela houvesse sido elaborada em pleno remanso, com os confortes da abundância e da opulência a bafejaram-no com uma aragem acalentadora e mole, talvez ganhasse em uniformidade, mas era provável que perdesse em qualidade.
A tragédia da vida de Camilo está toda esculpida no mármore raro dos fólios dos seus livros. Há o sopro da desgraça a fazer brotar dali as lágrimas, há o fel do desespero a encher de agrura e revolta aqueles caracteres, há o rictus da gargalhada a estridular naquelas letras e há muitas vezes o acicate da dor ou o orvalho da resignação a erguer ao céu um hino de piedade.
A alma portuguesa tem um intérprete maravilhoso naquelas páginas. Porque Camilo é inteiramente nacional, sem mesclas de estrangeirismos. Educou-se com os nossos clássicos e aprendeu com o nosso povo e com a natureza de Portugal. Nem sequer foi ao estrangeiro.
Um grande escritor é aquele que provoca a simpatia dos seus concidadãos. Podem verdadeiras ou falsas elites repudiá-lo, que o povo ergue-o na apoteose do seu louvor. No estrangeiro os sucessos contam-se pela venda nas livrarias. Dickens, de simples repórter parlamentar, guindou-se à maior popularidade literária que tem tido a Inglaterra. Ainda hoje os seus romances desafiam a concorrência do passado e do presente. Assim sucede agora a Camilo, postumamente, pois que Portugal só depois dos filhos mortos é que os homenageia, é que lhes levanta o pedestal da sua admiração.
Interpretaste uma geração, dominaste toda uma época literária, para só agora a 35 anos da tua morte trágica, remate sangrento de uma epopeia de martírio, reconhecerem o excelso valor da tua obra, a mais comentada e discutida em Portugal e pensarem em te erigir um monumento numa terra que os têm dispensado de sobra aos políticos que quase a têm perdido.

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ANTÔNIO RUAS
Março de 1925.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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