domingo, 27 de setembro de 2020

A Confissão (Conto), de Guy de Maupassant

 

A Confissão

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Margarida de Therelles ia morrer, e estava tão abatida que embora só tivesse cinquenta e seis anos parecia ter, no mínimo, setenta e cinco. Mais pálida que os lençóis de sua cama, ela arquejava, sacudida por terríveis calafrios, com o rosto convulso, os olhos arregalados, como se alguma coisa de horrível lhe houvesse aparecido.

Sua irmã, mais idosa seis anos, de joelhos junto ao leito, soluçava. Chegada à cabeceira da agonizante uma pequena mesa suportava, sobre uma alva toalha, duas velas acesas, pois esperavam o padre que lhe devia dar a Extrema Unção, a comunhão derradeira.

O quarto tinha o aspecto sinistro que têm os aposentos dos moribundos: um ar desolador. Sobre os móveis atulhavam-se os vidrinhos da farmácia, roupas jaziam pelos cantos atiradas com um pontapé ou de alguma vassourada. As cadeiras em desordem, pareciam — até elas — assombradas, como se tivessem corrido em todos os sentidos. A morte, terrível, lá estava, escondida, à espera.

A história das duas irmãs era enternecedora. Citavam-na muitas vezes, e ela fizera chorar bom número de olhos.

Suzana, a mais velha, havia sido, outrora, loucamente amada por um rapaz de quem por sua vez muito gostava. Chegaram a ser noivos, e esperava-se unicamente o dia fixado para o casamento, quando Henrique de Sampierre morreu repentinamente.

O desespero da moça foi doloroso, e Suzana jurou não mais se casar. Cumpriu a palavra. Passou a usar vestidos de viúva que nunca mais abandonou.

Então sua irmã, sua irmãzinha Margarida, que tinha apenas doze anos, atirou-se, uma certa manhã, nos braços da mais velha e lhe disse: "Minha mãezinha, não quero que tu sejas desgraçada. Não quero que chores toda a tua vida. Não te deixarei nunca, nunca, nunca. Também eu não me casarei. Hei de ficar contigo sempre, sempre, sempre."

Suzana beijou-a, enternecida por esta dedicação de criança, porém não deu importância à promessa.

Mas a pequena também cumpriu o juramento e, apesar dos rogos de seus pais, malgrado as súplicas de sua irmã, não se casou nunca. Era bonita, muito bonita mesmo; recusou muitos rapazes que pareciam amá-la; não deixou a irmã.

Passaram juntas todos os dias da existência. Viveram lado a lado, inseparavelmente únicas. Mas Margarida era sempre triste, acabrunhada, mais fria que a irmã, como se, talvez, o seu sublime sacrifício a tivesse dilacerado. Envelheceu mais cedo, teve cabelos brancos desde a idade de trinta anos e, sempre um mal desconhecido que a atormentasse sem cessar.

Mas agora, ia morrer primeiro.

Não falava havia mais de e quatro horas. Dissera somente, aos primeiros clarões aurora:

— Vá buscar o senhor cura: chegou o momento.

E em seguida, ficara deitada de costas, abalada por grandes espasmos de lábios agitados como se palavras terríveis lhe houvessem subido do coração sem conseguirem sair. O olhar, cheio ai espanto, era horroroso de ver-se.

Com a cabeça apoiada à borda do leito, sua irmã, louca de dor, chorava perdidamente, e dizia:

— Margot, minha pobre Margot, minha filhinha!

Chamara-lhe sempre: "filhinha" como a outra lhe havia sempre chamado "mãezinha".

Ouviram passos na enseada. A porta abriu-se. Um menino de coro apareceu seguido do velho padre que vinha de sobrepeliz. Mal o avistou, a moribunda sentou-se, penosamente. E descerrou os lábios, balbuciou duas ou três palavras, e pôs-se a esgravatar as unhas como se nelas quisesse fazer algum buraco.

O abade Simão aproximou-se, tomou-lhe a mão. beijou-a na testa e, depois, falando meigamente:

— Deus lhe, perdoe, minha filha. Tenha coragem. Chegou o momento: fale.

Então, Margarida, tiritando da cabeça aos pés, espalhando toda a roupa com os seus movimento nervosos, balbuciou:

— Senta-te, mãezinha, escuta.

O padre abaixou-se para Suzana, sempre abatida aos pés da cama, levantou-a, fê-la sentar numa poltrona e, tomando em cada uma das mãos de cada irmã, pronunciou: 

— Senhor, meu Deus! dai-lhes força. Atirai sobre elas a vossa misericórdia.

E Margarida começou a falar. As palavras lhe saíam da garganta uma a uma, roucas, escandidas, como que extenuadas. 

— Perdão; perdão, mãezinha. Oh! se soubesses o quanto, toda a vida, tive medo deste momento!...

Suzana, articulou, por entre as lágrimas:

— Perdoar-te o que, filhinha? Foste sempre minha amiga. Tudo por mim sacrificaste; és um anjo...

Mas Margarida. interrompeu-a:

— Cala-te, cala-te. Deixa-me dizer... não interrompas... É indigno... deixa-me dizer tudo... até ao fim. Ouve... Tu te recordas, tu te recordas... Henrique...

Suzana estremeceu e olhou a irmã. Margarida prosseguiu:

— É preciso escutar tudo para compreenderes. Eu tinha doze amos, somente doze anos, tu te lembras, não é? Fazia tudo o que queria!... Lembras-te como me enchiam de mimos?... Escuta... A primeira vez que ele veio cá, trazia botas de verniz; desceu do cavalo em frente ao portão e desculpou-se do traje: vinha somente trazer uma notícia a papai. Lembras-te, não é?... Não digas nada... escuta. Quando o vi fiquei toda comovida, tanto o achei belo, e deixei-me ficar de pé num canto do salão durante todo o tempo em que ele falou. As crianças são singulares... e terríveis. Oh! quanto sonhei com ele!

"Ele tornou... muitas vezes... eu o olhava apaixonadamente, de toda a minha alma... Eu era desenvolvida para a minha idade... e muito mais fina do que pensavam. Ele veio ainda... Eu só pensava nele e pronunciava baixinho:

— Henrique... Henrique de Sampierre!

Depois disseram que ele te ia esposar. Que desgosto... oh mãezinha... que desgosto... que desgosto! Chorei três noites, sem dormir. Ele vinha todos os dias, à tarde, depois do almoço... tu te lembras, não é? Não digas nada... escuta. Tu lhe fazias doces de que ele muito gostava... com farinha, manteiga e leite... Oh! sei como se faz... Faria ainda se fosse preciso. Ele os engolia de uma vez, e depois bebia um copo de vinho... e, em seguida, dizia: "É delicioso!" Lembras-te como dizia isso?

Eu tinha ciúmes, ciúmes!... O dia de teu casamento aproximava-se. Faltavam apenas quinze dias. Comecei a ficar maluca. Eu dizia: Ele não esposará Suzana, não, não quero! A mim é que ele esposará, quando eu for grande. Nunca acharei outro a quem ame tanto... Mas uma noite, dez dias antes do teu contrato, passeaste com ele no jardim do castelo, ao luar... e lá... sob o grande pinheiro... Henrique te beijou... beijou-te longamente... Tu te recordas, com certeza! Era provavelmente a primeira vez... sim... Estavas tão pálida ao entrar no salão!

Eu vi: estava lá entre a folhagem. Tive uma gana! Se pudesse teria assassinado todos dois!

Disse para comigo: Ele não esposará Suzana, nunca! Não esposará ninguém. Eu seria muito desgraçada... E, de súbito, pus-me a odiá-lo horrivelmente.

Então, sabes, o que fiz?... escuta. Eu vira o jardineiro preparar bolinhas para matar os cães vagabundos. Ele quebrava uma garrafa e metia o vidro picado dentro de uma bolinha de carne.

Tirei do quarto de mamãe um vidrinho de farmácia, triturei-o e escondi o pó brilhante no bolso. No dia seguinte, quando acabastes de fazer os doces, furei-os com uma faca e enchi de vidro os buracos... Ele comeu três... eu também comi um... Atirei os outros no lago... os dois cisnes morreram dias depois... Lembras-te? Oh! não digas nada... ouve, ouve... Só eu não morri... mas estive sempre doente... Ele morreu... tu sabes... escuta... isto não é nada. Foi depois, mais tarde.... sempre... o mais terrível... escuta...

Minha vida, toda a minha vida... que tortura! Eu dizia a mim própria: Não deixarei nunca minha irmã. E dir-lhe-ei tudo na hora da morte... Eis aí. E depois, pensei continuamente neste momento; no momento em que te diria tudo... Ei-lo chegado... É terrível. Oh! mãezinha!

Eu pensava noite e dia, de manhã, à tarde. Será preciso dizer-lhe tudo, uma vez... Esperei... Que suplício!. Fi-lo... Não digas nada... Agora, tenho medo... tenho medo... oh! tenho medo... Se eu o fosse ver, daqui a pouco, quando morrer... Revê-lo.... Sabes!... Primeiro que tu!... Não ousaria... É preciso... Vou morrer... Quero que me perdoes. Quero-o... Não quero encontrá-lo sem estar perdoada... Oh! diga-lhe que me perdoe, senhor cura, diga-lhe.... peço-lhe. Não posso morrer sem isto..."

Calou-se. E arquejava, arranhando as cobertas com as unhas crispadas...

Suzana escondera o rosto entre as mãos e não se movia mais. Pensava nele que poderia ter, tanto tempo, amado! Que bela vida haveriam tido! Revia-o no velho passado para sempre extinto! Oh! aquele beijo, seu único beijo! Havia-o guardado na alma. E depois mais nada, mais nada em toda sua existência!...

De repente o padre levantou-se e, de uma voz forte, vibrante, exclamou:

— MIIe. Suzana, sua irmã vai morrer!

Então Suzana, abrindo as mãos, mostrou o rosto sulcado de lágrimas, e, precipitando-se para a irmã, beijou-a com todas as forças, balbuciando:

— Eu te perdoo, eu te perdoo, filhinha...

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