domingo, 27 de setembro de 2020

A Solidão (Conto), de Guy de Maupassant

 

A Solidão

Tradução de Tradução de Miguel Detsi,
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Tínhamos acabado de jantar. Um jantar de homens durante o qual havia reinado a alegria. Um deles, um velho amigo, disse-me:

— Queres tu subir a pé à avenida dos Campos Elísios?

Aceitei a proposta e eis nos seguindo a passos lentos o longo passeio, sob as árvores apenas ainda vestidas de folhas.

Nenhum outro ruído além do barulho confuso e contínuo que faz Paris. Um vento fresco nos afagava o rosto, e a legião de estrelas semeava sobre o céu negro um pó de ouro. Meu companheiro disse-me:

— Não sei por que respiro melhor aqui, à noite, do que em outros lugares. Parece-me que o pensamento se me alarga. Tenho, por momentos, dessas sensações no espírito que fazem crer durante um segundo que vamos descobrir o divino segredo das coisas. Depois a janela fecha-se. E está acabado.

De espaço em espaço víamos duas sombras se esgueirarem ao longo dos arvoredos; passávamos junto a bancos onde um casal, sentado lado a lado, não fazia mais do que um ponto negro.

Meu vizinho murmurou:

Pobre gente! Não é desgosto o que ela me inspira, é uma imensa compaixão. Entre todos os mistérios da vida humana há um que penetrei: o nosso maior tormento na existência é que estamos eternamente sozinhos, e todos os nossos esforços e nossos atos não tendem senão a fugir a essa solidão. Esses aí, esses namorados dos bancos ao ar livre, procuram, como nós, como todas as criaturas, fazer cessar o seu isolamento, ainda que por um minuto ao menos: mas eles ficam e ficarão sempre sós; e nós também. Isto é coisa que se percebe mais ou menos, eis aí tudo. Hà algum tempo que sofro o abominável suplício de ter compreendido, de ter descoberto a horrorosa solidão em que vivo, e sei que nada a pode fazer cessar, nada, entendes tu?! Por mais que tentemos, por mais que façamos, quaisquer que sejam os impulsos dos nossos corações, o anseio de nossos lábios e o estreitar de nossos braços, estamos sempre sós.

Pedi-te para ma acompanhar neste passeio com o fim de não entrar cedo em casa, porque sofro horrivelmente, agora, com a solidão de minha habitação. De que me servirà isso? Falo-te, tu me escutas e estamos sós, todos dois; lado a lado, mas sós. Me compreendes tu?

Felizes os pobres de espírito, diz a Escritura. Eles têm a ilusão da felicidade, eles não sentem a miséria solitária, eles não erram pelo caminho da vida, como eu, sem outro contato que o dos cotovelos, sem outro prazer do que a egoística satisfação de compreender, de ver, de adivinhar e de sofrer sem ter a certeza de nosso eterno isolamento.

Achas-me um pouco doido, é verdade? Ouve-me. Depois que percebi a solidão do meu ser, me parece que penetro, cada dia mais, em um subterrâneo escuro de que não percebo as paredes, do qual não conheço o fim e que não tem fronteira, talvez!

Por ele sigo sem ninguém comigo, sem ninguém em torno de mim, sem pessoa alguma viva por companheira nesta jornada tenebrosa. Este subterrâneo é a vida. Às vezes ouço vozes, gritos... avanço, tateando em direção a esses rumores confusos. Mas nunca chego a descobrir ao certo de onde partem; nunca encontro pessoa alguma, nunca toco em outra mão nas trevas que me cercam. Me compreendes tu? Alguns homens por vezes adivinharam esse sofrer atroz?

Musset exclamou:

"Quem se aproxima? Quem me chama? Ninguém. Estou só. É a hora que soa. Oh! solidão Oh! pobreza!"

Mas para ele isso não passava de uma dúvida passageira, não era urna certeza positiva, como comigo.

Ele era poeta; povoava a vida de fantasmas e sonhos, e não nunca estava verdadeiramente só.

Eu, eu o estou?

Gustavo Flaubert, um dos grandes infelizes deste mundo, porque era um dos grandes lúcidos, um dia escreveu a uma sua amiga esta frase desesperadora: "Vivemos todos em um deserto. Pessoa alguma não entende pessoa alguma".

Não; pessoa alguma não compreende pessoa alguma, por mais que se pense, por mais que se diga, por mais que se tente. A terra sabe ela o que se passa nas estrelas, lançadas como pontos luminosos pelo espaço, tão distantes que apenas percebemos a claridade de algumas, enquanto que a imensa coorte das outras se acha perdida no infinito, tão próximas talvez de modo a formar um todo, como as moléculas de um corpo?

Pois bem, um homem não sabe mais do que se passa em outro homem. Nós estamos mais distantes do que estes astros, mais isolados sobretudo, porque o pensamento é insondável.

Conheces tu coisa mais atroz do que este constante atrito de seres que não podemos penetrar?!

Nós nos amamos uns aos outros como estivéssemos ligados por correntes, muito próximos, com os braços estendidos, sem contudo conseguirmos nos unir. Uma torturante necessidade de união nos molda, mas todos os nossos esforços são vãos, os nossos abandonos inúteis, as nossas confidências infrutíferas, os nossos amplexos impotentes e as nossas carícias perdidas. Quando nós nos queremos juntar, nos nossos enlevos de um para outro não fazemos senão nos chocar um ao outro.

Nunca me sinto tão só como quando abro meu coração a algum amigo, porque é quando mais percebo o insuperável obstáculo. Ele acha-se defronte de mim, esse homem. Vejo os seus olhares claros sobre mim! mas sua alma, por detrás deles, essa não a posso conhecer. Ele ouve-me. O que pensa ele? Sim, o que pensa ele? Tu não compreendes esse tormento? Pode ser que ele me odeie? ou me despreze? ou zombe de mim?

Ele analisa o que eu digo, ele me julga, ele zomba de mim, ele me condena, me considera medíocre ou tolo. Como saber o que ele pensa? Como saber se ele me tem a amizade que lhe tenho e o que e passa no seu cérebro? Grande mistério o pensamento desconhecido de um ser, o pensamento oculto e livre, que nós não podemos nem conhecer, nem guiar, em dominar, nem vencer! 

E eu tento debalde dar-me todo inteiro, abrir todas as portas de minha alma, mas não o consigo jamais. Guardo sempre no fundo, bem no fundo, um lugar secreto do Eu onde pessoa alguma penetra. Nenhuma pessoa o pode descobrir, nem penetrar, porque ninguém se assemelha a mim, porque nós não nos compreendemos uns aos outros.

Me compreendes tu, ao menos, neste momento, tu? Não, tu me julgas louco! tu me examinas e te afastas de mim! Tu te perguntas: "O que tem ele hoje?" Mas se tu chegares a compreender, a adivinhar o meu horrível e atroz sofrimento, vem dizer-me: Compreendi-te!

As mulheres é que me fazem ainda mais perceber a minha solidão.

Miséria! Miséria! Como sofri por elas, porque elas me deram mais vezes, muito mais do que os homens, a ilusão de não estar só!

Quando se trava conhecimento com o amor, nos parece que nos ampliamos. Uma felicidade sobre-humana nos invade! Sabes tu por quê? Sabes tu de que provém essa sensação de imensa ventura? Unicamente por supormos que não estamos mais sós. 

O isolamento, o desalento do ser humano parece cessar. Que engano! Mais atormentada ainda do que nós pela eterna necessidade de atuar que corrói o nosso coração solitário, a mulher é a grande mentira do sonho.

Tu conheces essas horas deliciosas passadas face a face com esse ser de longos cabelos, de traços harmoniosos, cujo olhar nos fascina. Como o delírio transvia o nosso espírito! Como nos transporta a ilusão! 

Ela e eu, parece-nos, em pouco não faremos mais do que um todo. Mas esse momento não chega nunca, e, depois de semanas de espera de prazer enganador, achamo-nos um dia, de um momento para outro, mais sós do que não tínhamos ainda estado.

Depois de cada beijo, depois de cada amplexo, o isolamento aumenta, cresce. E como ele é doloroso, horrível!

Um poeta, Suly Prudhome, disse um dia que as carícias não são mais que ansiosos transportes, infrutíferos ensaios do pobre amor, que tenta a impossível união das almas pelos corpos. E depois; adeus. Está acabado. Apenas reconhecemos essa mulher que foi tudo para nós durante um momento da vida, da qual nunca penetramos o pensamento íntimo e banal, sem dúvida! 

Nas horas mesmo em que parecia que num acordo misterioso dos seres, numa completa mistura de desejos e de todas as aspirações, se tinha penetrado na parte mais recôndita de sua alma, uma palavra, uma só palavra, às vezes, nos revelava o nosso engano, nos mostrava, como um relâmpago à noite, o abismo negro entre nós.

E, entretanto, o que ainda há de melhor no mundo, é passar uma tarde junto a uma mulher que se ama, sem falar, quase completamente feliz somente pela sensação de sua presença.

Não pecamos mais, porque jamais dois seres se confundem. 

Quanto a mim, agora, fechei minha alma. Não digo mais a ninguém o que creio, o que penso, o que amo. Sabendo-me condenado à horrível solidão, olho para as coisas sem emitir minha opinião. 

Que me importam as opiniões, as questões, os prazeres, as crenças?! Nada podendo compartilhar com pessoa alguma, vivo desinteressado de tudo. Meu pensamento, invisível, conserva-se inexplorado. Tenho frases banais para responder às interrogações de cada dia, e um sorriso que diz "sim" quando não quero dar-me ao trabalho de falar. Me compreendes tu?

Tínhamos subido a longa avenida até arco do triunfo da Estrela e depois tínhamos descido até a praga da Concórdia, pois o meu amigo havia enunciado tudo isso lentamente, ajuntando ainda muitas outras considerações de que não me recordo mais.

De repente parou e, bruscamente, com os braços estendidos para o obelisco de granito levantado sobre a calçada de Paris e que perdia, no meio das estrelas, o seu longo perfil egípcio, monumento exilado, tendo escrito nos flancos em caracteres estranhos a história de seu país, meu amigo exclamou: "Olha, todos nós somos como essa pedra."

Depois deixou-me sem acrescentar uma palavra.

Estaria ele bêbado? Estaria louco? Ou teria ele razão? Não o sei ainda. Às vezes parece-me que estava na posse da razão; outras, que a perdera.

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