segunda-feira, 28 de setembro de 2020

O exemplo (Conto), de Guy de Maupassant

 

O exemplo

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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O senhor e a senhora Larebour tinham a mesma idade, mas ele parecia mais moço, sendo o mais fraco dos dois. Viviam perto de Nantes, em uma linda casa de campo que haviam adquirido e arranjado ao se retirarem dos negócios.

A vivenda estava cercada por um formoso jardim e tinha currais, quiosques e um passadiço que se comunicava com os cômodos da casa.

O sr. Larebour era gordo e alegre e sua mulher franzina e voluntariosa; ela, porém, não pôde dominar o bom humor de seu marido com seu gênio desordeiro de mulher incontentável. Penteava o cabelo, lia romances e se bem que aparentasse não os apreciar, muitas vezes a perturbaram as emoções de suas leituras. Julgavam-na muito apaixonada, mas nunca fez nada que justificasse essa opinião. Seu esposo dizia de vez em quando "boa está minha mulher" e o tom de suas palavras dava lugar a interpretações diversas.

Há tempos que a senhora se mostrava agressiva com o Sr. Larebour, sempre irritada e violenta, como se uma tristeza íntima e indizível a torturasse; de que resultou uma desavença contínua. Dirigiam-se apenas a palavra e a mulher, que se chamava Palmira, incomodava sem cessar o marido, que se chamava Gustavo, com alusões grosseiras, com repugnâncias intempestivas e palavras irônicas sem motivo aparente.

O homem encolhia os ombros e todas as maldades de sua mulher não bastavam para perturbar a sua jovialidade. Contudo, às vezes perguntava a si mesmo que motivo podia exasperar sua companheira, porque aquela irritabilidade tinha seguramente alguma causa oculta e difícil de adivinhar.

Gustavo dizia-lhe com frequência:

— Vamos, explica-me o que te acontece. Por que te mostras desgostosa comigo? Não dissimules, reprova-me o que tiveres para me reprovar.

E ela respondia invariavelmente:

— Não tenho nada e se tivesse um motivo de desgosto deverias adivinhá-lo. Não gosto dos homens obtusos, de tal modo incapazes de compreender, que precisam, para entender alguma coisa, de uma explicação minuciosa.

E ele murmurava:

— Já vejo que não queres falar claramente.

As noites, sobretudo, eram incômodas para ele, porque ainda dormiam no mesmo leito. Palmira, então, esgotava o repertório de vexames, deixando para quando se achavam deitados, um junto ao outro, as zombarias mais vivas e as frases mais fortes. Lamentava-se, principalmente, ironicamente, da gordura do marido!

— Tanto engordas que pouco a pouco vais precisando de toda à cama para ti. E teu suor cai pegajoso nos meus ombros, como se fosse manteiga derretida. Sabes que isto não é muito agradável.

Obrigava-o a levantar-se sob o menor pretexto, para que fosse buscar um jornal ou a garrafa de água de flores de laranjeira que Gustavo não encontrava porque Palmira a guardava debaixo de chaves. E dizia-lhe em tom furioso e sarcástico:

— Devias ter mais cuidado e saber onde se deixam as coisas.

Quando ele, depois de percorrer a casa toda durante às vezes uma hora, voltava com as mãos vazias, ela murmurava:

— Vamos, deita-te. Passeios assim te convêm para ver se emagreces, pois bem os necessitas. Vais te pondo macio como uma esponja.

Despertava-o frequentemente dizendo que lhe doía o estômago e fazendo-o dar-lhe fricções com flanela embebida em água de colônia. Gustavo fazia o possível para curá-la, desconsolado ao vê-la sofrer e se o fingido acesso durava muito, propunha despertar a criada Consuelo. Ela porém, enfurecia-se, vociferando:

— Não te lembras senão de tolices. Para que despertar ninguém? Já não me doe; já podes dormir como um borrego.

E o bom homem perguntava:

— Já não sentes nenhuma dor?

E ela respondia bruscamente:

— Nenhuma; cala-te e deixa-me dormir. Não me aborreças. És inútil para tudo. Não sabes fazer nada.

Gustavo, desconsolado, insistia:

— Mas, mulher, que queres?

E ela, exaltando-se, gritava:

— Que vou querer de um homem como tu? Deixa-me dormir em paz.

E voltava-lhe as costas.

Mas uma noite ela o sacudiu tão violentamente, que Gustavo saltou da cama e se pôs em pé com uma rapidez fora do comum, balbuciando:

— Que há? Que te aconteceu?

Palmira apertando-lhe dolorosamente um braço, disse-lhe ao ouvido:

— Alguém anda pela casa.

Habituado aos alarmas frequentes da mulher, tranquilizou-se logo, perguntando com calma:

— Que dizes? Que suspeitas?

Palmira, trêmula, perturbada, prosseguiu:

— Ouvi andar, não duvides. Alguém anda por aí.

— Alguém? É tu que pensas. Sem dúvida, ouviste mal.

— Quem pode andar a estas horas pela casa?

Ela, estremecida, murmurou.

— Quem, quem? Ladrões, imbecil!

Gustavo fez menção de cobrir-se com o lençol.

— Sonhaste, certamente; não há ladrões. 

Mas Palmira saltou frenética da cama, dizendo-lhe:

— És tão covarde como incapaz. Defender-me-ei só. Não me deixo matar só porque és medroso.

E apanhando uma colher de pau, ficou em atitude de combate junto à porta fechada com tranca.

Arrebatado com aquele exemplo de coragem, o marido levantou-se de novo e compreendendo a astúcia, ficou junto da mulher.

Esperaram vinte minutos no mais completo silêncio e na mais triste figura.

Nenhum ruído perturbou a casa neste tempo, e a mulher encostando-se novamente a ele disse-lhe, com raiva:

— Estou certa de ter ouvido passos.

No dia seguinte, para evitar polêmicas, Gustavo não fez a menor alusão ao caso.

Mas à noite, a senhora Larebour despertou o marido com mais violência que na noite anterior e, sufocando-se, murmurou:

— Gustavo, Gustavo... acabam de abrir a porta do jardim. 

Surpreendido com a insistência, julgou que sua mulher -fosse sonâmbula e quando se resolvia tranquilamente a demonstrar, pareceu-lhe ouvir também um ligeiro ruído junto aos muros da casa.

Levantou-se, correu à janela e viu, com efeito, uma sombra que atravessava o jardim.

— Sim, há gente — disse, angustiado; mas recobrando sua dignidade, sentiu-se arrebatado pela cólera do dono que vê e exclamou:

— Que me esperem, verão já.

Abriu a secretaria, tirou o revólver e desceu as escadas rapidamente.

Sua mulher seguia-o, dizendo-lhe:

— Gustavo, Gustavo, não me abandones. Gustavo, não me deixes aqui só, Gustavo... 

Ele, porém, não a escutava, dirigindo-se para o jardim e ela voltou para o quarto, com medo, fechando-se...

Esperou cinco minutos, dez, um quarto de hora; vítima já de um terror invencível, julgou que o haviam assassinado. O silêncio enlouquecia-a; preferia ter ouvido seus tiros de revólver, saber que lutando, ele se defendia...

Tocou a campainha; a criada não atendeu; desfalecia chamando pela segunda vez. A casa inteira estava surda.

Olhou pelos vidros da janela para fora, querendo adivinhar o que ocultava a noite escura; mas só distinguiu grandes sombras negras.

Era meia noite. Fazia já quarenta e cinco minutos que Gustavo saíra e não voltara... Não o veria mais. Não. Certamente não veria mais...

Ajoelhou-se lamentando-se. Leves pancadas na porta fizeram-na levantar-se rapidamente. Gustavo chamava-a.

— Sou eu, Palmira, sou eu, abre. 

Abriu e com as mãos na cintura, bamboleando-se ferozmente e com os olhos ainda cheios de lágrimas, vociferou:

— De onde vens, animal? Deixas-me morta de medo e, não te preocupas com tua mulher... como se não existisse.

Gustavo tinha fechado a porta e ria-se, ria-se como um louco, abrindo muito a boca e segurando a barriga com as mãos...

Palmira, intrigada, calou-se, enquanto o esposo lhe dizia em gargalhadas:

— Era... era... Consuelo... que tinha dado... dado uma, uma entrevista... no passadiço... Se soubesses... que coisas... que coisas eu vi...

Palmira empalideceu. A indignação sufocou-a...

— Hein? Que dizes... Consuelo? Em minha, casa?... Em minha.. em minha... casa... em minha... no passadiço? E não mataste o homem? Tinhas um revólver na mão e não o mataste... e consentiste que fizessem minha casa... em minha casa?

Não podia mais e teve que se sentar para não cair.

 

Gustavo muito contente, tocava castanholas com os dedos, torcendo-se, relambendo-se e rindo sem cessar.

— Se soubesses... Palmira... se soubesses.

Bruscamente estreitou-a nos braços, dando-lhe um beijo.

 Palmira. repelindo-o indignada, repetia:

— Não quero essa mulher em minha casa nem um dia mais. Ouves? Nem um dia... nem uma hora... vamos despachá-la já... já

O Sr. Larebour, agarrando a mulher cintura, beijava-a no pescoço, com entusiasmo. Palmira calou-se e ele, sem deixar de acariciá-la, foi conduzindo-a pouco a pouco para cama...

***

Às nove horas, espanta Consuelo de não ver os patrões que se levantaram sempre muito cedo, bateu-lhes na porta.

Estavam deitados e falavam alegremente.

— Senhora, o café — disse Consuelo, estranhando o que via,.

A senhora Larebour, inclinando-se docemente para ela, murmurou:

— Traga-o, filha. Estamos um pouco fatigados; dormimos mal.

Apenas a rapariga saiu, Gustavo rindo-se muito e fazendo cócegas em Palmira, insistiu:

— Ah! se tu soubesses... Ah! se tu soubesses...

 Ela pegou-lhe nas mãos...

— Não rias tanto, meu maridinho; acalma-te um pouco... Basta, basta pode fazer-te mal.

E beijou-lhe nos olhos amorosamente.

 Desde aquele dia, a senhora Larebour não se mostrou mais áspera e nas noites claras algumas vezes o casal ia cautelosamente até ao passadiço.

Ali passavam em silêncio muito tempo, juntos, como se através do vidro vissem coisas interessantes e estranhas.

Aumentaram o ordenado de Consuelo e o Sr. Larebour começou a emagrecer.

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