domingo, 11 de outubro de 2020

O crime do Bonifácio (Conto), de Guy de Maupassant

 

O crime do Bonifácio

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Naquele dia, reparando a correspondência, o carteiro Bonifácio, ao sair do Correio, alegrou-se por ver que a sua caminhada seria mais curta que de costume. A seu cargo, estava toda a extensa campina de Vireville, e ao voltar à casa muitas vezes tinha percorrido mais de quarenta quilômetros.

Naquele dia, felizmente, a distribuição, era fácil, e sem pressa poderia entrar em casa, descansado, às três horas da tarde.

Saindo pelo caminho de Jeunemares, começou sua jornada, em junho, o mês verde e florido, o mês dos campos.

O carteiro, com sua blusa parda e seu boné da mesma cor, atravessava por veredas estreitas os campos de verduras, de aveia ou de trigo, vendo-se-lhe menos de metade do corpo sobre as colheitas; sua cabeça parecia nadar num mar de espigas que uma brisa ligeira ondulava.

Entrando velas portas dos currais, geralmente sombreados por duas filas de ciprestes, saudava, pelo nome cada um camponês: "Bom dia, senhor Chicot", e deixava o jornal. O camponês limpava as mãos nas pernas das calças, apanhava o papel e guardava no bolso:para lê-lo tranquilamente depois da refeição do meio-dia. O cachorro, atado a um mourão junto a um tonel que lhe servia de casa, ladrava furiosamente, fazendo esforços para se soltar da corrente, e o carteiro sem voltar a cabeça, seguia seu caminho em postura marcial, levando debaixo do braço esquerdo a carteira e balançando o direito ao compasso de suas largas, pernadas.

Distribuía os jornais e as cartas nas casas de Jeunemares, depois levava a correspondência ao cobrador, que vivia em uma casinha isolada.

O novo cobrador Chapatis era recém-casado e estava ali há oito dias.

Recebia um diário de Paris, e o carteiro Bonifácio, quando não tinha muita pressa, passava olhos no jornal antes de entregá-lo ao assinante.

Assim, pois, como nada o apressava, tirou o periódico da bolsa e puxando com cuidado a cinta desdobrou-o, lendo-o, andando.

A primeira, página interessava-o pouco; a política deixava-o frio; passava de relance, pelos assuntos da Bolsa e Administração, mas as notícias e acontecimentos o apaixonavam.

Havia muitos acontecimentos extraordinários naquele dia. De tal modo o impressionou um crime cometido na barraca de um guarda campestre, que se deteve em um campo próximo para saborear os detalhes da leitura. Eram horrorosos. Um lenhador, passando, muito cedo em frente à barraca, notou varias manchas de sangue, que havia junto à porta, como se houvesse sangrado o nariz.

"O guarda terá morto algum coelho esta noite?" pensou; mas, aproximando-se, observou que a fechadura estava forçada.

Então correu assustado para avisar o alcaide do povo, o qual se fez acompanhar do juiz e do professor. Os quatro, chegando à barraca, encontraram o guarda degolado junto à chaminé, a mulher estrangulada na cama e uma criança de seis anos que tinham, estrangulada entre os colchões.

O carteiro Bonifácio impressionou-se -de tal forma, pensando naquele crime, cujas terríveis circunstâncias ignorava, que sentiu uma tremura nas pernas e disse em voz alta:

— Cristo! Há no mundo pessoas muito ordinárias!

Depois tornou a por o jornal na cinta e prosseguiu seu caminho com a cabeça cheia de visões criminosas.

Em seguida chegou à casa do cobrador Chapatis, e abrindo a grade do jardim aproximou-se da porta da casa.

Os aposentos estavam, todos no andar de baixo. O carteiro subiu os dois degraus de pedra e passando a mão no ferrolho convenceu-se de que a porta estava fechada. Tão pouco estavam abertos os postigos das janelas e isto o fez supor que ninguém havia saído ainda de casa.

Este fato intranquilizou-o porque Chapatis se levantava muito cedo. Bonifácio tirou o relógio. Eram sete e trinta. chegava uma hora mais cedo que de costume. Contudo, estranhou que não tivessem se levantado os moradores da casa.

Andou por ali com muitas precauções e sem fazer nenhum barulho, como se temesse alguma coisa; nada encontrou de particular, a não ser umas pegadas num canteiro de morangos.

Súbito, ficou imóvel, petrificado por uma terrível angústia, diante de uma janela. Ouvia gemidos abafados.

Decidindo-se, aproximou-se mais, passando acima de uns tomilhos, e aplicou um ouvido nos vidros. Não havia dúvidas, eram gemidos e percebia depois claramente gemidos dolorosos, um estertor, um ruído de luta braço a braço. Os gemidos aumentavam, repetiam-se, acentuando-se mais; já eram gritos agudos.

Então, Bonifácio, certo de que ali se cometia um crime, correu, desesperadamente, atravessando o jardim, lançando-se através das planícies, através das colheitas, correu quanto pôde até chegar extenuado, palpitante, frenético, ao quartel da polícia.

O sargento Malantour arranjava uma cadeira quebrada, batendo-lhe alguns pregos com um martelo. O policial Bautier sustinha o móvel avariado e punha o prego no lugar onde faltava, esperando a martelada do sargento, que algumas vezes lhe ia aos dedos.

Quando o carteiro os viu, gritou:

— Correndo! Assassinaram o cobrador! Correndo! Correndo!

Os dois homens interromperam o trabalho e levantaram a cabeça, mostrando em sua fisionomia um certo descontentamento.

Bonifácio, julgando-os mais surpresos que apressados, insistiu:

— Depressa! Os criminosos ainda estão lá! Ouvi os ais das vítimas! Ainda é tempo!

O sargento, deixando o martelo, perguntou-lhe:

— Quem lhe comunicou o fato?

O carteiro respondeu:

— Ia levar o jornal e duas cartas, quando notei que tudo estava fechado e que o cobrador não tinha saído ainda. Dando volta à casa para certificar-me bem, ouvi gemidos, como se estrangulassem ou degolassem uma pessoa. Correndo, vim avisar. Ainda é tempo.

O, sargento perguntou:

— E você não procurou auxiliar vítima?

— Temi que fossem poucas as minhas forças.

Então, o sargento, convencido, acrescentou:

— Vou vestir-me e armar-me.

E entrou no quartel, seguido pelo policial, que levava a cadeira, os pregos e o martelo.

Imediatamente saíram, e os três se encaminharam para o lugar do crime.

Já perto da casa, tomaram precauções; o sargento empunhou o revólver e entrando no jardim silenciosamente, chegaram à porta.

Não havia o menor indício de que os criminosos tivessem fugido: tudo estava fechado ainda.

— Já os apanhamos — disse o sargento em voz baixa.

O carteiro, emocionado, os fez aproximar-se da janela de onde se ouviam os gemidos.

— É ali.

E o sargento adiantou-se, sozinho, aplicando um ouvido ao vidro. Os outros dois esperaram, dispostos a tudo, com os olhos cravados nele.

E esteve imóvel, ouvindo:

Que ouvia? Seu rosto impassível não revelava nada, mas logo seus bigodes se eriçaram, sua boca contraiu-se como para conter o riso e abandonando a espionagem aproximou-se dos dois homens, que o olhavam assombrados.

Depois mandou que o seguissem em pontas de pés e aproximando-se da fachada principal disse ao carteiro que metesse por debaixo da porta o jornal e as cartas.

O carteiro, assombrado, executou docilmente o que lhe mandavam.

— E agora voltemos tranquilamente — ajuntou.

Quando estavam no caminho, encarando Bonifácio, com expressão zombeteira, com um gesto malicioso e os olhos brilhantes de alegria, exclamou:

— A coisa tem graça!

E o carteiro, intrigado, repetia:

— Quê? Juro haver ouvido soluços e estertores de angústia. Que houve?

Mas o sargento abriu numa grande gargalhada. Ria-se, sufocando-se com as duas mãos na barriga; ria com toda sua alma, gesticulando, chorando, assoando-se. E os outros dois o olhavam com espanto.

E como o riso não lhe permitisse falar, nem deixava de rir, para dar a entender aos outros o que se passava na casa do cobrador recém-casado e recém-estabelecido, fez um movimento popular canalha.

Não o compreenderam e ele repetiu várias vezes, indicando com a cabeça a casa fechada.

O policial compreendeu, por fim, rindo-se como seu superior, perdidamente.

O carteiro estava como estúpido, diante daqueles dois homens,  que se retorciam de rir.

Quando o sargento pôde falar, dando uma palmada no ventre de Bonifácio, disse:

— Pândego! Não me esquecerei nunca do crime do Bonifácio!

E o carteiro, abrindo os olhos desmesuradamente, repetia:

— Juro ter ouvido soluços e gemidos de angústia.

O sargento, diante daquela cômica gravidade, abriu de novo na gargalhada.

— Ah! Juras haver ouvido soluços... E quando assassinas tua mulher, não soluças?

— Minha mulher?

— Sim, quando eu a maltrato grita, mas são outros gritos.

Acaso o cobrador maltratava a sua?

Então o sargento, delirante já de alegria ruidosa, fê-lo girar como um boneco e disse-lhe ao ouvido algumas palavras que acabaram de surpreender Bonifácio, que pensativo murmurou:

— Não... assim nunca... A minha não diz nada... Eu não poderia supor nunca que... fosse possível.. Mas me pareceu que estrangulavam alguém...

E, confuso, envergonhado, prosseguiu seu caminho pelas veredas, atravessando as colheitas, enquanto o sargento e o policial riam-se a bom rir.

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