domingo, 27 de setembro de 2020

O parricida (Conto), de Guy de Maupassant

 

O parricida


Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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O advogado pleiteara, alegando em favor do criminoso a loucura. Como explicar de outro modo aquele crime extraordinário?

Haviam sido encontrados uma manhã, em um canavial, perto de Chatou, dois cadáveres enlaçados, marido e mulher, dois mundanos conhecidos, ricos, ambos jovens, casados, havia apenas um ano, a mulher viúva de havia três anos.

Não se lhes conheciam inimigos, não tinham sido roubados. Parecia que os tinham atirado da margem para a ribeira, depois de os haverem ferido, um após outro, com uma comprida ponta de ferro.

A investigação nada descobrira. Os barqueiros interrogados nada sabiam; ia-se já abandonar o processo, quando um jovem marceneiro, de uma aldeia vizinha, chamado Georges Louis, por alcunha "O Burguês", veio declarar-se culpado.

A todos os interrogatórios, ele apenas respondia isto:

— Eu conhecia esse homem havia dois anos e a mulher havia meses. Eles mandavam-me muitas vezes reparar móveis antigos porque sou hábil nesse gênero de ofício.

E quando lhe perguntavam:

— Mas por que os matou?

Respondia obstinadamente:

— Matei-os por que quis.

Não se lhe conseguia arrancar outra coisa.

Este homem era um filho natural sem dúvida, posto outrora na ama, depois abandonado. Não tinha outro nome a não ser o de Georges Louis, mas como, à maneira que foi crescendo, se tornou singularmente inteligente, com gostos e delicadezas nativas que os seus camaradas não possuíam, alcunharam-no de: "O Burguês;" e não o tratavam de outro modo. Passava por um operário notavelmente perfeito no ofício que para si adotara, o de marceneiro. Fazia até mesmo um pouco de escultura em madeira. Diziam também que era muito exaltado, partidário das doutrinas comunistas e mesmo niilistas. grande leitor do romances de aventuras, romances de dramas sanguinolentos, eleitor influente e orador hábil nas reuniões públicas de operários e de camponeses.

***

O advogado alegara a loucura.

Como se poderia, com efeito, admitir que aquele operário houvesse morto os seus melhores fregueses, fregueses ricos e generosos (como ele próprio reconhecia), que lhe haviam dado a ganhar, em dois anos, três mil francos pelo trabalho (segundo os seus livros de escrita davam conta). Uma única explicação se apresentava: a loucura, a ideia do deslocado social que se vinga em dois burgueses de todos os burgueses, e o advogado, fazendo uma alusão àquele apelido de "O Burguês", dado no sítio àquele abandonado, exclamou:

— Não será uma ironia, e uma ironia capaz de exaltar ainda mais esse rapaz que não tinha pai nem mãe? É um ardente republicano. Que digo? pertence mesmo a esse partido político que a República fuzilava e deportava outrora, que ela acolhe hoje de braços abertos, esse partido para o qual o incêndio é um princípio e a morte um meio muito simples.

Estas tristes doutrinas, aclamadas atualmente nas reunbiões públicas, perderam esse homem. Ele ouviu republicanos, mesmo mulheres, sim, mulheres! pedirem o sangue de Gambetta, o sangue de Grévy; o seu espírito doente transtornou-se, quis sangue, sangue de burgueses!

Não é a ele que se deve condenar, senhores, é a Comuna!

Soaram murmúrios de aprovação. Via-se bem que a causa estava ganha pelo advogado. O ministério público não replicou.

Então o presidente dirigiu ao acusado a pergunta de praxe:

— O réu tem alguma coisa a alegar em sua defesa?

O homem levantou-se:

Era de estatura baixa, de um louro cor de linho, os olhos pardos, fixos e claros. Uma voz forte, franca e sonora daquele frágil rapaz e mudava bruscamente, às primeiras palavras, a opinião que se fizera a seu respeito.

Falou alto, num tom declamativo, mas tão nitidamente, que as suas menores palavras se fizeram ouvir até ao fundo da grande sala:

— Meu presidente, como não quero ir para uma casa de doidos e até prefiro a guilhotina, vou contar-lhe tudo.

Eu matei esse homem e essa mulher porque eram meus pais.

Agora escute-me e julgue-me.

Uma mulher, tendo dado à luz um filho, mandou-o para qualquer parte, para uma ama. Ela apenas soube para que região o seu cúmplice levou o inocente, mas condenado à miséria eterna, à vergonha de um nascimento ilegítimo, mais do que isso: à morte, pois que o abandonaram, pois a ama não continuando a receber a mensalidade, podia como elas fazem muitas vezes, deixá-lo desaparecer, morrer de fome, morrer de definhamento.

A mulher que me amamentou foi honesta, mais honesta, mais mulher, maior, mais mãe que a minha própria mãe. Educou-me. Fez mal, cumprindo esse dever. Vale mais deixar perecer esses miseráveis deitados às aldeias dos arrabaldes como se deixa uma sujidade à margem.

Cresci com a expressão vaga de que tinha em mim a desonra. As outras crianças, um dia, chamaram-me o "enjeitado". Elas não sabiam o que significava esta palavra ouvida por uma delas a seus pais. Eu ignorava-o também, mas senti-me.

Eu era, posso-o dizer, um dos mais inteligentes da escola. Teria sido um homem honesto, meu presidente, talvez um homem superior, se os meus pais não houvessem cometido o crime de me abandonar.

Esse crime, foi contra mim, recaiu sobre mim. Eu fui a vítima, eles os culpados. Eu era sem defesa, eles foram sem piedade. Deviam amar-me e rejeitaram-me.

Eu, devia-lhes a vida — mas a vida é acaso uma dádiva? A minha, não era em todo caso, mais que uma desgraça. Depois do seu vergonhoso abandono só lhes devia a vingança. Eles cometeram contra mim o ato mais desumano, mais infame, mais monstruoso que se pode cometer contra um ser. — Um homem injuriado fere; um homem roubado retoma os seus bens pala força. Um homem enganado, ludibriado, martirizado, mata; um homem esbofeteado mata; um homem desonrado mata. Eu fui mais roubado, mais enganado, mais desonrado que todos aqueles de que vós absolveis a cólera.

Vinguei-me, e matei. Era o meu delírio legítimo. Tirei-lhes a vida feliz, em troca da vida horrível que me haviam imposto.

O senhor vai falar de parricídio! Eram meus pais, essas criaturas para quem eu fui um fardo abominável, um terror, uma nódoa de infâmia; para quem o meu nascimento foi uma calamidade e a minha vida uma ameaça de vergonha? Eles buscavam um prazer egoísta; tiveram um filho imprevistamente. Suprimiram esse filho. Chegou-me a vez a mim de fazer outro tanto a eles.

E contudo, ainda ultimamente eu estava disposto a amá-los. Há dois anos, como há pouco disse, o homem, meu pai, entrou em minha casa pela primeira vez. Eu de nada desconfiava. Encomendou-me dois móveis. Ele havia tomado, soube-o eu mais tarde, esclarecimento com cura, sob condição de segredo, está claro.

Voltou à minha casa muitas vezes; dava-me trabalho e pagava-me bem. Por vezes, chegava mesmo a conversar comigo. Eu sentia afeição por ele.

Nos começos deste ano levou consigo sua mulher, a minha mãe. Quando ela entrou, tremia por tal forma que a julguei atacada de uma doença nervosa. Depois pediu uma cadeira e um copo de água. Não disse palavra; olhou para os meus móveis com um ar tresloucado, e não respondeu mais que sim e não, a todas as perguntas que lhe eram feitas! Quando ela partiu eu fiquei um pouco sentido.

Voltou no mês seguinte. Estava calma, senhora de si. Ficaram, nesse dia, muito tempo a conversar, e fizeram-me uma grande encomenda.

Tornei a vê-los ainda três vezes, sem nada adivinhar; mas um dia ela pôs-se a falar-me de minha vida, da minha infância, dos meus pais. Eu respondi:

"Meus pais, minha senhora, eram uns miseráveis, pois me abandonaram". Então ela levou a mão ao coração, e caiu sem sentidos. Eu pensei desde logo: "É minha mãe!" mas fiz a diligência de nada dar a conhecer. Queria vê-la voltar ali.

Tomei, por minha parte as minhas informações. Soube que eles eram casados apenas desde o antecedente mês de julho, tendo a minha mãe enviuvado havia apenas três anos. Murmurava-se que se haviam amado em vida do outro marido, mas não havia prova alguma disso. Era eu a prova, a prova que eles haviam em seguida escondido, esperando vê-la destruída depois.

Esperei. Ela tornou à minha casa uma tarde sempre acompanhada por meu pai. Naquele dia pareceu-me muito comovida, não sei por que. Depois, no momento de retirar-se disse-me: "Eu quero-lhe bem porque me parece um rapaz honesto e trabalhador; qualquer dia talvez pense em casar-se; gostaria de o ajudar a escolher livremente a mulher que lhe conviesse. Eu fui casada contra a minha vontade uma vez, e sei o que se sofre com isso. Atualmente estou rica, sem filhos, livre, senhora da minha fortuna. Aqui tem o seu dote".

E estendeu-me um grande envelope lacrado.

Eu olhei-a com firmeza e depois disse-lhe: "A senhora é minha mãe?"

Ela recuou três passos e tapou os olhos com as mãos para não me ver. Ele, o homem, meu pai, amparou-a nos braços e gritou-me: "O senhor está doido?"

Eu respondi: "Não estou. Bem sei que são os meus pais. Não me enganam assim. Confessem, que eu guardarei segredo; não lhes quererei mal; ficarei como marceneiro."

Ele recuava para a saída, continuando a amparar sua mulher que começava a soluçar. Corri a fechar a porta, meti a chave no bolso e continuei: "Olhe para ela, e negue ainda que é aquela a minha mãe".

Então a cólera tomou-o, fez-se muito pálido, espantado ao pensamento de que o escândalo evitado até ali pudesse fazer-se de repente; que a sua situação, o seu renome, a sua honra fossem perdidos de uma só vez, e balbuciou:

"Aí tens o que querias. É este sempre o resultado que obtém os que querem socorrer e auxiliar esses patifes."

Minha mãe, como louca, repetia continuamente:

"Vamo-nos, vamo-nos."

Então, como a porta estivesse fechada, ele gritou:

"Se não me abre a porta imediatamente, vou fazê-lo prender por chantagem e violência!"

Eu ficara senhor de mim; abri a porta e vi-os desaparecer na escuridão da noite.

Então, pareceu-me de repente que acabava de ficar órfão, de ser abandonado, atirado a uma valeta: uma espantosa tristeza, misto de cólera, de ódio, de tédio, me invadiu; sentia como que uma sublevação de todo o meu ser, uma sublevação da justiça, da probidade, da honra, da afeição repelida; pus-me a correr para os apanhar, ao longo do Sena, que lhes era preciso seguir para chegarem à estação de Chatou.

Não tardei a chegar perto deles. A noite descera escura. Eu ia a passos abafados por sobre a relva, de sorte que eles não me ouviam. Minha mãe continuava chorando. Meu pai dizia:

"É para teu castigo. Para que quiseste vê-lo? Era uma loucura na nossa posição. Podíamos fazer-lhe bem, de longe, sem nos mostrarmos. Uma vez que não o podíamos perfilhar, de que serviam estas visitas perigosas?"

Então, eu atirei-me para a frente deles suplicante. Balbuciei: "Bem veem que são meus pais. Já me repeliram uma vez, repelir-me-ão ainda mais?" Então, meu presidente, ele levantou a mão para mim, juro-o pela minha honra, pela lei, pela República. Feriu-me, e como eu o agarrasse pelo colete, tirou da algibeira um revólver.

Ceguei-me, e não soube mais o que fiz. Tinha o meu compasso na algibeira; feri-o até mais não poder.

Então ela pôs-se a gritar: "Socorro! assassino!" arrancando-me as barbas. Parece que a matei também. Podia acaso saber o que fazia naquele momento?

Depois, quando os vi a ambos por terra, atirei-os ao Sena, sem refletir.

Aqui está como foi.

— Agora, condene-me.

O acusado tornou a sentar-se. Perante aquela revelação, o processo ficou adiado para outra sessão. Esta não tardará a realizar-se. Se nós fôssemos jurados, que faríamos deste parricida?

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