domingo, 27 de setembro de 2020

Um covarde (Conto), de Guy de Maupassant

 


Um covarde

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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Chamavam-lhe na sociedade o "lindo Signole".

Ele chamava-se o visconde Gontrarv Joseph de Signoles.

Órfão e senhor de suficiente fortuna, fazia figura, como é costume dizer-se. Tinha boa presença e boa apresentação, palavras suficientes para fazer crer que tinha espírito, uma certa graça natural, um ar de nobreza e de altivez, o bigode soberbo e o olhar meigo, coisas que agradam muito às mulheres.

Era procurado nas salas, reclamado pelo olhar das valsistas e inspirava aos homens essa inimizade sorridente que se tem pelas pessoas de rosto enérgico.

Atribuíam-lhe alguns amores capazes de dar muito boa ideia de um rapaz. Vivia feliz, tranquilo, no mais completo bem-estar moral. Sabia-se que jogava magnificamente à espada e melhor ainda à pistola.

— Quando um dia me bater, dizia ele, escolherei a pistola. Com esta arma tenho a certeza de matar o meu adversário.

Ora, uma noite, como tivesse acompanhado ao teatro duas mulheres novas, esposas de amigos seus, acompanhadas por estes, ofereceu-lhes, depois do espetáculo, um sorvete na casa Tortoni. Tinham entrado havia alguns minutos, quando viu que um indivíduo assentado a uma mesa vizinha fitava com obstinação uma das senhoras. A alvejada parecia constrangida, inquieta, e baixava a cabeça. Afinal disse ao marido:

— Está ali um homem que não faz senão olhar para mim. Eu não o conheço; conhece-o?

O marido, que nada tinha visto, levantou os olhos, mas declarou:

— Não, não conheço.

A esposa tornou, meio sorridente, meio enfastiada:

— É inconveniente, o homem! Está a estragar-me o gelado.

O marido encolheu os ombros:

— Deixa! não faças caso. Se nos fôssemos a preocupar com todos os insolentes que encontramos, seria um nunca acabar.

Mas o visconde levantara-se bruscamente. Não podia admitir que aquele desconhecido estragasse um gelado que ele havia oferecido. Era a ele que a injúria era dirigida, pois que era por causa dele e em atenção a ele que os seus amigos tinham entrado naquele café. O caso, portanto, era com ele e só com ele.

Adiantou-se para o homem e disse-lhe:

— O senhor tem uma tal maneira de observar estas senhoras, que eu, com franqueza, não tolero. Fará favor de cessar essa insistência.

O outro replicou:

— Ora veja se me desampara a loja, sim?

O visconde declarou de dentes cerrados:

— Tome cuidado, não me faça sair de mim.

O outro respondeu apenas com uma palavra, uma palavra obscena que soou de um a outro extremo do café e fez como por impulso de uma mola, operar a cada um dos assistentes um movimento brusco.

Todos os que estavam de costas se voltaram: todos os outros levantaram a cabeça; três rapazes giraram sobre os tacões como piões; as duas mulheres do balcão tiveram como um sobressalto, seguido de uma reviravolta do torso inteiro, como se fossem dois autômatos obedecendo a uma mesma manivela.

Fez-se um grande silêncio. Depois, de repente, estourou um ruído seco no ar.

O visconde esbofeteara o seu adversário. Toda a ente se levantou para interpor-se. Foram trocados dois cartões.

***

Quando o visconde entrou em sua casa, pôs-se a marchar, durante alguns minutos, a passos apressados, através do seu quarto.

Estava muito agitado para que pudesse refletir fosse no que fosse. Uma única ideia lhe pairava no espírito: "um duelo", sem que essa ideia Ihe despertasse ainda qualquer emoção. Tinha feito o que devia fazer. Falariam do caso, dar-lhe-iam razão, felicitá-lo-iam.

Repetia em voz alta, falando como se fala nas ocasiões em que se tem muito perturbado o pensamento:

— Que brutamontes o tal homem!

Depois, assentou-se e pôs-se a refletir. Era-lhe preciso logo de manhã procurar testemunhas. Quem escolheria? Procurava no pensamento as pessoas mais célebres e melhor colocadas do seu conhecimento. Optou enfim pelo marquês de La-Tour Noire e o coronel Bourdin, um fidalgo e um militar, ficava assim muito bem. Os seus nomes eram bem conhecidos nos jornais.

Sentiu sede e bebeu, copo sobre copo d'água; depois continuou a marchar pela casa. Sentiu-se cheio de energia. Mostrando-se brigão, resolvido a tudo, exigindo condições rigorosas, perigosas. Reclamando um duelo sério, muito sério, terrível, o seu adversário recuaria provavelmente e pediria as suas desculpas.

Tornou a pegar no cartão que tirara da algibeira e atirara para cima da mesa e releu-o, como já o lera no café, de um só golpe de vista e, no fiacre, à luz de cada bico de gás, quando voltava para casa. "Georges Lamil, 51, rua Moncey".

Nada mais.

Examinava aquelas letras que lhe apareciam misteriosas, cheias de um sentido confuso: Georges Lamil? Quem era aquele homem? Em que se empregava? Por que olhara para aquela mulher de um modo tal? Não era revoltante que um estranho, um desconhecido viesse perturbar assim a vida de um homem, tão de repente, só porque lhe agradara fitar insolentemente o rosto de uma mulher? E o conde repetiu mais uma vez, em voz alta:

— Que brutamontes!

Depois parou imóvel, de pé, cismando, com o olhar fixo no cartão de visita.

Despertava nele uma cólera contra aquele pedaço de papel, uma cólera odienta a que vinha juntar-se um estranho sentimento de mal-estar. Era estúpido, no fim de contas, aquele caso! Tomou um canivete que lhe estava à mão, abriu-o e picou com ele, ao meio, o nome impresso como se apunhalasse alguém.

Pois era preciso bater-se! Escolheria a espada ou a pistola, porque se considerava como insultado. Com a espada arriscava-se menos; mas com a pistola tinha a vantagem de fazer desistir o seu adversário. É muito raro que um duelo a espada seja mortal, uma prudência recíproca impede os combatentes de se colocarem em guarda muito próximo um do outro para que a ponta da espada possa entrar profundamente. Com a pistola arriscava a sua vida seriamente; mas podia sair do caso airosamente, com todas as honras da situação sem chegar a dar-se um encontro.

E disse alto:

— É preciso ser enérgico. Ele terá medo.

O som da sua voz fê-lo estremecer, e olhou em redor. Sentia-se muito nervoso. Bebeu mais um copo de água, depois principiou a despir-se para se deitar.

Logo que se achou na cama, apagou a luz e fechou olhos.

Pensava:

Tenho amanhã todo o dia para tratar dos meus negócios. Durmamos um pouco, a fim de estarmos calmos. Estava muito confortavelmente nos seus lençóis, mas não era capaz de adormecer. Voltava-se e tornava a voltar-se, demorando-se cinco minutos de costas, depois voltava-se do lado esquerdo, depois do direito, e nada.

Continuava a ter sede. Levantou-se para beber. Depois tomou-o uma inquietação:

— Acaso terei medo?

Por que seria que o seu coração se punha a bater loucamente a cada ruído conhecido que soava no quarto? Quando o relógio ia a tocar, o pequeno rangido da mola fazia-lhe dar um sobressalto; e era-lhe preciso abrir a boca, para respirar em seguida, durante alguns segundos, tanta era a opressão que sentia. Pôs-se a raciocinar consigo mesmo sobre a possibilidade disto:

— Terei medo?

Não, decerto, não tinha medo, pois que estava resolvido a ir até ao fim, pois que tinha bem nítida a vontade de bater-se, sem tergiversar. Mas sentia-se tão profundamente perturbado que perguntava:

— Pode-se acaso ter medo, malgrado nosso?

E essa dúvida invadia-o, essa inquietação, esse temor; se uma força mais poderosa do que a sua vontade, dominadora, irresistível, o domasse, que sucederia? Sim, que poderia suceder? Com certeza ele iria a terreno, uma vez que assim o queria. Mas se tremesse? Se desmaiasse? E pensava na situação em que ficaria a sua reputação, o seu nome.

E empolgou-o de repente um desejo singular de levantar-se para olhar-se ao espelho. Acendeu a vela. Quando viu o seu rosto refletido no vidro polido, custou a reconhecer-se, parecia-lhe que nunca se tinha visto. Os olhos pareceram-lhe enormes; estava pálido, muito pálido.

Ficou de pé em frente do espelho. Deitou a língua de fora como para constatar o estado de saúde em que se achava, e de repente, este pensamento entrou nele com a presteza de uma bala:

— Depois de amanhã, a esta mesma hora, estarei talvez morto.

E o coração pôs-se-lhe de novo a bater furiosamente. Depois de amanhã, a esta mesma hora, estarei, talvez morto. Esta pessoa que está na minha frente, este eu que vejo neste espelho, não o continuarei a ver. Como! pois eu estou aqui, olho-me, sinto-me viver, e em vinte e quatro horas poderei estar estirado neste leito, morto, de olhos fechados, frio, inanimado, apagado. Voltou-se para cama e viu-se distintamente estendido no leito, de costas sobre esses mesmos lençóis que acabava de deixar. Tinha esse rosto cavado que têm os mortos e essa moleza das mãos que não mexerão mais.

Então, teve medo do seu leito e, para não o continuar a ver, passou à sala do fumo. Pegou maquinalmente numa vela, acendeu-a e continuou a marchar. Agora tinha frio; ia direito à campainha para chamar o seu criado de quarto; mas, com a mão já no cordão, deteve-se:

— Este homem vai perceber que tenho medo.

E não tocou, acendeu lume. As mãos tremiam-lhe um pouco, num estremecimento nervoso, quando tocavam nos objetos. A cabeça desvairava-se-lhe; os pensamentos perturbados, tornavam-se-lhe fugazes, bruscos, dolorosos; uma embriaguez invadia o seu espírito como se estivesse embriagado.

E perguntava sem cessar:

— Que irei fazer? Que há de ser de mim?

Todo o seu corpo vibrava, percorrido por estremecimentos sacudidos; levantou-se e, aproximando-se da janela, abriu as cortinas.

Despontava o dia, um dia de verão. O céu róseo tornava rósea a cidade, róseos os telhados e as paredes. Uma grande porção de luz estendida, semelhante a uma carícia do sol nascente, envolvia o mundo que despertava; e, com aquela claridade, uma esperança alegre, rápida, brutal, invadiu o coração do visconde! Era doido por ter-se assim deixado empolgar pelo temor, antes de nada se haver decidido, antes até de que as testemunhas se houvessem avistado com as de Georges Lanil, antes mesmo de saber se teria ou não de bater-se!

Fez a sua higiene pessoal, vestiu-se e saiu com passo firme.

***

Repetiu, enquanto caminhava:

— É preciso que seja enérgico, muito enérgico. É preciso provar que não tenho medo.

As suas testemunhas, o marquês e o coronel, puseram-se à sua disposição, e, depois de lhe terem apertado energicamente as mãos, discutiram as condições.

O coronel perguntou:

— Quer um duelo sério?

O visconde respondeu:

— Muito sério.

O marquês proferiu:

— Opta pela pistola?

— Sim.

— Deixe conosco o resto.

O visconde articulou numa voz seca e sacudida:

— A vinte passos, à voz de comando, levantando à arma em vez de a baixar. Troca de balas até ferimento grave.

O coronel declarou em tom satisfeito:

— São umas condições excelentes. O senhor é bom atirador, todas as vantagens estão do seu lado.

E partiram. O visconde tornou a entrar em sua casa para ali os esperar. A sua agitação, acalmada por um momento, crescia agora de minuto a minuto. Sentia ao longo dos braços, ao longo das pernas, no peito, uma espécie de frêmito, de vibração contínua: não podia estar no mesmo lugar, nem assentado, nem de pé. Não tinha na boca traça de saliva, e fazia a cada instante um movimento ruidoso com a língua, como para a deslocar do céu da boca.

Quis almoçar, mas não pôde comer; então veio-lhe a ideia beber para tomar coragem, e foi buscar uma garrafa de rum da qual bebeu, cálice sobre cálice, seis copos pequenos.

Invadia-o um calor semelhante a uma queimadura, seguido de repente de um atordoamento a alma. E pensou:

— Achei o meio. Agora já isto vai bem. Mas ao fim de uma hora tinha despejado toda a garrafa e a agitação voltava-lhe intolerável. Sentiu um desejo louco de se rebolar por terra, de gritar, de morder. E a noite chegava. Um toque de campainha deu-lhe uma tal sufocação que nem teve força de se levantar para ir receber as testemunhas.

Nem mesmo ousava falar-lhes, dizer-lhes "bom dia", pronunciar uma palavra, com o temor de que elas adivinhassem tudo, à alteração da sua voz.

O coronel disse:

— Está tudo combinado conforme as condições que propôs. O seu adversário ao principio reclamava os privilégios de ofendido, mas cedeu quase desde logo e aceitou tudo. As suas testemunhas são dois militares.

O visconde disse:

— Obrigado.

O marquês tornou:

— Desculpe-nos se tivermos de entrar e sair muitas vezes, mas temos de nos ocupar ainda de mil coisas. É preciso arranjar um bom médico, uma vez que o combate só cessará em caso de ferimento grave, e o senhor sabe que as balas não são uma brincadeira. É preciso escolher o local, nas proximidades de uma casa, para ali conduzir o ferido se for necessário, etc., enfim, temos que mexer-nos ainda duas ou três horas.

O visconde articulou pela segunda vez:

— Obrigado.

O coronel perguntou:

— Sente-se bem? Sente-se calmo?

— Sim, muito calmo, obrigado.

As duas testemunhas retiraram-se.

***

Quando de novo se sentiu só, pareceu-lhe que tinha enlouquecido. Logo que o criado acendeu as luzes, o visconde assentou-se à mesa para escrever algumas cartas. Depois de haver traçado, ao alto de uma página: "Este é o meu testamento..." levantou-se de uma sacudidela e afastou-se, sentindo-se incapaz de ligar duas ideias, de tomar uma resolução, de decidir o quer que fosse.

Ia então bater-se! Já não podia evitar isso. Que se passava então nele? Ele queria bater-se, tinha aquela resolução e aquela intenção firmemente arraigadas; e sentia bem, apesar de todo o esforço do seu espírito e de toda a tensão da sua vontade, que não poderia nem mesmo conservar a força necessária para ir até ao lugar do encontro. Procurava figurar no espírito o combate, a sua atitude e a disposição do seu adversário.

De vez em quando os dentes entrechocavam-se-lhe na boca, num tricolejar seco. Quis ler e pegou no código do duelo de Chateauvillard. Depois perguntou a si próprio:

— O meu adversário terá frequentado o tiro? Será conhecedor? Será classificado? Como sabê-lo?

Lembrou-se do livro do barão de Vaux sobre o tiro de pistola, e percorreu-o do princípio ao fim. Georges Lamil não era ali nomeado. Mas, se todavia aquele homem não fosse atirador, teria afinal aceitado imediatamente aquela arma perigosa e as suas condições mortais?

Abriu de passagem, uma caixa de Gastinne Renente que estava sobre um velador, e pegou numa das pistolas, depois colocou-se em posição de atirar e elevou o braço. Mas tremia dos pés à cabeça e o cano movia-se em todas as direções.

Então disse:

— É impossível. Não posso bater-me neste estado. E olhava para o extremo do cano, para aquele buraquinho escuro e profundo que escarra a morte, e pensava na desonra, nos cochichos a seu respeito nos circos, nos risos das salas, no desprezo das mulheres, nas alusões nos jornais, nos insultos que receberia dos poltrões.

Continuava a olhar para a arma, e, levantando o cão, viu de repente brilhar uma escorva por baixo, como uma chamazinha vermelha. A pistola ficara carregada, por acaso, por esquecimento. E ele experimentou com isso uma alegria confusa, inexplicável.

Se não tivesse em presença do outro o aspecto nobre e calmo que era preciso ter, estava perdido para sempre. Ficaria desonrado, marcado com o ferrete da infâmia, escorraçado pelo mundo! E esse aspecto calmo e brigão hnão o poderia ele ter, bem o sabia, bem o sentia. E no entanto, ele era um bravo, pois que... — O pensamento que lhe aflorou, nem mesmo chegou a contemplar-se-lhe no espírito; mas, abrindo a boca o mais que pôde, enterrou bruscamente, até ao fundo das goelas o cano da pistola, e carregou no gatilho...

Quando o seu criado de quarto acorreu, atraído pela detonação, encontrou-o morto, de papo para o ar. Um jato de sangue esparrinhara para o papel branco que estava sobre a mesa e fazia uma grande mancha vermelha por baixo destas quatro palavras:

"Este é o meu testamento".

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