domingo, 11 de outubro de 2020

Condecorado (Conto), de Guy de Maupassant

 

Condecorado

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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A indivíduos que nascem com uma inclinação predominante, uma vocação ou simplesmente um desejo que desperta logo que começam a falar e a pensar.

M. Sacrement, não tinha desde a infância senão uma ideia na cabeça: ser condecorado. Ainda pequeno e já carregava cruzes em zinco, da legião de Honra, como as outras crianças brincam com um quepe, e estendia orgulhosamente na rua a mão a sua mãe, estufando o estreito peito ornado com a fita vermelha e a estrela de metal.

Depois de uns pobres estudos, fracassou no bacharelato e, não sabendo o que fazer, casou-se com uma linda moça porque esta tinha fortuna.

Viveram em Paris como vivem os burgueses ricos, indo ao seu mundo sem se misturarem ao mundo, orgulhosos do conhecimento de um deputado que podia chegar a ser ministro, e amigos de dois chefes de divisão. Mas o pensamento, entrado nos primeiros dias de sua vida na cabeça de M. Sacrement, não mais o abandonou, e ele sofria sem cessar, por não ter o direito de ostentar na sua lapela, uma pequena fita de cor. As pessoas condecoradas que encontrava no boulevard feriam-no no coração. Olhava-as de lado, com um despeito desesperado. Às vezes, por longas tardes, desocupado, punha-se a contá-las. E dizia consigo: "Vejamos quantos encontrarei da Magdalena à rua Dronot". E ia lentamente, inspecionando as lapelas, o olhar exercitado, a distinguir de longe o pequeno ponto vermelho. Quando chegava fim do passeio espantava-se sempre do número: "Oito oficiais e dezessete cavalheiros. Tantos assim! É estúpido prodigalizar as cruzes de tal modo. Vejamos se encontrarei igual número na volta".

E voltava a passos lentos, aborrecendo-se quando a multidão apressada dos pedestres podia perturbar suas pesquisas, deixar-lhe escapar algum condecorado.

Conhecia os quarteirões onde se via maior quantidade. Abundavam no Palais-Royal. A avenida da Ópera não valia a rua de la Paix; o lado direito do boulevard era melhor frequentado do que o esquerdo.

Pareciam também preferir certos cafés, certos teatros. Cada vez que M. Sacrement percebia um grupo de senhores de idade, de cabelos brancos, parados no meio do passeio e perturbando a circulação, ele dizia para os seus botões: "Eis alguns oficiais da Legião de Honra!" E tinha desejo de os saudar.

Os oficiais, (muitas vezes notara) apresentam um outro aspecto, diferente dos simples cavaleiros. Sente-se bem que possuem oficialmente uma consideração mais alta, uma importância maior.

Outras ocasiões também, M. Sacrement sentia uma raiva possuí-lo, um furor contra todos os indivíduos condecorados; e experimentava contra " eles um ódio de socialista. Então, entrando em casa, excitado pelo encontro tantas cruzes, como um pobre faminto depois de ter passado diante de grandes armazéns de comestíveis, exclamava com uma voz forte: "Quando afinal nos desembaraçarão de tão imundo Governo?"

Sua mulher, espantada, perguntava:

— Que tens tu hoje?

E ele respondia:

"Tenho que estou, indignado com as injustiças que vejo cometerem por toda parte. Ah! os comunistas tinham razão!"

Mas, tornava a sair depois do jantar e ia considerar as vitrines de condecorações. Examinava todos aqueles emblemas de formas diversas, de cores variadas. Queria possuí-los, todos, e numa cerimônia pública, em uma imensa sala cheia de gente, cheia de povo maravilhado, marchar à frente de um cortejo, o peito rebrilhante, constelado de medalhas alinhadas, umas seguindo as outras, acompanhando a direção das costelas, e passar gravemente, o clac debaixo do braço, luzente como um astro, no meio de um murmúrio admirativo e respeitoso.

Não tinha, ah! nenhum título a qualquer condecoração.

Disse consigo: "A Legião de Honra é de fato muito difícil para um homem não ocupa nenhuma função pública. Se tentasse fazer-me nomear Oficial da Academia?"

Mas não sabia como fazê-lo. Falou a sua mulher, que ficou estupefata.

— Oficial da Academia? Que é que fizeste para merecê-lo?

Ele zangou-se:

— Mas compreende bem o que quero dizer! Procuro justamente o que preciso fazer. Tu és estúpida algumas vezes.

Ela sorriu:

— Perfeitamente, tens razão. Mas eu hão o sei também!

Ele tinha uma ideia. Se falasse ao deputado Rosselin, podia dar-me um excelente conselho! Eu, tu compreendes, não tenho coragem de abordar esta questão diretamente com ele. É muito delicado, muito difícil; partindo de ti, a coisa torna-se muito natural.

Mme. Sacrement fez o que ele pedia. M. Rosselin prometeu falar ao ministro. Então, Sacrement o apertou. O deputado acabou por lhe responder que ele precisava fazer um requerimento e enumerar os seus títulos.

Seus títulos? Eis aí. Ele não tinha um sequer — de bacharel.

Atirou-se, entretanto, ao trabalho, e começou uma brochura tratando: "Do direito do povo à instrução." Não pôde acabá-la por penúria de ideias.

Procurou assuntos mais fáceis, e abordou diversos, sucessivamente. Foi a princípio: "A instrução das crianças pelos olhos".

Queria que se estabelecesse nos bairros pobres, uma espécie de chás gratuitos para as crianças. Os pais aí as conduziriam desde muito novas, e lá se lhes dariam, por meio de uma lanterna mágica, noções de todos os conhecimentos humanos. Seriam verdadeiros cursos. O olhar instruiria o cérebro, e as imagens ficariam gravadas na memória, por assim dizer, visível à ciência.

Que coisa mais simples do que ensinar assim a história universal, a geografia, a história natural, a botânica, a zoologia, a anatomia, etc.!

Fez imprimir essa memória e enviou um exemplar a cada deputado, dez a cada ministro, cinquenta ao presidente da República, dez igualmente a cada um dos jornais parisienses, cinco aos jornais da província.

Depois, abordou a questão das bibliotecas das ruas, lembrando que o Estado fizesse passear pelas vias públicas pequenos carros cheios de livros, iguais aos carros dos vendedores de laranjas.

Cada habitante teria direito a dez volumes por mês, em locação, apenas por um centavo de aluguel.

— O povo — dizia ele não se mexe senão para os prazeres. Desde que o povo não procura a instrução, é preciso que a instrução vá até ele...

Nenhum ruído se fez em torno desses ensaios. Entretanto, ele fez o seu requerimento. Responderam-lhe que se tomaria nota e que se havia de instruir o processo. Julgou-se seguro do sucesso; esperou. Nada veio. Então, decidiu-se a dar os passos pessoalmente.

Solicitou uma audiência do Ministro da Instrução Pública, e foi recebido por um auxiliar do gabinete, muito moço e já grave, importante mesmo, e que tocava como num piano uma série de pequenos botões brancos para chamar os porteiros e os contínuos da antecâmara, assim como os empregados subalternos.

Afirmou ao solicitante que o seu caso estava em bom caminho, e aconselhou-o a continuar os seus notáveis trabalhos.

M. Sacrement atirou-se à obra.

M. Rosselin, o deputado, parecia agora interessar-se muito pelo seu sucesso, e dava-lhe mesmo uma imensidade de conselhos excelentes. Era, aliás, condecorado, sem que se soubessem os motivos que lhe tinham valido aquela distinção.

Indicou a Sacrement novos estudos a empreender, apresentou-o em sociedades sábias que se ocupavam de pontos de ciência particularmente obscuros, na intenção de alcançar as honrarias. Apadrinhou-o mesmo junto ao Ministro.

Ora, um dia, como acabasse de almoçar em casa de seu amigo (fazia ultimamente as refeições com frequência na casa de Sacrement) disse-lhe muito baixo, apertando-lhe a mão: "Venho de obter para você um importante favor. O Comitê dos trabalhos históricos encarrega-o de uma missão. Trata-se de pesquisas a fazer em diversas bibliotecas de França."

Sacrement, desfalecente, nem pôde comer nem beber. Partiu oito dias depois.

Ia de cidade em cidade, estudava os catálogos, passando revista em águas furtadas entulhadas de alfarrábios poeirentos, arrostando a ira dos bibliotecários.

Ora, uma tarde, como se encontrasse em Rouen, quis ir abraçar sua mulher que havia uma semana não via. Tomou o trem das nove horas, que devia pô-lo em casa à meia noite.

Tinha a sua chave. Entrou sem ruído, fremente de prazer, todo feliz de lhe causar aquela surpresa. Ela fechara-se por dentro, que aborrecimento! Então, gritou através da porta: "Joana sou eu!"

Ela devia ter sentido um grande medo, porque ouviu-a saltar da cama, falar sozinha como num sonho... Depois, correu ao seu gabinete de toilette, abriu-o e tornou a fechá-lo, atravessou diversas vezes o quarto em uma corrida rápida, descalça, abalando os móveis, cujos vidros tiniam. E afinal, perguntou: "És tu mesmo, Alexandre?"

Ele respondeu "Mas sim, sou eu, abre logo!"

A porta cedeu e sua mulher se lançou sobre o seu coração balbuciando: "Oh! que terror! que surpresa que alegria!"

Então começou a despir-se metodicamente como fazia todas as coisas. Retomou de sobre uma cadeira o seu casaco que tinha o hábito de pendurar no vestíbulo. Mas, subitamente, ficou estupefato. A lapela trazia uma fita vermelha!

Balbuciou: "Este... este... casaco está com uma condecoração!"

Mas, sua mulher de um salto se atirou sobre ele, e tomando-lhe das mãos o casaco: "Não... enganas-te... dá-me isto!"

Ele, porém, segurava-o sempre por uma manga, sem deixar; repetindo numa espécie de exaltação: "Como?.. por quê?... Explica-me?... A quem pertence?. Não é o meu, visto que tem a Legião de Honra! Ela esforçava-se por arrancá-lo, perturbada, titubeando: "Escuta... escuta... dá-me isto... Não te posso dizer... é um segredo... escuta".

Mas ele se zangava, tornava-se pálido:

— Quero saber como este casaco veio parar aqui! Não é meu!

Então ela lhe gritou no rosto:

— Sim, cala-te... jura-me... escuta.. pois bem.. é teu, estás condecorado...

Ele teve um tal abalo de emoção, que deixou o casaco e foi cair numa poltrona.

— Eu estou... disseste... condecorado!

— Sim, é um segredo, um grande segredo... Tinha fechado em um armário o casaco glorioso, e voltava para o seu marido trêmula e pálida. Continuou.:

— Sim, é um casaco, novo que te mandei fazer. Mas, tinha jurado nada dizer--te. O traje não será oficial antes de um mês ou seis semanas.

É preciso que a tua missão fique terminada. Não devias sabê-lo senão em teu regresso. Foi M. Rosselin quem a obteve, para você...

Sacrement, comovido,balbuciou: "Rosselin... condecorado. Ele me fez condecorado... a mim... ele... Ah!...

Foi obrigado a beber um copo de água. Um pequeno papel branco jazia por terra, caído do bolso do casaco. Sacrement apanhou-o; era um cartão de visita. Leu: "Rosselin, deputado".

 — Tu bem o vês — disse a mulher.

Ele pôs-se a chorar de alegria.

Oito dias mais depois, o "Oficial" noticiava que M. Sacrement fora nomeado cavalheiro da Legião de Honra por serviços excepcionais.

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