12/23/2020

O pecado da flor (Conto), de Iba Mendes

 

O pecado da flor

Conta-se que um piedoso sacristão, homem santo e temente a Deus, morreu subitamente enquanto fazia suas preces matutinas. Sua alma ascendeu num lance de tempo aos céus, onde fora recebida por uma legião de anjos, cujas vestes se assemelhavam às dos mortais, e os quais se mostravam jubilosos com sua chegada, como se tivessem preparado com antecedência uma gloriosa festa em sua homenagem.

O beato, embora confuso, sentiu que de fato fora arrebatado ao seio de Abraão, e que estava ali para receber o seu tão almejado galardão.

Desde que assumira suas atividades na sacristia da igreja, entregou-se de corpo e alma ao seu ofício, acreditando que por meio deste árduo trabalho alcançaria os tesouros celestiais e a consequente vida eterna.

Inicialmente seus olhos fitavam em êxtase cada ponto daquele glorioso recinto, como se buscassem encontrar ali o próprio Senhor em pessoa, o qual, em recompensa pelo seu esforçado labor na terra, deveria recebê-lo com uma coroa de ouro reluzente na sua santa destra.

Em seguida fixou seu olhar ao longe e viu um vulto como de uma sombra, o qual parecia acenar-lhe com as mãos, como que o convidando a  se aproximar. Os mensageiros de Deus abriram então passagem e ele avançou apressadamente em trote. Correu sem parar durante um tempo indeterminado, porém quanto mais progredia em seus passos, mais longe ficava da estranha miragem, de modo que nunca a alcançava. Exausto, sentou-se numa pedra, sendo rodeado pela miríade de anjos, que agora declamava, em coro, uma trova mundana:

Até nas flores se encontra
A diferença da sorte;
Umas enfeitam a vida
Outras enfeitam a morte.

Tomado de grande espanto com a entoação de um canto profano por seres tão gloriosos e santos, sentiu sua alma titubear num mar de dúvidas. O que significaria tudo aquilo? Súbito, ergueu-se num salto e seguiu em grande velocidade por uma vereda escura que se alongava até um imenso lago, cujas águas pareciam refletir a cor brilhosa do ouro.

Uma embarcação dourada o aguardava junto a um imponente farol, o qual tinha como foco luminoso uma enorme tocha acesa que, além de clarear a vista, também aquecia o corpo, e de tal modo que o suor descia em bagas por todos os seus poros. Lembrou-se então de uma passagem das Escrituras, a qual discorre sobre a Nova Jerusalém, cidade celestial adornada de toda espécie de pedras preciosas. Foi quando cogitou para si a ideia de que poderia estar em alguma região desta esplendorosa cidade, e que aquele barco seria o veículo divino que o transportaria à majestosa presença do Senhor.

O barqueiro que o recebeu tinha um semblante austero e carrancudo, e o barco, que de longe fazia transparecer a mais pura ostentação da divina luz, era na realidade de aspecto caótico e terrivelmente amedrontador.

Sem dizer uma só palavra, o misterioso homem remou a toda pressa, enquanto o outro, imerso em absoluta confusão, parecia agora vacilar quanto ao glorioso destino que lhe aguardava, e permaneceu durante o longo trajeto introspectivo e todo mergulhado numa melancolia que mais transparecia dor e desespero.

Quando chegava ao termo da viagem deu por si que apenas ele seguia no barco, e isso o impressionou sobremaneira. Desceu. Enquanto seguia por uma montanha íngreme e escura, olhou para trás e viu a embarcação tomada de imensas labaredas, a que se seguiu um grande estrondo, que fez espargir pelos ares um cheiro acre de enxofre. Tomado de imenso terror, caiu de joelhos, ergueu as mãos aos céus e clamou misericórdia para sua miserável alma pecadora.  "O inferno é o meu destino", pensou. "Mas por quê? O que fizera de errado para merecer tão terrível castigo?" Não se lembrou de nada. Toda a sua vida não fora outra coisa senão piedade e dedicação à causa santa do Senhor.

Ao alcançar o cimo da montanha, avistou bem à sua frente, pairando no ar, uma enorme balança com dois imensos pratos pendentes: um dourado como ouro, o outro, escuro como o carvão. Agora, tomado de nova esperança, tinha certeza que no primeiro prato seriam pesadas suas boas ações, suas esmolas, suas virtudes evangélicas, suas incontáveis penitências, enfim, toda sua vida de devoção e santidade.  Por isso apenas limitou a olhar para o outro prato com certo desdém, sem ao menos ponderar se porventura haveria nele algo que pesasse contra si.

Inesperadamente, porém, o prato negro moveu-se de leve, e aos poucos esse movimento foi aumentando, até que de todo se deslocou para baixo, fixando-se, por fim, no solo, enquanto no ar mantinha-se suspenso o belo prato ornado de ouro.

Que pecado tão grande teria cometido ele a ponto de deslocar completamente para baixo o prato tenebroso?

Neste instante um anjo que esteve algum tempo a mirá-lo de longe, saltou para perto dele e o ergueu nos ares por sobre a imensa balança. Dali ele viu atônito uma pequenina rosa vermelha atirada bem no fundo do prato escuro. Então se lembrou do dia em que, numa bela manhã de domingo, roubara do quintal vizinho uma exuberante flor.

— O teu grande pecado — disse resoluto o mensageiro de Deus — não foi teres roubado a flor, mas não a teres levado às mãos daquela a quem tu amavas e que ainda hoje sofre de amor por ti.

Dizendo isso, o ser divino bateu fortemente as asas e, num movimento precipitado, lançou-o com força nas profundezas do abismo. 

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